O Portal
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Key não ligou mais para qualquer ética ou honra que tinha, ia matá-lo nem que fosse a ultima coisa que fizesse, Jonathan machucou quem ele mais amava por inveja e deveria morrer por isso. Ele despejou toda sua ira no monstro que Jonathan se tornou, não o tratando mais como pessoa e sim como demônio. Lutou com a estaca manchada com seu sangue em punho, até que notou que Jonathan não tocava na estaca de modo algum e isso deu uma idéia a Key. Em um único movimento certeiro gravou a estaca onde deveria ser o coração do monstro e só naquele momento Jonathan demonstrou dor. Então Key fincou mais fundo à estaca fazendo Jonathan gritar e por fim pegou a lamina de sua espada que se partiu no começo da batalha, fazendo sua mão sangrar, e sem piedade cortou a garganta de Jonathan, separando a cabeça desfigurada do corpo. E por fim jogou uma parte em cada chama que queimava de cada uma das bombas. E observou o corpo e a cabeça, inertes queimarem até não sobrar nada, nem mesmo cinzas. Em uma única explosão enquanto as partes do corpo queimavam Key se surpreendeu tendo uma visão horrível, viu o fogo do inferno que veio puxar a alma de Jonathan, que gritava desesperado e acorrentado e em um segundo tudo desapareceu, as chamas se consumiram e as cinzas sumiram, tudo voltou a ficar naquela fraca luz do inicio.
Key, que até então prendeu a respiração, suspirou de alivio por tudo ter acabado. Ele correu até os outros que estavam em volta de Elizia e quando ia dizer que finalmente era o fim seus olhos se depararam com a expressão triste de todos que até choravam disfarçadamente, não entendia nada, até que tudo veio à tona.
– Não! — ele ajoelhou ao lado de Elizia que não esboçou nenhuma reação — por favor, Elizia não…
Key a abraçou forte deixando que lágrimas caíssem sem impedimento, sua dor era tão grande que não se importava com ninguém que não fosse Elizia. O corpo de Elizia começava a esfriar embora ainda estivesse morno, seus lábios estavam púrpura e imóveis. Key sentiu a dor corroê-lo por dentro, ela estava morta e ele sabia, mas queria ela ali ao seu lado.
Minutos se passaram sem nenhuma palavra. Os piratas que nunca tiveram piedade por ninguém sentiam a dor de perder uma grande amiga e ao verem o sofrimento de Key se sentiam piores, agora eles podiam ver com clareza o quanto ele amava aquela doce moça que por acaso virou parte dessa família.
– Key- disse o capitão quebrando o silencio- nós precisamos ir, deixe-a, não pode fazer mais nada.
– não vou deixá-la!
– garoto esqueça, não tem mais jeito.
– não! Você não entende, a alma dela ainda esta no corpo. Não vou deixá-la!
– como tem tanta certeza disso?
– o corpo ainda esta quente, ela ainda esta aqui e não vou embora!- ele apertou um pouco mais os braços ao redor do corpo de Elizia e sussurrou em seu ouvido mesmo sabendo que ela não estava escutando — se eu pudesse voltar no tempo… diria que a amo. Não esperaria tanto tempo. Imploraria seu amor, diria que te quero, te amo e te daria logo um beijo…
Mais lágrimas escorreram pelo rosto de Key, há muito tempo não chorava assim, a última vez que fez isso foi no enterro de seus pais e ele tinha oito anos e agora voltou a chorar como uma criança e não se importou, porque estava doendo. Ninguém entendeu o que ele disse para Elizia, mas respeitaram, sabiam que aquela era um tipo de dor que não sumiria apenas amenizaria e entenderam.
Todos estavam de cabeça baixa em sinal de respeito e de repente uma luz azulada apareceu na frente deles e todos olharam a estranha luz que começou a ganhar forma, menos Key que não se moveu. Quando a luz tomou forma definitiva todos arregalaram os olhos de espanto o que atraiu a atenção de Key que também olhou e fez o mesmo que os outros. A luz tomou forma de uma mulher, não uma mulher qualquer, Elizia. Ou ao menos muito parecida à única diferença era as roupas e o cabelo cor de ouro.
– Elizia…
Foi só o que Key conseguiu pronunciar mesmo sentindo o corpo de Elizia em seus braços sua boca não conseguiu ficar fechada. Ninguém disse mais nada, a surpresa era tão evidente que impediu qualquer reação. A mulher sorriu e se aproximou.
– não — sua voz era angelical — não sou Elizia. Meu nome é Tiana e creio que já me viram antes.
Key mesmo surpreso falou:
– não, não vimos. Teríamos lembrado.
– me viram, mas não foi assim foi em uma representação minha.
Ele parou um instante e se lembrou.
– você é a deusa do perdão. A da pedra.
– isso mesmo e você é realmente muito inteligente, principalmente quanto a almas.
– não entendo.
– está certo quanto ao que disse, a alma dela — ela olhou para Elizia — ainda está no corpo e já era pra ter saído faz tempo é por isso que estou aqui.
– o que?! Veio tirar a alma dela — Key colocou Elizia delicadamente no chão e se levantou com raiva — não deixarei que faça isso.
– imaginei que dissesse isso, mas não tem escolha.
Ela não se alterava continuava sorrindo. Isso o irritou mais.
– não interessa quem ou o que seja. Não vou deixar!
– é corajoso e admiro isso, mas entenda não é por mim. Se dependesse de mim eu a traria de volta, não era à hora dela, mas aconteceu e não posso fazer nada.
– acabou de dizer que ela não devia ter morrido e que pode trazer ela de volta, faça!
– não é tão simples, tem um trato em jogo. Alem do mais, ela quis, mais ou menos.
– o que? Não era a hora dela!
– não. Era a sua hora.
Key paralisou e sussurrou como se tentasse entender.
– o que?
– foi um trato, isso acontece.
Key a encarou, sério.
– que trato?
– vou explicar… tenho um irmão que tem muitos nomes, mas vocês devem conhecê-lo como diabo. Ele adora joguinhos. Baltazar, meu irmão, vive fazendo tratos com mortais e eu não posso interferir. Um pacto antigo que fizemos, eu resgato almas se morrerem por causa dele, mas só se não tiver tratos o que não foi o caso. O caso é que o ultimo trato que ele fez foi com Jonathan, um pirata detestável que vocês conhecem. Jonathan vendeu a alma em troca de poder.
– o que isso tem haver com Elizia?
– Jonathan prometeu duas almas, não disse quais, mas é lógico que era a sua e a dele. Alem do mais, ela queria te ajudar, foi o que fez. E meu irmão… bom, vai vir buscar a alma que falta e eu não posso me intrometer, isso poderia causar um caos.
Key ficou quieto e de repente uma chama gigante apareceu e do meio uma criatura metade homem metade bode com uma jaqueta de couro, chifres e óculos escuros saiu sorrindo, a chama se apagou. Todos se assustaram.
Tiana revirou os olhos.
– ora como sempre quer ser o centro das atenções!
– Tiana, ha quanto tempo irmãzinha irritante. O que faz aqui? Não veio interferir, veio? Sabe bem o que isso ira causar.
Tiana, que até então estava de costas para o irmão, virou para encará-lo.
– mas… porque esta assim?
– o que?
– super normal uma criatura metade homem metade cabra!
– é bode. E o que tem? Eu estava ocupado, normalmente as almas vêem e do nada tive que vir buscar. Eu tava com uma mulher e ela gosta dessa forma.
– não quero saber o que faz no seu tempo livre, fique na forma verdadeira.
– já te disseram que é muito chata? -Tiana nada disse apenas o encarou com os olhos estreitos — tá bom.
Uma chama voltou a aparecer e ao desaparecer revelou desta vez um homem bonito e elegante, todo de preto e sem tirar os óculos.
– feliz queridinha?
– muito obrigada. Disse seca.
– então, não respondeu. O que faz aqui?
– vim ajudar libertando a alma.
– queria me ajudar?
– lógico que não. Queria ajudar a alma da pobre moça. Aliás, ela morreu injustamente, não deveria levá-la.
– lá vem você de novo com essa historia, não é problema teu. Trato é trato.
– mas é problema meu!
Pela primeira vez deste que Baltazar chegou Key se pronunciou.
– e quem… ah! É verdade você foi à causa da minha vinda.
– o que?
– ah! Então não sabe? Sua querida amada morreu lutando contra isso por sua causa, algo a ver com amor eu acho, mas sabe como é… odeio isso. Disse com desdém abanando a mão em descaso.
– por minha causa a alma dela esta presa?
– finalmente entendeu! Bom, então vou pegar a alma e sair tenho mais o que fazer do que conversar com reles mortais.
– espere.
– hum?
– quero fazer uma troca.
– quer dizer um trato?
– não, não negocio com trapaceiros. É uma troca. Eu deveria ter morrido então me leve no lugar dela e deixe que sua irmã a traga de volta.
– não, vai dar... trabalho demais.
– pare com isso, sabe que minha alma tem mais valor para você do que a dela.
– é, você é inteligente. É verdade, mas não sei não… ele fingiu pensar no assunto inocentemente.
– vamos logo, é pegar ou largar.
– que seja a alma dela só ocuparia espaço, a sua pode ser útil.
Baltazar levantou as mãos preparando-se para arrancar a alma de Key quando Tiana interrompeu.
– pare Baltazar!
Ele suspirou.
–o que quer?
– não pode fazer isso.
– posso e vou.
– não é justo, ela morreu para salvar a vida dele.
– e agora ele quer ser levado em troca dela, tá equilibrado então vale. Sua voz era irônica.
– não ambos querem morrer por amor, meu trabalho é interceder por essas almas, mesmo porque não foi uma morte justa.
– quem liga pra justiça? Fica quieta. Bom, onde eu estava… ah! Sim.
Ele levantou as mãos de novo e é interrompido mais uma vez, desta vez pelo capitão.
– espere.
Baltazar abaixou as mãos de novo, suspirou e revirou os olhos.
– não, é sério gente. Tenho mais o que fazer. Que quer?
– sua irmã tem razão, não é justo.
– olha, veja por esse lado, minha irmã pensa sempre que esta certa e isso não conta — Tiana o olhou com desprezo, ele a ignorou — eles se gostam e isso não me interessa. Mas posso fazer a troca, pois apesar de tudo estou de bom humor e ele sempre foi impiedoso aqui apesar de toda sua honra, então ele pode ser útil. E todo mundo fica feliz.
Tiana se sentiu enojada e ao mesmo tempo deslocada, ela e Baltazar não tinham nada em comum e vendo como o irmão agia com ignorância se sentiu pior. O capitão se levantou e ficou frente a frente com Baltazar sem medo, apesar de ser quem era sua aparência era de um homem de vinte e poucos anos, portanto era inexperiente, pelo menos era nisso que se apegou para não entrar em pânico.
– mesmo que esse garoto não tenha sido muito bom, ele tem motivos. Ser pirata não é fácil e temos que fazer nossas escolhas e não concordo com o que diz quanto a honra não ser útil, ele é o homem mais honrado que já conheci, sabe seus limites e nunca faz o que não acha certo, ao contrario de mim que durmo todas as noites, ou melhor, não durmo por tudo que fiz.
– isso foi tocante, sério. Bom, pra falar a verdade não foi, mas enfim, ele decidiu e eu aceitei. Assunto encerrado.
– então vou te fazer uma nova proposta.
– ah! Hoje estamos cheios de novidades. Fale, estou aberto a opções.
– me leve no lugar deles.
– o que?!
Todos responderam em uníssono, menos os deuses presentes, não acreditaram no que ouviram. Baltazar sorriu.
– deixa ver se entendi… — ele começou a andar de um lado para o outro massageando o queixo, pensativo — quer me dar a sua alma pela dos dois? Isso é um pedido estranho, você demorou a fazer sua fama de assassino e agora quer jogar tudo para o ar? Já pensou que vai jogar tudo fora inclusive seu sonho que esta aqui — ele apontou para a fonte — pela vida de dois jovens inexperientes?
– sim.
– o que te faz pensar que vou trocar duas almas por uma?
– sabe bem que minha alma é mais valiosa que a deles, juntas, justamente por eu ser um assassino. É fácil de adivinhar que você se alimenta de almas e mais fácil é saber que almas poluídas são melhores, então acho que será sensato e me levara.
– é corajoso capitão e tem razão quanto ao valor. Você é mais útil, adoraria ter você trabalhando para mim, mas tem certeza disso? Ou pensa que por se entregar seus outros pecados não contam e você vai para o céu?
– tenho certeza e posso não apagar uma vida de crimes, mas pelo menos me redimirei um pouco. Estou pronto.
O capitão abriu os braços e baixou à cabeça, Baltazar abriu um sorriso maior que o anterior, os outros piratas não interferiram, pois sabiam que nada o faria mudar de idéia. Baltazar começou novamente o feitiço erguendo as mãos, mas quando ia eliminar o capitão Key entrou na frente.
– não! — ele ficou entre eles, Baltazar não ligava para a intromissão e Tiana o conteve, ele parou outra vez revirando os olhos, indignado — capitão não pode fazer isso.
– posso e vou garoto.
– o senhor não tem nada haver com isso, eu devo ir.
– calado! Não diga bobagens — ele o olhou tristemente — garoto é o mínimo que eu posso fazer. Você é como um filho para mim e eu já estou velho, já fiz tudo que queria.
– mas e a fonte?
– para mim já não vale mais nada, percebi que estava atrás da coisa errada e agradeço por me mostrar isso.
– não entendo.
– minha ganância me cegou, fazendo me esquecer de que faltava o mais importante. E graças a você e á aquela doce menina — ele olhou para Elizia — eu voltei a enxergar a verdadeira importância da vida. Essa ligação que vocês têm é forte e isso me dá muito orgulho, o suficiente para deixar que vivessem.
– mas…
– nada de “mas” já tomei minha decisão e agora saia — ele sorriu — nunca me senti tão livre e… diga a ela para controlar os nervos, ela se irrita muito fácil. E também não quero que vocês fiquem se lamentando, siga em frente sempre — ele olhou para Baltazar- pronto, vamos logo com isso.
Key abaixou a cabeça e se distanciou segundos depois uma luz forte apareceu e passou pelo corpo do capitão como uma flecha e levou sua alma, seu corpo caiu inerte e morto.
– adeus capitão.
Disse Key por fim enquanto todos baixavam a cabeça demonstrando respeito e rezando por sua alma. Baltazar ainda sorria dessa vez com mais prazer e olhou para Tiana.
– adeus minha irmã.
E na mesma chama em que veio ele desapareceu. Key olhou para Tiana que se aproximou olhando-o ternamente.
– por favor, traga-a de volta.
Ela assentiu sem nada dizer e foi até o corpo de Elizia e apoiou sua mão no peito dela fazendo uma luz branca brilhar e ao retirar a mão assoprou em seu rosto e sorriu se afastando.
Elizia não se movia. Key encarou Tiana, sério.
– não funcionou, ela não esta se movendo!
Tiana manteve o sorriso doce.
– ela precisa de um tempo para acreditar que tudo finalmente acabou — ela começou a sumir e a voz a se distanciar — mas ela ira voltar.
E desapareceu.
Key estava confuso, mas acreditou nas palavras da deusa e se sentou ao lado de Elizia, esperando.
De repente a caverna começou a tremer e ao fundo uma brecha se abriu na rocha revelando a saída. Os piratas se alegraram e relaxaram, estavam livres, mesmo com uma ponta de dor começaram a sair enquanto alguns pegavam o corpo do capitão para fazer um enterro decente. Key continuou ali enquanto os outros saiam, ele ficava lá sentado esperando alguma reação de Elizia, ele estava começando a se desesperar quando viu que mesmo fracamente o peito de Elizia subia e descia no movimento leve da respiração.
Key respirou, aliviado e se levantou pegando-a no colo e saindo da caverna para nunca mais voltar e as suas costas a brecha se fechou escondendo permanentemente a Fonte da Eternidade.
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