O Pianista E O Violinista

4 Terceiro Ato - C'est la vie.


Notas iniciais
Playlist do capítulo: http://www.youtube.com/watch?v=5uyqp8oJ_I8&list=PL7WEOtDMu8PELkw-WuqIqtDih49hw0KOi

Terceiro Ato – C’est la vie.

Os dias passavam rastejantes, o sol parecendo torturante, se recusando a se esconder atrás das nuvens. Talvez fosse uma profecia? Talvez eu devesse me deixar sair, me deixar brilhar, me deixar viver também?

Acho que eu nunca conseguiria deixar de viver ali, naquela vidinha acorrentada, numa eterna espera. Eu e a porta. Para sempre.

Eu e a espera, eu e a janela, eu e a tristeza. Eu e as coisas, nunca eu e ele.

Ele também era ele sem mim. Era ele e o seu violino, era eu e meu piano. Nós nunca éramos nós, éramos um reles eu e ele, eu e você, um genérico romance de esquina.

Me perguntei, não pela primeira vez, o que me amarrava ali. Era o amor – ah, o maldito amor – que havia me arrastado até aquele ponto sem volta. A um passo do precipício e a um passo do paraíso. Quase como flutuar, cair, nadar.

Eu me levantei do sofá onde eu estava estirado desde as sete da manhã e fui em direção à cozinha preparar algo pra comer. Se havia uma coisa que eu havia aprendido com a vida era que dar espaço a pensamentos nunca era uma boa coisa, muito menos quando não havia escapatória, quando a vida era aquela mesma e ponto final.

Coloquei uma lasanha no microondas e fiquei batendo a ponta do pé contra o chão branco impacientemente. Na parede a minha frente – na sala – tinha um quadro de uma paisagem invernal. Eu me lembro quando comprei. Estávamos numa feira de velharias, na época em que ainda éramos um casal de verdade, e havíamos pensado no quão parecido aquele quadro era com a cidade onde crescemos.

As árvores sem folhas, a neve caindo e o sol parecendo ter deixado de existir. Era como um espelho da minha alma e um reflexo do passado. Mesmo quando a palavra ‘lar’ deixou de importar, eu não pude me livrar dele. Eu precisava daquele quadro pra me lembrar do que eu era, do que eu havia sido e do que eu seria. Uma eterna paisagem invernal, austera e gelada. Minha e sua.

Eu quase pude ouvir sua risada de minha animação, e pude ver em frente aos meus olhos aquele dia feito de memórias. Uma velha carcaça da minha vida que eu havia abandonado há muito tempo.

A vida segue, meu amor. As pessoas amadurecem ou simplesmente param no tempo e se alimentam de coisas que já aconteceram, coisas que nunca vão acontecer, como sangue sugas. Essas pessoas deixam a existência passar em frente aos seus olhos cansados enquanto assistem a tudo comendo uma lasanha pré-pronta e sorrindo pra morte.

X

-Como foi seu dia?

-Cansativo. – ele disse, me olhando daquele seu jeito risonho, distante. – E o seu?

-Meio que... Inútil. – cobri os lábios com a mão pra esconder meu próprio sorriso. Era na presença dele que eu entendia porque eu continuava levando, nadando contra a maré, empurrando com minhas mãos frágeis. Era na presença dele que todas as dúvidas desapareciam e só restava o amor cego e puro. Ele me abraçou por trás e apoiou o queixo em meu ombro.

-Você deveria voltar a se apresentar.

-Não acho que seja uma boa ideia.

-Por que não? – me virei para frente e olhei nos olhos dele, antes de balançar a cabeça e abraçá-lo, apoiando minha cabeça no seu peito e ouvindo as batidas ritmadas do seu coração.

-Eu amo você. – eu pude senti-lo sorrir quando ele beijou o topo da minha cabeça.

-Eu também amo você.

X

Eu adorava quando fazíamos o jantar juntos. Era adorável e reconfortante então fiquei feliz quando decidimos fazer pizza naquele dia. Um CD clássico aleatório tocava, e o som do piano de Chopin em Winter Wind era familiar e calma. Eu lembrava que havia sido a música que eu tocara no concerto em que nos conhecemos. Ele apresentaria Hanabera depois de mim e estávamos quase tão nervosos quanto o resto dos novatos que performariam.

Claro que vários haviam ficado chocados por eu escolher uma composição tão complicada de Chopin para uma estreia – ela era tocada com as mãos invertidas –, mas eu queria impressionar. Queria entrar no mundo da música chutando o balde, praticamente.

Ele me parabenizou pela escolha. Disse que gostava de músicas do período romântico, e assim começamos o que achávamos que seria uma simples amizade, normal e corriqueira. Eu não me lembrava de ter me sentido tão bem antes daquela noite.

E, quando eu entrei para apresentar meu piano para aquele tanto de senhores e senhoras amargurados de muito renome, não poderia estar mais confortável e seguro. O suficiente para sorrir comigo mesmo ao final, parabenizando-me por não ter errado notas significativas.

E quando ele apresentou Hanabera, fiquei impressionado.

Eu era sério, focado, racional e fechado. Ele era irreverente, sexy, divertido e louco. Não havia coisa mais improvável que nos apaixonarmos um pelo outro, éramos simplesmente diferentes demais, indiferentes demais a coisas que eram importantes.

Nós não nos completávamos, muito pelo contrário. Éramos desfalcados em características simples, impossíveis de remediar, e não nos daríamos bem em outra vida ou em outra ocasião. Mas estávamos jogando dados com a vida e perdemos, seguindo um caminho que não havia sido traçado por nós.

Mas eu nunca vou dizer que me arrependo ou que lamento. Porque seria mentira, e apesar dos pesares, nunca fui um mentiroso. Um ilusionista, talvez, mas não um mentiroso.

Eu nunca me arrependerei de você. Nunca desejarei que houvesse sido diferente, que nunca houvéssemos nos conhecido. Porque cada um dos momentos que tivemos, cada uma das escolhas que fizemos, nos trouxeram para esse momento, para essa casa, para essa vida. Para essa cozinha fazendo pizza e ouvindo Chopin.

Eu nunca direi que algo na nossa vida não me agrada, não importa o quão verdade isso seja. Essa existência de abraços e beijos, espera e piano, calma e violino, nunca vai ser mais ou menos do que eu desejo e mereço.

Porque mesmo se eu rezasse ou implorasse, não poderia te arrancar de mim. Ou me arrancar de você. Porque você é meu e eu sou seu, e nós nascemos para sermos assim.

Notas finais
Oi, gente. Desculpem o atraso terrível. Eu fiquei bem doente por um tempo, e depois sofri de um bloqueio horroroso. Espero que não tenham abandonado OPoV assim como eu não abandonei. ): Quando eu me sento em frente ao computador e começo a escrever essa fic, é difícil parar. Prometo que nunca irei abandoná-la. Vocês verão um 'the end'.
Enfim. Espero que tenham gostado. :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.