O Pijama Do Menino Listrado
1 O primeiro contato
Notas iniciais
Toda a obsessão por estra terrestres – ou ets, como preferirem chamar -, começou quando Brenda tinha apenas três anos. Aqueles seres lindos, com olhos grandes e corpos esqueléticos, deixaram-na maravilhada. Cada vez que via um filme, lia um livro, ou via uma foto sequer deles, seus enormes olhos brilhavam. Sim, os olhos de Brenda eram enormes também. Talvez esse tenha sigo um dos motivos pela paixão instantânea que ela teve por eles. Pois até então, ela se sentia horrível com aqueles olhos enormes, balançando seus cílios, também enormes.
Seus pais no começo ficaram muito assustados, pois eles falavam dos ets como um modo de assustá-la, para que ela fosse dormir cedo com medo que a atacassem. Mas ao invés disso, ela ficava até quase quatro da madrugada acordada, com os olhos vidrados na janela, esperando seus queridos aparecerem. Mas como era esperado, nunca apareceram, para frustração e certo ódio de Brenda por seus pais estarem mentindo pra ela. Seus pais perceberam que ela não desistiria, então inventaram uma desculpa qualquer para que ela voltasse a dormir cedo como antes.
Quando ela completou cinco anos, ao contrário do que seus pais imaginavam, seu vicio não diminuíra, muito pelo contrário, só aumentava com o passar do tempo. As paredes do seu quarto eram repletas de desenhos, colagens e posters deles. Mas um dos maiores de todos, era um poster do primeiro filme de et que ela viu, que ela lembra de cor todas as falas, de todas as cenas.
Início do Flashback
Brenda sempre teve um sono extremamente pesado, nem que a casa caísse, ela não acordaria. Mas curiosamente, hoje foi uma exceção. Ela estava completamente tampada, encolhida em um enorme cobertor peludo. Seu quarto estava silencioso, mas um som engraçado e difícil de entender entrou em seus ouvidos, mas por mais que ela quisesse dormir, sua curiosidade falou mais alto.
Brenda jogou sua coberta de lado, colocou sua pantufa e saiu silenciosamente do quarto. Ela se escondeu atrás do sofá, para que seus pais não a vissem. Afinal, mesmo com apenas três anos, Brenda já tinha noção do que podia, e do que não podia ver na televisão. Então assim que ela colocou seus olhos na TV, soube que aquele filme, com certeza, era um dos que ela não podia ver. Havia várias pessoas gritando e chorando. Um dos seus olhos se fechou automaticamente, tampou os ouvidos e quando estava prestes a sair de trás do sofá, um bicho completamente estranho, que nunca tinha visto na vida, apareceu na TV. Ela tirou as pequenas mãos dos ouvidos e sentou com perna de índio no chão. Apoiou seu rosto nas mãos e seus olhos começaram a brilhar mais que nunca.
Fim do Flashback
Brenda, ao completar 10 anos, já era mais esperta que qualquer criança da sua idade, mas ainda sim, era muito solitária. A sua paixão por ets nunca foi compreendida por nenhum dos seus colegas. Na verdade, todos achavam ela esquisita e maluca. Até mesmo sua professora achava-a anormal. Ela foi levada para a coordenação inúmeras vezes, para ver se tirava toda a maluquice da sua cabeça. Mas por mais que todos ao seu redor dissessem "Ets não existam, sua idiota." ou "Vá para hospício, sua louca.", ela nunca deixou de acreditar e nunca deixou de amá-los incondicionalmente.
Foi uma grande surpresa para Brenda quando seus pais disseram que ela ia pra praia. Sua felicidade se elevou. Mas não por causa da praia em si, mas sim porque era uma chance de procurar algum et perdido.
Como sempre fazia, deitou sua cabeça na porta e ficou olhando para a rua, que se movia muito rapidamente, devido à velocidade exagerada que o seu pai dirigia. Ela encarava concentradamente as árvores, ficando tonta com a mistura do tronco, galhos e folhas. No meio de todo aquele mato, ela viu alguma coisa, mas não conseguiu identificar o que. Parecia apenas um vulto.
- Pai, para o carro, eu vi um et. — Ela gritou extremamente alto, chutando o banco dele com força.
Com o susto que o pai de Brenda levou, ele perdeu o controle do volante, fazendo o carro girar na pista. Por sorte, não havia nenhum carro passando. Assim que o carro parou, os pais de Brenda a encararam furiosos. Ela se encolheu no banco, trancou a boca e fechou os olhos. Sempre fazia isso quando ficava com medo das consequências dos seus atos. Ela ouviu sua mãe dizer para voltarem para casa, porque Brenda não merecia mais ir até a praia.
Disfarçadamente, Brenda abriu um dos olhos e voltou a olhar para as árvores, mas não encontrou mais aquela coisa. Mas por alguma motivo ela sabia que era um et, ela tinha certeza. Seus olhos e boca se fecharam novamente e ficou naquela posição até chegarem em casa.
Por dias e dias, só nisso ela pensava. Tudo bem, ela sabia que tinha a remota chance de ser algum animal ou algo parecido, mas não era, ela tinha certeza absoluta que era um et e nada tiraria isso da sua cabeça.
O dia do mês que a pequena Brenda mais odiava chegou. O dia que está marcado em todos os meses do calendário. O dia que ela mais odeia no mundo, o dia 7. Esse é o dia em que os pais dela combinaram de levá-la até o parquinho. Eles sabiam que se dependesse dela, ela não sairia de casa nunca, ficaria apenas em casa, desenhando e escrevendo. Dessa vez, apenas Brenda e sua mãe foram para o parque.
- O papai não vem? Quem vai me ajudar a andar de bicicleta? — Brenda perguntou brava.
- A mamãe, querida.
Seus braços se cruzaram, ficando mais emburrada que antes. Por mais que ela amasse a mãe, ninguém era mais divertido que o seu pai. Sua mãe a obrigava a brincar com outras meninas do parquinho, o que deixava Brenda extremamente irritada e desgostosa. Mas mesmo assim, ela fez o que devia fazer, fez o que estava no "contrato", brincou.
Chegou em casa cheia de lama, sujando todo o caminho que passava, inclusive a escada, que ela subiu correndo, mas sua babá a pegou no colo, impedindo-a de continuuar.
- Você precisa tomar um banho antes de ir pro seu quarto, mocinha. — Falou com um tom divertido, mesmo sabendo que Brenda odiava aquilo.
Tomou seu banho, pôs seu pijama e como de costume, foi para o seu quarto com um copo de leite bem quentinho, tomando no caminho. Quando entrou no seu quarto, viu algo absurdamente terrível e deixou seu copo cair no chão, derramando o leite no chão e molhando suas pernas, quebrando o copo em pedacinho. Todos os seus posters e desenho de ets haviam simplesmente sumido. Ou melhor, tudo foi roubado. Tudo.
- Mãe! Pai! Eu fui roubada! — Ela gritava repetidas vezes, assim como na vez em que achou que o Papai Noel (que era seu pai disfarçado), ao invés de estar dando presentes, estava tentando roubar a casa.
Não apenas seu pai e sua mãe foram até o quarto, mas também todos os empregados da casa. Todos analisavam Brenda dos pés a cabeça, a procura de feridas. Até que seu pai começou a rir, o que fez Brenda abrir um berreiro.
- Todos os meus posters, meus bonecos. Tudo desapareceu, mamãe. — Ela gritou abraçando as pernas da mãe.
A mãe de Brenda encarou seus empregados e eles entenderam que deveriam se retirar. Ela largou as pernas da mãe e correu até sua cama. Começou a repassar na mente pessoas que poderiam ter roubado eles e começou a pensar nos interrogatórios que faria com todos os empregados da casa. Mas uma pessoa em especial passava em sua mente, sua babá. Ela estava sempre feliz demais, para Brenda, aquilo não é normal.
- Precisamos conversar com você, pequena.
- Não, mãe, eu preciso descobrir quem fez isso, preciso recuperá-los e já.
- Escute a sua mãe, Brenda, por favor.
Nada justifica a atitude dos pais. Será que eles sabem quem roubou, mais estão com medo de entregar a pessoa pra polícia? Ela limpou as lágrimas e arregalando seus olhos em sinal de atenção.
- Fizemos isso para o seu próprio bem, filha.
- Fizeram? Como assim, mãe? — Ela gritou, encarando os dois.
- Falamos com alguns especialistas, eles nos recomendaram a tirá-los do seu quarto.
- Especialistas? Não entendo.
Por mais que Brenda fosse extremamente madura para a sua idade, nada daquilo fazia sentido pra ela. Especialistas não significava nada. Seus pais estavam estranhos desde o quase acidente de carro causado por ela. Ela nunca foi má com seus pais, nem falou palavrão, nem nada. Não tem motivos para eles estarem chateados com ela.
- Você terá que ir a um psiquiatra.
Seus professores e coordenadora já haviam falado centenas de vezes em levá-la para um psiquiatra, mas Brenda nunca levou a sério, afinal, seus professores e principalmente a coordenadora, nunca falavam nada pra ela de muito importante quando era chamada para conversar logo depois da aula.
O dia que Brenda queria que nunca chegasse (até pior que o dia 7), chegou. Lá estava ela, sentada numa cadeira fofa, de pernas cruzadas. Vestia um vestido rosa claro, e duas tranças caídas no ombro. Era como se ela fosse a alguma festa, mas na verdade, estava indo para psiquiatra.
Uma porta de abriu, saindo de lá uma mulher extremamente adorável, mas assustadora ao mesmo tempo. Diferente de Brenda, ela tinha os olhos pequenos, mas com cílios enormes, completamente cobertos de rímel. Seu cabelo estava perfeitamente penteado, sem um fio se quer fora do lugar. Seu vestido, por ser bem colado, mostrava a quão magra ela era.
Na hora de entrar na sala, Brenda segurou com força a mão da mãe e do pai, querendo arrastá-los para dentro da sala com ela, mas eles não podiam entrar.
- Vamos esperar aqui fora, pequena. Não se preocupe. Tudo vai dar certo. – Disse o pai, lhe dando um beijo no rosto.
Ao entrar na sala, Brenda levou um susto, ficando paralisada na porta. A moça, com cabelo perfeito, ficou a encarando, confusa. No canto da sala, em pé, havia um menino. Mas não era um menino comum, era um menino listrado. Brenda não conseguia parar de olhar para ele. A psiquiatra olhou para o canto da sala também.
- O que você está olhando, Brenda?
Por algum motivo, só Brenda estava vendo o menino. Ele pôs seu dedo indicados na frente do lábio, pedindo silêncio. Ela piscou os olhos rapidamente e ele sumiu.
- Brenda! Pode me explicar o que está olhando? – Ela repetiu, se aproximando dela.
- Não, não era nada. Pensei ter visto um bicho.
Aquele menino não saia da cabeça de Brenda. Por mais que ela “quisesse” se concentrar na psiquiatra, ela não conseguia. A curiosidade falava mais alto.
- Brenda, meu nome é Rosalie. Pode começar a falar. Estou aqui para lhe escutar.
- Mas eu não tenho o que falar.
O silêncio assumiu a sala. Nos próximos 25 minutos da consulta, nenhuma das duas falou uma palavra. Rosalie escrevia na sua caderneta e Brenda batia constantemente com seu pé na perna da mesa.
Assim que chegou, Brenda foi correndo para o quarto. Ficou na janela, olhando para o céu. Porque o que quer fosse aquele menino, com certeza ele veio do céu; e com certeza, não era apenas uma alucinação na sua cabeça. Tudo estava claro, menos o fato de Rosalie não ter o visto.
Umas movimentações estranhas nos arbustos de sua casa assustaram Brenda. Seus olhos procuravam pelo menino, mas ela não encontrou nada. Decidida, desceu até o jardim.
- Ei, menino listrado... Apareça onde quer que você esteja.
Procurou nos arbustos, em cada canto, mas a única coisa que ela viu foi um gato. Mas ela não desistiu, sabia que aqueles sons não eram de um gato.
- Eu sei que você está aí. Apareça, por favor.
Cinco minutos se passaram, mas nada, além do gato, apareceu na sua frente. Decidiu voltar pra dentro de casa, mas algo a impediu de andar. Ela paralisou, assim como no consultório. Mas dessa vez, foi por um motivo diferente. Algo muito gelado segurou suas pernas. Lentamente, ela desceu os olhos até a perna. Um sorriso enorme iluminou seu rosto.
- Eu sabia que você estava aqui. Eu sabia.
O menino listrado estava ali, sentado em perna de índio, bem na sua frente. Brenda se sentou exatamente na mesma posição que ele, sorridente.
Sua cor era muito diferente de todas que ela já havia visto; suas listras eram divididas entre branco e um acinzentado claro, mas não era de tamanhos iguais. Estranhamente, a única coisa que ele usava, era um pijama branco.
Brenda não sabia se deveria começar a conversa já fazendo perguntas, afinal, poderia assustar ele, mas não teve outra ideia melhor.
- Como você se chama?
- Eu não tenho um nome como você. Eu sou identificado através de um número.
Os dois ouviram passos vindos até eles. Brenda encarou o menino assustada, implorando com os olhos para que ele saísse dali, mas ele não saiu.
- Filha, o que você está fazendo aqui sozinha?
Brenda encarou a mãe e depois encarou o menino. Fez isso algumas vezes, perplexa. A mãe realmente não podia enxergá-lo, assim como Rosalie.
- Termina de brincar e vai direto pra cama, ok?
Assim que a mãe foi embora, Brenda encarou novamente o menino, que estava bem abatido, e segurou sua mão.
- O que é você? De onde você veio?
Fale com o autor