O Peso do Silêncio
5 A Luz Cruel
A manhã chegou rápido demais.
A luz invadia a sala com uma franqueza cruel, clara demais para alguém que não queria lembrar — ou, no caso dele, esquecer.
Loid estava na cozinha, preparando café com movimentos automáticos, calculados, como se a precisão pudesse impedir o mundo de rachar. O cheiro quente preencheu o espaço, mas não aqueceu nada.
Yor entrou alguns minutos depois, com passos leves, quase infantis, o cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão sonolenta, amassada.
Ela sorriu quando o viu — simples, despretensiosa.
— Bom dia, Loid.
Ele respondeu com um “bom dia” baixo demais, seco demais, e percebeu o erro no instante em que ouviu a própria voz. Tentou corrigir com um sorriso educado, mas o ajuste tardio ficou estranho, técnico demais, apenas um músculo treinado fazendo seu dever.
Yor se aproximou, pegando a xícara.
— Nossa… acordei com a cabeça pesada. Acho que exagerei no vinho.
Ele assentiu, sem olhar.
— Você apagou no sofá.
Ela abriu a boca, surpresa.
— Eu dormi aqui? Meu Deus, que vergonha. — Ela riu, uma risada curta, nervosa. — Você deve ter tido trabalho para me carregar. Desculpa!
Ele mexeu o café, lentamente.
— Não foi trabalho.
Mas foi muito mais do que isso.
Foi intimidade.
Foi proximidade.
Foi o tipo de coisa que destrói alguém acostumado a nunca receber nada.
Yor deu mais um gole e, com uma naturalidade devastadora, perguntou:
— Eu disse algo estranho?
Loid parou.
Uma pausa minúscula, quase invisível — mas que o expôs inteiro.
Ele pensou no beijo.
No toque, na forma como ela se entregou sem hesita
E respondeu:
— Não. Você não disse nada.
Ela suspirou, aliviada e ao mesmo tempo algo nele cedeu ali, silenciosamente
Yor sentou-se à mesa, apoiando o queixo na mão, sonolenta, e de repente falou com doçura ingênua:
— Obrigada por ter cuidado de mim. Você sempre cuida bem.
Palavras simples.
Neutras para quem diz.
Demolidoras para quem ouve.
Loid serviu café para os dois.
— É o meu trabalho — ele disse, baixo, quase automático.
E se odiou no segundo seguinte.
Porque foi mentira.
E foi covardia.
E ele sabia que estava se escondendo atrás de algo seguro: o papel, a função, a máscara.
Qualquer coisa que o livrasse de admitir:
Eu fiz porque quis.
Yor mexia o café com distração, como se buscasse coragem para perguntar algo sem saber por quê.
— Eu… eu fui inconveniente ontem?
— Não — ele respondeu rápido demais. — Você não fez nada errado.
E isso foi verdadeiro.
Ela não fez nada errado.
Ele é que fez: desejou.
Ela olhou pela janela, pensativa, e então virou-se de volta para ele.
— Loid… você está estranho hoje.
Ele demorou a responder, não porque não tinha resposta, mas porque tinha muitas.
Frases que queimavam na garganta:
Você me beijou.
Você dormiu nos meus braços.
Você não lembra.
Mas eu lembro.
Ele escolheu a pior e mais segura:
— Só estou cansado.
Yor aceitou.
Como sempre.
E isso o matou um pouco mais.
Anya apareceu na porta, ainda de pijama, esfregando os olhos.
Olhou para os dois, percebeu — não com os olhos, mas com aquele dom terrível e infantil — o vazio no pensamento dele, a dor contida, a frustração.
A mente de Loid era um turbilhão silencioso:
“Foi real para mim.”
“Mas não existiu para ela.”
“Eu quero isso. Eu quero ela.”
“E não tenho o direito de querer.”
Anya abraçou o boneco contra o peito, como se segurasse algo frágil.
Yor sorriu para a filha, distraída.
Loid não sorriu.
A rotina seguiu.
Pratos lavados.
Roupas trocadas.
Televisão ligada.
Mas o ar estava estranho, como se alguém tivesse tirado uma peça do mecanismo e deixado o relógio funcionando torto.
Yor falava sobre o trabalho, sobre ter que comprar flores no caminho, sobre a gritaria das colegas. Normal, gentil, cotidiano.
Ele achou poético — e cruel — que ela falasse de flores.
Flores eram exatamente o que ele tinha sentido quando a segurou:
algo delicado que ele queria proteger do mundo inteiro.
E agora… nem o próprio aroma ela lembrava.
Quando se arrumou para sair, ela passou por ele, dando-lhe um beijo rápido na bochecha — casual, automático, sem intenção.
Beijo sem peso.
Diferente demais do que ele ainda sentia na boca.
— Até mais, Loid.
Ele a observou por um segundo longo, com um desejo ridiculamente simples:
Lembre-se do meu nome, como você disse ontem.
Com a voz trêmula.
Com o peito aberto.
Mas ela só fechou a porta.
E foi embora.
Sozinho na sala, Loid respirou fundo, como se finalmente tivesse permissão para existir sem testemunhas.
Se apoiou no balcão, cabeça abaixada, mãos firmes.
E as palavras saíram sem que ele pudesse controlar:
— Eu queria que você lembrasse.
Não foi dramático.
Não foi grandioso.
Foi apenas honesto.
Mais baixo, mais sussurrado, mais perigoso:
— Eu queria que tivesse sido você. Sóbria. Escolhendo.
Um silêncio pesado respondeu.
Ele percebeu algo cruel e verdadeiro:
Ele desejou, pela primeira vez.
E não recebeu.
Não porque o mundo fosse injusto.
Mas por que ele estava aprendendo, tarde demais, uma lição antiga:
O que é real, o que vale, não vem fácil.
Ele entendeu, com um peso novo no peito:
querer… não era mais o problema.
Era o que vinha depois.
E isso o obriga a algo novo, inédito, assustador:
Quando saiu de casa, postura impecável, expressão neutra, ninguém suspeitaria.
Mas a máscara nunca foi tão pesada.
E o coração, nunca tão humano.
Fim.
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