O Peso do Silêncio
1 O Protocolo do Luxo
A operação havia começado antes mesmo do sol cogitar existir no horizonte, e, a essa altura, Twilight já não era mais uma presença a ser detectada — era uma ausência cuidadosamente calculada dentro da caravana que cruzava a fronteira.
O contrabando, desta vez, não envolvia armas, documentos ou tecnologia sensível, mas algo que, nas mãos erradas, podia ser igualmente corrosivo: luxo. Garrafas destinadas a representantes do governo, onde o valor não estava apenas no conteúdo, mas no que ele comprava em silêncio.
Twilight se moveu como se o tempo tivesse sido discretamente desacelerado ao seu redor. Não havia pressa, apenas precisão. Armas foram desarmadas antes mesmo de se tornarem ameaças, rotas deixaram de existir, comunicadores morreram em estática, e os suspeitos… bem, os suspeitos jamais tiveram a chance de entender o que os havia alcançado.
Em menos de dez minutos, tudo havia terminado.
O carregamento, intacto.
O protocolo, foi cumprido.
E, como sempre, algo invisível cobrado em troca: horas, noites, anos — fragmentos de si mesmo dos quais ele já não mantinha registro.
No fim, estavam todas lá. Intocadas. Impecáveis.
Sylvia percorreu a ficha da operação com os olhos semicerrados, sustentando aquela expressão difícil de decifrar, onde exaustão e uma admiração cuidadosamente reprimida coexistiam sem jamais se misturar por completo. Elogios, vindos dela, raramente se apresentavam como tal.
— Você resolveu um incidente internacional em menos tempo do que levei para atravessar a cidade.
Ela retirou os óculos, pressionando a ponte do nariz como se aquilo fosse, de alguma forma, mais cansativo do que deveria ser.
Twilight assentiu.
Não havia orgulho no gesto. Nem satisfação. Apenas constatação.
— Era necessário.
Sylvia o observou por um instante a mais do que o habitual, como se tentasse, com algum esforço, localizar ali traços de humanidade sob camadas meticulosamente construídas.
Suspirou.
— Bom… já que você resolveu a paz mundial antes do café da manhã, imagino que mereça algum tipo de recompensa.
Ele arqueou levemente a sobrancelha, não por curiosidade, mas por precaução.
— Espero que não seja outra missão.
— Melhor. Álcool. — Corrigiu ela, já abrindo a caixa.
O gesto foi quase cerimonial.
Sylvia retirou uma das garrafas e a estendeu. O vidro escuro capturava a luz com um brilho arrogante, como se tivesse plena consciência do próprio valor.
— Caríssimo. Teor alcoólico altíssimo. Um daqueles vinhos que fazem políticos acreditarem que têm bom gosto.
Twilight analisou o objeto com a mesma atenção que dedicaria a uma arma recém-adquirida: peso, equilíbrio, propósito.
— E o que exatamente espera que eu faça com isso?
Sylvia apoiou o queixo nos dedos, observando-o com um interesse que beirava o entretenimento profissional.
— Divida com sua esposa. Pode ser… útil. Para o relacionamento. E, por consequência, para a missão.
A resposta veio calibrada, precisa na medida do sarcasmo que se permitia usar:
— Claro. Embriagar civis. Um pilar clássico da manutenção da paz mundial.
— Twilight… aceita antes que eu mude de ideia.
Ele guardou a garrafa na pasta com a mesma firmeza com que trataria qualquer evidência apreendida.
Nenhum gesto denunciava qualquer valor adicional atribuído àquilo.
Era mais fácil assim.
Profissional.
Frio.
Focado.
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