O Poema
1 O Poema
Notas iniciais
Ele era um parnasiano.
Ela era uma modernista.
O livro dele fora construído com cuidado e esforço ao longo de toda a sua vida. Ele estudara as técnicas de poesia. Sabia o nome de cada rima e como fazê-la. Ele era um engenheiro, e projetava seu poema como se cada palavra fosse um tijolo. Ele planejava. Definia qual seria o tema de cada estrofe bem antes de começar a escrevê-la.
O livro dela fora feito por pura diversão. Ela não considerava que o tivesse “construído”; parecia mais que ele havia simplesmente “acontecido” a ela. O texto saíra da ponta de sua caneta quase que como psicografado, como ela dizia. Nunca estudara as técnicas: apenas escrevia o que lhe dava na telha e parecia mais interessante. Seus versos saíam nas ocasiões mais malucas e o tema do seu texto só ia ficando claro a medida em que ela ia escrevendo.
Os poemas dele faziam sucesso. Eles eram lindos. Todos rimados, com rimas difíceis de se fazer. Ele usava palavras eruditas e sua gramática era simplesmente impecável. Fazia versos com até doze sílabas! E, mesmo assim, a métrica saía perfeita. Sua estrutura era magnífica. Os escritores mais velhos liam e balançavam a cabeça para cima e para baixo solenemente, aprovando. Aquele rapaz sabia fazer poemas comparáveis aos dos grandes poetas antigos!
Os poemas dela faziam sucesso. Eles eram imprevisíveis. Ela falava de guerra para logo depois escrever sobre flores. Escrevia textos mordazes, sarcasticamente divertidos, para depois passar a um longo ode ao amor. Escrevia sobre baratas e sobre Filosofia com a mesma simplicidade.
Os escritores mais jovens liam e balançavam a cabeça de um lado para o outro incredulamente. Essa moça escrevia a poesia do futuro!
Ele não era um escravo do conteúdo. Não dependia da inspiração. Seu trabalho era feito de esforço e dedicação! Ele sabia tudo que havia para saber de poesia! O que importava era a métrica. O tema? Hmpf! Ele se deleitava em pedir para qualquer um lhe dizer qualquer palavra aleatória e ele escreveria um soneto belíssimo sobre o que quer que fosse. Mesmo que fosse sobre um jarro chinês. Ele era um mestre, afinal.
Ela não era uma escrava da forma. Desprezava a gramática, a métrica e sim, até a rima, se não lhe fosse conveniente! Criava palavras novas de sua própria cabeça. A estrutura? Pfff! O que importava não era o “como” ela escrevia, mas o “o quê”. Era capaz de escrever um texto com versos de dez sílabas seguidos por outros de três, rimando “pato” com “travesseiro” e engolindo o final das palavras.
Ele planejava seus textos. Trabalhava neles de um por um e analisava cada um pelo menos dez vezes antes de passá-lo para o livro.
Ela improvisava seus textos. Fazia dez textos de uma vez, às vezes os deixava inacabados, e escrevia eles direto nas páginas do livro, sem dar mais que uma segunda olhada para os poemas.
O livro dele tinha um objetivo determinado e ele trabalhava nele diariamente, uma hora por dia, depois do almoço.
Ela não tinha a menor ideia do que ia fazer com seu livro e trabalhava nele por dias seguidos para depois dar pausas de quase um mês, conforme seu interesse oscilava.
Ele se orgulhava de seu livro.
Ela se divertia com seu livro.
Até o dia em que, por acaso (mais tarde, eles concordariam que a culpa fora toda dela, já que ele planejava as coisas, era ela que as deixava acontecerem por acaso) os dois se encontraram.
E tiveram um breve relance dos livros um do outro.
Ele analisou o texto dela com a mesma sensação com a qual Adão olharia para a Maçã: ela era profana, talvez beirasse a heresia, e muito, muito errada... Mas fascinante de um jeito sinistro. Parecia mais divertida e interessante do que o que ele fazia normalmente e ele estava com muita, muita vontade de provar.
Ela passeou pelo texto dele com a mesma sensação com que um cachorro olharia para um gato: ele parecia mais solene, mais elegante e mais sério do que ela. Ei! Talvez ele fosse um bom amigo com quem se divertir!
Ela teve a ideia no exato momento em que seus olhos se encontraram e a sugeriu imediatamente. Mas teve que esperar.
Porque ele levou muito tempo analisando a ela e à ideia antes de concordar.
Eles deveriam escrever um livro juntos.
O processo de transformar dois textos em um já é incrivelmente complicado quando os textos são semelhantes.
Mas ela pulou de cabeça no desafio com o entusiasmo de sempre.
E ele entrou na tarefa cuidadosamente com a cautela de sempre.
As coisas começaram a ficar complicadas quase que instantaneamente.
Sim, ele achava que a arte dela tinha uma “mágica”, algo inexplicável e incrivelmente fascinante. O entusiasmo dela o contagiava e a tranquilidade e a despreocupação com a qual ela escrevia pareciam fazê-lo relaxar e tiravam de suas costas um peso que ele nunca percebera estar ali. E ela revolucionava, o desafiava a pensar, refletir e a se arriscar.
Mas ele também a achava incrivelmente irritante e, por vezes, ela até o assustava. Ele tinha que ficar lembrando constantemente a ela do objetivo de cada poema, ou ela se distraía. A cada linha que ela fazia ele tinha que revisar e reescrever, chamando-lhe a atenção para os erros de gramática e para a métrica, e para a rima, mas ela parecia simplesmente ignorá-lo e fazer tudo de novo do seu jeito. E ela nunca respeitava seus horários de trabalho. Ou ela estava completamente desinteressada na sua hora programada para escrever e não ajudava em nada ou ela o estava acordando às três da madrugada porque tivera uma “súbita inspiração para um poema”.
Sim, ela achava que a arte dele tinha uma beleza admirável que chegava a deixá-la emudecida, às vezes. Seus versos tinham uma elegância que ela não sabia reproduzir. A disciplina e o esforço dele a inspiravam e davam um valor ainda maior aos seus textos e o jeito como ele sempre tinha tudo planejado a fazia se sentir calma e segura, sendo que ela nunca antes percebera que tinha qualquer necessidade de segurança. Ele a dava um chão no qual ficar em pé quando ela precisava descansar de seus voos e a estimulava a se concentrar.
Mas ela também o achava incrivelmente entediante e, por vezes, sentia como se ele a atrasasse. Ele não queria fazer nada a não ser que tivesse pensado e planejado cada passo dez vezes. Não estava nem aí para o conteúdo do poema e o sacrificava facilmente em nome da estrutura. Queria corrigir tudo o que ele chamava de “erro” nos poemas dela; justamente aquilo que ela chamava de “traços originais”! Queria tudo perfeito em cada detalhe e não gostava quando ela queria escrever poemas “deselegantes” e divertidos sobre bolhas de sabão e lesmas.
E o livro não avançava.
Ele analisava todos os dias o que estava dando errado e buscava soluções na sua cabeça.
Ela sabia que havia algo errado, mas não queria quebrar muito a cabeça pensando nisso. Talvez, se ela ignorasse, o problema fosse embora, como sempre.
Até que um dia a situação toda explodiu.
Ela, com seu costume de escrever direto no livro, cometera um erro. No livro. Ele ficou horrorizado. E, para remendar a situação, ela simplesmente riscou a palavra errada e continuou a escrever do lado.
Ele perdeu toda a disciplina e a paciência. Agora havia um risco, um erro permanente no livro. Com a frieza cruel de um discurso que ele ensaiara diversas vezes em sua mente, dia após dia, as palavras dele quase a congelaram por dentro.
“Você é insuportável. Não está nem aí para nada, não leva nada a sério, não tem um mínimo de disciplina e está sempre esperando que os poemas caiam no seu colo por inspiração. Despreza as regras por princípio, mesmo que elas sejam importantes e úteis, só porque tem preguiça de estudar e aprendê-las. Na maioria do tempo você escreve apenas para chocar os outros e ser do contra. Não está nem aí para a beleza do seu texto e é desleixada. Não escolhe objetivos porque tem medo de não alcançá-los e falhar. Seus textos são simplesmente uma BAGUNÇA!”
Ela ficou boquiaberta e perdeu toda a sua atitude despreocupada. Agora ele estava arruinando sua diversão em escrever o livro. Com a ira fervente de um improviso que externava tudo aquilo que ela havia tentado ignorar, as palavras dela quase o queimaram vivo.
“Você que é insuportável! Se preocupa desnecessariamente com tudo, menos com o que deveria ser mais importante. Não há paixão nos seus poemas. Você escreve por trabalho e obrigação e não encontra prazer no que faz. Quer controlar tudo e se recusa a tomar um risco por puro medo de que algo dê errado e saia minimamente do seu controle. Seus poemas não servem para nada por que não falam nada importante, porque você é arrogante e perfeccionista e só se importa com o fato de eles seguirem o modelo, de eles estarem dentro das regras. Pra você só importa eles serem bonitos. Você não inova nada e só fica repetindo o que todo mundo está fazendo há séculos. Seus textos são simplesmente um TÉDIO!”
E então os dois falaram juntos.
“Eu não aguento mais escrever com você!”
E cada um puxou suas folhas e suas canetas e foi embora.
Os poetas antigos sacudiram as cabeças com ar de desaprovação e consolaram nobremente o parnasiano, dizendo que realmente, não havia sentido em ele misturar seu trabalho com os versos desleixados de alguém tão sem refinamento, e que ele havia tido grande sorte em perceber aquilo antes que ela houvesse feito um estrago grande demais em seu livro. Agora ele poderia voltar a escrever seus lindos versos em paz.
Os poetas mais jovens deram tapinhas nas costas e consolaram apaixonadamente a modernista, dizendo que não havia sentido em ela se deixar atrasar pelos versos antiquados de alguém tão retrógrado e que ela tivera sorte, pois poderia voltar a revolucionar e a criar um mundo no qual os poemas chatos dele não teriam espaço.
Mas parecia ter acontecido um desastre. Não importava o quanto o parnasiano se esforçasse, não importava o quanto ele planejasse e se organizasse, e buscasse palavras no dicionário, e espremesse sua cabeça em busca de um plano, seus poemas pareciam não dar mais certo. Nada se encaixava. Ele não conseguia mais rimar. O número de sílabas em seus versos não fechava, impedindo-o de conseguir a métrica que desejava. As palavras fugiam de sua mente. E ele não conseguia escrever.
Sua poesia nunca lhe parecera tão vazia.
E não importava o quanto a modernista relaxasse, não importava o quanto ela tentasse se divertir e pesquisasse, e assistisse desenhos engraçados e visse notícias que a indignassem, seus poemas não pareciam mais sair. Sua inspiração parecia ter ido embora. Ela não conseguia pensar em nada que valesse a pena escrever. Diversas ideias passavam por sua cabeça e iam embora antes de ela conseguir formulá-las direito. E ela não conseguia escrever.
Sua poesia nunca lhe parecera tão desnorteada.
E nenhum dos dois escrevia. Ficaram presos, cada um em sua própria versão particular do inferno de qualquer escritor: uma folha em branco que não se consegue preencher.
E um dia, enquanto ele puxava seus cabelos no esforço para escrever, sentado em sua escrivania, ele se lembrou da modernista com quem tentara escrever um livro. Em como a caneta na mão dela deslizava fácil pelo papel, como ela fazia poesia com a naturalidade de quem respirava, como os olhos dela se iluminavam do nada quando uma ideia a atingia como um raio. Ele lembrou da alegria com a qual ela escrevia e do sarcasmo e do entusiasmo que transbordavam dos textos dela, e por um instante a saudade o fez se desconcentrar de tudo.
E um dia, enquanto ela olhava confusa para o teto tentando, pela primeira vez na vida, achar de propósito uma inspiração, deitada em sua cama, ela se lembrou do parnasiano com quem tentara escrever um livro. Em como ele escrevia com gestos calculados e sóbrios, como ele sempre conseguia, quase que por mágica, fazer com que as maiores e mais complicadas palavras se encaixassem como em um quebra-cabeça dentro de um poema, em como a expressão dele ficava concentrada enquanto ele projetava tudo dentro de sua cabeça. Ela lembrou da dedicação com a qual ele estudava e em como o esforço que ele havia colocado no texto transparecia nele quando se lia, e por um instante, a saudade a deixou preocupada.
E os dois ficaram de pé no mesmo exato momento e decidiram que iam atrás um do outro.
Eles saíram pela porta de casa no mesmo exato momento. E poderiam até ter ido bater à porta um do outro no mesmo exato momento (o que teria estragado tudo, pois nenhum teria recebido uma resposta e eles acabariam os dois voltando, decepcionados, para suas próprias casas) se não tivessem usado o mesmo exato caminho e se encontrado exatamente no meio.
E no momento em que os dois se encontraram, o parnasiano começou a falar a primeira coisa que lhe veio à cabeça e a modernista começou a recitar todo o discurso que ela havia planejado no caminho de sua casa para lá. E eles dois falavam ao mesmo tempo e nenhum conseguia entender as exatas palavras do outro, mas de alguma forma, mesmo assim, entendiam exatamente o que o outro queria dizer. As únicas frases que eles conseguiram escutar direito foram as últimas.
“...você cria muitas palavras do nada,” improvisava o parnasiano, “e nem sempre segue as regras de gramática...”
“...você escreve usando palavras muito grandes e complicadas”, discursava ao mesmo tempo a modernista, “e algumas delas parece que deixaram de ser usadas há séculos...”
E os dois terminaram juntos.
“...então talvez eu apenas não estivesse conseguindo entender o que você realmente queria escrever.”
E então os dois pararam de falar e se entreolharam. Eles sorriram um pro outro. E, sem falar mais nada, chegaram a um acordo. E cada um foi buscar novamente suas folhas de papel e suas canetas, e o parnasiano e a modernista voltaram a tentar escrever seu livro, bem ali no meio do caminho.
Isso não quer dizer que eles pararam de discutir ou que sempre entendiam exatamente o que o outro estava escrevendo. A modernista ainda queria revolucionar com tudo e se recusava a escrever um poema em que ela não sentisse que estava “colocando algo verdadeiro lá dentro”. E ela se distraía horrivelmente. E o parnasiano ainda se recusava a aceitar textos sem rima e a se desleixar na produção. E ele ainda queria revisar dez vezes cada poesia.
Mas todos os poetas que passavam por lá contavam, com assombro, aos colegas:
“Eu,
Vi um parnasiano
A se desmetrificar!
E uma modernista
Se esforçando pra rimar!”
E quando os dois finalmente, após muito esforço e muita inspiração, conseguiram terminar o livro, todos os poetas, os mais antigos e os mais jovens, se juntaram para ler e ver no que tinha dado a obra. E aí eles se dividiram todos de novo, mas de uma maneira completamente diferente.
Porque veja, havia aqueles que tinham achado o livro uma bela porcaria. Para eles, a união dos dois poetas havia acabado com a carreira dos dois. Agora eles tinham publicado um livro cheio de poemas com uma forma completamente desorganizada e um conteúdo completamente irrelevante. Era melhor que aquele lixo fosse esquecido para sempre.
E havia aqueles que tinham achado o livro uma obra-prima. Para eles, a união dos dois poetas havia sido a melhor decisão que eles haviam tomado em suas vidas. Eles haviam conseguido publicar um livro cheio de poemas belissimamente estruturados e com um conteúdo revolucionário, que levava o leitor do riso às lágrimas em cada página. Aquela obra deveria ser guardada para a posteridade e influenciaria toda a literatura mundial.
E os dois grupos começaram a brigar incessantemente, da mesma maneira que os poetas mais antigos e os poetas mais jovens faziam antes do livro. Quem via de fora observava uma discussão que parecia basicamente com um bando de intelectuais loucos que ficavam repetindo uns para os outros:
— Foi!
— Não foi!
— Foi?
— Foi!
— Não foi!
E os espectadores saíam dali balançando a cabeça e pensando que todos esses literários eram uns loucos mesmos.
Os únicos poetas que não pareciam estar se importando muito com nada daquilo eram o parnasiano e a modernista. Eles apenas olhavam de vez em quando para os dois grupos de escritores briguentos, se entreolhavam e riam juntos, como se houvesse ali alguma piada que só eles dois soubessem.
Eles já estavam planejando um novo livro para escreverem juntos.
Notas finais
Espero que tenham gostado! =D
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