Estava chovendo forte lá fora, e isso queria dizer que as chances de rolar a festa na piscina da vicky eram mínimas.

Meus pais, provavelmente, ficaram presos em algum congestionamento por conta do temporal. Eu recebi ordens de nunca ligar para eles, a não ser em alguma emergência. Acontece que eu estava preocupada, e precisava saber se estavam bem.

Peguei meu Iphone no criado mudo, sentei no acento da janela e disquei o número da minha mãe. Caixa postal. Novidade. Não quis gravar recado, então tentei ligar para meu pai, que por sua vez, não atendeu. Pressupus que estivessem a caminho.

Escolhi uma roupa confortável para vestir após o banho, já que estava óbvio que a festa de Vicky havia ido para o buraco.

Logo após o banho, desci para a cozinha, com o intuito de ajudar Verônica com o jantar. Verônica era a empregada da família desde que me entendo por gente, e é com ela que passo quase todo o meu tempo livre. Meus pais são donos de uma multinacional que exporta peças automotivas, e estão sempre ocupados.

- Pensei que faria pizza para o jantar – eu disse à Verônica.

Ela me estudou um pouco, e então respondeu:

- Vocês andam comendo muito fast-food ultimamente, então resolvi preparar algo mais saudável. Vai dizer que um bom bife na chapa não lhe apetece?

- Claro que sim – Eu respondi. – Mas rola um sorvete de sobremesa?

- Vou pensar no seu caso. Aliás, você já fez sua lição de casa?

- Não tenho lição hoje – Menti.

Então eu levantei da banqueta em que estava sentada e fui para meu quarto. Deitei em minha cama e resolvi dar uma olhada no meu facebook. De repente fiquei estupefata com o que li. Não conseguia acreditar, Jim Tyson estava em um relacionamento sério com a Vicky! Ela sabe que eu tenho uma queda por ele, e mesmo assim não se importou em lhe dar uns amassos. De repente, uma onda de raiva me possuiu, e eu desejei que esse temporal não acabasse só para me certificar de que a festa dela não aconteceria.

Na manhã seguinte, me levantei às 06h00min em ponto e fui para o banho. Depois de vestir meu uniforme, desci para o café da manhã. Meu pai estava lendo o Jornal e fazendo anotações em sua agenda ao mesmo tempo. Às vezes me pergunto como ele consegue ser tão multifuncional. Minha mãe estava lutando com seu coque no cabelo enquanto falava ao telefone. Algo nos dois estava claro: Não tiveram uma noite relaxante. Estavam com expressões cansadas e com olhos injetados. O stress era visível em ambos.

Sentei na mesa ao lado do meu pai, e coloquei leite em meus cereais. Eu queria falar com eles, mas sequer notaram minha presença. Terminei meu café em silêncio e voltei ao meu quarto para pegar minha bolsa. Quando desci, minha mãe já havia desligado o telefone e meu pai ainda estava absorto em suas anotações. Quando estava quase no hall de entrada ouvi minha mãe gritar: — Boa aula querida.

Peguei as chaves do meu Chevrolet Sail na bolsa e segui para meu primeiro dia de tortura Jim & Vicky. Me dá repulsa só de pensar em vê-los juntos, e agora terei que aguentar isso. Não posso parecer incomodada com os novos queridinhos da Academy Tigers.

Cheguei na escola e fui direto ao meu armário, ignorando a presença de vicky e das outras garotas, que estavam a alguns metros de distância, numa animação incomum. Provavelmente estavam ouvindo Vicky falar sobre o quanto os músculos de Jim são definidos, ou simplesmente rindo da minha cara de idiota. Não esperei que me notassem, fui direto para a aula de biologia, que felizmente, faço em horários diferentes dos de Vicky e Jim.

Depois do almoço, fui intimada a comparecer na sala do diretor. Eu nunca havia ido lá antes, não por razões disciplinares. Meus pais iriam me matar.

A sala do diretor parece um atelier, tudo ali é arte antiga. Desde as cadeiras trabalhadas em detalhes formidáveis, até os quadros famosos do Picasso nas paredes. Claro que não são verdadeiros, o Sr Brown não teria dinheiro para pagar um quadro desses com o salário de diretor. Ele estava reclinado em sua poltrona, seus olhos estavam distantes, e ele só percebeu minha presença quando eu pigarreei.

- Que bom que veio Srta. Clark. Eu mandei lhe chamar porque precisamos conversar sobre um assunto complicado.

-Eu fiz alguma coisa? – perguntei assustada.

- Não exatamente. Seus pais foram presos senhorita. Foram presos por importação de mercadorias sem documentação fiscal. Uma psicóloga do serviço social se encarregará de levá-la em casa para pegar suas roupas e objetos pessoais. O restante dos bens serão confiscados pela receita federal.

Eu estava tão confusa e atordoada que sequer conseguia ouvir os pêsames do Sr. Brown. Não podia ser verdade. Meus pais, presos?

- Isso não faz sentido – Disse, finalmente. – Meus pais não fariam isso. Onde eles estão? Posso vê-los?

- Me desculpe querida, mas não cabe a mim lhe responder. Eu a aconselho a ficar aqui e esperar até que a psicóloga chegue. Ela pode responder melhor suas perguntas, creio que já esteja a caminho.

Se ela estava a caminho, o carro dela deveria, no mínimo, ter quebrado umas duas vezes. Ela chegou na escola lá por umas 16h00min. Era uma Loira bonita, magra e jovem, e tinha um sorriso adorável estampado no rosto quando entrou na sala do diretor. Seu sorriso me afetaria a quatro horas atrás, mas agora, ele só faz eu me sentir ainda pior.

- Boa tarde, Anny. Meu nome é Julie, e eu estou aqui para lhe acompanhar nessa nova fase de sua vida.

- Nova fase? Como assim “nova fase”? – Perguntei, minhas palavras saindo ríspidas e amargas, como facas a serem arremessadas em sua direção.

Seu sorriso lindo desbotou, e ela olhou para o lado pensativa, como se estivesse se preparando para dar uma notícia ruim.

- Seus pais foram presos, Anny. Acredito que disso você já saiba. Comércio ilegal de mercadorias é um crime muito grave, e eles vão pegar mais anos de prisão do que os que faltam para você se tornar maior de idade. Eles não podem mais se responsabilizar por você, e você também não tem nenhum parente que se dispôs a ficar com sua guarda.

- O que isso quer di-dizer? – Perguntei, soluçando. Eu podia sentir as lágrimas fervendo ao deslizarem sobre meu rosto.

- Quer dizer que a partir de agora você está sobre custódia da justiça. Você será transferida para um orfanato, fora da cidade.

- Eu não quero sair da cidade, porque não me colocam em um orfanato local?

- Porque nosso objetivo é que você recomece do zero, e isso não será possível se continuar aqui. Você será encaminhada para uma cidade no interior chamada Portal, e será hospedada no orfanato Darwin até completar a maioridade. Você vai poder frequentar a escola local, não vai precisar estudar no orfanato, e também não será adotada. Como eu disse você será uma hóspede.

Depois que Julie me informou sobre meu destino, seguimos no carro dela até minha casa, onde eu pegaria minhas coisas. Ao chegar lá, me deparei com uma cena de mudança: Todos os nossos móveis estavam sendo encaixotados, e levados para caminhões de mudança estacionados na frente da minha casa. Subi as escadas correndo, e ao chegar no meu quarto me deparei com ele vazio, com excessão das minhas roupas e documentos que estavam empilhadas encima de caixas no canto da minha janela. Um homem esticou o braço para mim, dizendo: — Preciso que me dê as chaves do seu carro. Eu a entreguei sem pensar duas vezes, estava preocupada demais com meu destino e com o destino dos meus pais para pensar em apegos materiais.

Eu estava perdida. Perdi meus pais e de quebra o direito de continuar na cidade, tudo em um único dia.

Julie estava sendo muito gentil comigo, e a cada sorriso que recebia dela me arrependia mais de ter tratado-a mal.

- Desculpa por te responder daquela forma – disse.

- O que? Querida, você não precisa se preocupar com isso. Você está sendo muito forte. Eu em seu lugar não aguentaria a pressão.

Eu não estou aguentando. A verdade é que estou sendo destruída por dentro. Sinto como se meus órgãos estivessem se rasgando, estou com uma mistura de sentimentos e não sei se estou com raiva ou medo, dor ou decepção.

Depois de encaixotarmos minhas roupas e meus calçados, levamos tudo para o porta malas da Julie. E então entrei no carro, e enquanto ela dava a partida, apreciei minha casa pela última vez, e por Deus, não imaginava que doeria tanto me desfazer dela. Mas eu percebi que não era a casa em si, e sim as pessoas que me rodeavam nela. Vou sentir saudade dos jantares da Verônica, da minha mãe tocando piano e dos jogos de baseball com meu pai em seus dias de folga. Eu ia sentir falta da família, ou pelo menos dos momentos em que parecíamos uma. Não sei o que me espera em portal, mas desejo que seja bom o suficiente pra me fazer preencher o vazio doloroso que sinto agora dentro de mim. Eu preciso recomeçar.