O Portal
23 Capítulo 23
Notas iniciais
O clima continuou pesado, mesmo sem os causadores da briga. Um silêncio mortal se estendeu cada vez mais.
– Vou ver como ela esta.
Nicole se pronunciou e desapareceu escada acima.
Madame Fi voltou á sala de jantar e começou a levar as coisas para a cozinha, Kaylan se ofereceu para ajudar.
Minutos depois Nicole apareceu desesperada na entrada da cozinha.
– Ela não está lá!
– Como?
Madame Fi não havia entendido.
– Elizia. Elizia não está no quarto, ela saiu pela janela!
– Temos que procurá-la! A senhora começou a se desesperar também.
– Mas onde?
Kaylan se manteve sério escutando a conversa em um canto da cozinha, até que outro som chamou-lhe a atenção. Um ruído fraco de pontas batia no telhado de forma ritmada, ele sorriu.
– Não precisam se preocupar. — ele interveio. — Eu vou atrás dela.
– Sabe onde ela está?- madame Fi o olhou, inquisitiva. — Diga. Nós ajudamos.
O sorriso dele era gentil.
– Não precisam se preocupar. Posso trazê-la.
– Certeza?
– Sim.
Ele se dirigiu a porta e hesitou com a mão na maçaneta enquanto as outras pararam no hall.
– Obrigado pelo maravilhoso jantar.
Kaylan saiu para a noite fria de inverno, o vento forte e cortante jogava sua roupa e seu cabelo para trás.
Ele andou alguns metros pela calçada até sumir na escuridão e então se virou e voltou a casa pela lateral, subiu na arvore rente a casa e pulou no telhado sem um ruído ao cair, dali podia ver a penumbra de algo sentado sem se mover.
– Sabia que era você.
Kaylan andou silenciosamente pelo telhado e se sentou ao lado de Elizia, que se manteve parada.
– Desculpe, mas quero ficar sozinha.
– Tudo bem, não vou falar mais nada, nem vai saber que estou aqui.
E assim ficaram calados enquanto Elizia mantinha-se abraçada aos joelhos olhando para o nada, perdida em seus pensamentos e Kaylan olhava o céu escuro com vagas estrelas.
– Desculpa... – ela começou hesitante — Peço desculpa pelo que meu irmão fez, não… não estava certo. Suspirou.
– Ah… — Kaylan mostrou-se indiferente — Aquilo não foi nada, já esperava algo parecido.
– É mentira! — a voz dela era apenas um sussurro. — Ele foi cruel e você não merecia ter sido tratado daquele jeito.
Lágrimas caiam como cristais pelo rosto dela e ela tentou manter-se firme, sem muito sucesso.
Kaylan manteve-se calado, tirou o casaco e o colocou sobre os ombros dela enquanto a observava, sorriu.
– Está frio para ficar assim no telhado.
– Kaylan…
Elizia o olhou com os olhos molhados, ele passou o indicador pelos seus olhos retirando as lágrimas que escorriam.
– Por que você ainda insiste em tentar me dar explicações? Já disse que não importa. Seu irmão me odeia, mas isso era esperado. Não vou ligar para coisas sem fundamentos como essas, eu apenas quero que você esteja aqui, nada mais importa.
– Mas não está certo…
– Elizia eu farei de tudo para fazer ele me aceitar, mas você tem que ter paciência. – ele lhe acariciou o rosto, a voz repleta de ternura — Veja pelos olhos dele, ele pensa que vai perder sua irmãzinha para um estranho que ela conheceu há um mês. Mesmo que nós sabemos que é mais tempo, para ele é apenas um mês.
Elizia encostou-se a ele e ele a abraçou.
– Porque quer fazer isso? Porque quer essa luta sendo que podíamos simplesmente fugir?
– Porque se fugíssemos você não estaria totalmente feliz.
– Não tenho tanta certeza… Ela olhou confusa para seus pés.
– Mesmo? Então porque sentia tanta saudade desta época?
– Eu…
Elizia calou-se, pensativa. Kaylan apertou mais o braço em torno dela enquanto sorria e assim ficaram sem mais nenhuma palavra por algum tempo até Elizia se pronunciar.
– Como sabia que eu estava aqui em cima? Perguntou curiosa.
– Foi um palpite, ou era você ou era um ladrão, mas acho que ladrões não usam salto agulha.
Ela riu.
– Mas… — ele olhou para a árvore que subiu — Mas talvez a policia esteja a caminho se escutaram eu subir e eu não acho uma idéia atraente dormir na cadeia. Vamos descer?
– Vamos. Ela afirmou energicamente.
Eles se levantam e descem.
– Bom, acho melhor entrarmos pela porta.
Kaylan sorriu, ela retribuiu o sorriso.
– É tem toda a razão, mas vou ter que arranjar uma desculpa de onde eu estava.
– É vai, então pense rápido.
Caminharam até a porta.
– E é aqui que você fica.
– Não vai entrar?
Ela o encarou com aqueles olhos esmeralda brilhando.
– Não, é melhor não.
Ele acariciou os cabelos longos de Elizia e a beijou delicadamente e demoradamente. Eles se separaram.
– Vou te ver amanhã?
– Ainda temos aula.
– Não, quero saber se vamos nos ver depois da escola.
– Não sei, você tem que conversar com seu irmão antes que ele faça alguma bobagem.
Ela baixou os olhos.
– É, tem razão. Depois resolvemos isso.
– Boa noite, minha senhorita.
Elizia sorriu.
– Boa noite. Não vai levar o casaco?
– Não, depois eu pego, por enquanto você precisa mais do que eu.
Elizia deu-lhe mais um beijo rápido e entrou. Kaylan sorriu e começou a andar até o carro, ligou-o e desapareceu na noite do impiedoso inverno.
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