O Plano B

28 XVII-'Cause I will be the death of you.


Notas iniciais
AAAAH Finalmente chegamos aqui, o Gran Finale! E veio em menos de três dias, o que significa que vocês leitores me deixaram realmente inspirada! Confesso que estou com um pouco de medo. Escrevi o capítulo de forma voraz, mais rápido do que muitos outros, e estou com medo de que possa afetar a qualidade dele. Logo esse capítulo, que é o mais importante de toda a fanfic! Mas eu estou me matando de curiosidade para ver como vocês vão reagir ao final... Então preciso postar logo. Se estiver realmente ruim, espero que possam me perdoar... Enfim, esse foi o fim que eu programei desde que escrevi a primeira palavra da fic há seis anos. Ela foi inteira baseada nas músicas da banda Breaking Benjamin, dos álbuns Phobia e Dear Agony. O roteiro já estava inteiro bolado na minha cabeça, e não havia jeito de mudar esse final. Então, de verdade, eu espero que seja do agrado de vocês. Se não for, também, aceito críticas. Por fim, leitores fantasmas, essa é uma boa hora de aparecer! Gostaria muito de saber quem vocês são, quem sabe poderíamos até conversar. E eu com certeza estou pensando em escrever outra fanfic, os comentários ajudam muito. Galerinha que já comenta, continuem comentando! Estou muito curiosa para saber o que vocês vão achar. Espero muito que gostem. Um beijo grande, L Black.

“O julgamento foi ontem. Culpado. Pena de morte. Amanhã às onze horas.”

As palavras piscaram na tela de seu computador e o coração de L pulou uma batida, o que quer dizer que literalmente parou de respirar por um segundo ou dois. Já fazia seis meses que estava enclausurado em um quarto de hotel, sem contato com absolutamente nenhum outro ser humano além de si mesmo, e aquela mensagem de texto de Watari o pegou desprevenido, deixando-o completamente fora de si.

Hoje completavam seis meses desde o dia em que esfaqueara Raito Yagami.

E por mais que ele soubesse que algum dia aquela notícia viria, ele não esperava que o dia fosse hoje.

Era quase irônico. Para não dizer cômico.

Quando começara a investigar o Caso Kira, ao imaginar-se colocando as mãos no culpado, ansiava por estar de corpo e alma em cada momento de resolução, desde o segundo em que fosse entregar as evidências para a polícia até a prisão e julgamento do réu e sua pena final.

Estaria no seu direito de se deliciar com cada instante da derrota de Kira, afinal seria ele quem a proporcionaria.

Mas a realidade foi bem diferente desta.

A pós entregar para Central de Investigações todas as refinadas evidências reunidas por si, desde o próprio death note utilizado por Mikami até os arquivos de seu computador com os traços de hackeamento, a revelação de que Akira Usui havia sido assassinado por ele e que a Regra dos 13 dias era falsa (e Raito Yagami era o único ser humano com acesso à informação capaz de ter matado aquelas pessoas para fazer parecer que a Regra era verdadeira e se inocentar), e também após entregar todo seu acervo de informações sobre o Caso Kira com a linha de raciocínio seguida para captura-lo, L decidiu simplesmente desaparecer. Não ficou nem tempo o suficiente para ver as informações serem passadas à polícia japonesa, deixou a cargo de Watari responder por si todas as dúvidas e perguntas do caso.

Durante todo o tempo que passou, não quis saber de como a imprensa reagiu a notícia de que Kira fora pego e estava em recuperação num hospital-prisão, com vigilância de mais de cem militares, devido a ter sofrido um acidente potencialmente fatal. Recusava-se a saber das glorificações feitas em seu nome pela resolução do que era o maior caso de assassinato do século e impedia-se de ver como as pessoas reagiam à figura de Raito agora que sabiam quem ele era. Apenas falava com Watari em situações emergenciais, quando o próprio não sabia responder algum detalhe crucial sobre a investigação.

A princípio, não queria saber nada a respeito de Raito ou o Caso Kira. Absolutamente nada. Queria apagar a existência dele da própria mente, e para isso era preciso fazer uma desintoxicação de tudo que o lembrava daquilo, o que no momento, seria o mundo todo. Por isso era necessário seu isolamento. Já era natural de L querer ficar sozinho, mas naquele instante era simplesmente crucial.

Ele não queria lembrar dos acontecimentos da noite em que fizera o que jamais se imaginou capaz de fazer.

O que aconteceu, porém, é que caiu numa depressão profunda e sufocante.

Não adiantava tentar tirar a mente disso, pois o Caso havia sido sua vida durante anos,. Era como se L e o Caso Kira fossem indissociáveis. Mas muito mais do que isso, era como se ele e Raito Yagami fossem indissociáveis, pois L era absolutamente incapaz de tirá-lo de seus pensamentos por um segundo sequer, e se já tinha dificuldades para dormir, depois do que aconteceu simplesmente não pregava os olhos.

Não conseguia viver consigo mesmo. Não depois do que fizera.

Que tipo de ser humano é capaz de esfaquear a única pessoa por quem sentiu alguma coisa que não fosse frieza e desinteresse?

“O tipo certo” o outro lado de sua mente revidava “que não se deixa dominar por emoções que o impeçam de seguir a própria Justiça.”

Mas como você não tem nojo de si? Você sabia que o amava, e mesmo assim o entregou a esses vermes rastejantes, como se ele fosse tudo que havia de mal no mundo.

“Mas ele é, oras. O bastardo é Kira, o maior serial killer que já existiu. Ele mereceu a facada. Mereceu o destino que teve...”

Mas como você vai olhar Raito nos olhos de novo?

“E quem disse que você vai? Deixe-o apodrecer na cadeia, ele não passa de um mentiroso, tudo que ele disse sobre te amar era a mais profunda calúnia.”

Ele havia dado uma alternativa. Havia proposto que entregassem Mikami, que fugissem, ficassem juntos...

“Pare de insultar sua própria inteligência. Você sabe que a primeira coisa que ele faria, se ficasse um milésimo de segundo sem vigilância, seria escrever o seu nome naquele maldito Death Note. Você não passaria de pó agora e o mundo inteiro estaria à mercê de Kira.”

Não precisava tê-lo entregado a polícia. Podia tê-lo obrigado a renunciar do caderno, e depois queimá-lo. Tinha certeza de que as pessoas eram capazes de esquecer o Death Note e mudar seu comportamento, como havia acontecido com ele e com Misa durante as investigações.

“E como você iria conseguir viver consigo mesmo desse jeito, sabendo que mentiu para o resto do mundo? Que não deu ao mundo o culpado por aqueles crimes hediondos? Você acha que Watari permitiria um absurdo desses?”

E ficava nisso horas e horas, até não aguentar mais e começar a chorar convulsivamente, como uma criança pequena e abandonada. Nunca se sentira mais perdido na vida, mais solto, mais sem rumo. Nem mesmo o açúcar conseguia lhe trazer algum prazer real.

Viver era horrível.

A verdade é o que ele experimentara com Raito fora a melhor parte de sua vida, para não dizer a única que valera a pena. Não havia porque negar isso, não agora, não quando estava sozinho num quarto de hotel, com as luzes apagadas, e se entupindo de doces.

O que era sua vida sem ele? Um nada. Somente um monte de casos sem sentido. Tédio e enigmas que resolvia como se fossem feitos para crianças de dois anos.

Não conseguia suportar a ideia de viver num mundo em que ele não existisse.

E por mais que não quisesse saber, não saber também era igualmente angustiante. Será que Raito se recuperava bem da facada que havia recebido? Não mirara órgãos vitais, mas sabia que ele corria risco de vida. Como a polícia e as pessoas haviam recebido aquela informação? Será que tinha gente tentando penetrar no hospital para mata-lo?

Uma vez que era simplesmente impossível viver assim e não querer morrer a cada cinco segundos, pediu para Watari apenas uma coisa: “Avise-me se ele estiver prestes a morrer.”

E assim, todo dia, durante aqueles seis meses decorridos, verificava se tinha alguma mensagem de Watari. Ao ver que não tinha nada, conseguia se tranquilizar internamente, e podia passar o dia todo se torturando lentamente, sem precisar fazer nada além de chorar e se lamentar. Mas hoje era um dia diferente.

Hoje, tinha recebido essa mensagem.

“O julgamento foi ontem. Culpado. Pena de morte. Amanhã às onze horas.”

O que significava que, ao menos que fizesse alguma coisa, Raito Yagami não passaria de matéria em decomposição em menos de 24 horas.

A ideia provocou-lhe um arrepio que percorreu toda a sua espinha.

De repente, todas as perguntas sem resposta que havia feito para si mesmo durante aqueles seis longos meses foram respondidas em um único segundo gritante: NÃO.

Não. Não, não e não.

Raito Yagami simplesmente não podia morrer. Ele não ia deixar. Todo o ressentimento, todo o ódio que sentia, toda a raiva de ter sido enganado se dissolviam numa certeza que nem uma facada tinha conseguido dar. De repente, não havia mais o que perdoar.

Ele já estava perdoado.

No fundo, L sempre soube. Sempre soube quem era Kira. E não era apesar disso que o amava, era por causa disso. Como podia ter sido tão tolo?! Ele amava Kira. E isso era mais importante do que tudo. Inclusive a sua tão amada Justiça.

Com a graça divina, ainda havia tempo. Ainda havia 24 horas para reverter toda aquela tragédia. 24 horas para salvar seu maior e único amor.

Mas antes, precisava deixar de ser covarde.

Precisava ver Raito Yagami.

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O cheiro de mofo e excrementos daquele lugar tornava a perspectiva de morrer quase agradável. “Céus.” Pensou Raito, colocando a mão no nariz para tapá-lo. “Acho que vou vomitar.” Tapou a boca para impedir o refluxo, o que já era algo costumeiro em sua rotina, feliz por conseguir conter mais uma vez o impulso.

Argh.

Era simplesmente revoltante demais.

Como diabos fora acabar assim? Um verdadeiro Deus, vivendo seus momentos finais naquele lugar deplorável. “Podiam ao menos ter me dado uma cela decente. Eu sou Kira, pelo amor de Deus.”

Em vez disso, a cela em que estava era realmente um lugar degradante. Havia uma lâmpada que descia do teto num fio e dava uma cor amarela no cômodo minúsculo. E isso era o que de mais tecnológico havia, tirando uma pedra onde ele teoricamente deveria dormir e uma espécie de ralo onde fazia suas necessidades.

Em frente a ela, o corredor cinzento em que de hora e hora vinha um policial para checar se ele estava realmente ali.

Como se ele pudesse simplesmente se teletransportar ou passar por paredes.

“Bando de estúpidos.” Cuspiu. Odiava a todos os malditos carcereiros daquele maldito lugar. Odiava todos os malditos policiais envolvidos em sua prisão e confinamento.. Odiava os juízes que fizeram seu julgamento no dia anterior e todas as pessoas invejosas que vieram assistir, vibrando pela sua pena de morte. Odiava até os médicos que o trataram e não o deixaram morrer naquele hospital, que pelo menos era um lugar digno. Mas mesmo todos esses ódios reunidos, ainda que fossem multiplicados por um número de cem mil casas, não chegavam nem perto de se comparar ao ódio que sentia pelo detetive L.

L Lawliet.

Todo dia repetia o nome dele, como uma oração silenciosa. Era seu mantra diário que o fazia resistir a cada dia naquele lugar. Sobrevivia apenas pela força do ódio e a esperança de um dia poder revê-lo, para tirar de si tudo o que alimentara.

Ah, como ele lamentava! Como lamentava não tê-lo matado quando teve a oportunidade. No fundo, esse fora seu único erro. Até deuses cometiam erros, e ele tinha cometido aquele: o de ser misericordioso demais. Mikami estava com a caneta e o caderno na mão. Uma palavra sua e Adeus, L, bem-vindo novo mundo. Mas não.

O que acontecera é que jamais julgara que havia um mentiroso maior que ele mesmo. L o fizera acreditar, com todo o seu talento, para o qual Raito simplesmente tirava o chapéu, na maior mentira de todas: a de que ele era capaz de ter sentimentos. Que havia alguma coisa naquela carcaça que ele chamava de corpo além de um coração fraco e morto.

Mas não havia.

Precisou levar uma facada no estômago para entender que caíra no conto de L. Até o último segundo, acreditara que encontrara a fraqueza dele, que o vencera com o seu Plano B.

Mas psicopatas insensíveis realmente existiam. E L era um deles. Ele não apenas demonstrava a indiferença, ele era uma pedra encarnada. Tinha gelo no lugar onde devia estar o coração. Já ele, Kira, não era assim. Ele sim, tinha amado L, amado muito. Havia dias em que ele era com tudo que sonhava e se preocupava. E era por isso que o bastardo ainda estava vivo. Ali estava seu pecado, o seu erro: a misericórdia do amor. Por outro lado, era o que o consolava em seus momentos de angústia. O que o consolava por ter perdido a guerra.

“Eu sou um Deus. Deuses são capazes de amar, e eu não sou diferente. Tudo que fiz, fiz pelo bem da humanidade. Para ganhar de um Deus, somente o mais terrível dos Demônios.”

L era tão vazio que não tinha tido nem mesmo a decência de ir visita-lo.

Já tinha aceitado a morte.

Iria morrer como um herói, defendendo sua causa. A única frustração que tinha era não poder dizer a L o quanto o odiava antes de partir. Nesse exato momento, porém, ouviu o som de uma porta se abrindo no fundo do corredor. Ao ouvir os passos, já esperava ver Haru, o guarda gordo que adorava vir até ele com um sorriso maléfico xingá-lo das piores palavras possíveis.

Mas, como se Deus tivesse ouvido suas preces, quem estava ali era muito longe de ser Haru.

Era L, finalmente.

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Ver o estado em que Raito estava, naquele lugar fétido e imundo, quase o fez desabar em uma torrente de lágrimas. “Como eu permiti uma coisa dessas?” Perguntava-se, indignado. Teve que respirar fundo umas cinco vezes antes de conseguir olhar, mais ou menos, na direção em que o garoto estava. Vestindo trapos, ele estava sujo e encostado num canto da parede.

Não foi capaz de olhá-lo nos olhos.

—Raito-kun... – Começou, num murmúrio baixo e arrastado, segurando uma das barras da cela, com a cabeça voltada para baixo. Percebeu, tarde demais, que não sabia nem o que falar. Devia ter se prevenido nisso, ter elaborado um discurso antes, qualquer coisa que pudesse enunciar e não parecer tão patético.

—Boa noite, Lawliet. -Raito respondeu, sem hesitações, a voz firme e sarcástica, como era usual em todas as suas batalhas retóricas. Quem ouvisse, poderia imaginar que quem tinha sido sentenciado a morte era L. — Quer dizer, presumindo que seja noite lá fora.

—São seis da tarde. – O moreno respondeu, quase que automaticamente, embora sua voz ainda estivesse entalada na garganta e suas mãos tremessem um bocado.

—Ah, fico feliz em ouvir isso. Então só faltam onze horas para eu esquecer pra sempre essa coisa horrenda que é a sua cara. -Comentou o garoto, no tom mais debochado possível.

L ergueu a cabeça diante do insulto.

Raito tinha uma perna estendida e um joelho dobrado, no qual apoiava um dos braços, num gesto de desleixo. Parecia um bad boy dos anos oitenta, só faltava as tatuagens e um cigarro em seus dedos. Reuniu coragem suficiente para olhá-lo nos olhos, mas a visão que teve foi simplesmente assustadora demais para que sustentasse o olhar.

Aqueles não eram os olhos amendoados e doces do seu Raito.

Eram os olhos vermelhos e assassinos de Kira.

—Raito-kun... As coisas não precisam acabar desse jeito.

L não conseguiu disfarçar o desespero contido em sua voz. Alguma coisa dentro dele parecia que ia fazê-lo explodir, era como se todo o seu sangue tivesse sido levado numa caldeira e esquentado a mil graus. Tinha que fazer alguma coisa para mudar aquela situação logo, e não sabia o quê.

—É... -Concordou Raito, que ao contrário dele, nutria um tom calmo e indiferente -Elas não precisavam acabar assim. Eu digo, por um momento eu realmente cheguei a acreditar que não precisavam. Que não era preciso que um de nós morresse para que pudesse ter um fim. Mas você me esfaqueando me provou que eu estava evidentemente muito enganado. – Ele falou como se achasse graça do que havia acontecido consigo. Embora, evidentemente, aquela menção sutil revelasse que estava extremamente ressentido.

—Isso... O que eu fiz. -L falou, num sussurro fúnebre. — Não existem palavras para expressar o quanto estou arrependido

Fez-se um silêncio mortal por alguns segundos, que foi prontamente seguido de uma imensa gargalhada de Raito.

—Hahaha. Você só pode estar brincando! Durante anos eu tive que ouvi-lo dizendo que iria capturar Kira, que iria simplesmente aniquilá-lo quando o pegasse, que o transformaria em pó. Tudo isso para você vir aqui me dizer que se arrepende? Ah, por favor. -Agora ele parecia extremamente irritado. — Você se arrepende de não ter feito antes, isso sim.

—Não! Quer dizer...Eu sei o que eu quis. – L parecia muito zeloso e ciente de suas palavras, querendo encontrar o jeito certo de transmitir a Raito o que estava passando por sua cabeça. – Eu sei o que eu queria. Mas isso foi antes...

—Antes do que, exatamente?

—Eu percebi, Raito-kun. -O moreno enunciou, um tanto quanto tímido. Ainda naquelas circunstâncias, ou talvez principalmente por causa delas, era muito difícil para ele demonstrar e falar sobre seus sentimentos. — Percebi o quanto você é...importante...para mim.

Mais uma vez, silêncio. Mas dessa vez, Raito não gargalhou. Ergueu-se no chão sujo, sacudindo suas vestes imundas, apenas pelo hábito, para se aproximar da grade onde o moreno estava, vagarosamente. Andou até ele e parou 30 centímetros atrás da barra, encarando aqueles olhos cor de ônix tristes que já haviam sido motivos de muitos de seus devaneios apaixonados.

—Lawliet. Eu não sou um bom perdedor. Mas você está praticamente me obrigando a dizer. -Deu um suspiro. — Você venceu. Eu perdi. Não adianta mais fingir que o meu plano deu certo, que você sente alguma coisa por mim. Você me esfaqueou. E depois me capturou. E revelou para o mundo todo quem eu era, o que me fez ser preso e condenado. Durante todo esse tempo, você não veio me visitar nem sequer uma vez. Eu tenho a mais absoluta certeza de que você não se importa com o que acontece comigo. O que você quer de mim, então? Que eu lhe dê meus parabéns? Tudo bem, eu me rendo. Você é muito melhor mentiroso do que eu. Eu realmente acreditei que você me amava. Em vez disso, você me enviou à morte.

L engoliu em seco.

—Eu sei. Eu sei que eu agi como um psicopata frio, e eu estou ciente sobre a decisão da corte, mas a verdade é que...

—Ah, NÃO COMECE. -Dessa vez, o garoto perdeu a paciência e gritou, ainda que estivessem muito próximos e aquilo não fosse nada necessário. -Não comece a agir como coitado, como se você realmente se sentisse culpado só porque você era meu namorado ou algo do tipo. Por favor. Eu tenho cara de idiota? Tudo o que você queria com o nosso relacionamento era me capturar, como você mesmo provou com aquela aliança maldita de casamento. E, como eu disse, você está de parabéns, porque conseguiu. -Falou tudo muito rápido, como se aqueles fossem sentimentos que o remoessem há muito tempo, e que doessem ao serem enunciados. Seus olhos se estreitaram em repulsa. — Como você ousa?! Como ousa vir aqui depois de todo esse tempo me dizer que sente muito? Que não quer que eles me executem?

—EU NÃO QUERO! EU NÃO QUERO QUE ELES FAÇAM ISSO! -L também gritou, provavelmente suscitado pela atitude do mais novo, que o deixava nervoso e ansioso, e pelas suas palavras que o fizeram sentir, se é que aquilo era possível, ainda mais culpado.- Eu sei que eu deveria ter vindo antes, ter agido antes, ter participado do julgamento. E eu sei que o que fiz com aquela faca foi imperdoável. Mas, diga-me, Raito-kun, o que você queria que eu fizesse? Eu tinha acabado de descobrir que você, a pessoa que eu mais queria no mundo, era Kira, o assassino em série mais perigoso que existia. Eu estava simplesmente furioso contigo, tinha acabado de descobrir que o que vivemos foi um Plano B seu. Você no meu lugar, não teria feito o mesmo?

Raito deu um sorriso sarcástico.

—No seu lugar, eu teria mirado o coração, e não o estômago.

—Pois então! Eu sabia que confiar em você, naquele instante, seria suicídio e você me mataria na primeira oportunidade. Você sabe que teria feito o mesmo se estivesse no meu lugar.

—E no entanto, eu estive, não é mesmo? -O castanho colocou a questão no ar, como um tabefe na cara de L. -Mikami tinha o seu nome antes até de você descobrir quem eu era. Se você quer saber, esse foi meu único erro. Devia tê-lo matado quando tive a chance. Mas diferente de você, as minhas mentiras eram baseadas em fatos. O fato de que eu realmente amei você e fui covarde demais para matá-lo quando tive a chance.

—Isso é mentira! – L exclamou, os olhos arregalados. Simplesmente não podia ser verdade que devia sua vida a Raito, que ele fora capaz de fazer o que ele não fora e poupá-lo. — Você... você agiu assim porque não queria se colocar em risco me matando. Watari sabia que você estava comigo aquela noite. Além disso você sabia que ia ser inocentado. Você não me matou naquele momento porque era conveniente para você.

O garoto sorriu, mordaz.

—É isso que você se fala todas as noites antes de dormir? Para conseguir viver consigo mesmo? -Inquiriu, num tom desafiador, não negando nem concordando com o que o moreno dizia. -De verdade, é muita ousadia sua. Vir até aqui depois de seis meses, depois de ter me esfaqueado, para me chamar de mentiroso. E para dizer que sente muito. Onde estava você, ontem, quando estavam me condenando? Você tem ideia do que eu tive que enfrentar sozinho?

Eu estava paralisado. Não sabia como agir. E-eu...Eu não tinha certeza sobre o que fazer em relação a você. Mas agora, diante da sua pena, eu tenho. Eu não tenho dúvidas de que você não merece morrer. Eu sou L. Eu o capturei. Eu tenho o poder de mudar a sua sentença.

—Para o quê, exatamente? -Raito tinha um tom de deboche, e embora a pergunta fosse de quem estava interessado, o timbre não o era. -Prisão perpétua? Você quer me deixar apodrecendo nesse lugar deplorável, sob a desculpa de que ao menos eu estaria vivo? Diga-me, que tipo de vida você acha que eu tive durante esses seis meses?

—Eu iria tirar você daqui antes, é óbvio!

—Ah. Então você iria querer me acorrentar junto a você de novo?

—Não precisaria de correntes. Você só precisaria estar sobre a minha tutela...

—Você é inacreditável. -Raito passou a mão nos cabelos sujos e oleosos, balançando a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse em negação. -De verdade, eu realmente não consigo acreditar no que vejo. Você aqui, quase de joelhos, implorando pela minha vida, depois te enfiar uma faca na minha barriga e me entregar para a polícia. Você prometeu que ia me pegar, que me enviar para a morte, e agora que conseguiu você decidiu que era uma boa hora para mostrar seus poderes e tentar evitar o inevitável. E para piorar, você quer fazer barganhas comigo. Quer que eu diga que vou me comportar, que vou ser seu cachorrinho obediente se você me ajudar a sair da forca. Ah, vá a merda, L. – O garoto cuspiu no chão. — Eu fui capturado, meu plano falhou, e em vez de se contentar com me deixar quieto no fundo do poço, você quer que eu pegue a pá e comece a cavar mais? Quer que eu comece a suplicar pela minha vida?

—Não é isso! -L parecia ofendido. O Yagami estava sendo difícil demais. Parecia que estava fazendo de propósito, transfigurando suas palavras, para que elas sempre soassem o pior possível, e se voltassem contra o seu favor. — Esse orgulho todo não vai te levar a lugar algum. Eu não quero que você suplique. Eu estou oferecendo, de bom grado, porque eu te...

—NÃO SE ATREVA A DIZER ISSO OU EU VOU ATRAVESSAR ESSA GRADE PARA PODER ESGANAR VOCÊ. Você sabe que, se me amasse, teria aceitado sair comigo vivo daquele lugar. Você poderia ter queimado o Death Note, acabado com as minhas memórias de Kira para sempre. Em vez disso, você escolheu me esfaquear.

L se lembrava perfeitamente daquilo. Da proposta que Raito havia feito, de saírem dali juntos, ele com vida. Havia pensado na possibilidade de fazer o que ele estava falando, mas só mais tarde. Não era como se estivesse raciocinando direito naquele dia. Tudo o que conseguia pensar era nas mentiras de Raito, em como ele havia o feito de tolo. E de qualquer forma, não iria querer viver com um ser patético que não se lembrasse direito dos últimos anos de sua vida.

Aquele não seria o seu Raito.

—Queimar o Death note, ocultar as evidências, apagar sua memória.. Você preferia viver uma mentira? Quer dizer que, se eu o amasse, teria que ter mentido para o mundo todo, inclusive para você?

—Isso. -O garoto respondeu, intransigente. — Mas você sabe muito bem o que preferiu.

—Raito-kun...

—Não me interprete mal, eu sou grato pelo que você fez. – Fez questão de se corrigir, para que L não achasse que ser um anencéfalo sem memória era o que queria. -Kira é muito mais importante do que você jamais foi para mim. Se quer a verdade, você estava certo. Eu o mataria na primeira oportunidade que tivesse, assim que saíssemos daquele lugar.

Eu sei.

—E ainda assim quer salvar a minha vida?!

—Por mais que você discorde, eu tenho certeza de que o amo.

—E desde quando isso foi razão para não condenar alguém? -Raito questionou, parecendo estar indignado, não só por L insistir que o amava quando aquilo era tão obviamente mentira como também pelo fato daquilo ser um absurdo. -Você está se esquecendo de quem eu sou. Eu sou Kira. Eu matei milhares de pessoas. A verdade é que, sim, eu não deveria morrer porque fiz isso, tudo o que fiz foi pensando no bem maior, em construir um novo mundo em que todos pudessem viver em harmonia. Mas, ao menos que, por causa do seu “amor” você tenha passado a concordar com meus ideais, não existe razão para me deixar livre!

—Eu não concordo, mas eu compreendo. – Aquela devia ser a primeira vez que L falava aquilo em voz alta, para si mesmo. — Qualquer inocente, diante de um poder daqueles, poderia acabar se tornando assassino. Esse caderno, eu tenho uma teoria de que ele é capaz de mudar a índole das pessoas...

—Argh. Não comece. – O garoto revirou os olhos.- Não comece a inventar desculpas para mim. Até descobrir que Kira era o menino doce que você passava fodendo todas as manhãs, ele era para você um ser maligno e cruel que agia por nada além da força do próprio ódio. E esse é quem eu sou, L. Não existem desculpas para mim. E eu jamais renunciaria aos meus ideais.

L balançou a cabeça para os lados.

—Você é muito orgulhoso. E está sob o estresse do julgamento, o peso da sentença. Não vou perder meu tempo aqui discutindo contigo. Eu vou salvá-lo, independente de você querer ou não. Vou fazer um acordo com a corte e conseguir que a pena mude de morte para você em minha custódia permanentemente.

—Em sua custódia permanentemente? -Raito começou a rir, com uma crueldade que L nunca antes vira nele. -Como posso dizer isso para você, Lawliet? -Ele passou a mão no queixo, parecendo-se deliciar com a oportunidade de poder dizer as palavras que viriam. -A morte, diante da perspectiva de passar o resto dos meus dias ao seu lado, é como o mais doce dos remédios. Eu preferia ficar nesse lugar, apodrecendo, e sendo torturado, que cortassem todos os meus membros, um a um, a ter que viver mais uma vez ao seu lado. Seria muito mais agradável.

Pela primeira vez, L se abalou com o que o mais novo falava. Durante toda a conversa havia tentado manter uma postura otimista diante dos acessos de raiva dele, porque sabia que seria difícil convencê-lo, mas aquilo que ele estava jogando em sua cara, daquela maneira tão hostil, não só era muito pesado como o tocava pessoalmente. Feria seu orgulho como ser humano. Além de que, óbvio, doía incrivelmente forte em seu coração. Não sabia o quanto doía uma facada, mas sem dúvidas aquilo doía mais. Mas não ousaria dizer isso a Raito.

—Você não sabe o que está dizendo. Você mesmo disse. Você mesmo disse que sentiu algo por mim...

—Eu te amei, L. -O Yagami o corrigiu. -E é por isso mesmo que hoje, eu te odeio cem vezes mais. Aliás, ódio não é nem a palavra certa. É que não inventaram outra palavra capaz de descrever o quanto eu detesto cada detalhe de você. O quanto tudo me enoja. A satisfação que me daria ver a luz saindo dos seus olhos enquanto eu o matasse...

O corpo de L tremeu. Sentiu sua pressão baixar, o ar deixar seus pulmões.

—Você está magoado comigo. -Disse num tom extremamente baixo, como se falasse consigo mesmo, querendo se convencer. Havia uma detectável nota de choro, em sua voz. -Está falando isso para me ferir.

—É claro que estou falando para te ferir. Mas não é por isso que deixa de ser verdade.

O detetive se calou. Sua cabeça se voltou para baixo, tentando esconder as lágrimas que agora escapavam, intrusas, pelo canto de seus olhos. Teve de enxugá-las, porém, denunciando-se.

—Raito, por favor... Não jogue sua vida fora desse jeito.

Kira é minha vida. Se minha filosofia como Kira terá de morrer, eu naturalmente quero morrer junto. Isso é muito mais importante para mim do que uma existência vazia ao seu lado. Vou morrer defendendo o que amo de verdade. E não traindo a minha causa, devendo a minha vida a quem me derrotou. De qualquer forma, se você pedir que anulem minha sentença, eu vou me matar. E tentar matar você antes.

—Não....! – L arregalou os olhos vermelhos, enormes. Aquilo que o mais novo falara o chocara profundamente, porque, pela primeira vez naquela conversa conseguiu compreender que não havia solução. Sua boca se abriu e fechou várias vezes. Diante de uma situação daquelas, ele não lhe dava escolha a não ser desistir. De que adiantava ele ser L, ser o maior detetive do mundo, e o mais poderoso, se não podia fazer nada? Se Raito ia suicidar-se de qualquer jeito, pelo simples fato de ter sido capturado. E ele estava simplesmente irredutível, o que significava que o ódio que sentia era real, não apenas uma mentira dita para magoá-lo. — Não faça isso. Não fale uma coisa dessas. Por favor, não seja assim!

—Foi você que fez isso com você mesmo, detetive.

—MAS NÃO PRECISA SER ASSIM.

Precisa. Eu sempre soube que ia acabar com um de nós dois morrendo. Era para ser você, tinha tudo para ser, mas por algum motivo você teve sorte, proteção divina, sei lá...-Deu de ombros. — Agora, será que pode me dar licença? Eu gostaria de passar os meus últimos momentos sem essa visão deplorável que é você. -Raito falou aquilo virando-se de costas para L, e mentindo. O que acontecia é que ele também estava com vontade de chorar, mas não ia demonstrar essa fraqueza para o detetive, não ia se igualar a ele, nunca mais.

—Então você espera que eu vá embora... E deixe as coisas como estão?

L não conseguia acreditar. Contemplava Raito com o coração partido, uma dor interminável percorrendo em suas veias como se fosse o próprio sangue.Tudo o que mais desejava no mundo era tirá-lo dali, e enchê-lo de beijos. Olhar dentro daqueles olhos castanhos e dizer o quanto o amava, o quanto sentia muito, o quanto precisava de seu perdão. Mas sabia que essas coisas só iam fazer doer mais quando ele não os aceitasse, e em vez disso começasse a esganá-lo.

—Sim. Este é nosso Adeus. O adeus que você merece. E lembre-se, se me soltar, eu morro de qualquer jeito. E tento levar você junto.

Silêncio.

Raito respirou fundo, cerrando os punhos. Ouviu passos, o que significava que L estava se movendo.

—Eu tenho uma última dúvida. -Virou-se de novo. O detetive era a pura imagem da derrota. As lágrimas não paravam de sair os olhos dele, aqueles olhos pretos e brilhantes, mas ainda assim havia uma ponta de esperança neles. Como era difícil não querer chorar também diante daquela visão. Mas ao mesmo tempo, aquilo tudo era imensamente satisfatório. Tudo o que Raito sempre sonhou. — Você acredita que existe vida após a morte? Acha que, com nossas almas longe daqui, poderíamos ficar juntos?

O Yagami sorriu de lado.

—Eu acredito no vazio. Que espero ser o mais distante possível de você que eu possa estar. -Acenou para ele. — Adeus, L.

O detetive não aguentou mais, com aquela última aniquilação de esperança de sua parte. Saiu correndo dali, aos soluços, e Raito contemplou a visão sentindo que ganhara um presente dos céus.

Diante de seu deleite, deu algumas voltas no cubículo de sua cela, depois sentou-se. Gargalhou longamente, enquanto lágrimas escorriam em sua face. Somente agora percebia o quanto estava imensamente feliz. E a razão era muito simples: o final do plano B, ao cabo de tudo, tinha sido bem melhor que o do plano A.

Ao invés da morte, L teria que lidar com algo muito terrivelmente pior.

A vida.

Notas finais
Ohhh... É isso gente. Eu quase me matei de chorar com esse final, mas eu simplesmente não enxergava outro tipo de cenário que fosse compatível com as personalidades que o Obata e eu criamos. Eu sei que vocês provavelmente me odeiam e eu aceito isso. De verdade, na minha outra fanfic Snuff eu fui praticamente apedrejada, então sintam-se a vontade para expressar a frustração de vocês hahah PODE SER QUE HAJA UM EPÍLOGO. Isso vai depender do meu feeling e dos comentários de vocês.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!