O Pomar da Ninfa

1 Capítulo Único - O Pomar da Ninfa


Notas iniciais
Espero ter feito um bom trabalho nessa one-shot! E para você, leitor, que acha que eu sou a doida das one-shots, parabéns, você está certo! Espero que gostem! Beijos de Mel ^^

Alec era o tipo de ladrão profissional. O povo dos vilarejos por onde passava o acolhia como um filho no crepúsculo, e pela manhã, se via sem todo o seu ouro e prata.

Não havia objeto de valor que escapasse das suas mãos ágeis. Colares, bolsas, moedas, joias, broches, talheres, louças, tudo que fosse de valor podia ser roubado por Alec. E ainda não havia aldeão ou soldado que fosse capaz de capturar o larápio, mais esguio e difícil de segurar que uma gazela.

E, claro, como todo bom ladrão, tinha um orgulho de ferro. Cada vez mais, os roubos de Alec pelo país se tornaram escandalosos, como assaltos a carruagens de alta classe, limpeza das reservas nacionais de ouro, e até mesmo os diamantes e cristais mágicos, guardados e vigiados por seres místicos, além da compreensão humana, iam parar sob a posse de Alec.

Roubar e ser reconhecido — e temido — pelo que fazia era o seu sonho. Seu propósito. Seu objetivo de vida. E sua obsessão.

Certo dia, chegando a uma cidade relativamente grande, decidiu parar para descansar e, talvez, encontrar alguma coisa que valesse a pena roubar para ampliar a sua fama. Deixando seu cavalo em uma estalagem, saiu para explorar a vila.

As ruas simples de grandes blocos de pedra eram cheias de pessoas dos mais diversos tipos, ocupadas com as suas vidas. Vendedores se encontravam a cada esquina, anunciando suas mercadorias e promoções. Aqui e ali, uma ou outra pessoa sem teto pedia por esmolas, ou tocava algum instrumento para tal. O burburinho, típico de uma cidade, era estranhamente relaxante para Alec.

Furtivo, o ladrão serpenteou pelo lugar, procurando pelo quê roubar para pagar sua estadia por lá. Sem demora, conseguiu esconder um saco de moedas de prata que encontrou sobre o balcão de um vendedor de esculturas, enquanto este estava distraído, e mais alguns brincos que encontrou numa loja de joias. Furtos medíocres, dos quais ele já estava mais do que acostumado.

Quando estava prestes a voltar para a estalagem para pagar a estadia adiantado, ouviu um vendedor gritar:

— Atenção, freguesia! Aqui tem laranja, maçã, uva, melancia, e muito mais! São as melhores, colhidas diretamente do Pomar da Ninfa! Apenas de dez a vinte moedas de bronze cada!

Alguns poucos pareciam admirados, parando em torno da barraca e enchendo o vendedor de perguntas. Outros, apenas por curiosidade, pagavam o preço absurdo e davam suas opiniões. E a maioria desdenhava ou ignorava as palavras berradas que ecoavam pela rua.

Alec se aproximou, curioso. Qualquer coisa com dinheiro o interessava, e aquele era um caso peculiar envolvendo-no. Assim que o viu se aproximando, o vendedor deu seu melhor sorriso e falou:

— Veio comprar? Você sabe, são as melhores frutas que esse mundo já viu!

— Por que elas estão nesse preço? — perguntou, casualmente, analisando as frutas coloridas ordenadas em cestos sobre o balcão. Pareciam perfeitamente normais.

— Ora, porque eu mesmo as colhi do próprio Pomar da Ninfa!

— Pomar da Ninfa?

— Você é estrangeiro, não é? — Alec se amaldiçoou em silêncio. Malditas cidades do interior e suas malditas histórias próprias. Sempre o denunciavam como sendo de fora. Ele preferia se misturar com o povo, para não despertar suspeitas.

De qualquer maneira, Alec não teve escolha a não ser assentir. Felizmente, o vendedor não pareceu mais fechado ou desconfiado. Na verdade, parecia ainda mais descontraído, talvez alegre por poder contar uma história local e exaltar seus próprios feitos para um estrangeiro.

— O Pomar é um jardim imenso, a três horas daqui. Dizem que a grama é mais verde que a do próprio Éden, as flores mais perfumadas que qualquer aroma que o homem possa criar, e as frutas são tão doces e saborosas que nem mesmo um rei seria digno de prová-las.

— E por que o próprio povo não as colhe, ao invés de comprar de alguém? — Alec pôde ver que o vendedor ficou levemente chateado, mas pareceu compreender que era uma pergunta válida.

— São pouquíssimos os que conseguem sequer entrar no Pomar. As lendas dizem que uma ninfa, que chamamos de Ninfa do Pomar, mora lá desde que a terra e o céu foram separados, desde que surgiu a primeira árvore, o primeiro animal, o primeiro ser humano. É tão antiga e letal que a maioria dos aventureiros que se arriscam pelo Pomar da Ninfa tem como sua última visão antes de deixar esse mundo uma bruxa horrenda e sanguinária.

— Por que ela é tão ruim assim? — Alec perguntou, agora verdadeiramente curioso. Algo naquela história o intrigava.

— Dizem que o que ela protege é infinitamente mais valioso do que o Pomar em si. É a Árvore da Vida e da Morte, que fica exatamente no centro do Pomar. — O vendedor se inclinou na direção de Alec, como se estivesse contando um segredo. — Reza a lenda que Deus colocou a Árvore lá e deixou que a Ninfa tomasse conta dela, para que ninguém ousasse tocar em seus frutos, que podem curar qualquer enfermidade, ressuscitar os mortos, prolongar uma vida por mil anos ou matar de forma lenta e agonizante até um imortal com a mesma facilidade.

— Algum ser humano já obteve um desses frutos?

— Até hoje, poucas almas sobreviveram ao Pomar, senhor. Quanto mais cruzar as árvores até encontrar a Árvore da Vida e da Morte, e ainda por cima colher um fruto e sair com vida. — O vendedor sacudiu a cabeça veementemente. — É impossível.

— Obrigado pela informação, cavalheiro. — Alec jogou uma das moedas de prata que furtara do vendedor de esculturas para o homem, que se atrapalhou em pegá-la, cobiçoso. — Eu sinceramente não acredito que um homem medroso feito você tenha sequer entrado no Pomar da Ninfa, e que essas frutas são mais comuns que qualquer uma que você encontra por aí. Mas vou te dar um desconto. Adeus. — Ele acenou para o vendedor, que estava vermelho por ter sido descoberto, e saiu, com as mãos nos bolsos da calça.

Foi até a estalagem, reuniu todos os seus pertences e começou a maquinar um plano. Afinal, precisava se preparar para fazer o maior roubo da sua existência, e para marcar o seu nome na História do mundo.

~//~

Alec esperou o cair da noite para começar. Era lua cheia, e seu brilho era o suficiente para iluminar a estrada de terra batida enquanto cavalgava. A velha senhora que tomava conta da estalagem onde tinha ficado indicou por onde teria que percorrer para chegar ao Pomar da Ninfa.

— Cuidado — avisou — A Ninfa é poderosa e má. Apesar de que isso não fará diferença, já que provavelmente você será morto.

A falta de fé de algumas pessoas é decididamente perturbadora, Alec pensou, desviando de um buraco na estrada. Depois, quando ouvirem o meu nome se espalhando pelos quatro ventos, terão que pagar a língua. O pensamento o fez sorrir, com cobiça.

Alec cavalgou por três horas, como o vendedor dissera, até se deparar com um grande portão dourado bloqueando seu caminho. As barras de metal eram decoradas com arabescos e desenhos intrincados, e um cadeado enorme trancava a passagem.

Dos dois lados do portão, uma cerca de ferro negro se estendia até desaparecer na escuridão da noite, cada estaca de metal terminada em uma ponta afiada em forma de lança. Do outro lado da barreira, estava um breu.

O ladrão desceu e amarrou o cavalo em uma árvore próxima. Então, se aproximou do portão e analisou o cadeado. Com o alicate certo, ele conseguiria arrombá-lo com facilidade, mas entrar pelo portão seria óbvio demais. Se ele fosse a Ninfa, vigiaria a abertura zelosamente.

Então, resolveu fazer o que costumava fazer: ser o menos óbvio possível.

Uma pessoa normal teria de fato considerado pular a cerca, mas teria desistido assim que visse as pontas mortalmente afiadas, prontas para empalarem os invasores. Mas Alec não era uma pessoa normal.

O ladrão escalou com facilidade a cerca, se demorando nas pontas. Usando toda a sua flexibilidade, Alec se esquivou e passou por cima das barras com cuidado, e ainda assim rasgou uma boa parte da sua calça e fez um pequeno corte na sua panturrilha. Aquilo tinha sido posicionado justamente para que ninguém saísse ileso.

Silencioso e ágil como um gato, o ladrão aterrissou. O corte na perna ardeu, e ele fez uma careta. Estava tão ansioso que tinha esquecido de ser frio e calculista. Claro que um pulo daquela altura não seria agradável.

Mas qualquer pensamento que Alec teve antes de cair desapareceu assim que ele pousou os pés na grama.

O lugar era imenso, tão lindo que parecia totalmente à parte deste mundo. A área antes escura, foi gradativamente iluminada por várias luzes em todo o local, revelando um tapete verdejante que se estendia até onde a vista alcançava. Alec não tinha reparado antes, mas roseiras se enroscavam pela grade do portão e da cerca, com botões vermelhos desabrochando à luz do luar.

Estranhamente, os espinhos não o tinham ferido. Na verdade, parecia que eles sequer existiam por onde Alec tinha escalado segundos antes. Alguma coisa o dizia que as roseiras tinham deixado que ele entrasse, por mais ilógico que isso parecesse.

Depois de uma área de grama pontilhada de flores e arbustos floridos, começava o verdadeiro espetáculo. As árvores frutíferas ocupavam o espaço do gramado, todas carregadas de frutas maduras e flores multicoloridas. Em seus galhos, inúmeras lamparinas iluminavam todo o pomar, fazendo parecer que as estrelas haviam descido à Terra.

Um caminho de pedra polida cortava o pomar, provavelmente uma trilha, conduzindo os visitantes pelo local. Alec não entendia como aquilo poderia ser perigoso. Era tão belo que parecia magia.

Tomando cuidado para não fazer barulho, o ladrão mancou levemente até o caminho. Como aquele arvoredo parecia ser um lugar onde seria fácil se perder, a sua única opção era aquela trilha. Com sorte e com seu senso de direção, talvez conseguisse chegar até o centro do Pomar. Isto é, se conseguisse não morrer.

Então algo estranho aconteceu. Por mais alerta que Alec tentasse se manter, o cheiro doce e cítrico que exalava de todo o pomar invadia a sua mente sem pudor. O ladrão esqueceu completamente da dor em sua panturrilha, e sequer se importou quando os galhos e folhas se fecharam sobre ele, impedindo a entrada da luz das estrelas de da Lua. E também não reparou que estava andando bem no meio da trilha, totalmente exposto. Nem no silêncio perturbador e anormal para um bosque que deveria estar cheio de insetos e corujas à noite.

Mas Alec não recebeu nenhum ataque. Ao invés disso, depois de um bom tempo serpenteando pelo pomar, sob o efeito inebriante que todo aquele lugar surtia nele, uma borboleta pousou em um galho fino na altura do seu rosto, o primeiro sinal de vida animal que tinha visto. O inseto tinha asas amarelas e vibrantes, com manchas marrons assimétricas. Ela bateu asas uma vez e brilhou tão intensamente que feriu os olhos de Alec.

Instintivamente, o ladrão recuou e protegeu a vista. Depois que o brilho se extinguiu, piscou algumas vezes para afastar os pontos brancos na sua visão e voltou a olhar na direção do galho. No lugar da borboleta, estava uma garota sentada lá, como se não pesasse nada.

— Ah! — Alec arquejou e recuou mais ainda, segurando o cabo da adaga que sempre levava na cintura. Ela parecia uma adolescente comum, com pele branca e lisa como porcelana e um corpo esguio e delicado. A garota desceu suavemente como uma pluma do galho, pousando no chão com os pés descalços.

— Quem é você? — A sua voz melódica lembrava a Alec todo o tipo de som das florestas juntos: os grilos sibilando, os pássaros cantando, o vento movendo as folhas das árvores, o som de um riacho correndo. Tudo ao mesmo tempo. Como se o som daquele pomar tivesse se concentrado em sua voz.

— Você é a Ninfa do Pomar? — Alec perguntou, assumindo a posição defensiva que lhe era tão familiar. Como ladrão, ele tinha que aprender todo o tipo de habilidade, desde que fosse discreta o suficiente, como uma defesa simples com uma adaga. Era, na verdade, bastante útil contra os homens espalhafatosos com armas de porte mais pesado que costumavam persegui-lo.

— Quem é você? — A garota repetiu, chegando mais perto de Alec. Sua postura não era de ataque, mas sim de pura curiosidade. Enrolando as pontas dos cabelos castanhos com mechas loiras no dedo, ela avançou com passos leves, analisando-o de cima abaixo. Alguma coisa nos seus olhos escuros fazia Alec se sentir exposto, como se ela pudesse ler sua mente.

— Não chegue mais perto. — O ladrão tirou a adaga da cintura, apontando-a para a garota. Mas sua mão estava tremendo pateticamente. Alec percebeu que ele tinha recuado instintivamente, e suas costas bateram no troco de uma árvore. A aura que aquela garota emitia era inexplicavelmente... assustadora. Repelente.

— Guarde essa laminazinha feia. — Ela cruzou os braços, mas não parou de caminhar na sua direção. — Quem é você?

A mente de Alec girou, e seus lábios se moveram contra sua vontade.

— Alec Thompson. — Fez uma careta ao som do seu sobrenome. Deixara de usá-lo há muito tempo.

— Ah, ótimo. Com educação é sempre melhor, não é, Alec? — Então, aquele sentimento desconsertante de medo desapareceu. Alec se firmou, abalado. — Como você me disse quem é, é justo que eu faça o mesmo. Eu sou subordinada da Ninfa do Pomar. Eu não tenho de fato um nome, mas costumavam me chamar, nos tempos antigos, de Kyria Dendrokipos* — Ela fez uma careta. — Parece horrível, mas tem um significado legal em grego.

— Qual é o significado? — Alec perguntou. Estava tentando enrolar para ganhar tempo e pensar no que fazer.

— Nada demais — desconversou. — O que você quer aqui?

— Nada demais — Alec retrucou, com um sorriso convencido. Kyria revirou os olhos.

— Certo. Justo. Exceto pelo fato de que eu tenho noventa e oito por cento de certeza de que você está aqui pela Árvore da Vida e da Morte. Acertei?

— Como...? — Alec cerrou os punhos. Se Kyria tentasse impedi-lo... Ele não gostava de matar, mas talvez fosse necessário para alcançar a sua tão sonhada fama.

— Ah, por favor! Séculos de homens gananciosos e sedentos pela vida eterna ou morte instantânea dos seus inimigos pisaram e macularam esse precioso pomar. Você sabia que ele é feito de um pedaço do céu e outro pedaço do inferno? Assim como a Vida e Morte que ele guarda, o Pomar da Ninfa deve ser equilibrado. Eu acredito que parte desse inferno são os seres humanos.

— Sem ofensas?

— Totalmente com ofensas. — Kyria bufou. — Saia daqui logo, antes que a Ninfa do Pomar descubra que você está aqui e te mate.

— Eu vou conseguir esse fruto, quer você queira, quer não.

— Sua determinação é louvável. — Ela o analisou. De perto, Alec viu que seus olhos eram verde-musgo. — Você tem sorte de ter me encontrado. Olha... Eu vou te levar até a Árvore. Depois, pegar os frutos e escapar da Ninfa é por sua conta, okay?

— Não preciso que você me conduza — Alec disse, indignado.

— Você por acaso pretende seguir esse caminho? — Ela apontou para a trilha de pedra. — Muitos antes de você o fizeram, e morreram miseravelmente. Ele é cheio de armadilhas mortais. — Kyria estalou os dedos e uma revoada de pássaros surgiu, voando velozmente pela trilha. Ao ultrapassar um ponto pouco à frente, Alec mal conseguiu acompanhar as centenas de espinhos do tamanho de agulhas de costura que os atingiu e matou. Ela estalou os dedos de novo e os pássaros mortos sumiram do chão.

— Armadilhas... Como eu não tinha pensado...? — o ladrão murmurou, consternado.

— E ainda, no final dessa trilha, existe um poço sem fundo, que fica camuflado no Pomar. Você não saberia onde ele está até cair nele. — Kyria ergueu uma sobrancelha. — E então, aceita que eu o guie até a Árvore?

— Você vai querer alguma coisa em troca, não é?

— É claro!

— E o que é?

— No caminho eu penso. — Kyria fez um gesto com a mão como se isso não importasse. — Vamos?

— E eu tenho escolha?

— Se você quer tanto continuar aqui e talvez sair vivo... Não.

— Vamos, então. — Alec decidiu que, no futuro, não admitiria que teve ajuda. Mas aquela garota parecia não ter nenhum interesse em sair daquele Pomar, logo o risco dela abrir a boca era menor, então não se importou muito com isso.

Kyria Dendrokipos bateu palmas, animada.

— É tão bom ter alguém devendo para mim! Siga-me! — E entrou no arvoredo do pomar, sem virar para ver se Alec estava seguindo-a. Revirando os olhos, o ladrão o fez.

~//~

Alec notou que, por dentro do pomar, também havia lamparinas dependuradas nos galhos, iluminando fracamente o caminho à frente. Por onde Kyria passava, as árvores se afastavam gentilmente. De vez em quando, a garota se transformava em uma borboleta amarela e voava acima das árvores, para ter certeza de que estava seguindo o caminho certo.

Mas, para o ladrão, Kyria estava apenas enrolando e brincando com a sua impaciência, como um gato com o rato entre as patas. Alec sabia que ficaria perdido se ela o abandonasse, por isso tentava ao máximo memorizar por onde passavam, ou deixava discretamente algum sinal. O ladrão se sentia dentro de um conto de fadas, mas daqueles sinistros e sem final feliz.

Para a sua surpresa, Kyria de fato levou-o para a Árvore. Depois do que pareceu uma eternidade, os dois emergiram em uma clareira enorme. A grama pontilhada de flores pequenas e delicadas era cortada por uma cruz simétrica, de pedra, parecida com a trilha que atravessava todo o Pomar.

No centro da cruz, uma árvore gigantesca se avultava sobre eles. Seu tronco roliço tinha um leve brilho dourado, e a copa frondosa cobria quase totalmente a clareira. De seus galhos, nasciam várias frutas azuladas e outras vermelhas, e as flores mais lindas que Alec já tinha visto floresciam junto com as frutas, das mesmas cores que estas.

Ele reparou que cada uma das extremidades da cruz apontava para um ponto cardeal — Alec notara porque, na clareira, a lua cheia era visível através dos galhos da grande árvore no centro. No Norte, jorrava água cristalina de uma fonte de pedra. No Sul, um relógio de sol dourado adornava o chão, e projetava sombra mesmo à noite. Duas da manhã? Alec pensou, surpreso, ao ver o horário. Passara mais tempo que tinha imaginado dentro do Pomar.

Ao Leste, estava uma cabana de madeira simples, como um galpão de ferramentas. Um desenho estranho moldado em metal estava pendurado sobre a porta: uma lua crescente prateada e um sol dourado encaixado na curva da outra.

E, por fim, ao Oeste, havia duas árvores de galhos finos e brancos, sem frutas nem flores, e pendurada entre elas, havia uma rede de dormir reluzente, como se fosse feita de prata.

— Vamos, vamos. Estamos com sorte, a Ninfa não está aqui. — Kyria apontou com a cabeça para a rede, onde provavelmente a guardiã do Pomar dormia, e depois se virou para a árvore gigantesca no centro da clareira. — Essa é a Árvore da Vida e da Morte. É claro que eu não vou lhe dizer a diferença entre a fruta da Vida e a da Morte; você está por sua própria conta e risco.

— Certo. — Alec analisou a Árvore. Qual seria o fruto da imortalidade, o vermelho ou o azul? Bem, não importa, pensou. Colherei ambos.

— Antes... Você está me devendo alguma coisa, não é?

— Mas eu nem consegui o fruto ainda!

— A sua promessa foi me dar alguma coisa em troca de eu trazê-lo aqui, e eu disse que pegar o fruto é por sua própria conta e risco, não é? Bem, de qualquer maneira, eu já me decidi o que eu quero.

— E o quê é? — Alec estava impaciente. A Ninfa já deveria ter notado a sua presença, e tinha que correr. Não era do seu feitio ficar enrolando.

— Um beijo. — O ladrão engasgou e tossiu.

— Perdão? — Alec estava confuso.

— Você é surdo? Um beijo!

— Mas... Você não iria querer joias, um favor...

— Ah, eu sabia que você não ia querer — Kyria choramingou e andou lentamente até a fonte, afastando-se dele. — Humanos são todos iguais! Principalmente homens! Pensam que o que mais importa no mundo são suas riquezas estúpidas.

— Eu vou me arrepender disso. — Alec foi até Kyria e a beijou.

O ladrão sentiu a garota abraçar a sua cintura, feliz. Ele estava prestes a afastá-la quando Kyria sorriu; um sorriso malicioso e sádico.

— Eu gostei de você. — Alec sentiu uma dor intensa no abdome, e o gosto de sangue subiu à sua garganta, enquanto Kyria continuava a falar. — Se a Árvore não estivesse precisando ser regada, talvez eu tivesse te transformado no meu ajudante. Uma pena, de fato.

— D-Do que v-você... — Alec tossiu sangue, manchando o vestido amarelo de Kyria. — Do que você está falando?

— Você achou que eu deixaria um humano tocar na Árvore e maculá-la com a sua sujeira? — Kyria sorriu e retirou a adaga de Alec da sua barriga. A garota empurrou-o na fonte, que aos poucos foi se enchendo de sangue misturada com água.

Lutando para permanecer na superfície (ele não tinha imaginado que a fonte era tão funda), Alec ouviu a voz de Kyria:

— Ah, como você é idiota. Caiu direitinho. Para mim, é fácil persuadir vocês, tolos humanos, no meu território. Mas pense pelo lado bom! Você contemplou as belezas dessa clareira, algo que nenhum humano havia feito antes. Em troca, você me dá a sua vida. Não é mágico? — Ela girou a adaga nas mãos antes e fazê-la se vaporizar no ar. — Ah, e eu não tenho subordinados; eu sou a Ninfa do Pomar.

E Alec perdeu a consciência.

~//~

Kyria Dendrokipos, ou melhor, Ninfa do Pomar, depois de se certificar que o invasor estava morto, jogou o corpo no poço sem fundo que ficava no meio do Pomar. Magicamente, fez seu vestido se limpar do sangue, e assim que voltou à clareira, foi até o galpão de ferramentas ao Leste e tirou de lá um regador de metal antiquado, com a mesma figura pendurada em cima da porta da cabana gravada na lateral.

A Ninfa encheu o regador com o sangue misturado com água da fonte. Ela não gostava de matar; isso a deixava pra baixo, como se tivesse cozinhado alguma coisa e olhasse, desanimada, para a sujeira que deixara no balcão. Mas a Árvore estava começando a morrer, e a planta costumava gostar, particularmente, de água com uma dose de sangue humano, para manter a vitalidade.

Kyria regou distraidamente a Árvore da Vida e da Morte, assobiando. Lembrou de quando era apenas uma criancinha e teve que protegê-la. Por um momento se perguntou o que aconteceria se ela tivesse deixado o humano viver.

Cerrou os punhos. Não, humanos são seres horríveis. Mesmo se ela mostrasse piedade por eles, a ganância é e sempre seria maior que o sentimento de gratidão. A Ninfa tinha certeza de que, assim que permitisse que Alec fugisse, ele voltaria em busca de mais frutos.

Um sorriso sombrio se espalhou pelo rosto de Kyria. Sim. Essa era a sua missão. Proteger a Árvore e fazer de tudo para que ela vivesse. Afinal, ela existia para trazer o equilíbrio no mundo; a união do Céu e Inferno.

Cheirou o ar e sentiu o odor incômodo de humanos misturado ao aroma agradável do Pomar. Kyria suspirou e, em um flash, uma borboleta apareceu em seu lugar, voando sobre o arvoredo, pronta para espantar pessoas irritantes.

E o Pomar da Ninfa continuou intragável e letal, por muitos e muitos anos. Reza a lenda que ele ainda está escondido por aí, disfarçado de um pomar comum com frutas especialmente saborosas.

Mas tome cuidado sempre que se aprofundar mais nas árvores; uma delas pode ser a Árvore da Vida e da Morte, e a Ninfa estará esperando por você.

Notas finais
[EDIT porque eu esqueci, podem brigar comigo] ATENÇÃO NÃO LEIAM ESSA OBSERVAÇÃO A NÃO SER QUE TENHA LIDO TODA A ONE-SHOT * Kyria Dendrokipos significa "Senhora do Pomar" em grego, ou seja, os gregos antigos a chamavam de Senhora do Pomar. Gostaram? Odiaram? Me digam, por favor! Beijos de Mel ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!