O Portal dos Mundos

3 Segundo Capítulo - Entre um Salto e Outro


— Estou ligando para dizer que estou bem, não se preocupem. Minhas notas andam boas e estou longe de problemas. Como está a vovó? Espero que ela fique bem logo. Agora preciso ir, tá? Beijos. —


Desligou o telefone o pondo no gancho. Era um daqueles aparelhos antigos com os números em um disco. Fora um presente de sua família.
O químico ficou a fitar aquele objeto por mais um tempo. Alguma coisa naquele aparelho trazia para o rapaz um pesar estranho. Como se alguém estivesse sussurrando aos seus ouvidos, mas ele tentasse não escutar. Era como se existisse ali uma resposta que ele não quisesse saber.
— Ei, gatinhô! Você não vem? —

Uma voz aguda cortou seu sagrado momento. Sentiu-se irar por um instante, como se desejasse despedaçar aquela mulher por ter ousado interferir, mas, em vez disso, virou-se para ela sorrindo:
— Está preparada para acordar o Zico? —


O químico se levantou da cadeira onde estava. Uma mobília posta ali unicamente para ficar ao lado da mesinha de compensado. O telefone ia em cima dessa última, sempre parado naquele canto, sem nunca tocar.
A mulher na cama era Mira-certa. Outra estudante da FEMT(Fundação Extraplanar de Magia e Tecnologia). Assim como ela, Nico estava despido. Ela havia vindo se desculpar na noite anterior por ter sido tão possessiva e ter sido uma idiota naquele dia em que ela terminou com ele. Com uma encenada relutância, o rapaz acabou por convidá-la para tomar alguma coisa. De fato, ela havia tomado muitas coisas nessa noite.
— Nico, para. Sabe que não gosto que ele fique ouvindo. Você não disse que ele tinha sono pesado? — Ela disse jogando o travesseiro na direção dele.

O objeto caiu na metade do caminho. Aquele laboratório era bem grande em comparação a maioria dos quartos dos alunos, mas em compensação nenhum desses tinha um projeto de abridor de buracos de minhoca pronto para colapsar no meio da sala de estar. Uma troca justa na opinião do químico. Semelhante à troca que fizera com seu colega de quarto. Ele dormiria na cama de cima enquanto Nico poderia trazer quem quisesse para lá.
— Até o pessoal do centro de magia escutou você ontem a noite, Miracê. —

Ele se deitou na cama e a garota passou por cima dele.
— Para de ser bobo. Você não reclamou de barulho algum ontem. Agora fica quietinho que vou te mostrar uma coisa.— A mulher de madeixas morenas dizia isso enquanto ia descendo pelo peito do rapaz.
— Não sei não. Acho que está ficando tarde e… Nossa! Mais para baixo… Isso! Não para. —

Os dois se distraíram por mais alguns minutos quando Mira-certa notou que alguém estava usando a descarga do banheiro. Ela parou na mesma hora para azar de Nico.
— Mas por quê? Ele não vai nem notar. —
— Ai, Nico, não me sinto bem. Melhor a gente parar. Já deve ter amanhecido e não quero que me vejam saindo daqui com as mesmas roupas de ontem.—
— Não, não, pera. —


Essas últimas palavras eram quase imploradas enquanto a morena se levantava da cama. Nico ficou observando o corpo dela enquanto ela ia pegando as suas roupas pelo chão e móveis. Vendo que não teria mais jeito, resolveu ajudá-la para que fosse embora mais rápido. Ao menos fora uma noite bem longa.
— Seu sutiã ficou em cima do abridor de fendas e seu cinto está ali no canto. Entre o frigobar e o analisador de ondas. —

Fitou por um instante aquela parte de seu corpo já murchando. Cogitou em se masturbar, mas o momento já havia passado, soaria artificial demais. Voltou seus olhos para a garota. Para seu espanto, ela fora procurar suas roupas perto da mesinha onde o telefone estava e aquilo o deixou tenso. Via os passos dela como uma ofensa, um erro terrível. Sentiu-se sem notar, analisar a estrutura do corpo dela. As partículas que a compunham pareciam móveis como peças de encaixe. Sentiu-se perguntar o que aconteceria se com um simples deslizar de átomos, ele arrancasse a o tórax dela ou uma perna. Talvez ela nem notasse, não é mesmo? Faria só para ver… Sim, um teste científico.

Então, para seu desânimo e alívio, ela avistara a blusa perto da porta desviando seus passos do local proibido.

Ele deu uma leve risada. Aqueles segundos atrás foram muito estressantes. Mais um pouco e estava prestes a… Era melhor ela ir embora o quanto antes. Pôs-se de pé e pegou o que faltava com ela.

Em menos de três minutos, estavam na porta. Ela perguntou se poderiam tomar café juntos, mas ele não estava mais suportando ela. O próprio cheiro dela era uma lembrança do que ele quase fez. Beijou-a ternamente e sussurrou:
— Nos encontramos na aula mais tarde, tudo bem? Não tem nada aqui e eu preciso terminar uns ajustes na máquina com o Zico antes de irmos. Tá bom, gata? —


Ela ainda insistiu um pouco em ficar, mas acabou por ceder no final. Era o que todos faziam. Despediram-se com outro beijo e ele fechou a porta. Estava livre dela. Deu uma boa olhada no lugar. Estava fétido. Fétido de uma imundice que só ele cheirava. Era como se alguém houvesse invadido seu espaço.
Foi até o armário de limpeza e começou a esfregar o chão aonde seu telefone ficava. Depois passou um pano na mobília onde ele se lembrava deles dois terem usado. Trocou a colcha de sua cama, sua fronha e suas cobertas. Jogou tudo na máquina de lavar. Por mais que tentasse, tudo ainda parecia sujo, corrompido.

Só parou de esfregar e limpar repetidas vezes os mesmos lugares quando Zico saiu do banheiro. Esse passou por ele sem lhe dizer nada. Parecia ansioso. Tinha uma toalha azul bebê em volta da cintura. Havia se barbeado e penteado o cabelo de um jeito diferente do que normalmente fazia. Suas unhas estavam aparadas e seu corpo perfumado.
Perceber o quão arrumado o físico estava fez com que Nico se indagasse o motivo de nunca ter tido um caso com ele. Ou ao menos tentado ter. Talvez porque ele fosse heterossexual. Não, até onde o químico sabia o colega ficava mais excitado com um novo artigo científico do que com uma mulher. Pensando naquilo, acabou por se esquecer o que estava fazendo.


Alguém bateu à porta. Para Nico, deveria ser a Mira-certa que esquecera uma peça de roupa. Zico ainda tentou chamar a sua atenção com gestos, mas o colega ignorou. Foi até a porta e abriu até a metade.
Quem estava lá era uma mulher que Nico já havia visto antes e anotado em sua lista mental com a etiqueta: “Eu comeria.” O que não era exatamente preciso considerando que a lista era feita por ele mesmo.
— Olá, em que posso lhe ser útil? — Disse ele com o seu mais charmoso tom de voz.


A moça sorriu timidamente:
— Oi, o físico tá aí? —
— Para que um físico se sinto uma química rolando aqui? —


Ele gesticulou com as mãos, sugerindo eles dois. Ao fazer isso, a porta abriu mais um pouco revelando parte de seu corpo desnudo. A caloura virou o rosto nervosamente:
— Deixa para lá! Avisa ele que estive aqui? — Ela continuou sem olhar — Diz que a Lû está esperando no neko café. —


Nico não pretendia ter causado aquela reação. Esquecera-se de que estava sem roupas. Tentou dizer algo para acalmá-la, mas alguém o puxou para longe da porta com força suficiente para quase deslocar seu ombro. Zico passara por ele e gritava enquanto ia para o corredor:
— Lû, pera! To aqui! —


O físico sorriu ao ver que ela o tinha notado. E ao fechar a porta, o químico poder ouvir uma exclamação familiar:
— Porra, Nico! —

O rapaz ainda não acreditava que seu colega de quarto estava tendo um encontro. Ainda mais com uma coisa viva e de sua própria espécie. Sentiu uma pontada de ciúmes. Não sabia ao certo de quem. Seu amigo poderia ficar mais difícil de ser controlado, caso gastasse o tempo dele com outra pessoa. Já a mulher, a moça apelidada de Lû, tinha algo que o atraia. Talvez fosse a pele branca ligeiramente bronzeada onde o sol do dia a dia marcava. Ou os cabelos levemente encaracolados com um tom negro belo. Provavelmente eram os olhos doces e meigos com um toque de inocência. Concluiu: “Definitivamente, eu a comeria.”

Sozinho no laboratório, seus olhos se voltaram para o material de limpeza que usara agora há pouco. O sentimento de invasão havia passado. Estava de volta ao normal. Colocou as coisas no armário de limpeza e deu uma leve risada ao se lembrar do que estava prestes a fazer com a Mira-certa. Mas ele sabia que não seria capaz disso. Matar um indivíduo assim, a sangue frio. Ou seria? Já tinha feito isso antes, mas era para o bem da ciência. Sempre fora. Eram ou inimigos ou cobaias. Animais na sua maioria.

“De vez em quando, algumas dúvidas sobre esse assunto surgiam na cabeça do químico. Em pouco tempo, seriam respostas. Eu estive lá também. Ajudando ele. Sussurrando o que deveria fazer para ser livre. “

Já que estava pensando em cobaias. Decidiu por rever os dados conseguidos com sua última amostra. Havia pego de um voluntário em uma boate de outro plano. Não exatamente voluntário, mas ele também não fez nenhum gesto para se negar. Nem nunca mais fez nenhum outro movimento. O que importava era que os resultados haviam sido promissores até certo ponto.
Aproximou-se da bancada onde seu equipamento estava. Três computadores se destacavam naquela mesa. Os dados obtidos haviam sido processados na noite anterior. Havia identificado o que os livros de magia já diziam: Certas frequências de energia eram capazes de afetar o envelhecimento. Em outras palavras, fazia parte das regras do indivíduo não envelhecer e aquilo consumia um tênue filete de sua própria emanação diária. Quanto mais poderoso o indivíduo, mais tempo ele poderia ficar naquele estado de juventude. Algumas regras poderiam dizer com que o objeto ou ser pudesse se manter saudável mesmo velho ou novo demais para que suas capacidades mentais e físicas funcionassem bem.
Fazendo uma análise empírica, isso explicaria em parte o motivo dos mentores da universidade terem mais anos de vida do que tartarugas marinhas. Exceto pelo mais novo deles, o bolchevique. Acontece que descobrir cientificamente o que todos já sabiam através da magia era algo pouco visado para a área de tecnologia da fundação. Já para Nico, era uma garantia de que um poderia sobreviver e suplantar o outro.

Divertiu-se por mais algum tempo estudando os dados coletados. Deles começou a teorizar o que mais poderia um ser poderoso fazer. Já havia lido sobre controle do espaço-tempo, mas nunca havia tido nenhuma pista referente a aquilo por dados científicos. Sentia-se impulsionado a descobrir. Arriscou até pensar na área teórica da expansão de regras. Quando a regra de um indivíduo forçava a de outros a mudar. Isso acontecia em batalhas de maneira rudimentar, mas se fosse possível ter aquilo grande e com intensidade o suficiente. Um indivíduo poderia englobar uma realidade inteira e… Não, não. Era inconcebível. Não existia como uma consciência processar tantas coisas. Ou tinha? As regras poderiam amplificar também a percepção e a inteligência de um indivíduo, isso não era tão difícil. Porém naqueles parâmetros com tantas interferências. Seria absurdo.

“Ou não.”

Quando retomou a noção do tempo, o relógio na parede marcava 8:20. Ele se atrasaria e Caio o deixaria para trás. Normalmente, pouco se importava com aquilo, passaria com facilidade. Só que perder a chance de conhecer novos mundos, mais do que isso, novas regras era algo lastimável. Talvez nessa viagem ele pudesse encontrar algum ser capaz de exteriorizar seu campo de regras. Mais do que isso, afetar diretamente o próprio campo dele próprio. Ou encontrasse um indivíduo com sensibilidade energética. Ele precisava experimentar, pegar amostras.

Correu para o guarda-roupas, abriu-o sem tocar nele. Suas roupas voaram de dentro da mobília e deslizaram por seu corpo sem que esse fizesse esforço. Era contra o código da fundação usar suas habilidades para tarefas triviais, mas sem o físico para fiscalizá-lo e estando atrasado ele não ligava muito. Se os sensores apontassem uso de energia, diria que fora por conta dos aparelhos.

Pôs uma camisa verde com gola em v. Vestiu uma cueca box de elástico.Colocou seus jeans, uma perna depois da outra, mas sem tocar com as mãos.. O cinto, o relógio e os tênis vieram juntos. Por fim, deu uma boa olhada no espelho, sorriu com o resultado e, erguendo os braços, estava de jaleco.


Enquanto andava rumo à saída, olhou com ternura seu laboratório. Em uma prateleira havia uma garrafa de bar com um conteúdo vermelho, podia-se notar um antebraço humano dentro da garrafa. Sim, uma pequena lembrança daquela noite inesquecível na boate Lap dance.
A porta se abriu como mágica e quando ele saiu, ela se fechou e trancou da mesma forma. As chaves ficaram escondidas atrás do extintor de incêndio do corredor. Do lado de dentro, o clique dos interruptores sendo desligados chegou ao ouvido do químico.
Correu. Seu mentor tinha quase dois milênios de vida e nenhum deles marcados pela paciência. Saiu do antigo prédio de ciências apressado. Precisava chegar ao centro de magia e tecnologia.


Foi a passos rápidos por metade da fundação. Só diminuiu um pouco para checar o neko café. Zico não estava lá. Prosseguiu acelerado. Quando finalmente avistou o domo do centro de magia e tecnologia, checou o relógio enquanto corria: 8:42. Não desistiu. Em último caso, ligaria o abridor de fendas sozinho. Sabia que conseguia, só precisaria distrair os técnicos e estagiários.

Na entrada do centro de magia, uma multidão impedia a passagem. Foi abrindo caminho e quando passou pela barreira de calouros, encontrou Flor-de-março, uma aluna de outra turma. Ela estava aos prantos. Nico pouco se importava, mas ela o vira e se aproximara lentamente, mal conseguindo andar. Ele a abraçou e disse com ternura:
— Ei, o que houve? —

Ela não conseguia responder. Foi só então que ele percebeu que já tinha visto cenas como aquelas. Pessoas chorando, gente se aglutinando e, agora ele olhava para o centro do salão de entrada, os curandeiros levando uma maca. Ele não conseguia entender aquilo. Muitos ali já haviam visto mais mortes do que ele, sabiam que aquilo era um risco. Nico não entendia o motivo delas sempre cederem ao mesmo sentimento.
Viu outros colegas e, em meio a tudo aquilo, ele ficou feliz. Eram da sua turma, o professor devia ter adiado a aula por conta do acidente. Ele havia tido muita sorte. Quase perdera sua chance, precisaria ter esperado mais um dia.
Zico se aproximou com uma expressão triste. Disse ao amigo que ainda segurava Flor-de-março em um abraço:
— Nico, cara… Você vai querer sentar. É que… —

O químico prestava atenção em seu amigo, ligeiramente incomodado por ser usado como travesseiro de lágrimas. O físico sentia pena da dor que achava que seu colega teria:
— Foi… Foi a Denise, cara. —


Nico sentiu uma pontada de alívio. Começava a desconfiar que ela não estava tomando mais pílulas a fim de engravidar dele. Mas o que demonstrou não foi exatamente isso.
— A Dê!? Não, não pode ser. —

Ele usou a emoção do momento para afastar um pouco a outra mulher que tinha molhado sua blusa. Olhou para a maca. Não fazia sentido, eles tinham um sistema médico muito avançado. Com magia, ela poderia ser até ressuscitada se tiver sido trazida em rápido o suficiente.
— Mas não é só revivê-la? —

Ele tentou falar aquilo de forma que não soasse tão frio quanto realmente era. Com todos abatidos, ninguém pareceu notar. Zico entendia que seu amigo ainda estava na fase de negação.
— Não, cara, foi… Foi uma dimensão de bestas, engoliram metade do corpo dela e… Já falei com o Heimz, ele disse que não conseguem curá-la por completo. Porque… — Fez uma pausa para abraçar seu colega de quarto — Irmão, a besta tem a porra de um veneno. Tá dissolvendo a carne dela, cara, de dentro para fora. Tentaram anular de várias formas, mas é uma regra da criatura. Não dá. Ela tá morta, Nico, porra. —

Nico ouvia distraidamente. Quando seu amigo o abraçou, pode ver por cima do ombro desse que alguém os estava observando. Era Santa. A mentora Francesca, também chamada de Santa por incríveis coincidências históricas que ligavam uma personagem medieval com ela, era uma mulher que chegava aos quarenta anos em aparência. Tinha um ar solene e calmo. Ela lecionava História das Regras I e II. Havia boatos de que ela era capaz de ler pensamentos. Nunca foram confirmados e sempre sustentados por fofocas.
Algo na forma como Santa olhava para ele o fazia sentir exposto. Não tinha vontade de rir para ela ou de fingir ser agradável e, mesmo tendo se masturbado algumas vezes pensando nela, nunca deu em cima dela.

Ela sabia que algo não era certo nele antes mesmo dele saber.

Os curandeiros se aproximaram. Alguns mentores pediam para os calouros saírem da frente. Viu lágrimas no rosto sujo de Caio. Ele odiava perder alunos e estava com o corpo coberto de sangue. Provavelmente matara todas as bestas em um raio de vinte e cinco quilômetros tentando assim destruir a fonte do poder do veneno. Ao que parece, ele tinha falhado.
Ver Caio daquela forma, todo coberto de vermelho, fê-lo lembrar de algo em seu passado. Sentiu como se tivessem aberto uma porta para o seu interior. Tentou focar naquela lembrança, mas ainda não conseguia ver, só se sentia estranhamente vulnerável. Lembrou-se de um cheiro forte, sim, aquele mesmo aroma rubro. Sentiu-se com uma estranha paz.
Porém a paz durou pouco, pois um dos estagiários tropeçara no degrau da saída e sacudira a maca, fazendo com que caísse de cima dela um pouco do material dissolvido. Junto dele, um pedaço rolou de dentro e quicou pelo chão deixando um rastro vermelho. Foi até próximo de Nico enquanto todos se afastavam com medo e repulsa. E ele a viu. Viu o rosto tão belo daquela caloura estúpida deformado, corroído. Viu um pouco de cabelo onde ainda havia pele e um apático olhar sem pálpebras. Ela havia vindo aos seus pés uma última vez.

Sentiu raiva dentro de si. Algo que crescia à medida que pensava mais sobre o assunto. Aquilo não deveria ter acontecido. Ela era uma usuária de energia, ela devia ter ficado forte e ter sido linda para sempre. Não, ela não podia ter sido reduzida a aquilo. Ela deveria… Não, ela precisava ser daquela forma para sempre. Ela… Denise. O rosto dela. A sua beleza. Tudo havia ido embora. Nunca mais poderia contemplar seu corpo. Tocar nele. Tudo parecia girar, sua cabeça pesava.
Ajoelhou-se. Sentiu-se sozinho no meio daquela roda que se formara para observar a ele e ao crânio. Queria… Olhou para todos ali. Viu-se diferente, viu-se como um estranho e todos o encaravam rindo. Sentiu algo quente em seu rosto. Por um instante, sentia a energia de todos ali, o corpo deles, o que os compunha, cada mol de partículas era como peças botões prontos para serem pressionados.

Uma mão tocou seu ombro. Uma mão leve e macia que o fez relaxar quase imediatamente. Não pelo toque, mas por uma espécie de feitiço. Reconheceu quem era pelo aroma. Era um perfume suave de mulher. Era Santa. Levantou a cabeça para poder vê-la e ela sorria serenamente para ele. Passado o primeiro susto, ele sentiu que ela não estava somente o acalmando, mas tentando lê-lo. Sentia aquilo. Viu nos olhos dela mais do que ternura, mas uma esperteza camuflada que então mudou para medo. Medo de quando o químico finalmente pode senti-la dentro de si e sorrir ao mesmo tempo. Aquilo o animou. Estava de volta e já encenando.
— Por quê? Por quê, Santa? —

Pegou o braço dela e sutilmente tirou de seu ombro, abraçando a manga de sua vestimenta. Havia cortado o elo físico que tinha permitido a rápida leitura. Nico a havia lido mais do que ela a ele. Todos ali pensavam que ele só era um rapaz apaixonado que havia perdido seu amor. Nada de estranho ou de diferente. Ao contrário, ao ver de Santa, muitos que desconfiavam de algo haviam sido convencidos. Mas não ela, ela queria ver o que tinha por baixo da barreira que ele criava em torno de sua mente. Barreira essa que ele nem sabia que tinha.
— Ela era tão jovem. — Ele prosseguia em seu lamurio.

Chorava na manga da mentora. Com o canto do olho, avistou um curandeiro vir pegar o crânio enquanto outros limpavam a carne que caíra. A mentora delicadamente retirou o braço e o confortou com algumas palavras já esperadas. Ambos sabiam que aquela cena era uma mentira, mas só o químico tinha certeza.

A maca foi embora e a multidão foi com ela. Nico enxugou o rosto como pode. Notava que estava tremendo. Incrível, aquele tipo de reação não era comum dele. Não foi preciso refletir muito para chegar à provável causa. Um conjunto de fatores que iam desde a invasão que teve pela manha até se ver no centro de um espaço aberto com um cadáver a sua frente e com todos olhando. Aquele receio de que aquela cena um dia acontecesse o perseguia e, mesmo depois do que acontecera agora há pouco, continuaria a segui-lo.
Ver a mente da instrutora deu a ele o reforço de segurança que precisava. Através dos olhos dela, pode ver o que somente suspeitava. Ela lia a todos, menos ele e isso a deixava desconfortável. Também pode ver o que muito pensavam sobre ele e sobre a própria fundação. Aproveitou e também descobriu umas calouras que estavam interessadas nele. Ele riu levemente com a ideia. Ainda estava cansado do que acontecera. Mergulhado em seus pensamentos, caminhou junto dos outros para o salão maior. Abalado, mal percebeu o tempo passar. Pensou na teoria da expansão de regra, no sexo que poderia ter depois que voltasse e também na eficácia do seu poder contra alguns indivíduos que o achavam perigoso.

“Ele só não refletiu o porquê de ter sido mais abalado pela desfiguração do que pela morte. Nem cogitou o motivo de ser ele o único naquele salão capaz de tranquilamente afastar suas ideias do que acontecera.”


Uma hora depois, com tudo aquilo já passado.Alguns alunos ainda estavam cabisbaixos. Mira-certa estava abraçada com Nico enquanto o físico, Cabum e Pugilista Flamejante conversavam tentando se distrair.
Caius Adoedatus II, o mentor romano, chegara ao grande salão de viagens extraplanares onde eles estavam. Viu seus alunos sentados no chão de mármore branco e exclamou:
— Suas armas estão afiadas e sua armadura bem presa? —

Todos se puseram de pé. O químico aproveitou aquilo como uma chance de desgrudar da garota. O cheiro dela ainda o incomodava, não tanto como antes, mas ainda era algo. Dos cinco alunos, o químico era o único que não estava usando o uniforme blindado. Era norma da fundação que as viagens fossem feitas com o devido equipamento de proteção. Não que normas fossem algo que Nico se importasse, ainda mais que o mentor havia permitido que viajasse quatro vezes sem o devido uniforme. Dessa vez, Caio, o qual sempre trajava sua armadura romana, fitou-o mais demoradamente. Talvez estivesse cogitando se deveria forçá-lo a usar a proteção, mas chegou a conclusão de que não perderia seu tempo com Nico. Estava cansado emocionalmente para aquilo. O tutor exclamou:

— Entraremos no mesmo território da última viagem. Só que em um ponto diferente. Já vimos que há indivíduos perigosos nessa realidade. Quero que sigam as regras postas no relatório das páginas trinta e seis a quarenta e oito. Não quero que entrem em combate contra nativos nem mesmo percam seu tempo com atrativos dessa realidade. Não se afastem do corpo principal e sempre estejam no alcance da minha voz. Deveremos nos reunir no portal seis horas depois do começo. Caso esteja faltando alguém passado seis horas e vinte do começo dessa missão, será deixado para trás. Fui claro, homens? Então sincronizem seus relógios e que Ares nos abençoe. —


Dizendo aquilo, Caio caminhou até o centro da sala, onde um círculo ficava sob a luz da abertura no topo do domo, a luz do oculus. Toda aquela estrutura havia sido construída para parecer uma versão maior e mística do panteão romano, como dizia Caius, antes de ser profanado pelos cristãos. Várias estátuas permaneciam nas extremidades do salão circular da estrutura e agora eles eram equivalentes mágicos a processadores.

Auxiliares trabalhavam nas paredes do lugar, movendo símbolos mágicos brilhantes e alterando as figuras em alto-relevo esculpidas na parede. Zico estava trabalhando em como criar um daquele. Aquilo era um mapeador de coordenadas. Um dado em falso e eles poderiam parar no espaço vazio, o que havia entre dimensões. Enquanto isso, alguns técnicos voavam pela sala, movendo cristais de um ponto do teto para o outro. Haviam vários espaços vazios para se alocar aquelas pedras. Esse era o trabalho de Nico fazer, era um estabilizador de fenda. O que impediria tudo de colapsar enquanto eles estavam lá.Se o portal fechasse mesmo que por um instante, a realidade deles poderia se afastar e quando tentassem retornar, os tempos poderiam ter passado de formas diferentes. Já haviam feito no laboratório deles com que uma partícula colidisse com ela mesma usando um processo parecido. Um paradoxo em vários níveis.

Passado alguns instantes, linhas de energia brotaram no centro da sala. Vindas dos reatores subterrâneos, iam margeando os mosaicos no mármore branco e iniciando o encantamento. Quando tocaram nas paredes, começaram a subir. Manipulada pelos símbolos e pelas esculturas, a energia ia se ramificando por todas as fendas até chegar ao topo. Lá, ela ia desviando dos buracos vazios e se espalhando toda vez que tocava em um cristal no teto. A luz começou a preencher as espirais que ficavam próximas ao topo. Quando finalmente culminaram todas no oculus, um clarão branco tomou conta da sala. Já não estavam mais naquela realidade.

No vórtex, o químico sentiu seu corpo ser pressionado e empurrado em inúmeras direções. Diversas vezes em todas elas ao mesmo tempo. “Um efeito da máquina mágica tão primitiva.” Lembrou-se do comentário do físico. De súbito, a velocidade diminuiu. Um campo gravitacional começava a puxá-lo e vagarosamente ganhava força.
Primeiro, pareciam murmúrios à distância, mas foram ganhando intensidade. Tornaram-se gritos, ofensas e xingamentos. Ouviu o tilintar de metais e o rachar de rochas. O cheiro doce da chuva estava misturado a algo que invadia suas narinas. Era lama e sangue. Enquanto seus olhos lentamente recuperavam o foco, pensou estar em um bizarro abatedouro de porcos ao ar livre. O frio da chuva tocando a sua pele e seus olhos voltando ao normal o convenceram de que, de fato, estava em um.
Um orc saltou sobre um soldado. Caíram ambos próximos de Nico, espirrando água suja em sua direção. Porém o líquido desviou dele como se houvesse uma discreta barreira ao seu redor. O químico fitou tudo ao seu redor com um evidente desprezo. Tudo era muito sujo e barulhento. Fitou o par que quase tirado o branco de sua roupa. Uma ideia maliciosa veio em sua mente.


Chegou mais perto e se agachou ao lado dos combatentes que se debatiam tentando um matar o outro. Segurando o jaleco com a mão esquerda e apontando com a direita, disse:
— Vê isso? Não sujem isso, combinado? —


Ignorando o rapaz, o orc conseguiu posicionar a adaga rente ao pescoço do homem, ao passo que esse usava suas forças restantes para não morrer. O químico esperava uma resposta como aquela, mas ainda assim não gostava de não ser ouvido. Sem fazer esforço, fez com que a lama no chão entre eles se reunisse em um pequeno monte e se erguesse na forma de uma mão.
Essa manopla agarrou o humanoide pela garganta e o pôs de pé.
— Vamos nos apresentar, sim? — Ele fez uma pausa, lambeu a parte superior do beiço, sentiu algo dentro dele aflorar. — Olá, meu nome é Nico e, se você não me ouvir, você morre. Certo? —

O químico abriu a boca ligeiramente, deixando a língua tocar no canto esquerdo de seus lábios. Brincar com a vida daquele ser o estava animando. Sim, finalmente podia se divertir com algo depois do estresse que passara mais cedo. Afinal, ninguém se importaria se mais um daqueles bichos morresse concluiu ele. Repetiu, estava empolgado pela situação. Sentia-se energizado, ergueu as mãos e gesticulou enquanto falava.
— Entendeu? Ò, não é para você sujar isso. Você, jaleco. Jaleco, você. Não suje isso e você vive.—

Dizia ele puxando o jaleco novamente para que o seu prisioneiro pudesse ver. Sem resposta.Deixou a garra de lama apertar o pescoço da criatura só para ver como ela reagiria. Pela ciência, é claro. Mas o bicho grunhiu inutilmente lutando contra a lama. Nico esperou mais um pouco, uma tentativa fútil de que a cobaia revelaria um poder oculto. Vendo que nada aconteceria, percebeu tudo aquilo que ele começava a sentir desmoronar em desapontamento. A vida daquele ser era tão interessante quanto uma planta em crescimento. Provavelmente, o tradutor não funcionasse com todos naquela realidade e ele só estava perdendo seu tempo. Odiava esforço inútil. Sentiu tolo por ter feito toda uma coreografia a toa.

Tentando recuperar um pouco daquilo que sentira, levou o orc para fora da muralha. Deixou a criatura suspensa do lado de fora, sobre o fosso, apenas para vê-la se debater. Não, nem isso o animava. Soltou.
Virou-se para procurar algo que valesse a pena estudar. Atrás de si, uma voz grave bradou com um sotaque quase suíno:
— Morra! Mago! —

Aquilo chamou a atenção do químico e esse voltou para a posição que estava anteriormente. Vários orcs estavam ali se agrupando de pé. Todos hesitando em avançar, esperando que alguém mais corajoso fosse na frente. Parece que tinham tomado aquele ponto da muralha e matavam os últimos feridos. Não importava, era como se fossem formigas brigando de tomar o formigueiro umas das outras. Ainda assim, o químico se deu ao trabalho de explicar. Caso não fosse interessante, era só sair andando.
— Olha. Não sei o que vocês tão pensando, mas eu não sou um m… —

Antes que ele pudesse terminar. Alguém gritou vindo da torre atrás dele:
— Vejam! É o mago branco! O heroi da lenda! —

Outro homem disse em seguida:
— Ele vai nos guiar para a vitória! Vamos, homens! Protejam o mago! —

Nico deu meia volta para esclarecer o mal-entendido. Que, na verdade, ele era apenas um cientista de outra dimensão que havia usado um dispositivo de interferência para se separar do grupo de exploração e poder estudar as influências da expansão de regras no universo e nos seres que nele vivem.
Pensando melhor, refletiu ele, era mais fácil deixar que morressem sozinhos. Ele começou a caminhar rumo a torre onde os soldados apareceram para proteger essa parte da muralha. Os guerreiros que passavam por ele tentavam passar as mãos nele para dar boa sorte, porém eram sutilmente repelidos. O que os fez crer ainda mais na divindade do rapaz de jaleco branco.
— Viva o mago! —
— Pelo mago!
— O mago é a vitória!—



Alguns ainda exclamavam enquanto o químico se afastava e eles matavam e morriam.


Pelo menos a chuva estava gostosa. Raramente os controladores do clima da fundação permitiam que chovesse. Vendo por esse lado, exceto por alguns gritos de pessoas e orcs digladiando, a noite também estava agradável. Passado dois minutos de tranquila caminhada, ele até tinha se acostumado ao som.


Às vezes, algum imbecil chegava a conclusão de que era bom jogar pedras na muralha ou no castelo, mas até que era um bom lugar para passar a noite.
Quando um orc avançava contra Nico, ele era simplesmente ignorado. O rapaz desviava desajeitadamente sem parar de seguir em frente. Os golpes eram induzidos para fora da rota com tamanha delicadeza que fazia parecer que o próprio guerreiro era incapaz de manejar sua arma. O químico acabava por se entreter em acompanhar um orc lentamente chegar ao entendimento de que estava enfeitiçado e que perdera sua habilidade de combate. Po fim, desistiam ou eram mortos por soldados. As notícias espalhavam rápido e por onde passava, os humanos lutando achavam que era um sinal de boa sorte. Achavam que ele era um poderoso mago e estava ali para o bem deles. Ao ver do químico, estavam certos só até a metade.


Distraído, entrou por mais uma torre e saiu pela portinhola do outro lado. Para sua surpresa, a situação em que foi colocado lhe fez pensar em um poema. “No meio do caminho tinha uma pedra.” Lembrou-se ele observando aquele obstáculo encravado na muralha. “Tinha uma pedra no meio do caminho.” Ele foi caminhando calmamente para próximo do pedregulho. “Tinha uma pedra.” Definitivamente agora o poema parecia mais impactante. “Tinha uma pedra no meio do caminho.” Acontece que essa pedra tinha três toneladas e o caminho era a última defesa da humanidade ou algo do tipo. Nico se perguntava o que diria o poeta naquela situação quando uma figura feminina chamou sua atenção.


Uma mulher estava rente à rocha que havia se chocado contra a estrutura. Ao se aproximar, o químico viu uma moça de meia-idade a chorar. Ela tinha em seu colo a cabeça de um rapaz, uma criança para alguns, que mal tinha crescido pelos em seu rosto. Um jovem belo, ao ver de Nico, se levar em conta que da coxa para baixo tivera seu corpo esmagado pelo projétil de catapulta. Estava morto. A mulher o viu e implorou:
— Meu filho! Meu filhinho! Ele não merecia isso! Senhor mago. Por favor, senhor! Ele era um rapaz bom! Eu disse para ele não vir, mas ele quis, senhor! Ajude-o! Por favor, meu filho! Não... Não! Por favor! Ajude-o!—

Ela continuou lamuriando mais algumas coisas, mal conseguindo falar por conta do choro, até que se inclinou para pegar no jaleco do químico. Para ele, aquela dor que apertava de maneira tão excruciante o peito daquela mãe era uma sensação desconhecida. Não condizia com sua busca por conhecimento e, consequentemente, poder. Sendo assim, não era nada mais do que um empecilho e, como tal, deveria ser eliminado.
Antes que ela pudesse tocá-lo e continuar sua chorosa ladainha, Nico encontrou a solução para o problema que ela o apresentava.
A espada ainda embainhada do garoto voou para fora de seu cinto até seu cabo atingir o pulso da mulher prestes a sujar o químico com sua pequenez. Um sorriso involuntário brotou em seu rosto enquanto ele comandava a lâmina quebrada do soldado para degolar a sua própria mãe. Ela, sem entender, tentou parar a hemorragia com as mãos, mas foi inútil. O corte fora fundo demais. Habilidoso na opinião do químico. Ela tentou dizer algo, mas o sangue encheu sua boca e seus pulmões.
Ela agonizou com a sensação terrível de se afogar em seu próprio sangue. Nico viu a dúvida nos olhos dela se tornar medo. A negação da morte iminente, de alguma forma, o deliciava. Por fim, ela caiu sobre o corpo morto de sua cria. Restando apenas o harmônico som da chuva.
Era triste uma bela mulher acabar daquela forma. Ao menos ela teria paz e encontraria seu filho em outro mundo. Não, Nico não acreditava naquilo. Só queria mesmo que ela se calasse e fosse bela. Chorar daquela forma não era bonito. Agora estavam ambos os desejos satisfeitos: Ela não falava mais e a palidez mórbida em sua face antes corada a deixava linda.


Deu meia volta procurando uma plateia para o seu ato de condolências. Percebeu que não havia nenhuma. Nunca havia ninguém vendo quando ele queria. Deu de ombros, soltou a espada próximo ao corpo dos dois cadáveres e pacientemente assistiu a pedra no meio do caminho se mover de volta para o lado externo da muralha. Talvez precisassem de mais munição, divertiu-se ele com o trocadilho.
Passou pela cratera feita pelo pedregulho usando uma rudimentar ponte de gelo que criara enquanto passava. Do outro lado, a batalha continuava e, atrás de si, mais escadas eram lançadas contra a muralha. Seguiu em frente.
Caminhava desanimado entre os combatentes quando avistou algo no topo da próxima torre que se dirigia. O chapéu listrado sob o relampejar do céu acima dele acendeu algo em seu peito.. Não podia acreditar naquilo. Seria mesmo verdade, ele se questionava. Sentiu seu coração acelerar. Os cálculos de probabilidade para aquilo eram completamente pessimistas. Seria mais fácil Nico morrer indo até o banheiro do que os dados jogaram a seu favor daquela forma. Não, não, devia ter sido uma mera coincidência. Mas ainda assim…


Existia um ramo do cálculo de variáveis em combate que abordava especialmente aquilo. Alguns autores ousados de livros diziam que obras no mundo normal poderiam ser, de fato, captações do subconsciente de informações provindas de pequenas falhas no tecido de uma dimensão para a outra. Em outras palavras, existia a real possibilidade, mas incrivelmente pequena, de que o Superman existisse e voasse livremente por aí. Ou o Mickey vivesse em um mundo onde as leis da física fossem diferentes.
Da mesma forma, era possível que um autor tivesse concebido uma obra musical, plástica ou de animação que fosse real. Levando em conta aquilo, o chapéu que ele vira no alto da torre poderia ser de um personagem de uma das realidades que ele mais sonhava encontrar. Se pudesse, em teoria, dissecá-lo e extrair uma amostra da energia, seria cabível destinar sua própria máquina de buracos de minhocas para a realidade de Bleach. Mais do que isso, poderia conhecer todos aqueles que sempre sonhara em… O que faria quando os visse? Mal podia imaginar.

Mais do que isso, aquele indivíduo era um dos espécimes mais poderosos do universo dele. Nico já sabia como funcionavam as regras dos poderes dele e poderia medir sua própria força. Sentiu uma tênue insegurança brotar dentro de si. Poderia ele ser fraco em relação aos shinigamis, questionou-se. Não, um rápido referencial entre o poder de destruição de um daqueles espadachins e os do químico diziam que ele não seria tão facilmente abatido. Eles eram mais rápidos e controlavam energias perigosas, nesse quesito eles venceriam. Porém eles não tinham nada comparado aos poderes dele no lado de lá. Indagava-se por mais um instante quando uma súbita revelação lhe veio a mente.
Era perfeito, aquele indivíduo era exatamente o que ele precisava. Todos os shinigamis eram capazes de estender suas regras, faziam isso constantemente, Aizen principalmente afetava a regra dos outros sobrepujando as suas às dele. Sim, aquela situação como um todo era adorável, poderia finalmente conhecer um dos seus heróis e matá-lo logo em seguida. O sonho de toda criança.

Nico andou mais um pouco até ficar a meio caminho entre a torre e a cratera do impacto da pedra. Com os soldados lutando ao redor. Ficou a procurar um dos mais magníficos espécimes que ele poderia dissecar. Discretamente, sentia como se já tivesse sido visto. Não fazia mal, ele gostava de surpresas.

Se conseguisse pegar ao menos um pedaço do corpo dele ou algo que tenha entrado em contato com ele por tempo o suficiente, ele poderia reanalisar os dados que pegara na semana passada avançar muito em suas buscas. Sim, precisava só de um pedacinho. Mas levaria um braço inteiro ou dois só por precaução. Ignorando os guerreiros ao seu redor, colocou aos mãos em forma de concha ao redor da boca e gritou:
— Oláaaa! Podemos conversar? Sei que você não é daqui! —

Notas finais
Esse não é o fim do capítulo. Há um confronto que se segue. caso queira saber mais, deixe um comentário pedindo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.