O Portal
18 Capítulo 18
Notas iniciais
– e o portal?- perguntou Elizia- dá pra voltar sempre? Isso é meio perigoso.
– não mais. Depois que acordei destruí a maquina, já era hora de parar com isso. Agora já está tudo acabado e arrumado sem a interferência do futuro.
– isso é bom, é melhor não mexer no passado, agora sério — Elizia tomou um gole de suco — aquela historia de Lusiana ser sua empregada é mentira, né?
– mais ou menos… — Kaylan pegou uma nova colher- ela limpa as coisas por aqui, mas não é bem minha empregada.
– o que? – ela o olhou, estava incrédula — deixa uma senhora da idade dela limpar uma casa tão grande?
– não, ela faz o básico tipo lavar a louça e preparar a comida, mas limpeza mesmo não. Uma vez por semana mais ou menos vem duas mulheres aqui e limpam toda a casa e ela as supervisiona.
– ah… mas então ela é o que na real? Você pensou quando disse empregada.
– reparou nisso, achei que não tinha notado. bom, ela é tipo uma governanta da casa. Ela já está aqui a muito tempo deste que meu tio estava vivo e depois que ele morreu, ela cuidou de mim e da minha educação e acredite ela pode ser bem chata quando quer.
– é difícil de imaginar alguém tão dócil sendo mau e ela cuidou de você?
– sim, me educou e me treinou , alem de me fazer companhia.
– ela almoça com você todos os dias?
– sim.
– e porque ela não esta aqui?
– porque você está e ela não quer atrapalhar.
Elizia bateu as mãos na mesa.
– isso é imperdoável! Não quero que mudem a rotina por minha causa. Ela pode comer conosco não?
– claro que pode, se ela quiser lógico.
– então a chame.
– é bem difícil isso. Lusi venha aqui, por favor!
Lusiana apareceu no batente da porta, segundos depois.
– senhor o que deseja?
–venha comer conosco.
– não obrigada. Não quero interromper.
– você não está intrometendo — interveio Elizia — eu é que estou. Não quero que mudem nada por minha causa.
– não se preocupe senhorita, é um prazer servir.
– pare de tantas formalidades, não me dou bem com isso. Sente-se conosco e almoce, graças à senhora temos mais que o suficiente.
Lusiana deu um longo suspiro.
– bem que você disse senhor, ela consegue ser bem persuasiva quando quer — ela se sentou — obrigada pelo convite.
Elizia olhou para Kaylan incisivamente.
– tinha mesmo que ter dito isso a ela?
– o que queria que eu fizesse? Ela me interrogou.
– valeu! Agora fiquei mal na historia.
– acalme-se senhorita — Lusiana interveio — ele não disse nada que te constrangesse e ás vezes é bom ser persuasiva, eu não ligo desde que não torne isso um habito.
– não vou. Não se preocupe.
Lusiana se serviu enquanto os outros terminavam e fazia perguntas a Elizia, que por sua vez tentava ao máximo responder. Enquanto elas conversavam animadamente e Kaylan ficava um pouco constrangido com tantas historias antigas de Lusiana sobre ele, o telefone tocou.
Lusiana pediu licença e saiu da sala, indo atender ao telefone, minutos depois voltou séria.
– senhor — Kaylan ergueu os olhos do prato — houve um problema na empresa.
– problema?- ele recostou na cadeira — cadê o Oswald? Ele deveria cuidar disso.
– ele ficou doente há pouco tempo e deixou um funcionário no seu lugar, mas algo deu errado e não conseguem contatá-lo então ligaram para cá. E é muito bom que o senhor esteja aqui, essa eu não sei resolver.
– o que aconteceu?
– algo na linha de produção que atrasou. Algo a ver com um cliente eu acho.
– droga! — Kaylan bateu com o punho na mesa — com clientes! Como eles conseguem? — ele suspirou — vou ter que ir ver.
– acho que é a melhor coisa a fazer, mas creio que não vai demorar muito.
– espero. — ele olha para Elizia que desenhava distraidamente na mesa com o indicador — preciso ir.
Ela o olhou com surpresa.
– tudo bem.
– me desculpa Elizia, eu não queria, mas é necessário — ele suspirou pesado — se quiser posso te levar pra casa.
– tá me zoando? — ela colocou as mãos na cintura e o olhou, séria — é domingo, não vou levar uma bronca no domingo. Já que não posso escapar dela então eu vou adiá-la para um dia útil. Tem algum problema se eu te esperar e passar a noite aqui?
Ele sorriu.
– claro que não, a casa também é sua. Só não sei bem que horas vou voltar.
– que diferença faz? Eu disse que vou te esperar, então não muda nada.
Lusiana o chamou para se apressar.
– tenho mesmo que ir.
Eles se levantaram.
– então vai logo.
Kaylan abriu um longo sorriso e a beijou delicadamente e saiu. Indo á garagem e pegando o carro, partindo.
Lusiana adentrou a sala de jantar e começou a arrumar a mesa, Elizia fez o mesmo para ajudá-la.
– não precisa ajudar senhorita — Lusiana sorriu — isso é trabalho meu.
– me chame de Eli e todo mundo precisa de um pouco de ajuda. Aliás, eu também quero ajudar.
– como quiser, mas não te chamarei por apelido, eu não sou tão intima assim.
– mas eu não ligo.
– não me sentiria bem — ela pegou os pratos da mão de Elizia — não há outro nome?
– então me chame pelo primeiro nome Elizia.
– como quiser senhorita Elizia.
– não precisa da palavra “senhorita”.
Elas se dirigiram para a cozinha e depositaram as pratarias na mesa. Lusiana foi lavar a louça enquanto Elizia arrumava as coisas e passava a prataria.
– me sinto melhor assim — Lusiana disse com sinceridade — mesmo tendo criado Kaylan desde pequeno não o chamo pelo nome, sempre uso “senhor”.
– é deu pra perceber, mas se gosta disso então tudo bem. Curiosidade: que trabalho é esse o do Kaylan?
– ele é dono de uma empresa de produção e personalização de carros, ele herdou do senhor Henrique.
– quem?
– o tio dele. O senhor Henrique ensinou tudo a ele e depois que ele morreu eu passei a ensinar Kaylan.
– mas Kaylan não é muito novo pra cuidar duma empresa? E eu jurava que o nome do tio dele fosse Lucio.
– sim e não, ele já é maior de idade e mais maduro que muitos, ele pode cuidar bem disso. E Lucio era o nome pirata do tio dele.
– ah!… assim faz mais sentido. Uma coisa que nunca perguntei, quantos anos ele tem?
– ele nunca te disse?
– não. Bom, também nunca perguntei mesmo.
– vinte anos.
– vinte?!
Lusiana a olhou surpresa.
– porque está tão surpresa?
– ele é pelo menos três anos mais velho que eu e ainda está no colegial!
– sim e não, ele nunca mais foi pra escola depois que os pais morreram, ele ficou aqui e eu o ensinei tudo que uma escola ensina enquanto o tio o treinava. Depois que o senhor Henrique morreu eu ensinei tudo, mas ele estava meio que curioso pra saber como era uma escola hoje e eu o matriculei como se tivesse dezessete.
– isso explica porque ele está no terceiro ano e é tão inteligente. A senhora é uma ótima professora.
– obrigada — ela guardou o ultimo prato – pronto, acabamos. Se quiser pode andar por ai, conhecer a propriedade.
– propriedade? Qual o tamanho?
– desde o pomar na frente da casa até a estrada depois da floresta.
– uau! Mas não vou ver sozinha… vou esperar Kaylan voltar, eu posso ver mais da casa?
– claro, fique a vontade.
Lusiana voltou a seus afazeres enquanto Elizia subiu novamente as escadas e começou a olhar mais minuciosamente as coisas.
Ela andava olhando tudo e imaginando como chegaram ali, entrou em um quarto. O lugar estava impecável e Elizia se lembrava de já ter visto aquele lugar quando procurou por Kaylan um mês atrás, mas desta vez reparou em uma porta no fundo do quarto e foi até lá, ela abriu a porta e entrou.
Era uma saleta pequena e diferente do resto da casa, apesar da linda visão da janela o lugar parecia ter sido esquecido, estava cheio de moveis e coisas cobertas com um lençol branco.
Elizia andou pelo lugar tocando levemente a superfície dos lençóis quando parou e focou sua atenção a um lençol que parecia pendurado na parede, hesitante ela foi até o lençol e o puxou revelando um quadro que estava pendurado sob o lençol macio.
Seus olhos se arregalaram enquanto olhavam a pintura do quadro.
A pintura estava velha e gasta e o quadro era antigo, a tela estava amarelada e relembrava mesmo que fracamente a tripulação do capitão Hugs, ela via todos inclusive ela que mais parecia um garoto novato escondido entre a tripulação. Elizia se lembrava daquele dia. Foi um dia em que pararam para comprar mantimentos e o capitão contratou um pintor para gravar eternamente a tripulação e assim que ele mostrou o quadro ele disse que isso era para lembrar-se da última vez em que seriam mortais, mas naquele dia Elizia nem ligou para isso ficou feliz apenas por fazer parte da tripulação.
Os olhos de Elizia começaram a ficar marejados enquanto as lembranças percorriam sua mente.
– mais cedo ou mais tarde você veria isso.
Ela se virou bruscamente assustada, Kaylan estava apoiado no batente da porta.
– me desculpe se te assustei — disse sorrindo — e então? No final das contas o quadro ultrapassou gerações.
Ela sorriu limpando a água dos olhos.
– é, era essa a idéia. Voltou rápido. Foi tudo bem?
– foi — ele se aproximou e a abraçou — nada demais, talvez excesso de idiotice.
Ela riu.
– é talvez… — ela o beijou rapidamente — vai me levar pra conhecer sua propriedade?
– propriedade? Que historia é essa?
– nem tente me enrolar — ela se afastou para olhá-lo — Lusiana disse que o lugar é bem grande.
– tudo bem, você venceu. Ela fala demais, mas certo. Por onde quer começar?
– vamos ver o pomar, nunca estive em um.
– certo, vamos.
Ele passou o braço por sobre o ombro de Elizia e eles saíram.
Enquanto eles andavam pelo pomar ela comentou:
– você é muito velho.
– velho? Como assim estou no colegial como você.
– tem razão e por muito pouco não te bato por isso. Mas eu to sabendo que tem vinte anos, ou seja, três anos a mais que eu.
– o que mais Lusiana te contou?
– muita coisa e não fuja do assunto.
– isso importa? Sou mesmo três anos mais velho que você sim, mas eu não me importo, ela deve ter te contado de como e porque estou no colegial.
– contou. E não, não me importo, talvez um pouco, mas não por que você é mais velho e sim por mim que sou muito nova e provavelmente infantil pra você.
– nova sim, infantil não. É mais madura que muitos que conheci da minha idade, você pode acreditar.
– não liga mesmo?
Ele a beijou delicadamente.
– nem um pouco.
Ela sorriu e o beijou de novo, depois continuam a andar e conversar sobre coisas sem importância alguma. Enquanto o dia passava rápido eles resolveram voltar para a casa assim que perceberam a furtiva e violenta tempestade que se aproximava.
A noite mostrou-se sem estrelas ou lua, todo o céu estava escuro e triste mostrando apenas a tempestade que caia sem cessar.
Todos estavam reunidos na sala de estar. Elizia e Kaylan estavam sentados no chão frente à lareira lendo um livro em meio a conversas divertidas enquanto Lusiana estava sentada em uma poltrona tricotando e aquecendo-se na lareira.
– boa historia, não pode negar.
Elizia fechou o livro enquanto desafiava Kaylan com o olhar.
– é boa… mas já vi melhores.
– melhores? Lógico que não, há coisa melhor do que mistério e suspense juntos?
– depende de quem escreve, esse livro podia ter sido melhor.
– eu não acho. Talvez você devesse lê-lo de novo.
– não, isso ainda não me convenceria.
– como sabe se não tentou?
– é simples, esta é a segunda vez que o li.
Elizia abriu a boca para retrucar quando foi interrompida por Lusiana.
– tudo bem, já chega os dois. — ela colocou as agulhas de tricô na mesa — essa chuva vai demorar a passar e vocês vão voltar a estudar a partir de amanhã, então é melhor todos irmos dormir.
– não está tão tarde.
Retrucou Kaylan desinteressado.
– não discuta comigo senhorzinho.
– ela está inspirada. — Ele sussurrou para Elizia que deu um pequeno riso — vamos então.
Todos se levantaram e foram à escada. Lusiana tinha um quarto no andar de baixo, mas antes de ir até ele disse:
– senhor durma em seu quarto está noite — ela se virou para Elizia — e a senhorita durma no quarto de hospedes ao lado do quarto de Kaylan, já deixei tudo arrumado lá, assim se sentira mais confortável.
Elizia assentiu, Lusiana sorriu e desapareceu no corredor escuro ao lado da escada. Kaylan e Elizia subiram a escada.
– vai dormir mesmo ai?
Kaylan perguntou despreocupadamente.
– vou — ela sorriu — não quero desperdiçar o trabalho que ela teve.
– como quiser — Ele a beijou delicadamente — tenha uma boa noite.
– obrigada. O mesmo para você.
Ela acariciou a face dele por um segundo e entrou no quarto em que lhe foi destinado aquela noite. Ele a viu entrar e em seguida fez o mesmo.
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