A manhã chegou rápido demais.

A luz invadia a sala com uma franqueza cruel, clara demais para alguém que não queria lembrar — ou, no caso dele, esquecer.

Loid estava na cozinha, preparando café com movimentos automáticos, calculados, como se a precisão pudesse impedir o mundo de rachar. O cheiro quente preencheu o espaço, mas não aqueceu nada.

Yor entrou alguns minutos depois, com passos leves, quase infantis, o cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão sonolenta, amassada.

Ela sorriu quando o viu — simples, despretensiosa.

— Bom dia, Loid.

Ele respondeu com um “bom dia” baixo demais, seco demais, e percebeu o erro no instante em que ouviu a própria voz. Tentou corrigir com um sorriso educado, mas o ajuste tardio ficou estranho, técnico demais, apenas um músculo treinado fazendo seu dever.

Yor se aproximou, pegando a xícara.

— Nossa… acordei com a cabeça pesada. Acho que exagerei no vinho.

Ele assentiu, sem olhar.

— Você apagou no sofá.

Ela abriu a boca, surpresa.

— Eu dormi aqui? Meu Deus, que vergonha. — Ela riu, uma risada curta, nervosa. — Você deve ter tido trabalho para me carregar. Desculpa!

Ele mexeu o café, lentamente.

— Não foi trabalho.

Mas foi muito mais do que isso.

Foi intimidade.

Foi proximidade.

Foi o tipo de coisa que destrói alguém acostumado a nunca receber nada.

Yor deu mais um gole e, com uma naturalidade devastadora, perguntou:

— Eu disse algo estranho?

Loid parou.

Uma pausa minúscula, quase invisível — mas que o expôs inteiro.

Ele pensou no beijo.

No toque, na forma como ela se entregou sem hesita

E respondeu:

— Não. Você não disse nada.

Ela suspirou, aliviada e ao mesmo tempo algo nele cedeu ali, silenciosamente

Yor sentou-se à mesa, apoiando o queixo na mão, sonolenta, e de repente falou com doçura ingênua:

— Obrigada por ter cuidado de mim. Você sempre cuida bem.

Palavras simples.

Neutras para quem diz.

Demolidoras para quem ouve.

Loid serviu café para os dois.

— É o meu trabalho — ele disse, baixo, quase automático.

E se odiou no segundo seguinte.

Porque foi mentira.

E foi covardia.

E ele sabia que estava se escondendo atrás de algo seguro: o papel, a função, a máscara.

Qualquer coisa que o livrasse de admitir:

Eu fiz porque quis.

Yor mexia o café com distração, como se buscasse coragem para perguntar algo sem saber por quê.

— Eu… eu fui inconveniente ontem?

— Não — ele respondeu rápido demais. — Você não fez nada errado.

E isso foi verdadeiro.

Ela não fez nada errado.

Ele é que fez: desejou.

Ela olhou pela janela, pensativa, e então virou-se de volta para ele.

— Loid… você está estranho hoje.

Ele demorou a responder, não porque não tinha resposta, mas porque tinha muitas.

Frases que queimavam na garganta:

Você me beijou.

Você dormiu nos meus braços.

Você não lembra.

Mas eu lembro.

Ele escolheu a pior e mais segura:

— Só estou cansado.

Yor aceitou.

Como sempre.

E isso o matou um pouco mais.

Anya apareceu na porta, ainda de pijama, esfregando os olhos.

Olhou para os dois, percebeu — não com os olhos, mas com aquele dom terrível e infantil — o vazio no pensamento dele, a dor contida, a frustração.

A mente de Loid era um turbilhão silencioso:

“Foi real para mim.”

“Mas não existiu para ela.”

“Eu quero isso. Eu quero ela.”

“E não tenho o direito de querer.”

Anya abraçou o boneco contra o peito, como se segurasse algo frágil.

Yor sorriu para a filha, distraída.

Loid não sorriu.

A rotina seguiu.

Pratos lavados.

Roupas trocadas.

Televisão ligada.

Mas o ar estava estranho, como se alguém tivesse tirado uma peça do mecanismo e deixado o relógio funcionando torto.

Yor falava sobre o trabalho, sobre ter que comprar flores no caminho, sobre a gritaria das colegas. Normal, gentil, cotidiano.

Ele achou poético — e cruel — que ela falasse de flores.

Flores eram exatamente o que ele tinha sentido quando a segurou:

algo delicado que ele queria proteger do mundo inteiro.

E agora… nem o próprio aroma ela lembrava.

Quando se arrumou para sair, ela passou por ele, dando-lhe um beijo rápido na bochecha — casual, automático, sem intenção.

Beijo sem peso.

Diferente demais do que ele ainda sentia na boca.

— Até mais, Loid.

Ele a observou por um segundo longo, com um desejo ridiculamente simples:

Lembre-se do meu nome, como você disse ontem.

Com a voz trêmula.

Com o peito aberto.

Mas ela só fechou a porta.

E foi embora.

Sozinho na sala, Loid respirou fundo, como se finalmente tivesse permissão para existir sem testemunhas.

Se apoiou no balcão, cabeça abaixada, mãos firmes.

E as palavras saíram sem que ele pudesse controlar:

— Eu queria que você lembrasse.

Não foi dramático.

Não foi grandioso.

Foi apenas honesto.

Mais baixo, mais sussurrado, mais perigoso:

— Eu queria que tivesse sido você. Sóbria. Escolhendo.

Um silêncio pesado respondeu.

Ele percebeu algo cruel e verdadeiro:

Ele desejou, pela primeira vez.

E não recebeu.

Não porque o mundo fosse injusto.

Mas por que ele estava aprendendo, tarde demais, uma lição antiga:

O que é real, o que vale, não vem fácil.

Ele entendeu, com um peso novo no peito:

querer… não era mais o problema.

Era o que vinha depois.

E isso o obriga a algo novo, inédito, assustador:

Quando saiu de casa, postura impecável, expressão neutra, ninguém suspeitaria.

Mas a máscara nunca foi tão pesada.

E o coração, nunca tão humano.

Fim.




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