O Pintor Ferido

1 O Pintor Ferido


As cores escuras contemplam-me o olhar, observam-me a alma, evoluem-me o pensar. E, de olhos num negro partilhado, miro a minha face pintada, o rosto que já fora meu. Tento relembrá-lo, decorá-lo e adotá-lo como máscara dos meus demónios. Mais ninguém os verá, mais ninguém.

Rejeito o espelho e o vidro corriqueiro, repugno a água dos lagos e a eternidade do mar. Mas acima de tudo, repugno-me e rejeito-me. Sou meu inimigo hediondo, sou meu oponente abominável, meu adversário niilista. Sou meu nemesis e minha derrota. Sou o meu maior medo. Sou um vilão.

Mesmo assim, procuro-me. Busco-me em cada recanto da memória. Fragmentos de pele ocorrem-me, a pele que já não tenho e viajou para onde não devia. Escorre por entre estes dedos velhos. Estas mãos asquerosas ainda pintam. Vis mãos! Ainda ousam deixar-me agir no auge do meu tormento. Maldições e maldições!

Eram bons os tempos que ignorei. Eram felizes os tempos que deixei. Mas a felicidade só se sente quando se ausenta, como tudo na vida. Só nos chamam quando não estamos com eles. Também só a senti quando me deixou, a luz dos meus dias, meu único significado. Não a censuro. Fez muito bem. Magoei-a. Feri-a tanto que me dói...

Não era eu, querida. Não era eu mas, ao mesmo tempo, era. E era-o muito: parvo, ridículo, egoísta. Quem me importunaria com isso? Quem me chatearia por ser assim tão humano? Deviam tê-lo feito, pelo meu bem-estar, pela minha salvação. Minha alma será punida pela sua negligência. Pela minha também. Era o álcool! Era a droga! Era a melancolia a falar pela minha voz, a depressão comandando os meus lábios. E eu nada fiz. Deixei-me levar pela decadência e ela levou-me a isto. A derrota da autodestruição. É o começo de um longo fim.

Ninguém teve piedade de mim. Porque haveriam de ter? Sou um ser desprezível, sempre fui. Naquele fatídico dia até fui demais. Era uma noite como todas as outras. A bebida ruborizando-me a face, fermentando o meu sangue. Os meus movimentos já não pertenciam ao desperto e culto eu, o sensível e compreensível homem que sou. Magoei-a tanto. A minha fúria desmedida abateu-se sobre ela visto que eu próprio não fui capaz de a conter. A ira de quem compreende que a vida não precisa de qualquer sentido. Minha filha! A minha querida filha! Nem lhe deram um só minuto após nascer! Coitada! Coitada. Nasceu sem vida, nasceu morta de uma mãe cansada. Fui eu que a segurei nos braços. Fui eu que não senti a sua respiração. Afoguei as minhas mágoas como prometido. Afoguei-as todas no âmago do meu ser.

Não pensei no que me restava. Para mim, nada restava. Nada mais existia no mundo que me saciasse a dor, só o volátil fluido dos derrotados. Rendido, deixei-me levar pela corrente. Ataquei de forma desmedida aqueles que amava e, pior ainda, aqueles que me amavam de volta. Faleci por dentro. Deixei minhas entranhas decompor num corpo vivo. Em breve também este corpo sofreria a corrosão da minha vontade. Largaram-me os conhecidos e aqueles dos quais não tenho sequer memória retribuíram o mal que lhes infligi. Destruíram minha identidade, corromperam as minhas bochechas com a sua violência. Obrigaram-me a beber do meu próprio sangue, a sorver as minhas lágrimas. No fim, só o espelho me provou tudo: eu estava acabado, eu já não era eu. Perdi-me entre os meus semelhantes, à mercê da minha infâmia. Roubei-lhes o tempo, roubaram-me a cara.

Ela viu-me. Viu a minha carne exposta e os lábios descaídos, os olhos escuros e a nojenta feiura que escondi em mim durante todo este tempo. Os socos e as agressões só serviram para me revelar, para a deixar ver-me como sou. A minha estrela iluminou por momentos até me deixar na mais completa escuridão. Desistiu de mim. Fez bem. Ela sabia-o: eu nunca mais voltaria a ser o mesmo. Eu, trágico desgraçado, não tinha a noção disso, até hoje. No chão do atelier largo esta última tela, última tentativa de retratar a minha antiga essência, o rosto que já não lembro. Fartei-me disso.

Pintarei, em vez disso, a minha luz. Pois ela era a minha luz. Minha adorada esposa, minha única definição e alegria, combustível das minhas respirações. Quantos anos já passaram? Ainda tenho em mente o teu sorriso leve e teus gestos de ternura. Ainda em mim sinto o teu toque, a tua pele macia sobre a minha mão, as tuas inocentes carícias de mulher. Nenhuma das milhares de telas falhadas que jazem neste solo partilhará a glória desta obra final. Prometo-te. Todos os dias me tentei lembrar. Todos os dias falho tentando pintar de memória a minha antiga cara. Mas já não me busco. Não preciso de mim, há muito que me perdi nas trevas do passado. Não busco aquilo que fui, não tenciono mais chorar nesta tentativa fútil de mudar o mundo. Desta vez, procuro-te a ti. Desta vez, retrato o bem. Desta vez, retrato a beleza. E agora, a mulher que amo olha-me nos olhos e julga-me uma última vez. No seu colo, um bebé. O nosso querido bebé. Amo-vos tanto. Seus lábios fictícios sussurram um "também te amamos" e os meus braços correm a envolvê-la no meu calor. Nunca mais te deixarei. Perdoa-me. E assim, convosco, morrerei. Minha magnum opus, a face que há muito não via. Teus olhos pintados nos meus, teu coração a meu lado. Finalmente o recupero: o amor.

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