O Poder da Serpente
5 5. Luzes, câmera, atuação
Com a mente cheia dessa descoberta, cruzo a entrada do banheiro sem ao menos ver o que está na minha frente, e por consequência acabo esbarrando em Doralice.
“Desculpe”, eu digo. Ela balança a cabeça.
“Não, está tudo bem. Vejo que as roupas ficaram bem em você”, ela comenta.
“Ah, obrigada. Ficaram mesmo”, digo, sem ter coisa melhor a dizer.
“Eu... Hum... Eu já peguei as suas roupas, e elas estão de molho. Eu separei as suas coisas pessoais, e coloquei nessa bolsa”, diz ela, estendendo-me uma bolsa de couro marrom, um pouco desgastada, mas bonita. Reparo em quanto ela parece desconfortável, e acabo me sentindo desse jeito também. “Achei que seria bom a senhorita guardar... Hum... A sua... coisa”.
“Hum... Certo. Muito obrigada. Obrigada mesmo”. Pego a bolsa, entro rapidamente no banheiro e coloco a pedra oval dentro da bolsa, sem exatamente deixar que Doralice consiga distinguir o que é.
“Estou preparando o almoço, já”, diz ela. “Estará pronto em uns dez ou vinte minutos. Descanse, logo eu os chamarei”.
Não me permito pensar em como será o almoço, ou então me lembrarei da fome que tenho, e irei esquecer-me da lembrança fresca em minha cabeça. E tudo sairá de ordem – se é que há alguma ordem nisso tudo.
“O Marcos já terminou o banho? Preciso falar com ele”, pergunto, pra mudar de assunto.
“Já, sim”.
Despeço-me e corro até o quarto.
E paro na porta.
Marcos está sentado na cama, parecendo desligado do resto do mundo, sério. Com a espada na mão, limpando a lâmina, recolhendo o sangue em um potinho de vidro. A vontade de vomitar volta, mas, novamente, eu a controlo.
“O que você está fazendo?”, pergunto, mesmo sendo um pouco óbvio. Reformulo a pergunta, enquanto ele percebe que estou no quarto, surpreso, quase assustado. Tenho vontade de sorrir por sua expressão, que me recorda de como eu imagino que seja um elfo do Papai Noel, travessa. Então encaro novamente a espada, e a vontade passa tão rápida como veio. “Por que você está recolhendo o sangue de Melina?”.
“Hein? Ah. É o protocolo. Tenho que recolher o sangue para pesquisa. Mesmo se ela não for culpada, se você vai reclamar. Eu já fiz cagada não vasculhando aquela cabine quando a barra estava limpa”.
“Não estava nada limpo. Estava ensanguentado”.
“Você me entendeu. E... Ah, você estava certa quando afirmava que era mesmo uma menina”. Seus olhos são críticos, olhando-me de cima até embaixo. Encolho-me, um pouco vergonhada. Sem qualquer motivo, acho.
“Por que você acha que eu estaria errada quanto a isso? Ah, dane-se. Isso não importa. Não é sobre isso que eu quero conversar. É sobre a espada. Melhor; sobre o símbolo que está nela. Mas eu agradeceria se você a tirasse de minha frente”.
Lentamente, ele a coloca por trás de si, curioso. Sinto-me aliviada. Não olhar a arma faz com que eu me foque mais na situação, sem deixar que minhas emoções me arranquem a linha de raciocínio. “Bem, eu já tinha terminado mesmo de limpá-la. Vamos lá, diga”, diz ele, fechando o potinho de vidro e guardando no bolso da parte de dentro do colete.
“O símbolo da serpente, que está na espada. Eu lembrei. Eu já vi isso antes, Marcos”.
Seus olhos se abrem, mais surpresos ainda. São verdes, agora sei. Um verde de vários tons, estranhos, porém bastante curiosos. Como uma floresta selvagem, num dia de verão. “Sério? Quando foi isso?”.
“Quando assassinaram os meus pais e queimaram minha casa. A imagem estava na fumaça, queimando contra o céu”.
Ele para, chocado, talvez com o que aconteceu, ou meu tom sombrio, sério – talvez até mesmo com ambos.
“Porra, Kiria. Caramba. Você pensa nisso tomando banho?”.
Achei que ele fosse fazer qualquer outro comentário. Qualquer um, mesmo. Menos esse.
“Sério mesmo que isso é tudo o que você tem a dizer?”.
“Não”, diz ele, respirando fundo. É como se toda a graça que antes lhe imprimia um sorriso inexplicável tivesse sido extinta do mundo. “Isso é sério, Kiria. Muito sério. Também me lembro de onde é esse símbolo. E, se isso não passar de uma coincidência muito estranha, você está encrencada. Muitíssimo encrencada. Esse símbolo quer dizer problema”.
“E o que quer dizer esse símbolo?”.
“Nada de bom. Esse é o símbolo da Serpente. A Serpente que percorre todo o mundo causando morte e destruição. A Serpente de Turah”, diz ele, baixinho e irritado. “Não sei como pude esquecer uma coisa dessas. Eu sou mesmo um idiota, um imbecil, um babaca... Anos e anos sendo treinado para procurar e acabar com isso... Aliás, milênios, desde Drinaia, talvez até antes...”. Ele diz tudo isso em um tom distante, como se falasse sozinho, como se estivesse se esquecido de que eu também estou no mesmo ambiente. Mas depois se vira, num olhar e tom quase acusador, numa curiosidade felina. “Kiria, me responda com sinceridade: aconteceu algo de estranho nesses anos todos desde a morte de seus pais? Talvez antes disso? Ou recentemente?”.
Quero contar. Quero dizer que Melina agiu de forma estranha minutos antes de ser morta. Que me deu um presente esquisito e que me disse coisas mais esquisitas ainda. Quero muito lhe dizer que eu já ouvi falar muito antes sobre Drinaia e Turah, e que disse isso à Doralice. Quero lhe pedir informações sobre tudo, quero saber sobre suas suposições – de que jeito eu estaria ligada a tudo isso. Desejo muito contar. Isso tudo passa por minha cabeça em questão de pouquíssimos segundos. Mas não conto. Não consigo contar, e me odeio por não saber o porquê. É como se tivesse algo filtrando minhas palavras, um guarda confiscando minha fala.
A única coisa que sai pela minha boca é um “Não”. Um “não” mentiroso. Um “não” horrível, no qual não me reconheço.
Ele suspira, frustrado. E respira profundamente por diversas vezes, provavelmente tentando se acalmar. Ele talvez suspeite que eu esteja mentindo, mas não me força a continuar a responder. Afinal, recordo-me, em Smok ninguém é obrigado a contar sua história se não quiser. E, se ficarei em Smok pelos próximos tempos, é bom que eu me acostume logo com as regras, não é?
Marcos se deita na cama, olhando para o teto. Percebo que ainda estou de pé, e permito-me sentar na beirada de minha cama temporária.
Encolho as pernas e tento mudar de assunto. “Guepard. O que você acha que ele está fazendo?”.
Sou novamente avaliada, enquanto ele decide o que responder. Ou decide se quer responder ou não. “Quer saber?”, diz ele, finalmente. “Não faço a menor ideia. Tento pensar em várias coisas, mas todas elas parecem improváveis. Temos todo o tempo do mundo para descobrir, se a Serpente não te matar também”.
Ignoro a última parte. “É verdade que ele pode escutar o que falamos?”.
“Se pudesse, estaríamos fritos. Sendo vigiados constantemente. Ele só pode ouvir se for chamado. Não pense também que toda vez que dizemos o nome dele queira dizer que ele está escutando. Não. Nunca se engane se um mago disser que pode saber o que as pessoas falam ou pensam quando estão por aí. Geralmente há algo mágico que parte das pessoas para que o mago ouça seu chamado. O fato de ele nos ter visto hoje de manhã – madrugada, que seja –, foi porque eu chamei”.
“E em que parte do caminho você fez isso?”.
“Quando você decidiu parar para descansar por estar exausta. É claro que você não percebeu. Foi algo mais telepático. Não sei como você está aguentando todo esse papo cansativo de magia, Drinaia, Turah e tal. Eu não costumo sair por aí falando disso com ninguém. Mas os acontecimentos ocorridos em nossa rápida apresentação levaram-me a agir de um modo diferente. Claro que, até agora, todas as garotas com quem eu me envolvi são nativas daqui, então ninguém liga pra isso, sendo Comum ou não. Quer que eu explique algum termo?”.
“Não, eu estou acompanhando tudo muito bem. Claro que em algumas partes eu hesito. Todos os livros de fantasia que li não me prepararam direito para essa realidade, e de qualquer forma não acho que alguma coisa prepare. Quem diria? Magia de verdade, magos e ninfas... Na verdade eu não me importo tanto. É muitíssimo interessante. Como viver em um sonho. Considerando que eu ainda não dormi, isso aqui poderia ser apenas delírio da minha mente. Só não entendo por que estamos usando uma linguagem mais formal agora”.
Ele dá uma risada fraca. “Eu posso ser formal, se eu quiser. Não sou tão babaca quanto todo mundo pensa. E isso tudo é real, felizmente ou infelizmente. Eu sou real, embora seja até romântico... Eu, o herói charmoso dos seus sonhos...”, ele ri da própria piada por um momento, mas depois Marcos para um pouco, pensando. “Guepard provavelmente vai nos perguntar o que está acontecendo, junto com várias outras coisas. Apesar de ele nos ajudar em pesquisas de vez em quando, eu nunca realmente confiei nele. Misterioso demais, às vezes. Quieto. Bonzinho demais para o meu gosto”.
“Certo. Mas o que você tem contra pessoas boas?”.
“Não tenho nada contra pessoas boas. O problema é quando elas são boas demais. Quase forçadas a serem legais com tudo e com todos. E isso me incomoda. Mas a questão não é essa. E ainda mais com esse medo da Lis... Estou ainda mais desconfiado. Mas creio que isso não seja algo que eu tenha que investigar agora. Temos que chegar em Smok, falar com Jonathan e aí, sim, começar a pesquisa. Ele sabe tudo. O garoto raramente sai daquela biblioteca. Chega a ser assustador”. Ele estremece.
“Então você propõe o quê?”, pergunto.
“Mentir. Inventar uma história qualquer. Pode deixar isso comigo”. Ele então sorri da ideia. Sem ao menos conhecê-lo bem, sem saber como ele é, tenho medo desse sorriso. Tenho medo de estar envolvida nisso de alguma forma que seja desconfortável. E isso se confirma quando ele olha para mim, malicioso. “Creio que você não vai gostar muito disso”.
Suspiro. “O que foi? O que eu terei que fazer?”.
Tenho medo da resposta. Seu sorriso se abre ainda mais. “Você podia fingir que é minha namorada. Não sei o motivo, mas de qualquer forma ninguém nunca quer saber sobre quem eu namoro...”.
“O quê? Você está brincando, não está?”.
“Pra quê tanto espanto? Não é como se você tivesse que se jogar de um penhasco para um abismo... Não sou tão ruim assim, sou? É apenas fingimento, Kiria. Um beijo ou dois, se necessário. Já estamos dormindo no mesmo quarto, de todo jeito. Seja bem-vinda ao mundo do teatro!”.
Respiro fundo, antes que isso possa me dar alguma dor de cabeça. Fico calma. “Só fingimento, certo? Nada além disso. Tá, mas e se ele me perguntar alguma coisa, tipo de onde eu vim, sei lá... qualquer coisa?”.
“Diz que você é do litoral, de Lago do Dragão. Eu vim de lá. É um bairro calmo, até. Perto do centro da cidade. Vai funcionar. Você até tem um sotaque parecido com o de lá, e sei também que Guepard não liga para aquele lado, até porque o mago daquela área é outro, e eles não se dão muito bem. Antes que você pergunte, é como se cada área de quase todas as cidades tivesse um mago como... protetor. Mas, se possível, deixe que eu responda”.
Nunca pensei que eu tivesse algum tipo de sotaque. No trem, tinha pessoas que falavam com algumas entonações diferentes, e eu encontrava a mesma coisa quando eu ia para outros países. Afinal, não é mais como no passado, quando cada lugar falava uma língua diferente. Do jeito que o mundo piorou, as pessoas se uniram e formaram um idioma só, para ser mais fácil a comunicação. Mas eu falava apenas com Melina, e nunca percebi que talvez a minha entonação – o meu sotaque – também fosse diferente. De qualquer forma, não adianta mais classificar alguém como sendo de algum lugar pelo jeito que ela fala. Agora somos um só. Ainda que os limites e nomes dos lugares permaneçam os mesmos.
Respiro fundo algumas vezes, enquanto ficamos em silêncio. Depois de alguns minutos, Doralice aparece na porta e anuncia que o almoço está pronto. Nós nos levantamos, e Marcos me estende a mão, enquanto ela segue pelo corredor.
“Luzes, câmera...”, diz ele.
Seguro sua mão. “Eu não vou te beijar. Tire essa ideia da cabeça”.
Ele aperta minha mão e suspira, fingindo estar triste. “Ação”, e seguimos Doralice.
Descemos a escada, atravessamos o salão e passamos por uma alta entrada, até uma enorme sala com uma mesa comprida e várias cadeiras, vazias. Guepard está sentado na ponta, do outro lado da sala.
“Por favor, sentem-se”, diz ele. E o fazemos.
Consideravelmente perto do mago, Marcos se senta do meu lado e Doralice à minha frente. É quase triste ver o resto da mesa sem ninguém. Estamos apenas com os fantasmas de nossas almas. Ela estala os dedos e, depois de alguns segundos, os pratos, copos, talheres e comidas começam a se materializar sobre a mesa. São coisas de uma aparência espantosamente deliciosa: frango assado decorado com maçãs caramelizadas, cozido de peixe com um cheiro divino, macarrão de muitos tipos e muitos molhos, sopas fumegantes e cremosas, maçãs, laranjas, uvas, pêssegos, morangos, frutas e mais frutas de cores vivas e brilhantes, tortas de chocolate, creme, enfim, vários sabores, bolos recheados de maneira absurda, decorados de forma tão delicada que é impossível sequer imaginar que alguém comeria, e comidas que não consigo nomear, e sucos gelados e refrescantes. Não sei o que mais me machuca a barriga de pura fome: a visão ou o cheiro, que é impossível de descrever. Mais impossível ainda é imaginar que aquela abundância destruidora de vidas, que poderia resolver o problema da fome de vários lugares no mundo, seja apenas para nós, que somos tão poucos.
Como é bom, pelo amor de Deus. Tenho que me controlar para não me babar inteira, e muito menos começar a chorar. Tenho que agir normalmente.
“Sintam-se a vontade. Podem começar a comer”, incentiva Guepard.
Todos começam a se servir, e tento fazer o mesmo. Mas, assim que me levanto, Marcos segura minha mão de forma carinhosa. “Deixe que eu pego para você, amor”, diz ele sorrindo. Atuação, pura atuação. Sorrio em resposta, me queimando de frustração por dentro. Não posso nem pegar minha própria comida. Talvez isso seja bom, pela vontade que tenho de rolar pela mesa e criar uma montanha de comida sobre meu prato de tanta fome que sinto. Certo, certo. Exagerei. Um pouco.
Assim que ele pousa o prato preenchido minha frente junto com o seu próprio – com outro sorriso amoroso, deixando claro para Guepard que somos um casal fofo –, todos se sentam para começar a comer. Sinto que eles me olham de maneira discreta, esperando que eu comece a comer. Claro, considerando o estado em que me encontrava quando cheguei aqui – parecendo uma garota de rua, ou uma selvagem qualquer – talvez não seja tão surpreendente para eles que eu comece a atacar meu prato com as mãos, como se eu não soubesse a função de um talher. Com raiva, me bate uma vontade de fazer isso mesmo. Estou morrendo de fome mesmo, qual o problema? Mas não. Nunca.
Eu não daria essa satisfação para eles. Eu sou civilizada. Levo o garfo com um pedaço de frango à boca, e sinto a pressão de seus olhares sobre mim desaparecer. Para ser sincera, não sinto mais nada. Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Todos os meus sentidos ficam anestesiados, e aprecio com a alma o sabor suculento e terrivelmente, adoravelmente delicioso. A melhor coisa que já comi na minha vida. É, na verdade, uma batalha de sensações, e quero mais, mais, e muito mais. Eu atacaria essa mesa inteira se pudesse.
Contento-me com o que está em meu prato.
“Então”, começa Guepard, depois de um tempo. “Creio que agora vocês finalmente possam me explicar o que está acontecendo”.
Marcos termina de mastigar e engole a comida, se preparando. “Kiria e eu estávamos fugindo de alguns Caçadores Selvagens pela floresta perto dos trilhos. Foi culpa minha, eu os provoquei meio que sem querer. Não é todo mundo que se sente honrado em minha presença”, ele sorri, divertido. “Ela acabou escorregando e caindo no chão. Infelizmente em cima de alguns Besouros do Pântano. É, foi um pouco feio. Acabei conseguindo matar dois Caçadores antes de o resto fugir”.
Não tenho a menor ideia sobre o que ele está falando, mas tento fingir o contrário. Ele fala com tanta propriedade que isso só pode ser verdade.
“Foi uma caminhada e tanto, e a Kay não está acostumada, não é, amor?”. Ele coloca um braço sobre meus ombros, me puxando para mais perto, beijando o alto de minha cabeça. “Mas agora está tudo bem”. Kay? Sério isso? Kay? Mas que raio de apelido é esse?
Mas fico quieta. Não reclamo. Apenas dou um sorriso tímido.
Guepard assente com a cabeça. Não tenho certeza de que ele engoliu isso, mas é o que parece aceitar agora. “De onde a senhorita seria?”, pergunta ele, olhando para mim.
“Lago do Dragão”, respondo. Sinto parte do interesse de Guepard por mim desaparecer como se ele tivesse apertado um interruptor para apagar a luz. Não sei se devo me sentir aliviada ou triste por isso. Não importa: não ligo.
De novo olhando para Marcos, ele pergunta: “E o que vocês estavam fazendo perto dos trilhos?”.
“Algo um tanto... pessoal, se é que me entende”, responde ele, malicioso. Sinto meu rosto ficar vermelho, e tenho vontade de bater em Marcos. Que ele mentisse, mas não precisava se aproveitar disso.
“Então vocês são namorados?”, pergunta Guepard, e ouço ainda um som amargo em sua voz. “Talvez tenha sido apenas impressão minha, mas vocês dois não me pareciam tanto românticos mais cedo. Pareciam meio... Distantes, não sei. Diga-me, Kiria, há quanto tempo dura tal romance?”.
Sua pergunta é para mim e somente para mim. Por uma fração de segundo congelo, sem saber o que fazer. Olho para Marcos do jeito mais romântico que posso, e espero que ele veja o desespero em meus olhos. Ele retribui o olhar de um jeito sério, mas está sorrindo. Não sei o que dizer.
Doralice fica o tempo todo comendo, em silêncio, de cabeça baixa.
Marcos provavelmente não é uma pessoa de se prender a namoros, pelo jeito que ele age. Descontraído, como se não levasse nada a sério. Aprendi a ler certos comportamentos apenas olhando as pessoas do trem. Como elas não falavam comigo, e pareciam fingir que eu não existia, eu tive que aprender a interpretar as pessoas sem exatamente conhecê-las, pois a convivência com Melina não bastava. Era como assistir um filme, uma novela, só que na vida real. Marcos havia dito que ninguém se importava com quem ele namora. Por que Guepard iria querer saber justo agora? Visivelmente, Marcos não está namorando, e tenho vontade de bater na minha testa por essa conclusão tão estupidamente óbvia. Qual seria o intervalo de tempo a partir da última pessoa com quem ele se relacionou? O que me faz pensar... Quantas garotas ele já beijou?
Por que estou pensando nisso? Isso não tem a menor importância. Sei que todo esse pensamento se passa em apenas outra fração de segundo. Invento algo.
“Menos de uma semana. Mas parece que estamos juntos há uma eternidade”. Marcos sorri com isso, e acho que fui bem. Espero que Guepard não repare em minha hesitação. Vejo agora que essa bem que poderia ser uma frase de quem está de saco cheio de estar em um relacionamento. Tenho consciência da falsidade apaixonada em minha voz, e sei que apenas Marcos é capaz de perceber. Lembro-me de ouvir essa frase com essa mesma entonação falsa no trem, nos vários casos que se criavam. É quase surpreendente essa capacidade de ler as pessoas. Também nunca reparei nessa tal facilidade. Talvez tivesse sido a falta de ter algo melhor a fazer que me tenha feito ser tão boa.
Não sei se Guepard engoliu isso. “Se me permitem perguntar”, ele diz, “onde foi que vocês se conheceram?”.
Isso não parece ser uma pergunta somente para mim, então volto meu olhar para Marcos.
“Um lindo dia de sol no Parque dos Sentidos. Estávamos no Arco da Morte, quando, sem saber, ela acabou flechando meu coração”, diz Marcos. Quero muito rir do jeito babaca com que ele diz isso tudo. É uma droga ter que se segurar. Arco da Morte, não poderia existir um nome melhor para ser um perfeito lugar para formar casais. Daqueles que duram a vida inteira. Romântico. Não quero nem saber como é um lugar com esse tipo de nome. “Na verdade ela realmente acabou quase me matando, com aquela flechada em meu peito. Doeu um pouco, mas descobri que foi uma dor boa”. Se eu fosse Guepard, estaria vomitando com isso tudo.
Apaixonadamente, enfio mais comida na boca, querendo me livrar de ter que falar. O mago parece estar cheio dessa fofura toda, então muda de assunto. Meu corpo todo se livra da tensão, gritando “ALÍVIO” por várias partes.
“E agora vocês vão descansar e depois partir para Smok, certo?”.
“Sim. Devemos partir pela madrugada, talvez”, diz Marcos.
“Aparentemente”, comenta o outro, “esse deve ser um romance mais duradouro, acredito eu. Nunca se sabe, com esses tempos mudando...”.
“Espero que sim. Mas como assim os tempos estão mudando?”.
“O que dorme está acordando, sei disso, eu sinto. Não sente o cheiro no ar? É quase apalpável. E sinto isso mais forte, meu caro, quase como se estivesse ao meu lado. É o poder de Drinaia. Sim, ela volta, sinto isso. Mas agora, peço-lhes que aproveitem a estadia e descansem. Foi uma longa caminhada até aqui, e a distância até Smok não é tão curta. Desculpem-me, mas tenho que me retirar. Tenho visitas a receber, e coisas a fazer”.
“Entendemos, Kay e eu. Obrigado pela recepção, Guepard”.
O mago se levanta e dispensa o elogio com uma mão. “Doralice, depois que eles terminarem, você tira a mesa”.
“Sim, pai”, responde ela, baixo e monótono.
E então ele sai da sala.
Marcos acompanha a saída de Guepard com os olhos, pensativo. E se mantém assim, em silêncio. Doralice e eu ficamos quietas, comendo.
Continuamos a comer entre alguns elogios culinários e silêncio. Tento aproveitar tudo, mas infelizmente chega a hora em que minha barriga se enche e tenho que parar. Depois de anos e anos sem me alimentar direito, achei que isso nunca fosse voltar a acontecer. Estava enganada.
Levantamos-nos, e pergunto para Doralice: “Você precisa de ajuda?”.
“Não, obrigada. É tão fácil como colocar a mesa: por mágica”, diz ela, estalando os dedos novamente. A comida desaparece, o que é um pouco triste.
“A comida estava realmente uma maravilha, Lis. Com certeza vai ser melhor do que as tentativas não comestíveis que a Morgana faz quando você estiver em Smok”, diz Marcos.
“Obrigado”, ela sorri. “Bom descanso”.
Subimos para o quarto, e sinto-me sonolenta. Deito-me em minha cama, virada para a parede, e a sensação é muito boa. Sinto minha coluna se ajeitar, e meu corpo relaxa. E então penso sobre tudo. Perdi o resto da minha vida em menos de um dia. Eu preciso descansar.
De repente tenho vontade de me encolher no vazio. Já não penso mais em nada. Apenas sinto o vazio me chamando, me puxando para a escuridão.
“Você está bem, Kiria?”, pergunta Marcos.
“Não sei”, suspiro. Ele se aproxima, mas não muito. Talvez ele sinta que estou no vazio. Pergunto-me se é tão perceptível assim o meu estado, como se várias placas estivessem apontando para mim, todas elas escritas “DEPRESSÃO”.
Ele não comenta sobre mais nada. Apenas diz, sério e talvez um pouco triste: “Não chore, está bem? Talvez tenha acontecido muita coisa ruim de uma vez só pra você. Não te culpo e nem há o que culpar. Mas não chore. Tudo vai ficar bem”.
Tenho vontade de perguntar se isso é uma promessa. Se realmente vai ficar bem. Nessa repentina depressão em que me encontro, tenho vontade de perguntar se alguma coisa algum dia vai ficar bem.
Mas o sono é mais forte que eu. Quando eu pisco, já não volto a abrir os olhos. Pois já estou dormindo.
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