Notas iniciais
Aqui estão as férias de Natal

Boa leitura

Elle estava no expresso de Hogwarts numa cabine cheia de Slytherins. O expresso estava cheio, não havendo por isso maneira de estar sozinha a pensar em tudo o que se passava à sua volta. Estava do lado da janela. Apesar de ser meio da tarde o céu estava cinzento, carregado com nuvens quase negras, viam-se alguns dementors ao longe, mas nada de extraordinário naqueles tempos tão maus.

Quando Elle chegou a casa, Leon correu a abraçá-la, levantando-a no ar. Elle já tinha saudades da família. Em Pahtellons, sentia também saudades mas havia mais felicidades para não pensar tanto na falta da família.

- Maninha, que saudades! – Leon disse dando-lhe um beijo. – Como estás tu? Estás bem? Não estás ferida, pois não? – Aquelas perguntas nunca tinham sido feitas quando chegava da escola para passar as férias de Natal.

- Sim, estou bem. E não, não estou ferida. – Elle segurava na cara do irmão analisando-a. – O que é que queres, Leon? Achas que eu não aguento? Achas-me assim tão fraca de cabeça?

- Não, não acho. Tu sabes bem que não. Tu és uma das pessoas mais fortes que conheço. Sei que tu me vais deixar orgulhoso. – Leon disse com um sorriso. – Esta minha expressão é de preocupação. Estou preocupado com a minha maninha preferida.

- Parvo, não tens mais nenhuma. – Elle disse empurrando-o suavemente com um sorriso na cara. Leon riu.

- Mas não deixas de ser a minha maninha preferida. – Leon respondeu. – Mas estás mesmo bem?

- Sim, estou. E ainda melhor agora que cheguei a casa. Onde estão os pais? – Elle perguntou dando a carteira ao irmão.

- Eles foram fazer umas compras de Natal. – Leon respondeu. – E a Irina, como é que ela se está a safar?

- Muito bem, melhor do que eu. – Ela respondeu sentando-se no sofá. – Ninnguém sabe quão amigas somos porque senão… — Os pais abriram a porta e Elle correu a abraçá-los. – Pai, mãe! Como é que vocês estão?

- Muito bem, Elle. – Respodeu o pai dirigindo-se para o sofá com a mulher e a filha.

- Agora, conta-nos tudo, o que é que se passa dentro daquele castelo? – Perguntou a mãe olhando para a filha atentamente.

- Bom… Tem sido um bocado cansativo ter lá os Carrow como professores e ter que fingir que sou inimiga da Irina. Mas mantenho as minhas notas às disciplinas que se mantêm. – Elle respondeu desviando a atenção.

- Sabes que não nos importam as tuas notas, mas o teu bem-estar. – O pai disse seriamente.

- Mas eu estou bem. Estou nos slytherin. Quem mais sofre são os gryffindors. Aquilo é tão triste. Eles fazem frente e as consequências são horríveis. Logo na primeira aula de Magia Negra um deles foi torturado com a maldição cruciatus. – Aquelas palavras eram suficientes para mostrar o ambiente que se vivia em Hogwarts.

Elle foi deitar-se depois de falar com os pais e o irmão. Estava exausta de tentar suavizar os acontecimentos que tinham acontecido em Hogwarts. Naquele momento, estava preocupada com Irina que tinha ficado no castelo sem muita mais gente. Ela foi até ao quarto do irmão, depois de um pensamento rápido, abrindo a porta sem antes bater.

- Ei, Elle, qual é a tua? – Leon estava enrolado com uma toalha pois tinha acabado de sair do duche.

- Desculpa, mano. Mas também já te vi em figuras bem piores. – Elle olhou em volta. – Onde está o espelho com que costumas contactar-me?

- Para quê? – Leon perguntou abrindo uma caixa e tirando de lá o espelho. – Não me digas que queres ver como é que o decorei. – Leon atirou-lho e ela apanhou-o num movimento rápido. – Ainda bem que este tempo parada, não te está a deixar enferrujada. – Elle deitou-se na cama.

- Deixei o meu espelho com a Irina e quero saber como é que ela está. – Leon deitou-se ao seu lado. – Não te vais vestir?

- Elle, como estás? – Irina perguntou com um sorriso. – Leon, olá!

- Olá, Irina. Diz-me uma coisa, está tudo calmo por aí? – Leon perguntou verdadeiramente preocupado.

- Sim, está. Também é só o primeiro dia de férias. – Irina olhou para Elle assim que respondeu. – Estás a gostar dessa pausa?

- A adorar, amiga. – Elle respondeu rindo. – Olha, se precisares de alguma coisa, diz-me. Estou com medo por ti.

- Eu sei, mas eu estou bem. Não te preocupes à toa. – Irina respondeu. – Agora, vê se aproveitas essas férias com a tua família porque bem mereces. E tu, Leon, vê se lhe tiras algumas saudades para ela aguentar até à Pascoa, ok? – Leon riu.

- Claro! – Ele abraçou a irmã.

- Ah!, e veste-te. – Elle riu mais a amiga. – Adoro-te, Elle, vê se me trazes alguma coisa de França.

- Combinado. Amanhã, falamos. – Elle piscou o olho e guardou o espelho na caixa que estava na mão do irmão.

- Espero que ela fique bem. – Leon disse apertando a irmã. – Tu estás a temer por ela, não estás? – Ele tirou uns boxers e vestiu-os por baixo da toalha. Elle sorriu e rolou na cama. Momentos depois o irmão deitou-se ao seu lado. – Dormes comigo, hoje? – Elle olhou-o e sorriu respondendo que sim com a cabeça. – E agora, podes falar-me desse medo que te atormenta por causa da Irina. Eu estou aqui. – E era verdade, o irmão estava ali. Ao seu lado. A apoiá-la qualquer que fosse o assunto.

Irina arrumou o espelho cuidadosamente numa caixa que estava protegida de feitiços de convocação e suspirou. Era o primeiro dia de férias. Acabara de vir do jantar que foi horrivelmente solitário e incomodativo. A escola estava vazia, não fosse pela presença dos professores. Todos os alunos tinham ido passar férias em casa, o que era perfeitamente compreensível naquele tempo. Mas, embora Irina estivesse feliz por eles, tinha que sentir pena de si própria, não era nada agradável para ela estar ali sozinha. Ainda bem que sempre podia trocar cartas com Pratoi e com Ginny, não que pudesse dizer muita coisa, mas sempre era bom falar com alguém.

Irina foi tomar banho, pensando na conversa que tivera com Elle e Leon, eles pareciam felizes juntos, desejava estar ali com eles e, de certo, eles queriam o mesmo, mas não podia, ou o plano das duas iria por água abaixo. Apesar de presa ali, Irina divertira-se a falar com eles e, de uma maneira ou de outra, adorou ver Leon bem e a salvo. Era verdade que a guerra estava mais forte no Reino Unido, mas havia muitos franceses envolvidos nela. Aliás, todo o mundo feiticeiro estava envolvido, afinal era o seu mundo que estava em perigo. Irina temia por todos, mas especialmente pela família e pelos amigos, Leon era um desses amigos.

Logo que saiu da casa de banho, já vestida, Irina olhou para as horas. Ainda não passara da hora do recolher e talvez se fosse noutro dia, já tinha saído para dar uma volta, mas a escola estava vazia e, se saísse e algum dos Carrow a visse, poderiam castigá-la por estar a tramar alguma coisa embora ela não estivesse. Então, decidiu dormir, ainda tinha muitos dias pela frente…

Levantou-se às seis da manhã e não conseguiu dormir mais. Um sentimento de insegurança rodeava-a ainda mais do que durante os dias de aulas. É claro que ela sabia que isso se devia ao facto de não haver mais nenhum aluno a passar o Natal na escola, mas, raios, era por isso mesmo que ela estava ainda com mais medo! Depois de tomar banho e vestir um vestido de veludo clássico, Irina desceu para o pequeno almoço, não que quisesse realmente tomá-lo, mas tinha de o fazer, caso contrário podia vir a ter muitos sarilhos.

- Bom dia, Mademoiselle Saint-Claire! – McGonagall cumprimentou Irina assim que ela entrou no Salão para o pequeno almoço. Nos seus olhos a aluna conseguia ver a pena por ela, por saber que ela tinha que passar o Natal ali. Conseguia ver que a professora procurava uma explicação para o facto de ela não ter ido passar o Natal com os pais, em sua casa, onde estaria feliz e acolhida.

- Bom dia, professora McGonagall. – Irina cumprimentou de volta, olhando depois para os outros professores. Flitiwic acenou, assim como Slughorn e a professora Sprout. Os outros estavam demasiado hirtos, quase nem se apercebendo da presença de Irina ali. Aquele Salão era enorme para ser usado por apenas meia dúzia de pessoas, Irina pensava olhando em seu redor… Como queria que as férias acabassem de uma vez por todas… Talvez estivesse a ser egoísta, mas era tão difícil estar ali sozinha…

Uma coruja poisou na mesa, deixando uma carta com um ramo de flores. Pratoi, sem dúvida nenhuma. Porém, outra coruja trazia consigo mais uma carta, despertando a curiosidade de Irina.

- Quem te terá escrito, Irina? – Perguntou-se ela, lendo o envelope. – Claro, Ginny, quem mais? – Estava um pouco triste, queria uma carta dos pais. Não que não gostasse de Ginny, mas ela queria ter notícias dos pais. Abrindo a carta da amiga, leu-a:

"Olá, Irina, como está a correr por aí? Está a correr tão bem como os teus trabalhos de Herbologia? Tenho quase a certeza que sim." – Irina sorriu. Ela era um desastre a Herbologia, tinha de ser Neville a ajudá-la constantemente. – "Bom, eu sei que deves ser a única a estar aí, mas não te esqueças que, sempre que precisares de falar com alguém, é só escrever, mas com cuidado. Por causa dos erros ortográficos, é claro." – Ela riu suavemente. Não era a erros ortográficos a que Ginny se referia realmente. O cuidado que ela lhe recomendava era com o que dizia nas cartas que escrevia, se escrevesse a coisa errada, podia ser perigoso para as duas. – "Beijos. Ass. Ginny Weasley"

- Merci, Ginny. – Disse ela, sorrindo com a carta da amiga. De seguida, passou os olhos pela carta de Pratoi e pelo ramo de margaridas. Não eram as suas flores favoritas, mas já era bastante bom ele ter-se lembrado dela.

Irina levantou-se de repente, decidida. Não podia ficar de braços cruzados. Tudo bem, estava mais controlada por ser a única, mas a verdade é que mesmo por ser a única aluna ali, os outros professores, mesmo os Carrow, se distraíam mais facilmente. Não pensava em fazer nada de mal, tinha apenas que encontrar Dumbledore, uma maneira de chegar ao sítio onde ele estava. Porque ela sentia que ele estava em Hogwarts, um verdadeiro director não abandona a sua escola e Dumbledore tinha sido o melhor director de Hogwarts. Despedindo-se dos professores com um aceno de cabeça, saiu com as suas coisas na mão e começou a andar pelo Castelo. Ele podia ser enorme, mas a francesa estava decidida a fazer com que o seu Natal em Hogwarts desse frutos.

O dia de Natal chegou rapidamente. Elle estava bem mais calma quanto a Irina. Nada de mau acontecera até ao momento e isso acalmava o seu espírito. Durante a manhã, ela e a mãe estiveram a preparar o almoço enquanto que o pai e o irmão enfeitavam a sala de jantar com pequenas bugigangas que dariam mais luz ao Natal.

- Mãe, podemos fazer bolo de abóbora. É muito bom. – Elle disse. A mãe concordou.

- Filha, achas que te sentes suficientemente razóavel em Hogwarts para lá continuares? Eu estou preocupada com a tua estadia lá. Não sei, tenho tanto medo por ti. E a Irina, como deve ser horrível para ela passar o Natal ali. – A mãe preocupava-se tanto com Elle e Leon como com Irina. O mesmo se passava com os pais de Irina. As suas famílias eram como uma grande família onde se partilhavam pais e filhos.

- Eu aguento, mãe. E de qualquer maneira, não quero sair de lá. Eu sei que tenho muito que fazer no castelo. Eu fico bem, mãe. Não te preocupes. – Elle abraçou-a.

- Não me peças isso porque é impossível não me preocupar contigo e com a Irina. Eu e os pais dela somos como irmãos. E falamos muitas vezes de vocês e no quanto nos preocupa vocês as duas lá, tão fora do nosso alcance e num ambiente tão sombrio.

- Sim, é mau, mãe, mas nós estamos bem. Temo-nos uma à outra. E ainda mais amigos. Temos tanta gente no nosso coração. Descansa que não estamos lá sozinhas. Nós nunca estamos sozinhas. Não enquanto nos lembrarmos das pessoas que amamos e por quem temos que sobreviver e lutar. – Elle sorriu e começou a fazer o bolo com a ajuda da mãe.

- Uhm, cheira tão bem. – Disse o pai assim que filha e mãe entraram na sala com as mãos cheias.

- Vá, sentem-se. – Disse Elle sentando-se também com um enorme sorriso.

O almoço passou com risos e conversas que tinham a sombra do que se passava. Porém, a família não ia deixar aquele mal ganhar.

Quando acabaram de comer e de trocar as prendas como normalmente faziam, foram para o sofá. Os pais num lado a namorar e os filhos noutro a conversarem.

- Mãe, pai, e que tal se formos passear ao jardim? – Perguntou Leon levantando-se mais a irmã.

- Sim, é uma boa ideia. Mas temos que nos agasalhar. – Disse o pai levantando-se e dirigindo-se, à frente até ao cabide.

O passeio em família foi rodeado de calor apesar da neve que caía lá fora. Elle já sentia saudades daquele jardim que escondia inúmeros acontecimentos que tinham tido lugar ali. Ela mesma tivera esses momentos. Aquele jardim era um dos seus lugares favoritos. Aprendera ali a ser feliz pois nunca fora mais feliz do que em casa, junto com a família e aqueles que eram mais próximos.

Nunca os dias para o Natal chegar passaram tão lentamente para Irina. E nunca lhe custara tanto acordar na manhã de Natal, não estava nada ansiosa pelas prendas, muito menos pelo pequeno almoço.

Desceu para a Sala Comum depois de tomar banho e se vestir. Enquanto descia as escadas, olhava para a grande árvore de Natal. Tão grande somente para ela e, apesar de tão bem iluminada, nem sequer a fascinava. Ela não queria sentir o Natal como mais um dia, mas era isso que ele estava a ser, que ele iria ser, naquela estúpida escola com um estúpido director, com dois estúpidos professores. Sem se conter chorou no sofá. Que raiva! Às vezes só lhe apetecia voltar atrás no tempo e nunca ter fugido da escola para ir a uma festa. Ela tinha noção que estava a ser covarde com esse desejo, mas sentia tanta raiva de estar ali sem poder realmente fazer nada de útil. Ao menos, se estivesse em Pahtellons, teria ido passar o Natal com a família e sempre poderia ser um pouco mais feliz. Mas por outro lado, também sentia que devia estar ali, a lutar, que tinha sido algo que a guiara até Hogwarts, algo superior a ela, que queria que ela tivesse a coragem de lutar.

Engolindo as lágrimas com palavras tranquilizadoras, Irina caminhou até à árvore e começou a abrir as prendas. Recebera uma camisola de Mrs. Weasley, o que a deixou felicíssima, parecia que a boa mulher a recebera de braços abertos sem sequer a conhecer, o que significava que Ginny falara bem dela à sua família. De Pratoi, recebeu uma pulseira de prata com pendentes de corações e árvores de Natal. Mas foi a prenda seguinte que a deixou mais feliz. Não, não era de Elle, não podia ser. Era dos pais. Dois vestidos. Um de gala e outro de Primavera como ela lhes pedira. Não foram as prendas que a deixaram feliz, é claro, mas o que elas significavam. Significavam que os seus pais se preocupavam com ela e que percebiam o quão importante era o Natal para ela. Vinha um bilhete junto com a prenda: "Sabemos que te vão ficar perfeitos. Irina, amamos-te, não penses que não."

- Eu também vos amo. – Ela disse, escrevendo uma carta para eles que começava com essas mesmas palavras. – Espero que estejam bem. – Foi como ela acabou a carta.

O Salão estava preparado para um pequeno almoço fora do comum. Não que isso se sentisse realmente, as pessoas estavam exactamente iguais, distantes. Será que os professores não tinham família com quem estar num dia tão especial? Irina achava que, mesmo se tivessem, eles não poderiam sair, não se lembrava de isso acontecer em Pahtellons.

Depois do pequeno almoço enviou as cartas de agradecimentos e fez o mesmo de todos os dias: andar pelo Castelo à procura de Albus Dumbledore.

- Miss Saint-Claire, o que faz a andar por aqui? – Irina deu um pulo para trás quando Snape apareceu ao seu lado, nem sequer o tinha ouvido, ele devia ser realmente um bom espião.

- Não há muitas mais coisas para se fazer por aqui. – Ela respondeu rudemente, tentando ir-se embora. – E eu já lhe disse, é Mademoiselle Saint-Claire, não Miss. – Snape bufou perigosamente.

- Eu aconselho-a a ir para o seu quarto e ficar lá até ao almoço. – Snape saiu rapida e silenciosamente de ao pé dela.

- Estúpido. – Falou ela para si, continuando o seu caminho. Ninguém é obrigada a seguir os conselhos de ninguém embora ela soubesse que aquilo fora mais uma ordem que outra coisa qualquer.

Mas ela nunca encontrava nada, por mais que tentasse com todas as suas forças, por mais que percorresse caminhos que nunca percorrera, por mais salas curiosas que visitasse. Durante a viagem encontram-se realmente muitas coisas para além do grande objectivo, essas salas eram disso um exemplo. Mas nada de Albus Dumbledore, o grande objectivo da sua caminhada.

O almoço passou e Irina subiu para o quarto para dar uma pausa a ela própria. Pegou no espelho para tentar falar com a amiga, que a atendeu de imediato:

- Ah, Irina, Feliz Natal.

- Feliz Natal, Elle. Então como está tudo a correr? – Irina perguntou.

- Bem, estou no jardim a dar uma volta com a minha família. Vim agora sentar-me um bocadinho no banco e falar contigo. – Elle respondeu. – E tu? Como estás? – Irina contou-lhe o seu dia.

- Já procuraste tanto o Dumbledore, Irina, acho que devias aceitar que ele está morto. – Elle falou.

- Pois, mas eu vi-o, Elle, eu tenho a certeza que o vi. – Irina assegurou, não mudando a descrença da amiga. – Pronto, hoje é o último dia em que o procuro. Depois eu esqueço isto. Eu prometo. – Elle sorriu, sabia que a amiga iria cumprir a promessa, ela cumpria sempre as suas promessas.

- Obrigada, Irina, sempre fico mais descansada. – Ela acabou por dizer. – Deves estar a sentir-te muito sozinha.

- Sim, mas a carta dos meus pais animou-me bastante e as minhas prendas foram bastante boas. – Irina respondeu. – Bom, tchau. Deseja Feliz Natal a toda a tua família da minha parte.

- Eu faço-o. – Elle acabou a comunicação, fazendo Irina guardar o espelho.

De seguida, vestiu o vestido de gala e desceu para a Sala Comum, metendo-se em frente à lareira a pensar onde procurar Dumbledore depois do jantar.

- Mademoiselle Saint-Claire, mesmo a tempo. – A cara de McGonagall mostrava mais felicidade, talvez por ser dia de Natal e querer que Irina se sentisse melhor.

- Ainda bem.

Irina sentou-se, olhando os professores e começando a comer avidamente. Era o último dia, por isso tinha de encontrar Dumbledore antes da hora do recolher. Não queria ser encontrada pelos Carrow fora dos horários.

– Bom, eu já acabei. Feliz Natal. – Ela disse, levantando-se e saíndo do Salão, começando a subir as escadas mais decidida que nunca, percorrendo os vários corredores de Hogwarts, aqueles corredores que a deixaram confusa no dia de Haloween pela visão que lhe trouxeram.

Um corredor desconhecido para Irina chamou-lhe a atenção. Era perto do corredor onde ela o vira, mas Dumbledore não estaria no corredor em que ela o vira se queria manter-se escondido e aquele parecia o corredor perfeito para alguém que procurava não ser visto ou encontrado, por isso mesmo Irina odiava o barulho que fazia a andar. Parecia ensurdecedor e podia denunciá-la a qualquer um. Mas talvez se ela tivesse sorte conseguisse dar-se bem. Virando a esquina, viu um manto violeta passar por uma porta que se fechou de seguida. Ela tinha quase a certeza de que era Dumbledore, se conseguisse entrar na sala que a porta guardava podia ser que o visse. Mas fora tudo muito repentino, ela não tinha a certeza de ter visto bem.

Entrou na sala sem nenhuma dificuldade e fechou a porta cuidadosamente atrás de si. Ninguém! Não estava ninguém na sala, mas Irina concentrou-se em avaliar o espaço. A sala não tinha nada a ver com uma sala de aula como era suposto acontecer numa escola, parecia mais uma sala de estar um pouco luxuosa e curiosa. Foi a lareira que lhe captou a atenção em primeiro lugar, talvez por transmitir calor e segurança, mas depois o seu olhar foi percorrendo as várias coisas na sala. Havia um sofá grande e luxuoso de veludo e duas poltronas, uma em frente à outra. Havia também um rádio na mesa ao lado do sofá. Entre duas cadeiras mais afastadas do sofá existia um tabuleiro de xadrez com peças espalhadas como se tivessem feito uma pausa no jogo. A um canto estavam bebidas e copos. Muitos livros repousavam em estantes, livros que Irina tinha a certeza de que qualquer biblioteca desejava ter. Havia penas de escrever e muitos documentos escritos numa secretária do outro lado da sala. Irina concentrou-se depois nos objectos, eram curiosos, faziam-lhe lembrar do gabinete do Director. Assim como os livros, Irina pensou repentinamente, virando-se para uma estante com a intenção de a observar mais de perto. Estava a passar um dedo pela lomba de um livro mais antigo quando ouviu:

- Gostas de ler?

- Sim. Adoro! – Respondeu Irina e foi só depois da resposta que se perguntou quem estaria a fazer essa pergunta, virando-se assim que o seu cérebro chegou à conclusão de que havia alguém ali para além dela. O homem ria-se ante a reação da rapariga. – Quem é o senhor?

- Ora, eu pensei que fosse mais famoso. Que desilusão! – Respondeu Dumbledore. Porque era Dumbledore, não era?

- Não. Eu sei quem o senhor é, é o Dumbledore, só que o senhor está morto. – Irina estava chocada, é claro que ela desconfiava que ele estava vivo, mas uma coisa era desconfiar, outra muito diferente era ver realmente.

- Assim toda a gente pensa, menos eu que penso que estou vivo. – Ele respondeu ao comentário de Irina com simplicidade. Irina sorriu divertida, tinha quase a certeza de ser Dumbledore, mas, sendo assim, não fazia sentido nenhum.

- Mas, se o senhor é o Dumbledore, o que faz aqui? – Perguntou ela confusa. – Por que razão não está lá fora a lutar? – Irina sentou-se no grande sofá, só depois se apercebendo da sua indelicadeza. – Ai, desculpe, eu nem sequer me apresentei, eu não espero que saiba o meu nome, não sou nada famosa. Chamo-me Irina Saint-Claire. Desculpe ter abusado da sua hospitalidade, só que…

- Senta-te, por favor, Irina. – Dumbledore apontou com a mão para o sofá, dando permissão a Irina para se sentar. – Eu sei que pode não fazer sentido nenhum, mas existe uma razão para toda a gente pensar que estou morto, eu fingi a minha própria morte por causa de uma maldição. Eu estou a tratar dela, mas enquanto ela não acabar, é como se eu estivesse morto, Irina, porque eu não consigo praticar grandes feitiços. Só mesmo os básicos, como o Expelliarmus e mesmo esses estão fracos. – Ele disse profundamente e, numa avaliação mais detalhada, Irina pôde ver um homem mais velho, triste, mas com forças para dar a volta por cima, com a centelha da juvenialidade a cintilar nos olhos.

- E quando irá a maldição acabar? – Questionou ela.

- Não sei, eu faço de tudo para que seja o mais rápido possível.

- Mas como conseguiu o senhor fingir a sua morte tão perfeitamente? – Ela quis saber mais do que se passara naquela noite fatal, quer dizer, aparentemente fatal.

- Ora, eu, na altura, não estava tão fraco, Irina, consegui um feito incrível, mas tinha de ser assim. Era o melhor. – Ele falou, e Irina teve que concordar com ele. Se ele não tivesse fingido a sua morte, as pessoas contariam com ele para fazer as coisas e ele não corresponderia às expectativas por causa da maldição. – Estou a ver que percebeste porquê. – Irina abraçou-o fortemente, surpreendendo-o.

- Desculpe, Dumbledore, mas é tão bom vê-lo vivo, não consigo deixar de ter mais esperança por este mundo. – Ela falou emocionada.

- Comigo passa-se o mesmo. – Ele sorriu, separando-se do abraço. – Mas demoraste muito a encontrar-me.

- O Castelo é grande. – Ela respondeu sem pensar muito na resposta. – Hey, espere! Estava à minha espera? O senhor fez com que eu descobrisse esta sala?

- Irina, por favor, de que outra maneira poderias tu ter-me encontrado? Na primeira vez tiveste sorte, mas eu não iria cair uma segunda vez. Dá-me um desconto. – Ele falou. – Eu não te conheço, mas consegui perceber que eras de confiança. E já me tinhas visto, não te ias esquecer tão facilmente, de maneira que achei melhor revelar-me a ti.

- Percebo. – Ela falou sorridente. – Ah, feliz Natal, Dumbledore.

- Feliz Natal. – Ele disse de volta. Os dois continuaram a conversar até a hora de recolher de Irina obrigá-la a ir-se embora. – Irina, não contes a ninguém que estou vivo, por favor.

- Claro, Dumbledore! – Ela assegurou, saindo com cuidado.

Irina percorreu os corredores com extremo cuidado, ainda faltava para a hora de recolher, mas só podia permitir-se a ser vista quando estivesse longe dali. Dava-lhe tanto jeito saber alguma passagem secreta, mas ainda era relativamente nova na escola. Não conhecia muito bem a escola, muito menos as suas passagens secretas. Teria que questionar Dumbledore sobre tal assunto, ele concerteza sabia muito mais que ela sobre a escola… Bem, sobre a escola e sobre tudo o resto.

Chegou à sala comum sem ser vista e, lá, deitou-se no sofá satisfeita. No final de contas, tinha razão. Dumbledore estava vivo e ela não tinha tido nenhuma visão maluca fruto da sua investigação. Elle iria ficar muito surpreendida, mas… Dumbledore fizera prometer Irina a não contar nada a ninguém e ela nunca quebrava as suas promessas. Nunca! Porém, seria ela capaz de esconder um facto tão importante da sua melhor amiga, da sua confidente? Não seria isso uma traição? Mas Elle admirava tanto Dumbledore pelos seus feitos. Seria a amiga capaz de entender que enquanto a maldição não passasse, Dumbledore nada podia fazer pela guerra? Irina tinha a certeza que sim, mas… Ela prometera e uma promessa, para Irina, era tudo. Elle entenderia no fim, ela entendia sempre, por isso, ela não ia contar até se livrar da promessa.

No dia seguinte, levantou-se bem cedo e preparou-se rapidamente para o pequeno almoço. Não que estivesse ansiosa para ir tomar o pequeno almoço, mas sentia mais força dentro de si.

Enquanto comia no Salão Principal, recebeu uma carta dos pais, onde lhe agradeciam somente pelas prendas. Tinham voltado ao mesmo, o Natal passara, mas mesmo assim Irina escreveu a pedir o tal manto, pois os seus estavam a ficar muito curtos, o que significava que estava mais alta, o que até era bom. Olhou Snape, ao sentir que ele a olhava, provavelmente há muito tempo, mas Irina não era tão boa a perceber-se observada como ele. De seguida, baixou os olhos e sorriu para si mesma, talvez tenha mostrado um pouco do seu sorriso, mas quase não se notava. Estava contente, Snape pensara que tinha conseguido matar Albus Dumbledore e enganara-se, não era tão bom como pensava, o que lhe dava ainda mais esperança, afinal o outro lado não era assim tão perfeito, tinha algumas brechas.

- Mademoiselle Saint-Claire, ficou contente pelas suas prendas? – Irina olhou para McGonagall que estava em pé a seu lado, tinha-a sentido, mas pensara que ela lhe ia passar ao lado.

- Sim, e a senhora? – Irina levantou-se com um sorriso, olhando de soslaio para os outros professores, que se levantavam.

- Também. – McGonagall respondeu, o seu olhar distante, como se não fosse verdade o que dissera.

- Até porque um dia eu vou usar as prendas e pensar que houve um tempo em que eu tinha medo de não as poder usar. – Irina completou, fazendo McGonagall brilhar os olhos de esperança. – Esse dia feliz vai chegar, Porfª. McGonagall, eu sei que sim.

- Obrigada, Irina.

McGonagall estava francamente agradecida, toda a esperança era valorizada naquele tempo. De seguida, a professora saiu sob o olhar atento da aluna. Ainda bem que Irina encontrara Dumbledore. Se não o tivesse encontrado, não estaria tão feliz por o Natal ter dado frutos e, assim, sentir esperança de que o esforço do Bem também desse frutos.

- Irina, que bom ver-te por aqui de novo. – Dumbledore abriu a porta antes mesmo de Irina bater, o que a deixou confusa. – Consegui perceber que vinhas.

- Ah, ok então. – Era de noite depois do jantar. Irina não quisera ir ter com Dumbledore, porque estava um pouco cansada, tinha feito um pouco do trabalho de Herbologia e a sua cabeça não estava nada boa, mas achara melhor ir, sempre sabia mais alguma coisa.

- Hum, houve problemas? – Dumbledore perguntou.

- Eu apenas sou um zero à esquerda a Herbologia, mas insisto em tê-la. – Irina respondeu, sentando-se. – Mas eu quero saber mais, há coisas que eu não entendo.

- O quê? – Inquiriu Dumbledore, servindo-lhe um chá e vendo ela observar a sala à sua volta. – Reparas em algumas diferenças na sala, é?

- Pequenas diferenças. – Irina respondeu, o olhar prendendo em alguns sítios. – Mas eu quero saber como.

- Como o quê? – Perguntou ele, enquanto bebia um pouco de chá. – Como eu sobrevivi? Como eu apanhei uma maldição? Eu sobrevivi porque estava decidido a fazê-lo, não me iria abaixo desta maneira. Apanhei uma maldição por estupidez.

- Como assim, por estupidez? – Ela perguntou subitamente interessada.

- Ai, Irina, tu ainda és muito nova para perceber, pouco sabes das coisas. – Dumbledore levantou-se. – Mas quando nós pensamos que ultrapassámos uma coisa, há vezes que nos mostram que não é bem assim, vezes em que temos uma recaída e encontramos essa coisa que nos fez tão mal.

- Eu percebo. – Irina levantou-se. – É como um namorado com quem se acaba e passado algum tempo pensamos tê-lo ultrapassado e ele aparece de novo e mostra que não é bem assim, que ainda há um longo caminho a percorrer até o esquecer completamente. – Albus riu-se divertido.

- De uma maneira ou doutra, é precisamente isso, mas a minha recaída foi má. – Ele falou profundamente magoado.

- Sim, é claro, eu também percebo isso. Mas porquê? Que recaída foi essa, Dumbledore? – Ela perguntou sem perceber do que falava o velho homem.

- Há coisas que demoram tempo a serem descobertas, Irina. E, se não me levasses a mal, eu preferia responder-te a essa pergunta mais tarde.

- É claro. – Ela disse. – Dumbledore… — Ele olhou-a. – Há esperança de o Bem vencer, não há?

- Não tenhas dúvidas, Irina. – Dumbledore olhava para a sua mão. – O Harry Potter está com a Hermione Granger e com o Ron Weasley, eles sabem o que têm a fazer. – Dumbledore olhou agora para ela. – Talvez para ti, isso pareça pouco, mas eles são imensamente corajosos e nenhum deles tem medo de morrer pela vitória. São jovens como tu, Irina, correm mais perigos que tu, mas foram preparados para isso, enfrentaram muitas coisas aqui, em Hogwarts, muitas delas, más. E nem sequer pestanejaram ao aceitar a missão que eu passei ao Harry.

- Que missão? – Ela quis saber. Dumbledore suspirou. – Eu sei que posso não perceber algumas coisas, mas percebo definitivamente muitas outras. Não saberá se não me testar, Dumbledore.

- Eu sei, Irina, mas tenta compreender o meu lado. Talvez precise de uma prova tua. – Ele respondeu.

- Uma prova minha?

- Sim. Soube que vieste de Pahtellons… Porque é que foste expulsa? – Perguntou ele.

- Porque fugi para ir a uma festa. – Ela respondeu envergonhada. – Eu sei, é horrível, mas eu sou responsável. Naquele tempo não era, mas, entretanto, muita coisa mudou. Parece ser impossível isso acontecer em pouco tempo…

- Eu sei que não é impossível e teres contado a verdade denota muita responsabilidade da tua parte. – Dumbledore interrompeu-a, deixando-a aliviada. – Só que não te vou dizer nada da missão ainda, espero que compreendas. – Irina suspirou irritada, fazendo Albus sorrir. – Irrita compreenderes o meu ponto de vista, não irrita?

- Muito. – Ela sentou-se, bebendo o resto do chá e contando o seu dia, não que ele fosse muito interessante.

- Pareces ter medo dos Carrow… — Ele analisou.

- É claro que tenho, Dumbledore, eles usam a maldição Cruciatus e já ameaçaram usar a maldição da morte em alunos, alguns deles, do primeiro ano. – Irina respondeu como se fosse demasiado óbvio. – No entanto, eu não creio que ter medo signifique que não seja corajosa. A coragem é o domínio do medo, não a sua ausência. É claro que vou continuar a lutar, já estamos, de facto, a arranjar membros para o Exército de Dumbledore. – O homem riu-se. – Eu não sei ao certo como as reuniões são, mas estão todos tão entusiasmados que é impossível eu não estar também. Mas se os Carrow ou o Snape descobrirem…

- Se vocês tiverem cuidado, tudo correrá bem. – Ele respondeu. – Então, e quem está por trás disso? Creio que Mr. Longbottom é um dos responsáveis assim como Miss Weasley e Miss Lovegood. Estou correcto?

- Correctíssimo, Dumbledore, mas isso não deve ser nenhuma novidade para si. – Adulou ela, sorrindo abertamente.

- Na minha não tão modesta opinião, a minha avaliação das pessoas está geralmente correcta. – Ele respondeu divertido.

- Porém enganou-se com o Snape. – Irina falou mais seriamente, fazendo Albus desviar o olhar. – Como?

- Bom, está na hora de ires. – Ele disse, olhando para o seu relógio, Irina fez o mesmo, levantando-se. Realmente já estava na hora. – Aparece amanhã.

- Claro. – Ela piscou-lhe o olho, saíndo da sala, embora pensasse que, de um certo modo, ele tinha fugido da sua pergunta acerca de Snape. Talvez ela precisasse de fazer alguma investigação.

Foi com esse pensamento que saiu da zona de perigo, deixando por isso de ter tanto cuidado, podiam-na ver ali.

- Miss Saint-Claire, não acha que devia ter mais cuidado a andar por aí? – Ela assustou-se ao ver Snape, mas nem sequer se deu ao trabalho de responder, continuando o seu caminho para a Sala Comum de Gryffindor.

A noite de Ano Novo foi preenchida pelo desejo enorme que Elle e Irina tinham que aquele ano fosse cheio de vitórias para o lado do bem e que as pessoas encontrassem pequenas coisas que lhes fizessem feliz no meio de tanto terror. Afinal, viver sem felicidade é um castigo enorme para as pessoas boas.

- Feliz Ano Novo, Dumbledore! – Irina desejou, abrindo o champanhe, era precisamente meia-noite.

- Tu não devias estar aqui depois da hora do recolher. – Dumbledore censurava-a com a cabeça, estendendo o copo.

- Eu vou ter cuidado. – Ela assegurou, servindo-lhe champanhe.

- Nem devias estar a beber uma bebida alcoólica, és muito nova. – Irina arregalou os olhos chocada.

- Dumbledore, eu já tenho 17 anos, sou maior. E achei que iria apreciar passar a passagem de ano acompanhado por alguém e como eu também estava sozinha… — Irina abaixou os olhos tristes.

- Tudo bem, eu compreendo, espero que este ano que chegou nos dê a vitória final.

- Um brinde à vitória! – Irina disse, erguendo o copo. – E a todas as pessoas que se sacrificaram por ela.

- Um brinde áqueles que merecem ser brindados. – Dumbledore resumiu, batendo com o seu copo no de Irina, que se sentou no sofá.

- Mas não parece muito contente por eu estar aqui. – Irina começou.

- Eu tinha planos…

- Que planos? – Ela perguntou curiosa como sempre.

- Não interessa, mas devias ir embora. – Ele acautelou. – Não estou nada seguro que andes por aí fora do horário de recolher. Podes ser vista.

- Não se preocupe, eu tenho cuidado. – Irina poisou o seu copo marcado com baton. – Não o devia ter usado, mas no ano novo tem-se que usar algo em vermelho e eu achei que a minha lingirie não era suficiente. – Dumbledore riu-se suavemente despedindo-se dela.

No primeiro dia do ano, como de costume, Elle entrou no quarto do irmão com um copo de água. Nos últimos dois anos, ela começara a acordar o irmão no primeiro dia do ano despejando-lhe água em cima. Fizera isso com Irina, na primeira vez porque o irmão tinha ficado na farra até às seis da manhã. E no ano seguinte, elas as duas propuseram-se a fazer a mesma coisa. E agora para se lembrar da amiga iria também fazê-lo. Porém, mal se aproximou da cama, percebeu que o irmão não estava lá e virou-se. De repente, sentiu água a cair pelos seus cabelos.

- Leon, eu não acredito. – Elle ria-se enquanto o irmão também o fazia. – Desta vez, preveniste-te, ãa! Estou orgulhosa da tua perspicácia. – O irmão secou-lhe o cabelo. – Obrigada. – Elle atirou-lhe o copo de água à cara. – É a vingança.

- Andas muito saída da casca. – Ele praguejou contra ela. – Que me dizes de uma vingança pela minha parte? Uma corrida de vassouras, no jardim? – Ele perguntou desafiador.

- 'Bora. – Elle correu ao quarto, buscar a vassoura. – Onde é que queres? – O irmão já lá estava à sua espera.

- Até ao monte da árvore. – O monte da árvore como eles e Irina lhe chamavam era um monte onde eles os três tinham passado grande parte da sua infância a brincar e a fazer palhaçadas. Ficava a três quilómetros de casa sem contar com o jardim que ainda tinham que correr.

- Muito bem. – Eles posicionaram-se. – Um… — Gritavam ao mesmo tempo. – Dois… Três. – Eles partiram a toda a velocidade. – Elle já sentia saudades daquela liberdade que sentia ao voar. Ouvir o vento a passar rapidamente, senti-lo bater na cara e esvoaçar os seus cabelos era algo muito bom para ela.

Ela e o irmão chegaram praticamente ao mesmo tempo, mas o irmão pisou a terra antes dela o que fez dele o vencedor.

- Reduziste quando viste o monte. – Elle disse-lhe sentando-se ao seu lado. Ao longe via-se a sua casa.

- Tu estavas muito lenta, Elle. – Ele explicou. – Há quanto tempo não voas?

- Há demasiado. Não toco na vassoura desde que saí de Pahtellons. Nas férias, estive ocupada a aprender o máximo de inglês para me inserir melhor em Hogwarts. Se bem que foi tempo perdido. – Elle disse. – Não devias ter reduzido por causa de mim. – Leon riu com ela.

- Eu sei, mas eu gosto demasiado de ti. – Ele abraçou-a. – Ainda bem que vieste cá no Natal. Pensei que não virias por quereres ficar lá para observar mais um bocado.

- Mas claro que viria. – Elle disse aproximando-se da árvore que tinha mensagens deles os três. Era comum irem lá no primeiro dia do ano fazerem aquelas mensagens de mais um ano.

- Qual é a tua? – Leon perguntou escrevendo a dele: "Tudo tem um fim, menos o Bem". Elle sorriu e começou a escrever: "Por mais que a vida mude, a família e os verdadeiros amigos permanecem connosco". Elle tirou o espelho da carteira e contactou com Irina.

- Olá, Irina. Estou aqui no Monte da Árvore. – Elle disse sorrindo e mostrando as mensagens que ela e o irmão tinham escrito. – Qual é que é a tua? Eu escrevo e depois quando vieres cá podes fazê-lo pela tua própria mão.

- Obrigada por te lembrares. – Irina disse com os olhos húmidos. – Tenho tanta pena de não estar aí com vocês. Queria tanto. Mas se calhar fiquei aqui por alguma razão. – Irina disse, pensando em Dumbledore. – És a melhor amiga que alguém pode ter. Ainda bem que nos conhecemos. E, Leon, gosto da tua mensagem. É profunda. Também gosto da tua, Elle. Vocês mostram a força que reside no coração de cada um que luta pelo fim das sombras. Agora, a minha. "A vida tem vários caminhos e esses caminhos escondem muitas surpresas". – Irina sorriu.

- É linda, Irina. – Elle disse escrevendo-a. – Para o ano há mais. – Ela disse optimista o que fez os outros dois sorrirem.

- Vá, beijos. – Disse Irina. – Espero-te na sala no dia da tua chegada à mesma hora.

- Conta comigo! – Elle disse, guardando o espelho.

- Senta-te aqui comigo, Elle. – Leon falou sentando-se encostado à árvore. – Agora, vamos falar a sério. Nós não temos segredos. Diz-me o que sentes. Diz-me do que precisas.

- Eu preciso que continues assim. – Elle disse colocando a sua cabeça pousada no ombro do irmão.

- Eu vou continuar. – Leon disse enqunto eles olhavam para o céu que estava coberto de sombras que entristeciam o primeiro dia do ano. – Eu lembro-me de ter cinco anos e ver-te a abrires os teus bracinhos para mim. Logo de seguida, vi a Irina. Prometi a mim mesmo que vos iria proteger, sempre.

- Não achas que já protegeste por demasiado tempo? – Elle perguntou séria. – Sempre nos ensinaste a viver. E nós adoramos-te. Mas se é assim tão importante, tenho medo. Não só por mim mas também por todos os que lutam pela vitória do bem e da justiça. Tenho medo pelos muggles, que não percebem porque os dias estão tão sombrios. Tenho medo pelos nascidos muggles que sofrem mais que os muggles e que nunca pensaram que ter magia sem mais ninguém da sua família ter podia ser algo tão mau. Sinto vontade de chorar a cada momento, mas não posso. Não posso mostrar o quanto isto me afecta. Em Hogwarts, eu sou uma slytherin, tenho que me comportar da maneira a que toda a gente espera. Do que é que eu preciso? Que isto acabe. Não é muito, mas é muito difícil.

- Chora agora, que estou aqui. – Leon disse apertando-a contra si. Elle chorava lentamente agarrada ao irmão. Não queria mostrar aquela tristeza que a tinha invadido assim que Albus Dumbledore morrera. Tinha sido o fim duma esperança, o fim de uma era de calma. Voldemort atacava agora em todas as frentes, sem medo de ninguém a não ser de Harry Potter, que tinha a sua idade, a idade de um jovem adulto e a experiência que lhe cabia. Acreditava que Harry era uma pessoa sensata e que lutava pelos que amava. Afinal, o que seria do mundo, agora, se ele não existisse? Sim, Elle podia dizer todos os dias, para si, que ele era apenas mais um jovem com um terrível destino, mas depositava também as suas esperanças nele, como muita gente. Ele era o menino-que-sobreviveu, ele tinha cometido uma proeza tão grande com apenas um ano. Elle temia por ele, e por quem o acompanhava. Elle receava que eles fossem apanhados, que os matassem, a três jovens que ainda não tinham corrido meio mundo, que ainda não tinham vivido o suficiente, como ela. Porra, se ela sentia isso em relação aos pais, claro que sentia isso em relação a eles e aos colegas que via todos os dias no Castelo. A morte de Dumbledore fora terrível. Isso era verdade, mas ele já vivera muito, já fizera muito pelo mundo, já cometera erros que Elle duvidava que Harry tivesse tido margem para ele próprio os cometer. Harry sempre soubera que, no fim, o que importava não eram as pequenas vitórias conseguidas ao longo dos anos, mas sim, a vitória ou a derrota que teria lugar no fim. Como seria então com ela, no fim? Tinha tantas dúvidas… Será que se o mal ganhasse e Voldemort matasse por fim Harry, ela, Elle Rouchouse, que se orgulhava pela sua força e teimosia, não acabaria por ceder? Não acabaria ela própria por se aliar a um homem que ela odiava tão profundamente? Quando olhava à sua volta, dizia constantemente que não. Como podia aliar-se a alguém que fizera tanto mal, que destruira o mundo em que vivia, que matara amigos dela sem piedade alguma? Mas depois… Queria tanto viver, queria tanto que a família vivesse… Mas seria ela a mesma se vivesse sob as ordens de um ser tão desprezível?

- Porquê, Leon, porquê? – Elle perguntou abraçando-o fortemente. – A cada dia que passa, sempre que ouço os meus colegas de equipa a dizer quem morreu, tenho medo de ouvir o teu nome ou os dos pais, ou algum dos meus amigos. E sempre que não vem ninguém que eu amo, nessa lista, eu suspiro de alívio. Serei assim tão boa pessoa? Porque eu fico aliviada, feliz por não serem pessoas que eu amo.

- Quer queiramos, quer não, nós preocupamo-nos muito mais com aqueles que amamos. – Leon disse tentando consolar a irmã. – Tu estás crescida, Elle. Não és mais aquela rapariga que fugia da escola para ir a festas ou encontrar-se com algum namorado. Agora és a Elle, uma rapariga que teme pelos que ama e também pelos que não ama. Mas, como qualquer outra pessoa, teme mais pelos que ama. Porque o coração governa a razão. Agora, és a Elle que luta pela justiça, que luta pela paz e pela igualdade. És a Elle de agora e a Elle do passado. És uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Sempre o foste, e sempre, ouve-me bem, sempre o serás, por mais coisas que acontecerem, por mais pessoas que perderes… — Elle começou a chorar. – Ouve-me, Elle, tu podes perder-me a mim e aos pais, em qualquer momento. – Elle apertou-o. – Eu não te vou pedir para não chorares, mas vou pedir para seres um pouco slytherin e teres sangue frio para poderes optar o que quiseres.

- Leon, se algo te acontecer, a ti ou aos pais, eu juro, juro que eles se vão arrepender. – Elle disse parando de chorar. – Eu não vou reagir sem pensar. Aliás, eu vou pensar muito bem antes de agir.

- Também não quero que te tornes um vingadora implacável. – Elle abanou a cabeça concordando. – Mas eu farei o mesmo que tu se alguma coisa acontecer a alguém da minha família.

- Obrigada, Leon, por seres o melhor irmão mais velho do mundo e também o melhor amigo. – Elle disse sorrindo. – Vamos para casa, então? – Eles levantaram-se. – Agora, vamos voar sem competição, apenas pelo gosto que nos dá montar uma vassoura.

- Sim, vamos lá! – Leon e Elle regressaram por fim a casa deixando aquele monte com mais um pedacinho das suas vidas e aquela árvore com mais umas verdades daqueles jovens que na sua infância tinham tantas vezes brincado à sua volta.

Elle partiu para Inglaterra no dia três. A família reuniu-se toda no jardim para se despedir. Elle deixou um último sorriso antes de voltar para aquela Londres daqueles tempos. Aquela Londres sombria, ainda mais triste, com pessoas de semblantes ainda mais carregados. Aquela Londres em que noutros tempos tinha passado férias com os pais.

Tinha que apanhar o comboio no dia seguinte, porém a carta que recebera dissera para partir para Inglaterra um dia antes. Quando chegou à plataforma 9 e ¾, viu que os seus colegas de equipa também já lá estavam. Aproximou-se de Laura. Todos os alunos estavam em fileiras bem organizadas e hirtos.

- O que se passa? – Ela perguntou baixinho.

- Chamaram-nos mais cedo do que os outros. Ninguém sabe o que se passa. Vimos o Snape e a Alecto Carrow. O irmão deve ter ficado no castelo. O Goyle pediu ao Malfoy para descobrir o que há e os outros apoiaram essa opção. – Elle não estava nada feliz com o sucedido. Por que razão, teriam sido eles chamados?

- Então… — Elle viu Malfoy regressar junto dos colegas. Todos perguntavam o que tinha descoberto. Ele não respondeu. De repente, todos olharam para a sua frente. Uma figura alta, de vestes negras que eles reconheciam como o Senhor das Trevas estava ali a olhá-los de forma altiva. O silêncio foi geral, ninguém se atrevia sequer a respirar de uma maneira mais ruidosa. Ao seu lado, uma serpente, a sua serpente e os professores. Voldemort batia com a sua varinha na veste. Cada olhar fixo naquele pau de madeira.

- Slytherins. – Ele disse de forma audível, de maneira a que se orgulhassem de pertencerem àquela equipa. – Vocês fazem parte de uma nova geração de alunos de Hogwarts. A vossa lealdade para comigo e para com todos os meus objectivos irá ser recompensada mais tarde. Por muito que vos digam o contrário, — Nagini rastejava por entre os alunos. – a vossa equipa é a melhor de toda a Hogwarts e a única que sobreviverá. – Elle e Laura deram as mãos por baixo dos mantos de viagem. – Quando partirem por fim daquela escola, tenho a certeza que irão combater por mim e pela dignidade dos feiticeiros. Os muggles vão, por fim, ficar onde eles sempre pertenceram, aos nossos pés, por baixo de nós. E os que deles descenderem e que de alguma maneira têm magia, nunca serão tratados como nós, que temos um estatuto importante, muito superior ao desses ladrões de magia. Eu serei o vosso líder para sempre. Serei eu que levarei o nosso mundo ao seu devido lugar. Eu lutarei pelo sangue, pelo sangue puro. E vocês irão juntar-se a este objectivo. Eu sei, tenho a certeza. Vocês são dignos do nome que carregam. Pertencem a uma família de feiticeiros que honram todos os dias com essa vontade de governar sobre os muggles, esses idiotas, esses sem-magia. Para isso, tentem descobrir onde Harry Potter está.

Voldemort desapareceu, tão rapidamente como tinha chegado. Snape e Carrow olharam um para o outro satisfeitos com o discurso do seu mestre.

- Irina, o que fazes aqui a esta hora? – Dumbledore perguntou, abrindo a porta e vendo Irina passar por ela violentamente.

- Eu não sei o que se passa, Dumbledore. – Ela falou, virando-se para ele depois de este fechar a porta. – Mas nem a Alecto nem o Snape estão cá. Onde é que eles estarão? Eu já tentei descobrir, mas como? Dumbledore, não é que eu não tenha colocado a hipótese de eles terem ido para o pé do Quem-Nós-Sabemos, mas o Amycus está cá, logo, não é nenhum ataque de devoradores da morte. Eu acho tudo isto muito estranho.

- Eles estão ao pé do Quem-Nós-Sabemos. Ele quis falar com os Slytherin e o Severus e a Alecto foram, mas tiveram que deixar o Amycus a vigiar a escola. – Dumbledore respondeu, assustando Irina. – Não te preocupes, ele só vai falar, não vai fazer mal a nenhum deles.

- Mas falar com eles, com os Slytherin? Ele pensa que não há, naquela equipa, pessoas boas? – Irina perguntou horrorizada.

- Irina, o V… O Quem-Nós-Sabemos consegue ver que Slytherin pode ter muitas semelhanças consigo, mas não consegue ver que nem todas as pessoas que pertencem à equipa são como ele. É claro que em Slytherin há pessoas que querem que o Bem triunfe, e são mais do que tu imaginas. – Dumbledore sorriu, vendo que Irina percebia que havia pessoas boas naquela equipa, mas é claro que ela percebia, Elle falava disso em todos os seus encontros.

- Mas, Dumbledore, como é que o senhor sabe aonde foi a Alecto e o Snape? – Ela perguntou, estranhando. – Eu perguntei a todos os professores e funcionários de Hogwarts, excepto, é claro, ao Amycus, e ninguém sabia de nada. – Dumbledore não respondeu, desviando o olhar. – Dumbledore, há algo que não me está a contar.

- Irina, eu ainda sei algumas coisas…

- Sim, eu percebo. – Ela interrompeu-o. – Mas como? Pergunto eu. – Ele não lhe respondeu. – Eu percebo que o senhor seja brilhante, mas ninguém consegue muita coisa por si só, ainda por cima, o Dumbledore, que não pode fazer grande coisa no estado em que está. Há uma coisa que me intriga desde o dia em que entrei nesta sala… — Irina olhou em seu redor. – Quando entrei aqui, foi a lareira que me chamou a atenção, porque ela estava acesa, mas… Depois o meu olhar percorreu o espaço todo. Lembro-me muito bem do que vi. Em primeiro reparei no sofá, por ser enorme e, depois nas poltronas. Eram duas, uma em frente à outra. E perguntei-me mais tarde: porquê duas poltronas se ele era apenas um? Podia ser porque estavas à minha espera, tu mesmo disseste que há muito tempo me esperavas, mas havia ainda outra coisa: o jogo de xadrez. – Ele olhou-a surpreendido. – Eu não sou boa jogadora de xadrez, mas a minha melhor amiga é e ela, às vezes joga xadrez sozinha, mas nunca deixa o jogo a meio, porque as peças do xadrez feiticeiro não percebem a lealdade quando existe apenas uma pessoa a jogar e então trocam facilmente de posições. Mas quando é entre duas pessoas, o cenário muda completamente. Mas havia ainda os documentos escritos e duas penas. Duas, não uma, como seria normal, Dumbledore, e ambas em bom estado. Gosta de variar, Dumbledore? – Ele abriu a boca. – Ou simplesmente há mais alguém que sabe da sua morte fingida?

- Irina… — Ela riu-se, percebendo.

- É mesmo isso, há mais uma pessoa que sabe que o senhor não morreu. – Irina tinha juntado as peças do puzzle. – Já percebi, é claro, só um cego na minha situação não perceberia. É o Snape, não é? Afinal, os castigos dele são de longe verdadeiros castigos. Ele não quer castigar realmente, mas tem de o fazer aos olhos dos Carrow. Ele não é verdadeiramente mau, pois não? Ele não está realmente ao lado do Quem-Nós-Sabemos, certo? – Irina sorriu contente. Dumbledore não negou. – Claro, faz todo o sentido agora. Ele queria saber se nós sabíamos onde estava o Harry, não para dizer ao Quem-Nós-Sabemos, mas para lhe dar a espada de Gryffindor. – Deduziu Irina rapidamente. – Por que é que não me contou, Dumbledore? Disse-me que eu era de confiança…

- E és, mas pensei em contar-te mais tarde. – Ele respondeu. – Parabéns pela tua perspicácia, Irina, nunca pensei que fosses tão observadora.

- Ter dois copos quando eu cá vim e depois mais outro, denunciou-o também, o que prova que me iria realmente contar mais tarde. – Irina falou, os olhos brilhando. – Afinal o Mal não está assim tão consolidado.

- Nós vamos conseguir ganhar, o Severus está a fazer um bom trabalho com as cartas que tem e ele está decidido a sacrificar-se pelo Bem. – Dumbledore sentou-se. – Agora fica aqui, acho que precisas de saber mais sobre o Quem-Nós-Sabemos, pode ser-te útil.

- Que foi isto? – Laura perguntou com um fio de voz.

- Foi assustador. – Elle afirmou olhando para o director e para a professora. Os seus colegas afirmavam o quanto importantes eram para o Senhor das Trevas ter ido falar com eles. – Olha para os miúdos do primeiro ano. Estão assustadíssimos.

- Eu falarei com eles. – Laura disse recomposta. – Acho que vamos passar esta noite aqui, no expresso. – Snape mandava os alunos que não regressariam a casa, ficarem no comboio aquela noite.

- Não vais para casa? – Laura abanou a cabeça discretamente, percebendo que Parkinson se aproximava.

- Então, Rouchouse, como foi em França? – Ela perguntou espantando as duas amigas.

- Bom. França é o orgulho da moda. – Elle respondeu rapidamente.

- Sim, eu não fui para lá estas férias. Costumo sempre ir, mas os meus pais não puderam. Mas também tenho a certeza que sempre que eu for, a tua casa vai estar de portas abertas para me receber. – Parkinson disse.

- Claro que sim. – Elle respondeu. – A minha mãe teria imenso prazer em receber-te em nossa casa, uma pessoa de tão boas famílias. – Parkinson entrou e foi-se embora satisfeita com a resposta. Laura entrou no comboio. Elle ainda observou Parkinson afastar-se e virou-se para entrar.

- A Pansy consegue ser adorável, não achas? – Malfoy perguntou entrando no comboio.

- Conhece-la bem? – Ela perguntou.

- Desde pequenos. – Ele respondeu encolhendo os ombros e abrindo uma carruagem. – Queres entrar? – Elle passou por ele e sentou-se.

- Então, Malfoy, como foram as tuas férias? – Ela perguntou olhando para a plataforma. Já sentia saudades da família mas iria ver Irina, e isso era bom.

- Boas. – Ele respondeu. – O que achaste do que aconteceu há pouco?

- Foi um bom incentivo. – Elle disse olhando-o. – Nós vamos para Hogwarts conviver com pessoas ignorantes que julgam que os muggles merecem estar no mesmo patamar que nós, mas no fim, quem vai ter algo com que se orgulhar, somos nós, que sabemos qual o lugar correcto das coisas, neste mundo.

- Uau, Rouchouse. – Malfoy disse assustando-a. – Estás a mostar-te cada vez mais. Pensei que não terias gostado desta pequena conversa com o senhor das Trevas. Mas nada tens a apontar. Estás cada vez mais a dar motivos para os nossos colegas não desconfiarem de ti. Já conseguiste acabar com a ideia de que podias ter uma amizade com a Saint-Claire. E agora, as pessoas deixam as suas pequenas ideias que formaram sobre ti.

- E tu, Malfoy? – Elle perguntou espantando-o.

- Eu não fui feito para largar as minhas ideias tão cedo. – Elle acentiu com a cabeça. – Mas, posso dizer-te que… Eu também já não te ligo a ela e muito menos acho que te devo colocar no mesmo saco dos traidores de sangue.

- Metias-me no mesmo saco que o deles? – Ela perguntou com nojo. – Como pudeste meter-me no mesmo saco? Mas, bom, isso não me importa. – Elle disse levantando-se.

- Mas espera, Rouchouse, o tempo foi suficiente para não sentires saudades de falar a tua língua? – Ele perguntou fazendo-a virar-se.

- Foi, e tu agora ajudaste falando francês. – Elle saiu da carruagem e entrou noutra.

Notas finais
O que acharam?

Kiss and go,
brunadanih e CR