O Portal
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O sol estava forte, Key se levantou um pouco dolorido, não dormiu em um lugar muito confortável noite passada, Elizia dormia profundamente em sua cama, ele saiu da cabine tentando não fazer barulho. Já do lado de fora o navio continuava deserto. Key foi até a proa e olhou para a ilha, ela estava diferente não parecia mais tão imprestável, estava até pacífica, ele andou pelo navio, estava silencioso, o único barulho era das velas balançando ao sabor do vento- leste. Provavelmente os outros não viriam pelo menos até conseguirem acordar e com toda a certeza tiveram uma grande noite e agora terão uma enorme dor de cabeça.
Elizia se levantou e se espreguiçou, não se sentia tão bem desde que ganhara a cama no pequeno apartamento no centro, seu corpo ainda doía, mas com bem menos intensidade desta vez, já de pé recolocou a roupa que fizera e decidiu que precisava de mais, a cabine estava vazia, Key não estava, ela decidiu ver o movimento, saiu.
Fora da cabine à primeira coisa que fez foi respirar fundo como se tentasse armazenar aquele cheiro de mar e pureza, caminhou pelo navio e notou que ninguém tinha voltado ainda, subiu as escadas e olhou o mar que estava mais ativo do que na noite passada, mas ainda estava lindo, olhou a ilha enquanto o vento fazia seu cabelo chicotear levemente seu rosto, era difícil de acreditar que uma ilha tão pacifica, era chamada de ilha dos pecados, e no fundo ela não queria saber o porquê.
– não deveria descansar?
Uma voz conhecida soou atrás dela, Elizia virou-se sorrindo.
– é… talvez. Só digamos que descansar não é o meu forte.
– é justo, mas ainda esta fraca.
– sei, mas certo cara me desafiou a vencer minhas dores e limitações.
– ele parece inteligente.
Key a olhou com superioridade, Elizia o encarou ironicamente.
– não, ele esta mais para convencido sabe.
– ai. Essa machucou!
– menos, Key.
Eles riram.
– agora sério, Elizia, precisa mesmo descansar ainda esta machucada.
– pode ser, mas quero fazer algo e não ficar parada esperando, isso é chato!
– certo, mas o que pretende fazer?
– bom, estava pensando…
– você faz isso?! Key fingiu estar surpreso.
– ha! — ela o fuzilou com os olhos — quietinho, enfim como eu ia dizendo, que tal você me ensinar a ser uma pirata, disse que isso ia acontecer hoje.
– é você tem razão, mas não posso fazer muito, já sabe lutar com espadas, o que mais posso fazer? O capitão te dará as ordens e você cumprirá sem questionar.
– eu sei, mas sei lá, me ensina como me comportar, como atirar, qualquer coisa!
– ta bom, relaxa. Já sei o que posso ensinar, não sabe usar armas, menos ainda as dessa época, posso te ensinar e também o código dos piratas, já é um bom começo, o resto serão ordens e não poderei fazer nada.
– tá, o que vamos fazer primeiro?
– mira. Vou te ensinar a atirar.
Key desceu e logo em seguida voltou com garrafas e uma pistola.
– tome — ele entregou a arma — vai acertar essas garrafas, você tem sorte de que o navio foi atacado recentemente, o capitão não gostaria de buracos na embarcação.
– quem disse que vou errar?
– você vai.
Ele posicionou as garrafas e foi até Elizia.
– bom, vamos começar, posicione a arma — Elizia a levantou e segurou com as duas mãos — mais o que tá fazendo?
– não mandou posicionar a arma?
– mandei, mas não é assim. olhe — ele pegou a arma que estava no cinto — relaxe os ombros, tem que ter mira, só isso, se ficar assim — ele a imitou- esta pensando demais e será um alvo fácil, e também será difícil de ser ágio, é mais fácil assim — Key segurou a arma com uma mão, ficando de lado com o braço estendido, olhando para a arma — é lógico que para atirar assim, precisa de firmeza e boa mira.
Key voltou à posição normal.
– assim?
Elizia ficou na mesma posição.
– quase — ele foi até ela e ergueu mais seu braço — é lógico que estou te ensinando para dar um tiro no peito de alguém, a mira é reta, mas desde que o corpo esteja assim para poder desviar e atirar com mais rapidez a altura do braço depende de onde pretende atirar, entendeu?
Ela assentiu.
– bom, agora atire.
Elizia apertou o gatilho, o impacto oposto fez com que ela saísse da posição e erguesse o braço mandando o tiro para o céu.
– foi mal.
–é… isso foi horrível!
– valeu.
– desculpa, mas foi verdade. Não tem problema, tudo bem, toda arma da um tranco quando se aperta o gatilho. Apenas fique firme.
– entendi.
–relaxa e segure a arma com firmeza — ela apertou a mão envolta da arma — assim não, disse firme, não pra se machucar, não agüentaria uma hora atirando assim — ele foi até a mão dela e aliviou, deixando firme — melhor. Agora é assim, finque seu corpo no chão e mantenha o braço estendido, agora mire usando o ferro na ponta da arma. Atire.
Elizia tentou outra vez, desta vez ela acertou a garrafa de raspão.
– isso, bem melhor.
– é, tenho que admitir, é mais fácil assim.
– eu disse, mas ainda não entendeu o que eu disse da mira, mas antes de eu te mostrar, tem que carregar a arma.
– sério? Já tá descarregada?
– já.
– dois tiros, que pobreza, pensei que tinha mais.
– Elizia, isso não é uma metralhadora calibre 50, é só uma pistola do século XVIII, a galera não tem nem idéia do que é uma metralhadora!
– tá, mas como se carrega essa velharia?
– tome — ele jogou duas bolinhas de chumbo — apenas coloque no cano, é só puxar o disparador, cuidado pra não prender a mão e nem bater isso no chumbo se não explode.
– certo — ela repõe a munição — chumbo? Se eles soubessem o quanto isso agride o ambiente.
– estamos em meio a uma guerra marítima, acha mesmo que vão se preocupar com florzinhas?
Elizia abriu a boca para responder, Key a interrompeu.
– Elizia, isso é retórico, não tem que responder.
–eu sabia, só estava esperando você me corrigir. Diz aí — ela se arrumou novamente para atirar — posso?
– vai. Só que dessa vez mire no meio da garrafa, onde seria o rotulo, no caso.
Elizia atirou e acertou em cheio a garrafa que foi espatifada e os pedaços sumiram no mar.
– ehhh! — Elizia começou a pular — eu consegui!
– bom, agora derrube as outras, mas tem um detalhe…
Elizia parou de pular e olhou desconfiada para ele.
– que é?
– vai ser tipo um jogo, vai correr, desviar e atirar toda vez que eu disser “ agora” como se tivesse lutando. Veja isso como um teste.
– te odeio. Sabe que to machucada e age assim. Você é muito cruel, sabia?
– sei, mas vai te fazer bem, você mesmo disse que queria treinar, então comece.
Elizia começou a correr, se esconder e desviar como se tivesse sendo atacada e a cada segundo ela tinha de derrubar uma garrafa toda vez que Key ordenava e depois de um tempo ele começou a deixar o alvo móvel, jogando as garrafas para o céu e fazendo ela acertar. Elizia foi bem, o que aprendera de mira antes ajudou muito, eles pararam.
– como fui?
Ela perguntou ofegante.
– foi bem. Mais que pensei.
– e um ponto para mim!
– ha!
– Key, sem querer ser intrometida, nem nada do tipo, eles não deveriam ter voltado?
– sim.
– não está preocupado?
– não, eles sabem se cuidar e… — ele escutou o barulho de algo batendo no casco — e eles chegaram.
– como?
Eles se levantam e descem a escada indo até a borda do navio. A tripulação e o capitão estavam subindo a bordo.
– viu?
– vai escutar assim lá no inferno.
Key riu.
– bom pelo menos você é sincera.
– eu sei…
O capitão adentrou o convés.
– bom dia, capitão — disse Key cordialmente e continuou com um sorriso malicioso — se divertiu?
O capitão deu uma gargalhada rouca.
– mais do que possa imaginar, meu caro – o capitão parou de rir e olhou seriamente para Elizia- e você, menina, ainda quer continuar? Pensei que já havia fugido.
– não sou medrosa, capitão, não vou desistir ainda da brincadeira.
– é bom saber. Tenho que admitir, que foi mais que o esperado, achei que com essa pergunta ia pelo menos responder em duvida, mas foi bem firme.
– é. Normalmente vejo isso como uma qualidade.
Todos os que haviam saído já estavam de volta ao navio, alguns puxavam os bateis que foram.
–ei! Quero que consertem já esse navio antes de zarparmos e limpem todas essas manchas no convés.
Todos responderam em uníssono ao capitão.
– sim, capitão.
E foram fazer seus respectivos trabalhos, o capitão olhou para Elizia e Key.
– e vocês venham comigo, vamos subir.
Subiram novamente às escadas, o capitão virou-se para Key.
– como eu já havia dito, é você que vai cuidar da garota e continuar com suas funções de antes.
– tudo bem, mas o que ela fará?
– vamos começar pelo fácil, limpar o convés.
– ah, pode esquecer.
Elizia interveio na conversa.
– o que disse? — O capitão a encarou — questiona minhas ordens?
– com todo respeito capitão, não sou boa em limpeza, alem do mais não é porque sou mulher que só servirei para cozinhar e limpar.
– entendo, mas isso é uma ordem e você não questiona, alem do mais você não teria força para os outros trabalhos.
Elizia o olhou, furiosa, Key passou a mão no rosto e antes que ela dissesse alguma coisa errada ele interveio.
– Elizia não — ele colocou a mão na frente dela- capitão, sei que suas ordens são inquestionáveis, mas ela tem mais potencial que parece, ela pode fazer outra coisa, como cuidar das velas e ser a vigia, afinal não estamos tendo muita sorte com quem colocamos lá.
– é você tem razão, mas as velas? Ela não teria força para prendê-las.
– é um teste, não custa tentar.
Key olhou com determinação, o capitão suspirou e respondeu sério.
– certo, mas não quero confusão tudo que der errado é mais trabalho pra você, vá e a ensine.
– obrigado.
Key se virou e começou a ir embora empurrando Elizia, que ainda estava irritada. Já no convés Elizia disse:
– quem ele pensa que é? Ele me chamou de imprestável! Eu deveria ir lá e…
– e ficar quietinha e obedecer, Elizia ele não te conhece, não sabe que é mais teimosa que o próprio diabo, mas ele será seu superior e acabou, terá de obedecê-lo gostando ou não, ele não é tão ruim só precisa conhecê-lo e se ele te conhecer e gostar de você, vai ser bem melhor, só o que precisa é provar que é capaz.
– odeio quando você tem razão, sabia?
Key deu um sorriso de canto.
– eu sei.
– tá, agora diz o que eu preciso fazer?
– vai vigiar, isso é fácil é só ficar lá em cima e tudo de anormal gritar…
–e o que seria anormal?
–um navio estranho, fumaça e se procurarmos por terra, você também deverá nos avisar. E também vai cuidar das velas soltá-las ou prendê-las dependendo do vento, normalmente o capitão dá ordem.
– saquei, mas como vou fazer?
– bom — ele pegou uma corda — para prender alguém vai puxar essa corda e você que estará em cima do mastro puxará a vela para ela não enrolar.
– por que ele disse que eu não ia ter força?
– por que o pano é pesado e você terá que meio que se equilibrar no mastro.
– e outra coisa quando não estiver na vigia, vai ficar aqui em baixo e ajudar a arrumar a carga, terá pouco tempo para subir na vigia, isso a qualquer hora.
– difícil.
– viu? Foi isso que ele quis dizer.
– eu vou conseguir…
E antes que ela terminasse o capitão gritou.
– soltem as velas! Vamos zarpar!
Key a olhou.
– faço isso hoje pra você, olhe.
Ele escalou a corda e começou a subir. Outro pirata já pega a corda que soltara a vela, Elizia tentou subir na corda, não consegue, ela não era boa em escalar cordas assim.
–droga — ela sussurrou — assim eu não vou subir a tempo, não tenho agilidade e nem força pra isso — ela fechou os olhos — pensa, pensa, preciso de outro modo de subir- ela abriu os olhos e olhou para cima — mas como?
Elizia viu uma corda que estava presa no mastro, mas sem utilidade, enquanto as velas começavam a cair ela pegou a corda e puxou, vendo se estava firme, ela sorriu maliciosamente.
– encontrei.
O capitão olhava para Elizia tentando adivinhar o que se passava em sua mente, Key a olhava do topo do mastro tentando imaginar a mesma coisa . De repente Elizia correu para a borda com a corda na mão e pulou, ficou rodando pelo ar pendurada e em uma fração de segundo ela dá um tranco na corda mudando sua rota indo para cima e de repente ela soltou a corda e começou a cair. Key se levantou rápido e foi até ela tentando segurá-la. O capitão estava estático.
Key não conseguiu segurá-la, ela passou reto, ele estava assustado, mas antes que chegasse ao chão Elizia segurou no tronco onde Key estava e rodou como uma ginasta, saltando e caindo de pé em cima do tronco.
– tcharan!
Ele e o capitão, que observava de longe, ficaram boquiabertos, Elizia andou graciosamente sobre o tronco, a mais de dez metros do chão do convés, parando de frente para Key e fechando-lhe a boca.
– cuidado se não baba.
Ela sorriu, ele continuou estático e disse sério:
– o que deu em você?
– só precisei de um modo mais pratico para subir mais rápido, não ia conseguir escalar mesmo.
– podia ter morrido!
Ele estava começando a se descontrolar, mas se manteve calmo.
–não, pra falar a verdade eu sabia o que tava fazendo, fiz ginástica artística por três anos quando era mais nova e era a melhor em saltos com barra, alem disso também queria saber se ainda sabia fazer isso.
– e se não soubesse?
– bom, a moeda tem dois lados.
– você é louca!
–eu sei é por isso que sou feliz. Agora o que tenho de fazer?
Key revirou os olhos e começou a ensiná-la e o capitão voltou a conduzir o navio e os dias se passaram assim, o capitão sempre era surpreendido por Elizia e ao mesmo tempo ela a cada dia conquistava mais sua confiança.
Jonathan voltou a fazer parte da tripulação depois de implorar pela sua vida o capitão concedeu-lhe mais uma chance. Ele não gostou do jeito que as coisas iam indo, ele foi deixado de lado e trocado por uma mulher, Elizia tomara o seu lugar como o segundo preferido do capitão só perdendo para Key.
Elizia estava no mastro prendendo uma corda na vigia quando ouviu a voz grave do capitão a chamar.
– ei! Menina venha já aqui!
Elizia se levantou e escorregou pela corda caindo suavemente no chão, ela andou tranquilamente até a escadaria e subiu. Já era reconhecida por todos. A tripulação a respeitava e ela até se divertia com eles, o único que ainda a odiava era Jonathan. Chegou ao topo da escadaria e fez uma reverencia.
– capitão, em que posso ajudar?
Key estava lá em cima no timão, quando Elizia apareceu, ele olhou rapidamente para ela e sorriu, ela retribuiu o sorriso antes de se dirigir ao capitão.
– acertei o curso para Londres, vamos colocar o plano em ação. Está pronta, menina?
– sim, mas não acha que é cedo?
– não, a não ser que esteja com medo.
Elizia deu um pequeno sorriso.
– vai ser divertido.
– é bom saber, mas antes vamos parar em uma ilha para abastecer.
– como quiser, senhor.
– ótimo — ele olhou para o convés — vou ver como estão às coisas lá em baixo, se quiser pode ficar aqui.
– obrigada.
O capitão deu um curto sorriso e começou a descer as escadas e advertir alguns piratas.
Elizia foi até o timão e pousou a mão sobre ele olhando para frente.
– é isso vai ser problemático.
– porque diz isso?
Key perguntou ainda acompanhando o movimento das ondas na frente do navio.
– me tornei uma pirata. Irei mentir, enganar e seqüestrar uma amiga e ainda por cima me tornei fugitiva correndo o risco de ser enforcada.
– bom… achei que era isso que queria.
– vai ser divertido – ela o encarou — afinal o que seria da vida sem o perigo de morte?
Key sorriu.
– seria mais longa.
–é tem razão, seria longa e… chata.
–é, seria.
A conversa foi interrompida com um grito do vigia que estava no lugar de Elizia, a ilha estava próxima.
– x -
Key atracou o navio perto da costa e então ouve a voz do capitão.
– não quero demora! Então todos vão atrás de armas, madeira, água e comida, todos que não vão carregar, sem exceção!
A ilha em que haviam parado era refugio para piratas, mas o navio estava seguro onde fora atracado. Os únicos que ficariam no navio era o próprio capitão e os piratas que iam carregar a pilhagem. A tripulação sairia para pegar o que o capitão mandara, “todos que não vão carregar” ele disse, ou seja, Key e Elizia não estavam fora dessa.
Os tripulantes que tinham que fazer a pilhagem foram com o batel para a ilha.
Já na ilha Key que fora encarregado das ordens, disse:
– vocês sabem o que fazer! A cidade está a alguns metros quero que cerquem a cidade e saqueiem tudo que o capitão quer, se alguém tentar impedir eliminem, vocês são piratas que não tem misericórdia! Para o nosso bem não devemos ser impedidos, peguem o que for preciso e saiam, sem chamar a atenção, somos ladrões, não assassinos.
Dito essas palavras, a tripulação se dissipou. Key pegou a mão de Elizia e disse:
– você vem comigo, será seu primeiro saque e não vou deixar você ir sozinha.
Eles começaram a correr floresta adentro paralelamente sem se tocarem.
– para.
Key se dirigiu a Elizia que parou bruscamente.
– o que foi?
– aqui já está bom.
Eles pararam a um metro do termino da floresta densa podiam ver um vilarejo bem desenvolvido, contudo não chegava a ser uma cidade, Elizia olhou com atenção.
– é impressão minha ou estamos em Port Swurt?
– não é impressão, estamos em Port Swurt.
– incrível! É lindo esse vilarejo! — ela baixou os olhos — pena que vai virar pó e desaparecer.
– é, não dá pra se ter tudo na vida…
– realmente — ela o encarou — o que eu faço?
– o que todo pirata faz, roubar, entrara na casa pegara tudo que tem de valor e sairá.
– mas e se a casa não estiver vazia?
– vai ameaçar, você é boa nisso, duvido que alguém te enfrente se o fizer elimine.
– tão cruel assim?
– você quis isso, alias ou sua vida ou a deles e acredite se salvar alguém e você for parar na forca, esse alguém será o primeiro a te apedrejar.
– tudo por aqui é assim?
– é, mas não mate se tiver escolha, vai sentir cada alma que foi morta por luxuria em seus ombros.
– certo.
Elizia começou a andar até o vilarejo enquanto Key dava a volta indo a outra casa.
Elizia estava com a espada em punho e podia escutar ao longe vozes de mulheres rezando pela vida e crianças chorando em desespero, isso era triste, mas tinha de ser feito sem derramamento de sangue. Ela entrou em uma casa pela janela e se escondeu atrás de uma mesa, a casa parecia estar vazia, ela avançou devagar procurando algo de valor e encontra prata, coloca em um saco e continua pegando moedas de ouro que tinham sido escondidas e vasos que valeriam algo. Ao terminar saiu sorrateiramente e continuou assim por mais sete casas, algumas tinham pessoas as quais ela rendia e fazia com que trouxesse o que tivessem de valor, tentando manter-se imparcial, mesmo vendo o rosto de mulheres com medo e crianças chorosas, ela não levantou a espada uma vez para atacar. E a cada casa que saia ela olhava para trás e agradecia mesmo sabendo que estava errada tentou ser pelo menos educada, o que deixava as vitimas confusas demais para reagir.
Sua ultima casa, Elizia entrou novamente pela janela, esta casa parecia estar vazia, o que a deixou aliviada enquanto pegava as coisas, era a casa com mais coisas valiosas, o que alem do alivio fez com que ela baixasse um pouco a guarda.
– largue o saco e a espada agora!
Elizia paralisou e empalideceu, sentindo a ponta de uma espada em suas costas enquanto ouvia a voz clara de um homem. Ela o obedeceu soltando as coisas ia ter que pensar em outra maneira de se libertar.
– vire-se — ordenou o homem — quero ver o rosto do ladrão que ousou me roubar!
Elizia se virou devagar e estacou ao ver quem tinha te rendido.
–Phi… Phil?…
Phil estava boquiaberto e demorou a ter alguma reação, quando o fez só conseguiu dizer uma palavra.
– Elizia?
–Phil! — ela saiu do transe — o que faz aqui? E por que esta vestido deste jeito, parece um… oh, Deus!… você é um pirata!
– eu… não… por… por que… eu… Ser…
Ele estava constrangido e deixou cair à espada, ela continuou.
–é lógico! Só pode ser. Você é um pirata! Não minta para mim!
– tudo bem, senhorita, você me pegou, mas não sou só eu que tenho segredos — ele a olhou de cima a baixo desconfiado e objetivo — você também é pirata, não é?
– é… eu… como…
Foi à vez de Elizia se constranger, ele deu um sorriso.
– é você deve ser pirata.
– não — ela pensou em na desculpa perfeita — como posso ser pirata? Pelo que sei piratas não aceitam mulheres na tripulação, não sou uma pirata.
– mesmo?- ele puxou uma cadeira e se sentou, empurrando outra para Elizia com o pé, ela se sentou — aqui mulheres não usam botas nem calças, usam vestidos e saltos. E você esta com roupas masculinas com um toque gentil feminino, ou é uma pirata ou pretende ser, mas eu diria que é por que estava me roubando.
– tudo bem — ela colocou a espada que pegou no chão de volta a sua bainha — então agora vamos ser sinceros? Vamos dizer a verdade? Então comece a falar. Já te desmascarei de qualquer maneira.
– tem razão, me desmascarou, minha casa mostrou que não sou um simples morador deste lugar e minhas roupas denunciaram quem sou. Então vou ser sincero. Sim, sou um pirata e você?
– bom, não há o que esconder. Sim, eu também sou.
– mas o que disse era verdade; nós, piratas, não aceitamos mulheres na tripulação.
– digamos que piratas apesar de miseráveis são honestos, quando tem um trato eles o cumprem.
– é verdade, podemos ser ladrões, ordinários e criminosos, mas não somos desonestos nem assassinos, lógico só se precisar. Pra quem trabalha?
– não irei dizer. Sabe como é; hierarquia pirata, pirata não confia em outro pirata, isso pode custar à vida, sinto muito, não irei dizer.
– é justo, não vou querer saber, mas agora vamos falar de algo que me interessa. Estava roubando minha casa, tem duas escolhas, uma: deixe as coisas e saia, duas: deixe as coisas saia eu não conto o que sei.
Elizia riu ironicamente.
– desculpe Phil, mas não vai dar, pensei em uma terceira alternativa você me deixa sair, com as coisas e eu fico de bico fechado sobre você.
– não vai dar — ele se levantou, pegou a espada e ficou em guarda — sou honesto…
– é difícil ouvir isso de um pirata.
– eu sei, mas escute, sou honesto então vamos fazer um trato. Nenhum dos dois fala nada e quanto às coisas, para um capitão ter te aceitado na tripulação, mulher ou não, tem que valer a pena, ou seja, você deve ser boa para lutar e pelo visto esta aprendendo agora a saquear, mas isso não vem ao caso. O caso é que se conseguiu entrar é porque sabe lutar, quero ver o que sabe, se me derrotar leva as coisas e eu não questionarei, mas se perder ira embora sem nada. Então temos um trato?
–hum… é justo — ela tirou a espada e ficou em guarda- vamos ver o que sabe fazer.
Eles começaram a lutar. Ambos eram bons, o que deixou acirrado tal batalha.
– tem um bom jogo de pés, senhorita.
– obrigada. Ah!
Elizia o golpeou no peito com o joelho, ele se afastou.
– essa luta é séria, não? Sinto por isso, mas não posso perder.
– entendo — ele se ergueu — não queria que aliviasse Elizia, alias pode vir.
Ela atacou, ele desviou a espada dela e a roubou, deixando-a desarmada por alguns segundo tempo suficiente para um forte golpe no tórax de Elizia a jogando na prateleira. Ela caiu de bruços, inerte.
– a luta já acabou? Você é boa mais não o suficiente, pode levantar e aceitar que perdeu… Elizia?
Ele foi até ela e a balançou levemente.
– Elizia?… está me ouvindo? Essa não! Não posso tê-la ma…
Em uma fração de segundo Elizia deu uma rasteira em Phil, o derrubando, ela se levantou rápido, pegou a espada e sentou em cima dele, imobilizando-o com a espada em seu pescoço. Ela riu.
– sabia que não ia resistir em chegar perto, desculpe esqueci-me de dizer que sou uma ótima atriz, te trouxe até mim e você ficou vulnerável. Então? Venci? Ou essa luta ainda continua?
Ele sacodiu a cabeça negativamente dificilmente e sussurrou quase sem ar:
– você… venceu.
Elizia o soltou, ele respirou rapidamente recobrando o ar, ela se sentou ao seu lado e o puxa apoiando a cabeça dele em seu colo e sorriu.
– desculpe Phil, não quis te machucar, você me perdoa?
Phil se sentou de frente para ela, seu rosto estava suado deixando a barba e o cabelo grisalho molhado, ele sorriu com algumas rugas no canto dos olhos.
– impressionante — ele controlou a respiração — só uma mulher teria a engenhosidade de pensar nisso e a luta foi justa, jamais ficaria sem te perdoar, menina.
– obrigada. Então ainda somos amigos, certo?
–claro — ele se levantou e estendeu à mão — as coisas são suas.
Elizia se apoiou para levantar.
– obrigada.
– tem certeza de que esta bem?
– sim, vou sobreviver.
– bom.
Elizia pegou as coisas e foi até a janela, mas antes de sair ela hesitou.
–o que foi? Phil pareceu preocupado.
– Phil- ela o encarou — pode me fazer um favor, como amiga não como adversária pirata?
– claro, não tenho porque ser um pirata para você, se me pede ajuda como amigo.
–se eu te contar um segredo, promete não usar para seu beneficio?
– senhorita agora esta me ofendendo! Você é como uma filha para mim. Vou te ajudar como Phil o cocheiro, não Phil o capitão, peça.
– certo… bom… não vou te contar o motivo, mas vamos raptar a Caroline quero que haja normalmente, arranjarei um jeito do capitão abandoná-la na ilha Curts, não quero deixá-la lá, mas não vou poder voltar, então estava pensando se…
– se eu posso pegá-la e levá-la pra casa? Claro, sempre ajudarei à senhorita e a Caroline, mas tente dizer a ela pra colaborar e confiar em mim, ela não poderá ver nem meu navio nem minha tripulação. Quando tenho que estar lá?
– eu sei. De Londres a Curts são o que? Três dias? Nesse tempo é bom estar lá para esperá-la, ela não sobreviveria uma noite numa ilha deserta — ela parou um segundo e depois continuou — ela confia no senhor e direi a ela tudo isso. Agora tenho que ir.
– adeus Elizia. Espero que possa te ver outra vez. E não se preocupe estarei esperando por Caroline.
Ela hesitou outra vez, se virou e abraçou Phil.
– obrigada por tudo.
Ela correu, pulou a janela e desapareceu floresta adentro.
– de nada, minha jovem.
Phil saiu da janela e começou a arrumar a casa desorganizada.
– x -
Elizia chegou ao lugar combinado pelo grupo, perto a uma caverna no lado norte da ilha, sua respiração estava acelerada, veio correndo, pois estava atrasada e se perdeu um pouco andando em círculos por cinco minutos. Todos estavam lá, esperando-a aparentemente, eles contavam o que tinham conseguido, ela se aproximou e colocou o saco no centro dos piratas e disse ofegante enquanto olhava para Key:
– foi só o que consegui.
Key balançou a cabeça, alguns se aproximaram e começaram a inspecionar o que ela conseguira. Key balançou a cabeça outra vez chamando Elizia para o canto sem palavras, ela o seguiu.
Eles pararam.
– posso saber onde estava? — ele sussurrou — eu estava preocupado com você, Lise.
– estou bem só… — ela o encarou de modo divertido — Lise?
– que?
– você me chamou de Lise.
– eu? Lógico que não, falei Elizia, esta escutando demais. E não respondeu minha pergunta.
– não muda de assunto, me chamou de Lise.
– e se eu tivesse chamado? — ele olhou as ondas que se quebravam na praia — isso não muda nada.
– lógico que muda! Alias… — ela também olhou para o mar e ficou um pouco corada — eu gostaria que passasse a me chamar de Lise.
Key a fitou.
– gostaria?
– bom… — ela continuou a olhar as ondas- passo muito tempo com você e… não acho errado ter outro apelido, amigos se dão apelidos de qualquer modo, então… — ela o encarou com um sorriso — pode me chamar de Lise, lógico longe da sociedade em que estamos.
Key sorriu e eles escutam a voz de outro pirata.
– senhor! — o homem se dirigiu a Key — está tudo certo, podemos voltar à embarcação — ele olhou para Elizia sorrindo- bom saque, senhorita. Foi o melhor do dia.
Elizia assentiu agradecendo, Key se pronunciou dirigindo-se ao grupo.
– então vamos voltar!
Todos pegaram as coisas e começaram a subir nos barcos a remo.
Key entrou primeiro estendendo a mão para Elizia.
– cuidado para não cair, Lise.
Ela sorriu e entrou.
– x -
Chegaram ao navio e o adentraram, Elizia e Key foram de encontro ao capitão enquanto os outros descarregavam o que roubaram e levavam para o porão.
– capitão.
Elizia e Key disseram em uníssono enquanto reverenciavam-no, Key continuou.
– trouxemos ouro, prata e jóias, sem mortes, apenas roubos limpos.
– bom- disse o capitão — e quanto a piratas? Encontrou algum?
– não.
Elizia fez de conta que não escutara a pergunta e começou a olhar em volta, o capitão percebeu.
– o que houve menina?
Ela dirigiu o olhar ao capitão inocentemente.
– nada.
– parece-me que esconde algo.
– mera impressão meu caro capitão, não tenho nada a esconder.
– ainda tenho um pouco de duvida quanto a isso, devo confiar em sua palavra?
Elizia sorriu.
– Tyler. Já estou a tempo suficiente para que você saiba a resposta a essa pergunta.
Tyler riu.
– tem razão menina, e você ainda tem coragem de me enfrentar, isso é admirável e perigoso.
– obrigada e não quero te enfrentar, apenas te chamei assim porque estamos entre amigos, não?
– é claro, vocês são os únicos que confio e espero que não seja traído por isso.
–não há com que se preocupar, aqui é o único que merece nossa confiança.
Key apenas assentiu confirmando o que Elizia disse.
– isso é bom, agora vamos trabalhar — Tyler encostou-se à borda — o curso esta acertado para Londres, logo darei a ordem assim que carregarem. Sabe o que fará menina?
– sim senhor — ela parou pensativa — e sobre isso acho que deveria ter certas mudanças.
– o que quer dizer?
– é… bom eu acho melhor eu a fazer vir por vontade, não deixar caminho livre para vocês, é mais arriscado, e também acho que não precisaremos matá-la, quero dizer, sei que ela vai saber demais, mas seria mais certo abandoná-la em uma ilha. Assim pelo menos ela tem uma chance de tentar escapar. Mas é lógico que não vamos deixá-la em uma ilha habitada.
– que idéia é essa! — o capitão começou a se irritar — não podemos fazer isso! Ela saberá demais!
Elizia engoliu em seco.
– eu sei, mas capitão pense, não somos assassinos, somos ladrões, não disse que ela irá fugir e mesmo que faça isso se a vendarmos ela não saberá aonde vamos ou o que fazemos e se todos tomarem cuidado com o que falarem, ela será inútil para eles, jamais viram atrás de nós sem as informações.
O capitão ficou em silencio, Key interveio na conversa.
– capitão, com todo respeito, não quero tirar sua autoridade, mas vendo por esse lado ela tem razão a Poirot será inútil sem as informações, vai bastar-nos o sangue não a vida dela.
O capitão manteve-se em silencio, os outros dois fizeram o mesmo, até que finalmente o capitão se pronunciou.
– certo, talvez tenham razão, mas o que te faz pensar que ela virá por vontade menina?
– ela confia em mim…
– não o fará depois de saber que se tornou fora da lei.
– isso é um risco a correr, mas alem da confiança ela me deve um favor antigo, é hora de cobrar.
– acha mesmo que ela cumprirá a promessa?
– acho, ela é uma moça de palavra.
– é um risco alto.
– eu sei, mas se não der certo voltaremos ao plano original.
– mas ai ela saberá que vai estar envolvida.
– ela iria descobrir de qualquer maneira mais cedo ou mais tarde e aí eu só oficiaria minha condição, vocês já são procurados.
O capitão nada respondeu por um minuto que parecia passar com a velocidade de uma vida, então ele perguntou:
– está pronta pra arcar com as conseqüências?
– sim.
– bom, então está feito, vamos para Londres seguindo seu plano, espero que saiba o que faz.
– eu também.
O capitão virou para a tripulação que acabara de carregar os saques.
– arrumem o curso para Londres! Vamos seus imprestáveis quero essa banheira em movimento agora!
Segundos depois o navio já voltara a navegar, Key e Elizia desceram.
Key perguntou curioso.
– sabe mesmo o que esta fazendo?
– sinceramente? Não faço à mínima idéia.
–para seu bem é bom o capitão não desconfiar da sua duvida.
– eu sei.
Em seguida cada um voltou a seu devido trabalho.
Já anoitecia, Key e Elizia voltaram à cabine, ela explicou-lhe tudo o que realmente houve na ilha e depois planejaram exatamente o que iriam fazer no dia seguinte.
As luzes de Londres manchavam as escuras águas do mar.
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