O Portal

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Boa Leitura!

Key acabou de sair de sua cabine. Todos estavam agitados, os que haviam saído voltaram.

– Key!

Do alto Key ouviu o chamado do capitão foi até lá.

–capitão- Ele fez uma pequena reverencia- em que posso ajudar?

– fiquei sabendo que ocorreu uma pequena briga enquanto sai- ele olhou para Jonathan que trabalhava no convés- é verdade?

– sim, podemos dizer que eu não fui com a cara dele hoje.

– ele me disse o que houve, mas quero saber de você.

–bom. Você disse que só tinha interesse no sangue da garota, não se importava com o que faziam com ela.

–sim, sei o que eu disse e daí?

–e daí que eu também não liguei, mas eu não tinha nem visto a garota e a vi por acidente, tive certa simpatia por ela e já estava me cansando aquele ar de machista do Jonathan...

–então gostou da garota, a quis para si?

–é, você mesmo disse que toda vez que íamos para a ilha dos pecados, eu não passava a noite com nenhuma das mulheres só bebia, você me incentivou e creio que ela é do meu agrado.

O capitão o olhou com desconfiança, logo depois abriu um sorriso travesso.

–esse é o meu garoto!- ele deu um soco no braço de Key como brincadeira- demorou, mas finalmente vai sair da seca! Ha! Ha!

Key revirou os olhos. O capitão voltou a ficar sério.

– mas não se esqueça ela é problema seu, e não pense que só porque estou te dando uma mulher vai ficar sem trabalhar e ainda precisamos do sangue dela, então não o polua.

– do sangue dela?

– é esqueceu-se que o sangue dela ira nos dizer onde esta a fonte da eternidade.

– mas não era o sangue de Caroline Poirot?

– exato, é ela, a não ser que você tenha outra idéia quanto a isso, tem?

– não- Key sorriu — fiquei um tempo fora, não me lembrava do rosto dela, só isso, estou meio confuso acho que bebi demais.

–isso acontece afinal somos piratas, que pegam tudo o que querem.

– sem nunca devolver.

– isso mesmo.

– vai precisar de mim, tenho afazeres na cabine.

Key disse com um olhar malicioso. O capitão riu.

–não, por enquanto os outros fazem o trabalho, divirta-se garoto!

– obrigado, Tyler- ele fez uma revencia- capitão.

E foi embora escutando os risos agudos do capitão e de longe escutou o capitão dar suas ordens, ele entrou na cabine e disse enquanto trancava a porta de novo.

– não foi difícil corrigir o que fez, mas que historia é essa de filha do…

Key se virou e viu Elizia na cama dormindo. Ele se aproximou, ela parecia estar tranqüila, puxou a cadeira da mesa o sentou-se, depois de tirar o cinto com a pistola e a espada apoiando os braços no encosto da cadeira. Deitou a cabeça sobre os braços “como ela consegue me criar tanta confusão e eu sempre sentir sua falta?”, pensou ele enquanto olhava pela janela e a observava de vez em quando.

– x -

Elizia abriu os olhos devagar.

–que bom que acordou, me deve explicações.

Elizia ficou apoiada nos cotovelos e olhou para o lado, Key, como agora deveria chamado, estava sentado na cadeira limpando a espada.

– que explicações? .Disse ela um pouco sonolenta.

– você mentiu outra vez, não é? Filha do conde? Desde quando?

–olha. Eu estava entre a vida e a morte, era isso ou morrer.

– você sabe a confusão que se meteu?

– quanto? — ela se sentou — de 0 a 10?

–11.

– nossa me superei.

– pois é, o que vai fazer agora?

– esperava que você soubesse.

–e se eu não tiver idéia?

–ai, eu to simplesmente ferrada.

–não tenho nenhuma idéia do que fazer, você enganou o capitão provavelmente quando ele descobrir você morre e eu também.

– obrigada por ser positivo e porque você também?

–porque você esta aqui por minha culpa, se não tivesse me conhecido, não estaria em risco, é meu dever te proteger.

– não precisa me proteger e que fofo você tá preocupado comigo.

–não, só tenho que honrar minha conduta.

–sei…

De repente eles escutaram uma explosão e sentem um tremor.

– o que esta acontecendo, Key?!

–estamos sendo atacados.

Ele se levantou, colocou o cinto e colocou a espada na bainha.

–fique aqui, não saia!

Key saiu e fechou a porta á chave.

– ótimo! O navio esta sendo atacado e ele me deixa trancada!- Elizia se levantou — vou fazer alguma coisa!

Ela foi até a janela e abriu o vidro, colocou a cabeça para fora, o mar estava mais agitado, barulho de armas e espadas em fartura e muito cheiro de queimado.

– droga! Preciso sair — ela olhou o vestido- mas não assim.

Elizia foi até o baú e começou a procurar algo que lhe sirva, nada, ela foi até a gaveta da mesa, começou a procurar algo,encontrou o que procurava, linha e agulha.

– se não tem o que precisa — ela pegou uma peça de roupa- faça você mesmo.

Ela pegou alguns panos e uma espada que estava do lado do baú e começou a cortar os panos e costurar, para fazer algo que lhe caísse bem.

– x -

– arranque as cabeças desses britânicos idiotas!

Gritou o capitão que estava se divertindo com a matança que acontecia. O navio havia sido atacado por uma nau britânica à melhor que tinham, era um grande privilegio para o capitão ser atacado pelo melhor que a Inglaterra tinha. Manter a fama de lobo sangrento dava trabalho, mas tinha seus frutos. Tudo estava um perfeito caos, os canhões explodiam sem cessar, todos os piratas tinham com quem lutar, sangue sujava o convés em abundancia. A marinha britânica vinha de seu navio para o dos piratas e vice versa, muitos não chegavam nem ao navio oposto a cabeça era cortada e caiam no mar literalmente.

Key ao sair da cabine sacou a espada e começou a defender o navio, a tripulação do navio britânico era cem vezes maior do que a dos piratas, mas para a sorte dos piratas eles não eram tão bons espadachins ou lutadores.

–Key! Preciso de outra espada — o capitão gritou ao empurrar um dos tripulantes invasor- a garganta daquele idiota quebrou a minha!

–sim, capitão!

Key correu e no caminho cortava todos os que tentavam impedi-lo, sua espada que estava brilhante como o reflexo de um espelho agora cintilava com uma cor vermelha forte, o sangue de seus oponentes. Ele sobiu as escadas e foi até o timão o virou com toda a violência deixando a lateral do navio abrir um buraco no navio invasor e fazendo com que os que estavam na borda caíssem no mar, pura estratégia. Um britânico ia pegá-lo por trás, mas antes que baixasse a espada, Key já tinha enfiado a sua espada pelo estomago dele, o homem caiu morto. Key pegou a espada e foi até a borda da escada e a jogou para o capitão, no instante em que ele a pegou já a crava no tórax de um homem que também caiu inerte, as lutas continuam em todas as partes dos navios.

– x -

Elizia se levantou, finalmente conseguiu fazer uma roupa que lhe servisse. Fez uma calça preta e uma camisa branca com um espartilho na cintura, feito de pano que só a marcava sua cintura não apertava seu corpo. E prendeu o cabelo com um pano para ter mais movimento, ela estava sem sapatos precisava de algo para por, começou a procurar, nada encontrou. Ela não tinha mais tempo a perder, foi até a janela outra vez pegou uma fita a amarrou na cintura e prendeu a espada ali, era hora de colocar em pratica o que aprendera. Saiu pela janela e escalou até a parte de cima, era difícil, o navio se mexia muito e muitas vezes ela escorregou e por pouco não caiu; chegou onde queria e pulou a borda que lhe atrapalhava, estava na parte onde ficava o timão, um homem fardado a viu e correu em sua direção com a espada em punho “é ele tinha razão”, pensou ela e em vez de fugir ela se concentrou e esperou. Quando o homem chegou perto o suficiente ela abaixou, a espada dele passou rasante pela sua cabeça e em um único movimento ela enfiou a espada que tinha no peito dele, ela sai de baixo e o homem caiu; inerte e morto.

Elizia endireita o corpo e olhoi friamente para o corpo e limpa alguns respingos de sangue que caíram em seu rosto com as costas da mão “matar querendo ou não por defesa”, pensou.

Assim ela matou pela primeira vez e não sentiu nada nem culpa nem dor apenas entendeu que só se mata quando sua vida ou de alguém que se ama esta em jogo.

Ela estava sozinha ali em cima destruiu todos que tentavam machucá-la, foi até a borda e viu o caos que estava no convés, viu Key lutar, ele não precisava de sua ajudar.

Ouviu um grito.

Um homem pendurado em uma corda veio em sua direção com uma arma apontada para sua cabeça, ele atirou, ela desviou, derrubou o homem no mar e pegou a corda.

– valeu!

Ela segurou firme na corda, correu e pulou da borda, se sentiu como se flutuasse enquanto derrubava outros mesmo sem ter certeza de que lado eles estavam, ela olhou para o convés o capitão se divertia, mesmo não vendo outro homem que ia pegá-lo, ela forçou a corda e quando o capitão percebeu não dava mais tempo de se defender a ajuda veio de cima, Elizia pulou e enfiou a espada no homem que ia matar o capitão.

– o que? Disse o capitão incrédulo.

Elizia não falou nada apenas o olhou mostrando respeito e fez uma pequena reverencia confirmando que ele era superior a ela. Ela saiu correndo no momento em que outro homem fardado veio na direção do capitão e ele o decepou.

Elizia se afastou, defendendo os piratas que a seqüestraram sem objeções e o mais longe possível do capitão, ela sabia que esse seria o seu fim e simplesmente ignorou a idéia.

O último invasor foi derrubado pelo próprio capitão, a luta acabara. Todos os vencedores comemoraram.

Espadas foram erguidas. O navio britânico virou uma tocha no meio do oceano e seus tripulantes jaziam pelo convés, os piratas tiveram a vitoria mesmo com muitos mortos, todos estavam felizes. Até mesmo Elizia que gostou do que fez mesmo sendo errado, sorriu, estava sentada em um barril de pólvora tentando amenizar a dor dos pés que estavam cortados. Ela estava distraída e não notou que a pegaram por trás.

– ah, me solta!

Jonathan, o pirata negro, a pegou por trás e a jogou no chão, puxando-a pelo cabelo.

–ah… Ai!

Todos os olhares se dirigiram a eles, Jonathan a arrastou até os pés do capitão e a largou.

Lágrimas de dor escorriam pelo rosto fino de Elizia, mas ela não iria se rebaixar, ela olhou para o capitão, seus olhos mostravam mais determinação do que medo. O capitão sustentou seu olhar friamente, aquele castanho de seus olhos estava opacos, quase negros, ele a observou sem dizer nada. Key apareceu atrás do capitão, em seus olhos era possível ver bem pequeno uma ponta de dor, Elizia o olhou por um breve segundo, ele entendeu o recado, ela não queria que ele se metesse.

– aiii…!!

Jonathan a levantou pelo cabelo puxando-a agressivamente para cima.

– capitão, o que faremos com essa traidora, fugitiva.

Ele disse com um sorriso cruel, Elizia já de pé, girou o braço e livrou-se de sua mão.

– já disse pra não tocar em mim.

– sua…

Jonathan ergueu a mão para bater nela, ela não se intimidou com a ameaça, mas antes que o fizesse o capitão interveio.

– chega.

Jonathan parou com a mão suspensa.

– mas senhor, ela merece morrer, fugiu e esta aqui nos desafiando.

– ela não esta “nos desafiando”, esta te desafiando, seu retardado!

– senhor, eu…

– calado. E você… — ele dirigiu o olhar a Elizia- você, garota, cometeu um erro, você me salvou.

Elizia se manteve calada.

– foi um erro, pois mentiu e me enganou!- o capitão começou a andar de um lado para outro- não é a senhorita Poirot, não é?

Elizia balançou a cabeça negativamente, ele continuou.

– fez o que não deveria e mostrou sua fantasia, a senhorita Poirot jamais se vestiria assim e lutaria, foi isso que mostrou a verdade, mas por outro lado você tem talento e coragem, mas não vale o preço…

– com todo respeito, capitão — Elizia finalmente falou enquanto passou a mão nos olhos para tirar as lágrimas — é verdade, eu menti, mas ainda posso ser útil para o senhor.

Elizia disse sem emoção.

– e no que uma garotinha me ajudaria?

–sou uma mulher, e posso te ajudar, fui dama de companhia e amiga de Caroline Poirot, ela deve ter se preocupado comigo, posso voltar e ver…

– esta dizendo que seria uma espiã? Por que me ajudaria, foi seqüestrada pelos meus homens, não tem motivo para ajudar.

– não tive a sensação de ir contra as leis, gostei de vencer aqueles homens, faria isso não por você ou sua tripulação idiota, mas por pura diversão.

– então quer arriscar sua vida por diversão?

–é.

– e o que me faria confiar em você?

– nada.

– não acha que essa é a resposta errada?

– não, afinal não existe a total confiança entre piratas, eles aceitam o que mais agradar, não são fieis até o fim se não tiver um bom preço.

– parece que entende de piratas, mas não acha que esta sendo radical?

– talvez, mas é um risco a correr.

Key colocou a mão no ombro do capitão para chamar sua atenção.

– capitão, acho que tenho a solução para esse problema.

– é mesmo senhor Wilbur? Vamos a minha cabine.

Eles se distanciam do resto do grupo, Key entrou na sala do capitão antes dele, o capitão dá uma ordem antes de entrar.

– e vocês seus imprestáveis, voltem ao trabalho quero esse navio em movimento agora e não toquem nem amolem a garota, logo continuamos esse assunto e você menina fique parada ai, não quero que mexa em nada.

Elizia assentiu e encostou-se ao mastro principal, enquanto via o capitão entrar em sua cabine, Jonathan passou por ela e a olhou raivoso, dizendo:

– prepare-se, vai morrer hoje!

E voltou a fazer seu trabalho, Elizia sentou-se no chão, seus pés doíam, “ o que será que Key esta dizendo?”, pensou ela enquanto ouvia os gritos da tripulação, para voltar a mover o navio, gritos como “ soltem as velas” ou “virem o leme”, ela sentiu uma pontada de medo ao parar para pensar no que fez.

– x -

– Tyler, eu acho que ela pode ser necessária.

–e o que o faz pensar isso? Podemos invadir a casa outra vez.

O capitão estava alterado.

– podemos, mas já pensou na hipótese de que seria mais fácil ter alguém dentro, sem chamar a atenção?

– quer confiar nela? Deve tá maluco ou apaixonado.

– não estou… nenhum dos dois e sim acho que dá pra confiar duvido que ela nos apunhale pelas costas se quisesse fazer isso, teria te deixado morrer e arranjado um jeito fugir, ela podia ter derrubado muitos da nossa tripulação.

– você tem razão — ele suspirou — mas uma mulher? Onde minha reputação fica nessa historia?

–lobo sanguinário, é to sabendo, mas ela será de bom uso, sei disso, não confia em mim?

– lógico que confio e vi que a garota é talentosa, mas não dá pra simplesmente colocá-la na tribulação.

–eu sei, mas que tal seguir o código?

– explique-se.

– o código dos piratas diz que para se aceitar um subordinado na tripulação, esse subordinado deve passar por um teste, uma luta de vida ou morte contra o mais forte dos piratas tirando o capitão.

–ha! Ha! Não acha mesmo que a garota vai sobreviver a uma luta dessas, né?

– talvez, vamos descobrir?

– você é louco, mas em quem pensa em por para isso? Você é meu melhor pirata.

–obrigado, mas vamos amenizar um pouco, que tal Jonathan?

– o que tem o titulo de desalmado, ele seria uma vergonha se eu não o dominasse.

– sei, ele é cruel, mas o titulo de retalhador é meu, acho que é justo.

– ela não sairá viva daqui.

– isso nós teremos de descobrir na pratica.

O capitão sorriu, ele gostou da idéia, Key e ele saíram da cabine.

– x -

– ei, seu bando de insolentes! Apresentem-se agora!

Toda a tripulação parou o que estava fazendo e fizeram uma fila reta de frente para o capitão.

–bom… foram rápidos, decidi o que fazer para resolver o caso da garota.

Jonathan abriu um sorriso enorme, enquanto Elizia já de pé não mostrou nenhuma emoção.

–vamos seguir o código.

Disse o capitão por fim, Jonathan se pronunciou.

– então vamos matá-la?

– não, ela vai lutar.

–o que?

– e com você senhor John.

– como?

– você ouviu, quero uma luta de vida ou morte, o vencedor fica na tripulação e o perdedor se não estiver morto vai ter que provar que merece continuar vivo. Ninguém se intromete na luta, só eu, então todos se afastem e deixem os lutadores entrar.

Todos se afastaram deixando o centro do convés livre, Jonathan foi ao centro com sua espada e muita raiva, Elizia entrou de mãos vazias. Eles se encararam.

– capitão — Key sussurrou — não acha que devemos deixar mais equilibrado? Ela precisa de uma espada.

– tem razão, leve uma para ela.

Key assentiu e foi, entrou no centro e foi ficar de frente para Elizia para entregar a espada, ele esticou-a e sussurrou só para Elizia.

–confio em você, lembre-se ele é grande e lento.

Elizia assentiu e pegou a espada, Key voltou para a roda em volta.

Jonathan sorriu e disse:

– é o seu fim!

E imediatamente ele disparou na direção de Elizia, ela fechou os olhos e concentrou-se, ao abri-los ele já estava perto demais com a espada para cima, pronto para o ataque mortal. Ela ergueu a espada para se defender, as laminas ao se tocarem tilintaram, Jonathan tirou proveito e chutou com toda a força o peito de Elizia que foi jogada para a borda.

Todos os piratas comemoraram, nenhum acreditava na garota, só Key e o capitão permaneceram sérios.

– ha! Vou te matar!

Jonathan atacou outra vez Elizia se levantou apoiando na borda, ela não esperava por isso, cuspiu um pouco de sangue isso a enfureceu e ela abandonou a dor e limpou o sangue, e também atacou, ambos se encontraram no centro, a resistência era forte de ambos dos lados, ele tentou o mesmo golpe, desta vez não funcionou, Elizia recuou, fazendo-o se desequilibrar momentaneamente.

–ahhh…

Ela aproveitou e transferiu um potente chute no queixo dele, ele foi jogado para o lado e bateu as costas no mastro. Os piratas estavam atônitos não imaginavam que ela era forte, alguns comemoraram e começaram a torcer para Elizia, Key abriu um sorriso discreto que logo desapareceu, enquanto outros piratas tentavam reanimar Jonathan para que ele voltasse a lutar, ele se levantou dolorido deixando a fúria o conduzir.

Jonathan voltou a atacar, Elizia se defendeu, mas não conseguiu parar um dos golpes, a lamina da espada passou pela sua cintura fazendo um corte doloroso debaixo de sua costela, ele se afastou. Ela caiu com um joelho e a mão no ferimento.

– ai.

– você já era.

Jonathan segurou a espada com as duas mãos e começou a puxá-la para cima deixando-a a cima de sua cabeça o sangue do corte de Elizia escorreu dela e deixou pequenas marcas no convés, Elizia viu a lamina subir e seu sangue escorrer, quando algo veio em sua mente.

– ele é grande e lento — Ela repetiu o que Key disse baixo só para si — entendi.

Jonathan transferiu o golpe, abaixando com toda a sua força a espada, Elizia se jogou no chão e rolou para o lado, a lâmina desceu, bateu na madeira e ficou presa.

–o que?!

Jonathan estava confuso, “como ela desapareceu tão rápido?”, pensou. Neste momento ele foi atingido.

Elizia saiu do caminho da espada e deu uma rasteira em Jonathan que caiu como um elefante. Elizia se levantou e deu um soco com o que restou da sua energia diretamente no rosto de Jonathan que ficou inconsciente, ela endireitou o corpo e pegou a espada dele e a prendeu no farrapo da blusa que ele tinha, dizendo:

– quanto maior o tamanho, maior a queda.

De repente todos que estavam em silencio, gritaram comemorando a vitoria de Elizia, Key sorriu aliviado enquanto o capitão ficou imóvel e confuso, uma garota derrubou seu pirata mais cruel. Ele falou:

– tá agora chega! Calem essas bocas! — todos se calaram — e você, garota, foi mais do que eu imaginei destruiu um dos meus melhores piratas, merece meu respeito — o capitão faz uma reverencia — bem vinda à tripulação.

Elizia assentiu agradecendo, com uma mão no ferimento, tentando ignorar a dor.

O capitão se virou para a tripulação.

– e vocês, limpem o convés e tirem esse entulho daí — disse se referindo a Jonathan — voltem a seus postos e coloquem logo esse navio pra funcionar!

Todos voltaram a seus postos, o capitão foi até o timão e de novo o navio estava em movimento, enquanto uns o consertavam. Elizia sentiu-se fraca, perdera muito sangue, ela não conseguia mais controlar o corpo, a visão estava turva e começando a escurecer, ela ia desmaiar, mas então antes de cair sente algo a apoiar nas costas e uma voz conhecida no seu ouvido.

– bom trabalho, eu realmente pensei que não tinha me entendido, agora vamos, você precisa descansar.

Elizia sorriu, Key a pegou no colo e a levou de volta a cabine, ela estava fraca e antes que chegasse à cabine já tinha desmaiado.

– x -

Já era sete da noite quando o navio atracou na baia da ilha dos pecados, um lugar desprezível aos olhos de um marujo de primeira viagem, ou um homem de boa fé, esse nome não era por acaso aquele lugar era para todos os que queriam esquecer a vida e comemorar, tinha mulheres à vontade, bebida e muita algazarra, brigas aconteciam direto e ninguém se opunha estavam mais do que bêbados há essa hora, o navio do capitão Hugs acabara de atracar e seus homens tinham o que comemorar, a vitoria deles contra a marinha britânica, até o capitão precisava de certo descanso, afinal acabara de vencer e ganhar uma mulher na tripulação o que era muita dor de cabeça, por isso foi a ilha dos pecados.

Key estava na proa do navio olhando a ilha e pensando, o capitão foi até ele e disse.

– ainda tem tempo, se quiser nos acompanhar, você precisa descansar. Curtir o que a vida te dá.

Key sorriu.

– eu sei, mas a minha vida não sente tanta atração por esse lugar.

– mas deveria. De qualquer maneira você já é bem grandinho pra cuidar de si mesmo e do meu navio, então fique, mas não o roube.

– e pra que vou roubar? Relaxa, Tyler, ele vai continuar aqui e eu também, talvez ele esteja com mais alguns corpos, mas nada demais.

– espero. Cuide-se senhor Wilbur.

O capitão foi embora e ao passar pela ponta do navio, Key gritou.

– ei! Divirta-se, capitão!

O navio estava vazio exceto por ele, Elizia, Jonathan, que estava no calabouço desacordado, e muitos corpos que seriam descartados amanhã.

E ao longe se ouviu a grave gargalhada do capitão enquanto Key se virou e voltou a sua cabine.

A pequena cabine estava iluminada por apenas uma vela. Key entrou e fechou à porta. Elizia ainda dormia, ela estava desacordada desde o final da luta e muito ferida, ele fizera alguns curativos só para que ela parasse de perder sangue, mas foi provisório ele não podia fazer nada mais elaborado, pois não tocaria nela sem sua permissão, ela tinha que acordar logo se não pioraria.

Key saiu novamente do quarto e foi até a cozinha do navio procurar algo que ela pudesse comer que não a mataria, ele encontrou pão, manteiga e uma maçã, por hoje era o que dava para ter. Ele subiu as escadas, voltando ao convés e foi outra vez a cabine, ao fechar a porta pode notar que Elizia estava acordando, foi até ela e colocou o que pegou na mesa, sentando-se na cadeira e esperando até ela recobrar a consciência.

Elizia abriu os olhos lentamente estava se sentindo muito fraca e indisposta, uma dor agudar na lateral do corpo fez com que instantaneamente colocasse a mão sobre o local.

–ei, acalme-se.

Elizia sentiu algo quente em seu ombro, ao olhar viu que era uma mão, a mão de Key, ela sorriu fracamente, a dor era forte.

– o que aconteceu comigo?

–não se lembra?

Elizia parou para pensar e lembrou.

–ah, sim, a luta, a dor e minha vitoria.

– é, foi muito boa, mas demorou muito pra entender o que eu disse.

– você podia ter sido mais claro. E por que ainda estou tão fraca?

–porque não comeu nada e esta ferida, perdeu muito sangue.

–hum, posso comer?

– ainda não, preciso cuidar dos seus ferimentos.

– mais já tem algo — ela passou a mão pelo corte e sentiu o pano — já tá bom.

–não esta, isso é provisório preciso fazer algo melhor — ele estendeu a mão- vem, levanta.

Elizia pegou a mão dele e sentou.

– ai.

– relaxa, logo passa, agora vire-se e tire a camisa.

– o que?! Não sabia que era tarado!

– que?! Tarado! To tentando te ajudar maluca! Como quer que eu limpe seu ferimento se sua blusa ficar em cima?!

– isso é desculpa!

– vai logo, Elizia! Pára de ser criança!

– deixa que eu faço.

– não vai conseguir, vai ficar mal feito e vai demorar mais!

– que seja então!

Ela virou e cruzou os braços.

– ai, como é teimosa.

–não sou teimosa, eu só… ai!

– viu!

– ah! Tá bom! — Elizia ficou de lado e descruzou os braços — mas é bom não tentar nada, ouviu? E vira pra lá.

Ele se virou.

– tá bom. Birrenta, agora para quieta e deixa eu cuidar de você, coloque o braço para o lado.

Elizia tirou a blusa e pegou o lençol pondo-o na frente do corpo.

– posso olhar e começar?

–vai, não tenho opção mesmo.

Key voltou a olhar e pegou os curativos.

–não se mexa, isso pode doer um pouco.

–o que p… ai!

Ele colocou um liquido de ervas para esterilizar o ferimento.

–disse pra não se mexer.

– mas dói, cara chato.

–não sei por que ainda te ajudo.

–talvez porque eu seja importante pra você.

– quem disse?

– eu. Afinal eu sei que sou importante você mudou, tem uma amiga e seus olhos não são mais tão frios.

–é lutar te deixou com problemas…

– você é o problemático aqui!

– não vou responder — Key terminou o curativo- pronto, feliz?

– muito, agora vira.

– tá!

Ele se virou e ela recolocou a blusa.

– agora, deixa eu limpar esse corte do seu rosto.

–eu… tá.

O olhar dele deu a resposta.

Ela estava impaciente enquanto ele limpava cuidadosamente o corte na bochecha dela, aos poucos conforme sentia a mão dele na sua pele relaxou, ele parecia fazer isso de propósito e então ele parou.

– que foi?

– está sujo perto do seu olho.

Ela começou a passar a mão pelo rosto tentando limpar.

– onde?

– aqui.

Ele começou a limpar e quando ia tirar a mão ela a segurou.

– não.

Eles ficaram se olhando por alguns minutos, Key nada dizia apenas a olhava nos olhos e às vezes baixava o olhar observando seus lábios, Elizia nada fez alem de olhar intensamente aqueles olhos dourados que agora pareciam ter uma chama quente em seu interior. Key tentava resistir, mas estavam tão próximos, eles sentiam a respiração e o calor um do outro, o que era tentador do ponto de vista de ambos, mas quando Elizia ia tocá-lo, ele a segurou impedindo-a.

Separaram-se.

– me desculpe- ele disse — Elizia, isso não vai acontecer de novo.

Key se levantou irritado consigo e saiu da cabine, batendo a porta quando saiu.

Elizia ficou lá sentada na cama boquiaberta, estava confusa e ao mesmo tempo feliz, de repente ela sentiu uma pontada de medo como se ela soubesse que aquilo jamais fosse acontecer outra vez.

– x -

Key saiu irritado, batendo o pé com violência enquanto andava, foi até o mastro central e subiu na corda para ficar na vigia, que mais parecia uma tigela grande de madeira, ao chegar lá se sentou esparramado e olhou para o céu estrelado e limpo.

– ah! Porque eu fui fazer isso?! — discutiu consigo, abaixou a cabeça — não deveria. Ela… droga! Porque ela! — fechou os olhos — não posso, quer dizer, não devo… droga! Como fui…! — abriu os olhos e olhou para a bandeira pirata que mesmo noite mostrava nitidamente uma caveira com asas demoníacas — por favor… isso não pode acontecer.

Key pegou o colar, o observou e sussurrou com determinação:

– E a um pirata, não se leva em consideração nada, ele não obedece, não aprende, não vive… — a tristeza tomou conta de sua voz- só rouba e não sabe… o que é amor. Foi o que ele disse.

E então lá ficou deixando a mente vagar para antigas dores e novas errantes alegrias.

Elizia depois de acordar de seus breves devaneios, comeu e tentou se levantar, ainda estava fraca, mas sairia mesmo assim.

A noite estava quente e serena, ela sentiu muita dor, com os pés enfaixados que ainda doíam muito, mas continuou a andar, acabou de se trocar, a roupa que usara estava suja e rasgada então adaptou o antigo vestido para ter liberdade e movimento. Uma brisa leve fez com que seus cabelos e seu vestido dançassem ao seu sabor, queria encontrar Key dizer que o que houve se ele quisesse podia não ter acontecido, mas não o via em canto algum. Foi até a proa da embarcação, subiu na borda e andou até a ponta e sentou-se olhando o movimento simples das ondas.

– sou uma idiota — ela sussurrou para si — é simples, por que eu aceitei? Porque eu… — balançou a cabeça nervosa- mas que merda eu to pensando?! Isso não pode acontecer! Sou amiga só isso. Ele me vê assim e aquilo? Foi apenas uma droga de impulso! Não passou disso. Só… impulso…

Elizia baixou os olhos voltando a olhar para a água, dizendo essa ultima palavra com certa tristeza.

Elizia fechou os olhos, o vento voltou a bater brincando com seu cabelo. Ela abriu os olhos e levantou, voltando ao convés, respirou fundo e parou.

– tudo tão tranqüilo, aqui é bom, mas ainda tenho saudade de casa.

Elizia voltou a andar indo para a cabine, entrou, e sentou-se outra vez e pegou a espada que tinha usado, ela estava manchada de sangue, Elizia pegou um pano e começou a limpá-la.

Key já estava no convés, cansado de ficar deprimido, o passado é passado e não havia nada que ele podia fazer pra mudar isso, voltou à cabine e com a mão na maçaneta, hesitou, por mais que tentasse esquecer, era difícil fazer como se não estivesse acontecido. Entrou, Elizia estava sentada com a espada nas mãos.

– o que esta fazendo? Ele fechou a porta.

– não é obvio? Estou limpando.

– por quê?

– sei lá, estava entediada, queria fazer alguma coisa, já que eu sujei, eu limpo.

– você sabe que não precisa, né?

– talvez. Mas e daí?

Ele sentou na borda da cama.

– nada, só um gasto desnecessário.

– eu digo se é desnecessário ou não.

– como quiser. E Elizia, eu…

– não precisa dizer nada, quero dizer, afinal nada aconteceu, não é?

Ela virou o rosto tentando esconder o rubor que crescia.

– não?

– não, bom… a não ser que queira que seja levado em conta.

Elizia o encarou, aquelas grandes orbes verdes o estavam encabulando, ele virou o rosto e respondeu com indiferença.

– tem razão, nada aconteceu.

– estamos entendidos então?

– claro.

– ótimo e Key já que conhece esse lugar há mais tempo, preciso de sapatos.

Key voltou a encará-la.

–como assim?

Ela apontou para os pés.

– bom, acho que correr por ai com salto, não é legal e nada seu me serviu, então a dedução é lógica, preciso de algo para usar.

– entendi, mas onde vou conseguir sapatos femininos para você que não seja de salto?

– se eu soubesse, já teria comprado, não acha?

– simpática, como sempre. De qualquer maneira vô dar um jeito.

– valeu, então é prestativo? Isso é que é novidade.

– ha, ha. Você é muito engraçada.

– eu sei- ela bocejou — mas é melhor se acostumar.

– está com sono?

– não.

– mentirosa. Deita e dorme, amanha vai começar a ser uma pirata.

– isso é legal — ela bocejou outra vez suas pálpebras estavam pesadas — mas onde vai dormir?

– eu?…

– não, minha vó! Lógico que é você!

– me arranjo, vai dormir logo.

Elizia deitou de baixo do cobertor e tentava manter os olhos abertos.

– mas onde, Key?

– não se preocupe, apenas durma.

Ela fechou os olhos, não agüentava mais e dormiu.

Key deu um pequeno sorriso, pegou alguns cobertores estendeu no chão e deitou, e aos poucos adormeceu, pensando em tudo que aconteceu nos últimos dias.

Notas finais
taham! mais um capítulo o/ vocês não tão nem aí (¬¬), mas gosto de imaginar que se importam ^^ Obrigada por lerem e até o próximo!