O Príncipe Cinza
12 É Como Andar de Bicicleta
Sonhei com túneis.
Longas e intermináveis linhas subterrâneas que não acabavam mais. Eu andava por toda parte e não achava a saída. Minhas roupas ficaram poeirentas e meus olhos não viam muito ali embaixo no escuro. Incrivelmente eu não me deparei com nenhum esqueleto, estaria a beira do desmaio se descobrisse que na verdade os túneis eram catacumbas. Continuei caminhando e morrendo de frio por ser uma passagem de ar o vento era forte e gelado. Por um momento parei e ouvi vozes. Vozes sussurrantes.
Você precisa encontrar pelo menos um dos Escolhidos. Isso seria bom o suficiente para conseguir uma recomendação caso tudo ocorra como o planejado. Isto é o que você precisa, uma prova mais concreta de que tem o que é necessário para ser uma Sombra da Lua. Se nenhum dos três te recomendarem, você sabe o que vai acontecer. Falta pouco para você ter a Fumaça, o quê, dois anos e alguns meses?
É eu sei bem disso. reconheci a voz. O cara de olhos azuis.
Então o que exatamente está fazendo em Core? Você deveria estar procurando no Continente, em Castell, em qualquer lugar ao invés de sentar e esperar cair do céu.
Eu sei o que eu estou fazendo, ok? Falhei alguma vez em uma missão?
Não, nunca.
Pois é, e meus meios sempre foram peculiares, mas funcionam. Eu tenho um plano, só me deixe trabalhar.
Tropecei em uma pedra e as vozes cessaram de repente. Segurei minha respiração.
Ouviu isso?
Falamos mais depois.
Acordei depois disso com o coração acelerado. Esse sonho pareceu muito real para ser só um mero sonho. Virei na cama e olhei para a janela.
Um vulto. A figura estava imóvel, mas um calafrio percorreu minha espinha. Se minhas companheiras de quarto fossem de fato Caçadoras treinadas já teriam acordado e mandado o intruso desta para a melhor, entretanto não eram. Pude ouvir suas respirações estáveis num sono profundo. Peguei uma besta exposta na parede de armas e andei na ponta dos pés até a janela. A forma não se móvel do lugar. Pensando melhor, a janela era muito grande, estava mais para um vitral. O vidro colorido desenhando uma flor não disfarçava o fato de que alguém estava atrás dele. Abri devagar e descobri que havia uma superfície espaçosa o suficiente para se sentar no batente da janela. E a figura parecia relaxada demais pro meu gosto, ainda mais acrescentando um sorriso zombeteiro e uma pose muito relaxada para alguém da Irmandade.
Sentiu minha falta, Splendai?
Você deve estar brincando comigo. respirei fundo, e disse mais para mim mesma do que outra coisa.- Alias, qual é o seu problema com janelas?
Também senti sua falta.
Alice se mexeu na cama e murmurou alguma coisa em seu sonho.
Sussurre. O que você quer desta vez? perguntei baixinho sem abaixar à besta.
Já sei, você acha que eu estou aqui pra te matar.
E então?
Não, não vim para isso. Você me subestima, eu vim porque me importo com você.
Não era isso que meu sonho dizia. Aparentemente, bem se aquilo fosse mais do que um sonho, então ele estava em Core por alguma razão mais concreta. E sua visita contínua com a minha pessoa não era uma coincidência.
Bem, você tem duas opções, me contar sobre o que prometeu, ou vazar daqui.
Na verdade eu vim com outro propósito em mente.
Então mantenha só na sua mente, não quero saber, vai embora. -bufei. Vou contar até três.
Ah, qual é, vamos conversar de maneira civilizada.
Um... — levantei meu dedo indicador ilustrando minha impaciência.
Tudo bem então, é assim que quer jogar, vamos negociar. Nós dois temos direito a uma pergunta...
Você prometeu que ia me contar sobre aquele dia.
... desde que não seja sobre isso.
Dois...-ignorei-o e continuei contando.
Ah! Vamos lá, você não tem outras perguntas que possa fazer?
Levei certo tempo para responder. Nao seria fácil me livrar dele, resolvi concordar.
Tudo bem, feito. Uma pergunta e uma resposta de cada um, e aí você vai embora?
Sim. E eu começo. — ele hesitou, mas prosseguiu.- Se você pudesse escolher o ato mais nobre do ser humano, o que você escolheria?
Uau, pergunta complexa.
Sacrifício. — respondi sem hesitar.
Porque não caridade, ou algo do gênero?
Porque todas as outras ações podem ser forjadas, mentiras deslavadas para beneficio próprio. O sacrifício tem de ser puro, ninguém se renega por outra pessoa a não ser que seja genuíno.
Seu olhar se tornou profundo e o azul ficou tão escuro que virou um tom de cerúleo próximo ao cinza. Por um breve momento pude ver culpa em seus olhos e então se foi tão rápido como apareceu.
Tudo bem, minha vez. Copo meio cheio ou meio vazio? — perguntei, tentando aliviar a tensão e acabar com o momento de uma vez.
Que tipo de pergunta é essa?
Uma pergunta.
Ah, tudo bem. — ele suspirou desapontado. — Depende.- ele respondeu.
Depende?
É. Se eu estou com sede, está meio vazio, porque eu quero mais, mas se estou sendo forçado a beber algo ruim, então ainda está meio cheio.
Você acabou de estragar toda a filosofia da minha pergunta.
Não acho que havia qualquer tipo de filosofia quando se reflete sobre um copo, só fui sincero. — respondeu ele pragmático.
Ah, ótimo. fiz um movimento inconsciente com a mao para dispensa-lo — Agora você já pode ir embora.
– Serio? Voce estah me expulsando?
– Ei você eh o intruso. Ah, e antes que eu esqueça, mais uma coisa.- me aproximei do seu rosto e seus olhos foram se abrindo de surpresa, ateh que apenas alguns centímetros restavam entre nos. Sussurrei. — Uma dica: é como andar de bicicleta.
Como?
Revirei os olhos e empurrei-o da janela. Se esse pássaro já tinha pulado uma vez, aprenderia a voar de novo.
–-
Na manhã seguinte acordei as cinco. Arina tinha que me dar aulas de respiração em baixo da água. Esse exercício funcionava em momentos de pânico e, é obvio, em momentos em que era necessário prender a respiração por muito tempo. Dei algumas voltas ao redor da piscina subterrânea, tamanho olímpica, e depois dei várias voltas dentro dela. Fizemos alguns exercícios para prender a respiração e depois Arina se sentou comigo ao lado da piscina.
Você está indo muito melhor nisto do que em outras coisas.
Obrigada. Eu acho.
Tudo bem, quero que treine algo novo. Quando você pensar em controlar sua respiração, controle seus batimentos primeiro e só depois se concentre no resto.
Momentaneamente me lembrei de algo parecido. Isso não iria acabar bem. Eu estava sentindo, mas quem disse eu eu ouviria minha voz interior?
Deitei no chão e respirei fundo.
Relaxar. Eu.Vou.Relaxar.
–-
Acordei no mesmo lugar, mas uma multidão estava ao meu redor incluindo minha professora de Cura Natural.
Ah! Ela acordou! — essa era a voz da Alice?
O que aconteceu? -perguntei me levantando devagar, minha voz um pouco rouca e cansada.
Você morreu. — disse Fliz logo atrás.
Fliz!
O que? É verdade.
De novo não. Eu sabia que devia ter ouvido minha voz interior.
Na verdade... -corrigiu Laís.
Meus batimentos ficaram muitos fracos para serem notados, mas eu não morri? — completei suspirando.
É. Como sabe? -perguntou Laís.
Não é a primeira vez.
E você nem se importou de me relatar este fato, porque exatamente? -Arina interveio.
Eu não achei que iria acontecer de novo. Eu tinha só dez anos quando aconteceu.
Uau isso é tão legal! Eu quero aprender a fazer isto quando for uma Caçadora! — disse Fliz.
Alice segurou a ponte do nariz e suspirou profundamente.
O que eu vou fazer com você?
Não me pergunte como era possível que algo desse tipo acontecesse duas vezes na minha vida e eu não morresse de verdade, era só algo que eu não podia controlar.
–---
Porque exatamente estamos fazendo isso mesmo?
Em primeiro lugar não temos outra opção, em segunda isto eh uma honra para qualquer um.
Menos para mim. Quero dizer, na minha experiencia de vida, a unica razão dos chefões requisitarem minha presença eh porque eu fiz algo realmente ruim. Do tipo você-esta-de-castigo-para-o-resto-da-sua-vida ruim.
Eu não chamaria o príncipe herdeiro de chefão. Não ainda pelo menos.
Eu considero ele um. Pelo menos eu posso levar alguém comigo?
Não. Quem?
Você poderia pelo menos ter me deixado dizer primeiro quem era para depois dizer não. — rolei os olhos.- O que você me diz da Alice? Ela eh um perfeito modelo a se seguir, aplicada, educada e sem dizer aprendiz do Conselho. Um ótimo exemplo de amiga, ela não me deixaria me envolver em encrenca.
Humm... tudo bem.
Sorri para mim mesma, Arina não me conhecia bem o suficiente para saber que não importava quem estava comigo, eu atraia confusão, querendo ou não.
Me encontre na sede do sindicato daqui a meia hora, não se atrase. Tomaremos os Tuneis ate o Castelo.
Nossa, então o negocio era oficial.
Quarenta minutos depois estávamos já a espera do príncipe no Salão do Chá.
Uma senhora nos acompanhava sentada, sem dizer uma palavra em todo tempo, simplesmente inclinara a cabeça quando entramos e de tempos em tempos seu olhar transitava entre mim, Arina e Alice. Seu olhar era astuto e sábio e seu cabelo apesar da idade ainda mantinha seu tom avermelhado. Ou ela pintava, ou tinha ótimos genes.
Meu nervosismo estava se transformando em inquietude. Minha perna não parava quieta e por incrível que pareça Alice parecia em pior estado do que eu. Levantei e fui ate a janela. Arina me mandou um olhar reprovador. Eu deveria esperar sentada para receber o herdeiro, mas afinal se eu estava para ser repreendida pelo menos agora haveria uma alguma justificativa, eu ainda não havia dispensado a ideia de uma bronca do chefão. Dei de ombros e olhei a maravilhosa visão de cima. O castelo parecia ter nascido naturalmente de alguns desastre natural. Brotado do chão como se moldado por mãos humanas. Algumas paredes eram feitas de puro Cristal de Luminosa, enquanto outros eram feitos de pedra fria. Esta "janela" não era comum, a parede era feita de pedra cinzenta e somente a janela, um enorme quadrado de cristal transparente mostrava o exterior. Era como um vidro fechado. Arina me explicara que dependendo de que lado se via, era possível ver através do cristal, do outro lado ele era leitoso.
O som das portas se abrindo me fez olhar em sua direção. E eu quase escorreguei ali mesmo no meu próximo passo. As únicas pessoas cientes da minha reação foram a senhora ruiva e o próprio príncipe.
Seu nome era grego, se eu não estava enganada.
O garoto que voou alto de mais, o das asas de cera derretidas.
Icarus.
Porem minha reação estranha não foi devido a origem do seu nome, ou mesmo sua beleza. Foi a percepção da minha estupidez.
Arina havia me falado que uns dos príncipes, filho do Rei Auster, provavelmente estava envolvido com o assassinato dos meus pais, e que havia a possibilidade dele ser o líder da Irmandade Nanquim.
O problema foi que devido a minha, como sempre, falta de atenção aos detalhes, não reparei que o cheiro de chuva era algo relacionado com, mais precisamente, a cor cinza. Talvez se eu tivesse me lembrado da exata passagem do Livro dos Contos, talvez eu tivesse adivinhado.
O problema foi exatamente esse, eu não me lembrei. E essa foi a minha primeira idiotice. A segunda talvez foi o fato de ter me sentido tao cativada pelo dono dos tais olhos que não percebi que a participação dele em tudo isso era muito maior.
Talvez o meu estranho sonho fizesse mais sentido agora. O tal Batman o dono do cheiro de tormentas, era o possível assassino dos meus pais.
Minha ingenuidade não foi maior do que minha falta de preservação própria, mas estava acirrado.
O príncipe herdeiro era identico a Zane. Seu nariz era um pouco arrebitado, a altura e a postura eram similares, inclusive o jeito de andar e a voz lembravam seu irmão.
Somente três coisas me fizeram segurar mais firmemente no móvel mais próximo, que acabou por ser uma escultura gigante de algo irreconhecível. 1) o cabelo do herdeiro era castanho claro, 2) suas roupas eram muito coloridas e ostentosas E 3) seus olhos eram entre o chocolate e o dourado. Mudavam de cor constantemente.
– Talvez já tenha visto alguém parecido com ele, querida? -perguntou uma voz sussurrante ao pé do meu ouvido.
Não houve escultura sem forma exata que me lembrava de um cavalo que me segurasse depois disso, ela caiu comigo estilhaçando no chão.
– M-m-me desculpe, Vossa Alteza, senhor, ah...
– Soh Icarus.- respondeu ele sorridente. Uau, era estranho poder imaginar como Zane ficaria diferente se sorrisse agora que eu tinha uma comparação. Nada mal.
– Eu, ah, hum não queria quebrar o seu cavalo de cerâmica.
– Na verdade era uma escultura do meu pai.
Arina escondeu o rosto e Alice estava olhando de um jeito estranho para o príncipe, meu rosto ficou tão vermelho que eu pude sentir minha face quente.
– Não se preocupe, eu mesmo não achava que ele parecia muito com o rei. -ele sorriu confidente. — Eu estava planejando como jogá-la fora sem que ele percebesse.
Seu olhar refletiu dourado e parou sobre os pedaços no chão.
– Podemos começar agora, não é? Sentem-se todos.
Essa versão mais autoritária, menos sombria e relativamente mais sorridente de Zane estava me deixando inquieta.
A senhora ao meu lado, olhou de modo suspeito para mim e sussurrou:
– Você já conheceu o Outro, não é? Tenho certeza de que ele está tão crescido, talvez até muito charmoso, estou certa?
– Hum... — nao era exatamente uma resposta, mas ela tomou como uma.
– Qualquer tolo pode ver que tem algo mais nessa história, do que estah deixando aparente, querida.
– Quem é você?
– Mãe Cordelia, antiga Conselheira Laranja, avó de Zane.
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