O Perfil da Evidência
16 Capítulo 16 - A Regressão de Gil Grissom (Penúltimo Capítulo)
Notas iniciais
Os homens pensam que possuem uma mente, mas é a mente que os possui.
(Bob Marley)
O barulho da porta se destrancando amedrontou Sara, ela já imaginava avistar Amanda com a arma apontada para ela.
“Ela vai me matar” pensou Sara, mas surpreendeu-se ao ver que era Grissom ao abrir a porta.
— Gil! – ela ainda estava zonza pela pancada na cabeça, mas levantou-se às pressas e partiu para um abraço.
— Sara! – Grissom correspondeu o abraço e afagou as mãos em seus cabelos – Sua cabeça... Está sangrando!
— A Amanda fez isso, ela me machucou, mas como me encontrou?
— Você sumiu então te procuramos não sossegamos até te acharmos, você está aqui e está viva!
— E a Amanda?
— Ela está presa, nós a pegamos!
— Gil eu te amo!
— Que bom. – Grissom se larga do abraço.
— Como assim “que bom”? – Sara reparou o olhar estranho de Grissom.
— Sara você é uma excelente CSI, uma ótima companheira de trabalho, mas a nossa relação não existe mais.
— Como assim? Gil eu te amo, não faz isso comigo! – Sara entrou em prantos.
— Ele já tem a sua dominatrix. – Lady Heather adentrou o cômodo.
— O que você faz aqui? Vai embora! – escandalizava Sara e assim Grissom e Heather se retiraram e a trancaram de volta.
Sara esmurrava a porta exigindo que Grissom retornasse para não deixa-la ali trancafiada, ela começou a se debater e chorar.
Sara abriu os olhos, ela adormeceu e não sabia por quanto tempo, aliás, ela não tinha um relógio e nada que a fizesse contar o tempo, Sara percebeu que teve um devaneio, Grissom não havia aparecido na companhia de Heather, foi tudo delírio de sua mente. Ela passou a mão em seus cabelos que estavam sebosos pelo excesso de suor misturado com o sangue seco da ferida em sua cabeça. Sara transpirava, mas de nervoso, seu corpo estava em adrenalina, seu coração batia acelerado parecia que a qualquer momento ela teria uma arritmia cardíaca, porém ela se tremia de frio então ela reparou que a um canto do minúsculo cômodo que se encontrava na parte alta da parede havia um circulador de ar, as hélices dele giravam lentamente causando um barulho que passou a incomodar Sara.
O barulho da porta se destrancando a amedrontou, Sara não sabia mais se era realidade ou outro devaneio e já imaginou que fosse avistar Grissom mais uma vez, entretanto era a triste realidade que acontecia naquele momento, Amanda Carter adentrou o local, mas ao invés da arma ela carregava consigo um bastão de baseball. Sara perdeu as esperanças que tinha de tentar agredi-la para poder fugir, pois qualquer movimento Amanda lhe golpearia com o objeto esportivo que carregava.
— Estava sonhando? – indagou Amanda – Eu ouvi você clamar por Grissom.
— Amanda, por favor, me deixa ir embora.
— Não, o seu lugar agora é aqui, este é o seu lar.
— Você é insana.
— Pode zombar que eu sou louca quantas vezes quiser pouco me importa, preferia que a infeliz da minha mãe me chamasse de louca do que de vadia.
— Você é assim por causa da sua mãe?
— Eu não quero falar daquela ordinária! – Amanda levantou o bastão – Cala a boca!
— Por favor, me deixar ir embora.
— Não, você vai ficar até Grissom aprender.
— Aprender o que?
— Aprender a viver sem aquilo que ama.
— O que?
— Isso mesmo, eu amo o Grissom desde a primeira vez, mas eu tive que me obrigar a viver sem ele então que ele faça o mesmo! – Amanda voltou-se a porta pronta para sair.
— Espere!
— O que é?
— Eu vou ficar aqui sem água, sem alimento, sem nada? Meu cabelo está sujo de sangue por causa da pancada, eu estou suando, não tem nada aqui.
— Fique quieta, não faça escândalos, se comporte bem e quem sabe eu providencio alguma coisa. – Amanda saiu trancando a porta.
— Você não pode me trancar aqui! – Sara correu até a porta e começou a esmurra-la – Me tira daqui! Sua louca!
— Eu vou quebrar suas pernas com este taco de baseball e te deixar com fome e sede se continuar a gritar! – ameaçou Amanda do outro lado.
Sara se voltou para o colchão velho, sentou-se agarrando suas pernas e apoiando a cabeça nos joelhos voltou a chorar, mas dessa vez chorou silenciosamente.
[...]
Todos se mobilizavam em procura de Sara Sidle, alguns foram checar a hipótese dela ter ido viajar para São Francisco já que ela mencionou a agente Hotchner que preferia não ter retornado para Las Vegas, enquanto outros foram ao apartamento dela.
Nick foi ao apartamento na companhia de Reid, quando eles chegaram Nick bateu a porta com a crença de que Sara estava em seu apartamento querendo isolar-se do mundo.
— Faz anos que trabalhamos juntos – explicava Nick a Reid – neste tempo de convivência aprendemos muito sobre o comportamento do outro, Sara quando está triste ou nervosa com algo gosta de ficar sozinha em seu apartamento bebendo cerveja e ouvindo Beatles.
— Ela não está. – disse Reid ao ver que ninguém os atenderia.
— Falsa esperança da minha parte – lamentou Nick – ela então não veio para cá.
— Espere – Reid olhou para a maçaneta da porta e notou algo – veja uma mancha de sangue.
— Tem razão – Nick retirou do bolso do seu colete de CSI um cotonete para coleta de DNA ou sangue – gênio do FBI, você está pensando o mesmo que eu? – Nick colheu a amostra de sangue e guardou o cotonete de volta.
— Sim – Reid sacou sua arma – você abre a porta.
— Certo – Nick também sacou sua arma – pronto?
— Pronto. – Reid estava aposto como Nick que abriu a porta com um chute.
O apartamento se encontrava escuro e silencioso, mas eles se espalharam pelos cômodos a procura de qualquer coisa.
— Limpo! – anunciou Reid guardando sua arma.
— Limpo! – confirmou Nick guardando a sua.
— Veja uma mochila jogada ao sofá. – Reid foi verificar o conteúdo da mesma.
— Está e a mochila de Sara é a preferida dela.
— Contém algumas peças de roupas, livros e aparelhos eletrônicos como um celular e um notebook.
— Sara esteve por aqui, a luz da cozinha está acesa – Nick foi ao cômodo mencionado – ei gênio, venha ver!
Reid foi à cozinha e avistou uma garrafa de cerveja quebrada ao chão e o seu conteúdo esparramado.
— Gotas de sangue. – Nick apontou para um canto do piso.
— Você tinha razão Nick Stokes, sua amiga veio para o apartamento, beber uma cerveja e ficar sozinha.
— Ela foi apanhada pela nossa suspeita em seu próprio apartamento?
— Não tinha como a suspeita adivinhar que Sara viria então é provável que ela estivesse aqui há bastante tempo.
— Que desgraçada! – Nick esmurrou a porta da geladeira.
— Vamos refazer os passos de Sara. – Reid voltou-se para a sala e Nick o seguiu.
Reid passou a imaginar Sara regressando ao seu apartamento, jogando a mochila no sofá e caminhando até a cozinha, ela acendendo a luz e pegando uma garrafa de cerveja na geladeira. O gênio voltou para a cozinha com Nick o seguindo.
— Ela chegou aqui abriu a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja, abriu e certamente ela deu um gole na bebida então nossa suspeita que já estava pelo apartamento surge lhe golpeando com certeza na cabeça, por isso as gotas de sangue. – disse Reid.
— E como ela saiu carregando Sara daqui? Isto é um apartamento, ninguém viu nada?
— Ela já tinha tudo preparado, temos que descobrir como ela levou Sara Sidle daqui.
— Eu vou ligar para o Greg – Nick pegou o telefone – vamos processar o apartamento para achar alguma pista.
— Certo. – concordou Reid.
[...]
Grissom ficou transtornado quando Greg recebeu o comunicado de Nick e sua solicitação de ajuda, pois estava óbvio que Sara foi raptada.
— Porque ela não pediu ajuda pelo relógio? – questionou Grissom ao agente Hotchner enquanto estavam a caminho do apartamento de Sara junto a todos.
— Eu não sei, temos que investigar. – respondeu o agente.
Todos foram ao apartamento de Sara, ninguém queria ficar parado, inclusive os CSI que se afligiam pela parceira.
Catherine ficou com o quarto, Nick com a cozinha junto a Grissom, Warrick com a sala e Greg com o banheiro. Havia fortes evidências de que alguém estivera naquele apartamento por um bom tempo, Sara não havia sido porque desde que regressou de São Francisco ela foi direto para o laboratório. Os agentes também analisaram o apartamento para analisar algo relacionado ao comportamento da suspeita.
Depois do processamento e investigação do apartamento, eles se agruparam na sala para discutir:
— Alguém esteve aqui e fez uso das roupas de Sara, a cama está organizada, mas é óbvio que ela dormiu. – disse Catherine.
— O banheiro está impecável, mas com um cheiro forte de cloro. – disse Greg.
— A sala também está limpa, os móveis não tem poeiras – prosseguiu Warrick – estranho porque Sara ficou fora de Vegas por sete meses e eu achei um LP dos Beatles na vitrola.
— Tirando as evidências que o gênio e eu encontramos, a cozinha está limpa. – afirmou Nick.
— As cenas dos crimes também eram limpas – disse Rossi – aqui também está limpo, é evidente que nossa suspeita goste de organização.
— Eu recordo que Amanda me disse que sua mãe exigia uma faxina pela casa todos os dias. – mencionou Grissom.
— Grissom a chave deste caso pode estar em sua mente. – disse Prentiss.
— Como assim?
— Prentiss tem razão – respondeu Morgan – foi você que atuou no caso de Amanda Carter, você teve que processar a cena do crime, interroga-la, qualquer detalhe que saiba dela vai nos ajudar.
— Então é certeza que é ela? – indagou Catherine – E aquela pista de Zoe Kessler?
— Tem algo estranho sobre isso – retorquiu Alvez – Lady Heather foi atacada, mas por Alexia e não pela autora dos demais crimes, pelo que sabemos a nossa suspeita cometeu estes crimes para chamar atenção de Gil Grissom, raptou Sara com este intuito, ela assassinou mulheres que eram clientes da dominatrix, sabemos que Heather e Grissom tiveram uma relação, mas até agora Heather não foi atacada pela nossa suspeita?
— Eu coletei todas as informações sobre Zoe de Heather – lembrou Agatha – ela procura pela filha, me disse no interrogatório que ela e a filha brigaram e que Zoe foi embora.
— Verdade – confirmou Grissom – Heather há uns oito meses pediu-me ajuda na procura da filha, ela se negou a abrir um BO porque Zoe anunciou que ia embora só não disse para onde.
— Garcia encontrou uma evidência de que Zoe se hospedou no hotel que Sara tinha anotado o endereço do telefonema misterioso – disse o agente Hotchner – eu não creio que Zoe Kessler hospedou-se neste hotel e sim alguém com a identidade dela se passando por ela.
— Ela raptou Zoe! – concluiu Seaver.
— Ou seja, atingiu Heather de alguma maneira a este caso. – falou Blake.
— Grissom precisamos dos detalhes de quando trabalhou no caso de Amanda, pode não aparentar, mas precisamos de qualquer indício sobre ela. – pediu o agente Hotchner.
— Eu preciso ver os arquivos do caso. – retrucou Grissom.
— Não – disse Hotchner – eu quero o que está em sua mente. – os CSI se entreolharam desentendidos, Grissom mirou o agente Hotchner incompreendido a aquele pedido.
[...]
O analista David Hodges regressou ao laboratório para buscar alguns livros que havia esquecido, ele ainda estava de suspensão.
A agente Jareau, ou seja, JJ andava pelos corredores, ela foi a única a não ir ao apartamento de Sara, pois ela ficava responsável pela mídia, JJ era o elo do FBI com a imprensa, era ela que controlava a euforia de repórteres e dava coletivas de imprensa quando se necessário, era ela que ia até os jornais solicitar auxílio quando necessitava. Ela havia permanecido nas dependências da polícia de Las Vegas porque ainda investigava sobre a ligação anônima que um repórter recebeu referente ao crime com Lady Heather.
Depois de muitas ligações a jornalistas e funcionários da imprensa em vão, pois nada de desvendar sobre a ligação misteriosa, JJ foi para a copa a procura de cafeína e encontrou Hodges bebendo café.
— Acabei de fazer, quer uma xícara? – ofereceu Hodges gentilmente.
— Eu aceito.
— Agente Jareau – foi falando Hodges ao servir uma xícara de café para ela – eu quero me desculpar mais uma vez pela estupidez minha.
— Não se estresse com isso – pediu JJ ao ser servida – está tudo bem.
— Não está eu não gosto de cometer erros.
— Já que estamos falando sobre isso, sabe me informar de qual jornal era a repórter?
— Não – Hodges coçou a cabeça tentando recordar – ela não disse eu acho.
— Como não?
— Eu lembro que retornava da minha pausa e me deparei com ela pela recepção, perdida, procurava por alguém e eu perguntei o que ela desejava, ela pediu por Grissom, disse que era uma repórter e que estava colhendo informações do caso e eu disse que ele não estava que havia ido acudir uma vítima e quando percebi falei o nome de Heather.
— Estranho, ela não identificou para quem trabalhava? Se era para alguma emissora ou editora de jornal?
— Não.
— Você saiu da suspensão?
— Não agente Jareau, eu vim aqui buscar uns livros meus e parei para um café, eu espero que Ecklie não me veja.
— Não se preocupe – JJ terminou seu café – eu converso com seu supervisor depois, eu preciso que fique.
— Para que?
— Eu preciso da sua ajuda.
— Está bem. – Hodges ficou triunfante, o seu ego foi ao máximo por causa do pedido de ajuda de JJ.
[...]
Sara já estava enlouquecendo de permanecer naquele lugar, ela às vezes tinha fé de que fosse ser encontrada pelos parceiros de trabalho e pelo FBI, depois já imaginava que ninguém a acharia e que ficaria ali para morrer.
O barulho da hélice do circulador de ar na parede a irritava e ela passou a esbravejar com o mesmo como se ele fosse uma pessoa.
— Eu não deveria ter saído de São Francisco. – lamentou ela se encolhendo pelo colchão, as vestes que usava não a protegiam do frio que sentia.
Fechando os olhos ela se viu pelas ruas dos bairros de São Francisco, imaginou-se dirigindo seu carro e observando as crianças que brincavam pelas calçadas fazendo bonecos de neve ou guerrinha de bolinhas, se viu chegando a sua cafeteria preferida da cidade e fazendo pedido do seu cappuccino favorito, depois regressando a sua residência e colocando na vitrola um LP dos Beatles. Ela ouvia com clareza as músicas, se via relaxada em seu lar, aqueles devaneios de Sara tornaram-se estranho quando ela percebeu que literalmente ouvia o som da sua banda favorita.
Abriu os olhos e levantou-se aturdida, caminhou lentamente até a porta e encostou o ouvido na mesma, queria se certificar de que não delirava e realmente ela escutava o som vindo de algum lugar. Além da música ela ouviu alguém cantarolar e deduziu que era Amanda Carter.
Sara ficou encostada a porta ouvindo o som da música, mas quando percebeu que Amanda regressava ela apressou-se e se acomodou ao velho colchão.
— Muito bem, está comportada, eu gosto assim. – Amanda Carter adentrou o local carregando com uma mão um balde cheio de água e na outra o bastão de baseball e uma toalha pendurada em seu ombro.
— O que é isso? – Sara apontou para o balde.
— Água e sabão para você tomar banho.
— Eu vou ter que tomar banho aqui? De balde?
— Se reclamar fica sem banho! – Amanda colocou o balde no chão e ameaçou bater em Sara com o bastão.
— Não faça isso! – Sara protegeu-se com os braços.
— Se lave, daqui uma hora vou trazer algo para comer.
— Daqui uma hora? Que horas são agora?
— Para que quer saber as horas?
— Eu não suporto ficar aqui sem ter noção do tempo.
— Já é noite se quer saber. – Amanda levantou a manga da blusa para olhar as horas no relógio.
— Este relógio é meu! – apontou Sara reconhecendo o relógio de Agatha.
— Agora é meu! – Amanda voltou ameaça-la com o bastão de baseball – Tudo que era seu agora é meu, sua arma, suas roupas, seu relógio, seus discos dos Beatles, Grissom!
— Você roubou meus discos? Você estava ouvindo Beatles! Você os pegou da minha casa? – Sara arregalou os olhos.
— Sim, agora eu sou você.
— Amanda você tem problemas mentais, isso é loucura!
— Eu não sou mais Amanda! – berrou a outra – Agora eu sou Sara Sidle.
— Você é doente!
— Você não é mais a Sara, eu vou te dar um novo nome.
— Porque você faz isso? Por causa do Grissom? Porque ele apenas foi simpático com você quando se encontrava vulnerável?
— Grissom me deu amor quando mais precisei minha mãe só me maltratou, ela teve a capacidade de defender aquele namorado dela que me estuprou! Grissom apareceu para mim me dando apoio, ele me deu amor.
— Amanda você está confundindo as coisas, Grissom foi bom com você sim, mas isso não quer dizer que ele te ama dessa maneira, entendeu?
— Cala a boca! – Amanda ergueu o taco de baseball e golpeou Sara nas pernas.
— Socorro, alguém me ajuda! – escandalizou Sara em meio à dor.
— Aqui está o seu banho! – Amanda despejou em Sara a água fria do balde e depois lhe deu outro golpe nas pernas.
Sara se contorceu com a dor martirizante pelo colchão, ela tentou criar forças para levantar-se e tentar se defender, porém não conseguiu.
— A próxima vai ser pior! – Amanda chutou o balde contra a parede e saiu do cômodo trancando a porta.
— Socorro, socorro! Alguém me ajuda! – Sara insistia em apelar – Socorro, Grissom me salva!
[...]
Grissom estava agoniado, Nick analisou no laboratório a amostra de sangue que coletou do apartamento de Sara e a comparou com uma amostra que Grissom tinha guardado em seu escritório e confirmou: o sangue era de Sara, com certeza era da pancada que ela levou em sua cabeça.
Grissom trancou-se em sua sala, exigiu que ninguém fosse incomoda-lo a toa, não queria ser consolado, ele queria Sara de volta, ele desejava a tê-la em seus braços e protege-la do que fosse preciso, ele se entregou as lágrimas, não poderia ocultar aquela angustia de não saber o que ocorria com ela, por alguns instantes imaginou ela sendo encontrada morta em algum hotel como as outras vítimas.
— Não! – exclamou ele – Você está viva, eu vou te achar!
— Grissom! – era o agente Hotchner batendo a porta.
— Deixe-me sozinho!
— Uma agente minha tem uma nova pista.
— O que? – Grissom apressou-se em abrir a porta.
— Venha comigo. – pediu Hotchner.
Grissom acompanhou o agente até a sala de reunião, JJ e Hodges o aguardavam.
— JJ explique. – pediu Hotchner assim que entrou na sala.
— Eu vou ser breve – disse JJ – a tal repórter que veio atrás de você senhor Grissom não era uma repórter de verdade.
— Como assim? – indagou Grissom secando as lágrimas que derramou antes.
— Essa “repórter” – foi esclarecendo Hodges – não me disse para qual canal ou jornal trabalhava a agente Jareau me mostrou uma foto e eu a reconheci.
— Esta não é Amanda Carter quando jovem? – JJ entregou uma fotografia a Grissom – Solicitei a foto para um dos seus CSI.
— Sim, ela tinha quinze anos nessa foto. – confirmou Grissom.
— A agente Jareau me mostrou essa fotografia, essa adolescente da foto é muito parecida com a “repórter” que veio atrás do senhor – disse Hodges – claro a mulher que veio é adulta, mas tem muita semelhança.
— Essas são as imagens do circuito de segurança daqui – JJ acessou um notebook sobre a mesa – veja.
— Está é a tal “repórter”. – disse Hodges.
Grissom assistiu a gravação, as imagens de segurança eram do momento em que Hodges passava pela recepção e foi conversar com a repórter perdida e ele teve certeza de que aquela era Amanda Carter.
— Ela veio até aqui. – Grissom estava admirado.
— Audaciosa. – retorquiu JJ.
— Hodges ela te deu pista de qualquer coisa?
— Não senhor.
— Grissom, eu preciso falar a sós com você. – o agente Hotchner mirou JJ.
— Estamos de saída. – JJ desligou o notebook e saiu na companhia de Hodges.
— Grissom é o seguinte – Hotchner fechou a porta – você atuou no caso de Amanda Carter, teve contato com ela algumas vezes, certo?
— Sim.
— Grissom qualquer coisa sobre o comportamento de Amanda pode nos revelar algo, pode parecer idiota para você, mas é a verdade.
— Eu não duvido do seu trabalho e nem da sua palavra agente Hotchner, porém eu creio que não temos tempo para isso.
— Vamos ter que trabalhar com a esperança sendo nossa aliada, vamos crer que Sara está bem, ela é forte e vai suportar.
— E se já tiver ocorrido algo pior?
— Não pense assim Grissom, nós vamos conseguir.
— Mas o que quer que eu faça? Que eu recorde como era a conduta de Amanda Carter? Foi um dos meus primeiros casos.
— Está tudo no seu subconsciente.
— Como assim?
— Grissom a UAC tem um método que nos auxilia bastante em investigações, muitas vezes nos deparamos com alguma vítima ou testemunha que vivenciou algo importante para a conclusão do caso, mas por causa do trauma ou do tempo a pessoa não se recorda perfeitamente de tudo então a conduzimos em uma entrevista cognitiva.
— Entrevista cognitiva? – Grissom cruzou os braços.
— Isso mesmo, fazemos a pessoa regressar a aquilo que vivenciou.
— Como vocês fazem isso?
— É uma espécie de regressão, colocamos a pessoa em um ambiente silencioso e vamos a guiando em suas lembranças.
— Você quer fazer isso comigo?
— Sim.
— Eu não creio que isso vai ajudar.
— Você não tem noção o quanto ajuda Grissom, por favor, eu preciso de qualquer indício do comportamento de Amanda Carter, é provável que ela tenha lhe revelado algo que possa ser importante.
— Tem certeza que não é perca de tempo?
— Não.
— Está bem, eu aceito.
— Ótimo, vou pedir que providenciem um lugar para fazermos isso. – Hotchner abriu a porta e saiu da sala.
— Eu espero que valha a pena mesmo. – murmurou Grissom para si.
[...]
Com esforço Sara colocou-se de pé apoiando as mãos na parede, ela queria se certificar se não havia quebrado nenhum osso da perna, apesar da dor horrível que sentia ficou aliviada em ver que conseguia ficar de pé, entretanto reparou que um dos joelhos estava inchado.
Sentou-se de volta tentando idealizar algo para fugir daquele tormento, ela colocava esperanças que seria descoberta naquele lugar, mas temia que fosse tarde demais.
“E se ela me matar antes?” “Eles vão encontrar meu cadáver” “Eu não posso morrer aqui, preciso lutar” dizia a si mesmo em pensamento. Ficou indignada de Amanda ter pegado suas coisas, agora Sara sabia que aquele relógio de Agatha tinha uma utilidade além das horas.
— Eu preciso do relógio, eu só preciso apertar o botão. – afirmou a si.
Começou a tremer de frio e tateou por algum lençol, mas não havia nenhum sobre o colchão, sua barriga começou a roncar faminta, ela deveria estar ali por longas horas, ela pensou em gritar exigindo água, comida e uma coberta, porém desistiu, pois temeu que Amanda se zangasse mais.
— Eu preciso do relógio – repetiu Sara gastando seus neurônios para achar uma saída – eu só preciso apertar o botão. – Sara teve uma ideia foi como se uma lâmpada tivesse sido acessa sobre sua cabeça.
Com dificuldade levantou-se e caminhou com grande esforço até a porta, decidiu colocar seu plano em ação:
— Por favor, Amanda, eu estou molhada e com frio! Eu também tenho sede e fome, tenha piedade! – Sara bateu na porta desesperada.
— Eu já te disse que não sou mais a Amanda! – retrucou a outra do outro lado.
— Perdão... – Sara viu que tinha que entrar na fantasia dela – Está bem... Sara... Você agora é a Sara não é?
— Até que enfim aprendeu!
— Por favor, Sara, então traga água e comida para mim, um cobertor também!
— Não faça escândalos, eu estou ocupada agora, se ficar quieta eu te trago alguma coisa!
— Está bem Sara! – Sara regressou ao colchão e voltou a se encolher, ela já estava com frio e depois do balde de água fria passou a sentir mais frio ainda.
As canções dos Beatles ainda estavam tocando e Amanda cantarolava alegremente, a música I’ll Be Back começou a ser tocada, aquela era uma das preferidas de Sara que para não surtar começou a murmurar a letra da canção em sussurros.
[...]
Foi providenciado um local onde o agente Hotchner pudesse conduzir tranquilamente a entrevista cognitiva de Grissom que estava um pouco receoso, mas não deu para trás, visto que aquilo poderia auxiliar no caso e encontrar Sara Sidle, ele tinha que ter esperanças.
Uma sala com uma cadeira e um sofá foi disponibilizada para os dois, assim que entraram o agente pediu que Grissom se acomodasse ao sofá.
— De preferência deitado. – solicitou Hotchner quando Grissom se sentou no local indicado.
— Deitado?
— Por favor. – Grissom não questionou mais e acatou o pedido do agente.
Hotchner trancou a porta, apagou as luzes e averiguou se todas as cortinas da sala estavam fechadas, ele queria escuridão ao máximo, nada poderia interromper. O agente puxou a cadeira para próximo do sofá e sentou-se ao lado de Grissom deitado.
— Controle a respiração – pediu o agente – inspire e respire.
— Certo. – Grissom estava com o coração a mil, sua respiração estava anelante, antes de tudo ele tinha que ter suas emoções controladas.
— Feche os olhos – prosseguiu Hotchner – inspire e respire, relaxe os músculos, sei que está tenso, mas idealize coisas boas, imagine situações que te deixam tranquilo, se apegue primeiro a estas memórias – Grissom no começo foi relutante em relaxar, mas Hotchner foi o auxiliando e quando o CSI percebeu estava relaxado.
— Agora que está tranquilo vamos regressar a noite em que foi trabalhar no caso de Amanda Carter – disse o agente com o tom de voz sereno – Grissom eu estarei com você.
— Como eu vou fazer isso? – indagou Grissom de olhos fechados.
— Recorde-se do momento, de como estava o tempo, lembre-se se comeu alguma coisa, como foi o dia de trabalho, me leve até esse momento.
— Era madrugada, eu trabalhava no horário noturno... – foi Grissom recordando – o tempo era frio, pois era Inverno como agora.
— Nevava?
— Sim... – aos poucos Grissom foi resgatando as recordações.
Grissom teve a sensação de que regressara para aquele momento que o agente conduzia, parecia delírio, mas ele havia retornado para aquele acontecimento, ele voltara no tempo.
Quando abriu os olhos ele se viu mais novo, seus cabelos não estavam grisalhos e não tinha barba, quando mais novo ele não permitia que a barba crescesse. Grissom se deparava naquele momento na copa do laboratório, o local era diferente, o espaço era menor e nem sequer tinha a máquina de guloseimas que atualmente tem, não havia cafeteira, o café antes era feito do modo tradicional.
Grissom assustou-se ao ver que o agente Hotchner estava sentado ao seu lado na mesma.
— O que faz aqui? – questionou ele estupefato.
— Foco Grissom – exigiu o agente – eu estou com você para revivermos esse momento não é loucura da sua mente.
— Está bem.
— Você estava aqui pouco antes de ser chamado para o caso?
— Sim, eu lia um livro de entomologia – Grissom olhou para a mesma e viu o livro aberto.
— Quem mais estava aqui?
— Ecklie estava aqui, preparando um café. – Grissom apontou para o antigo fogão que tinha ali e viu Ecklie mais novo, o mesmo ainda não aparentava calvície.
— Está na hora deste lugar providenciar um micro-ondas e uma cafeteira – reclamava Ecklie – é perca de tempo pararmos para fazer café.
— Para de reclamar – era o capitão Brass adentrando a copa, ele ainda tinha os seus cabelos escuros sem nenhum fio branco, estava magro e jovial – CSI Grissom, venha comigo.
— Ele está me chamando para o caso. – disse Grissom a Hotchner.
— Ótimo, me guie até lá. – pediu o agente.
Grissom levantou-se fechando o seu livro e seguiu o capitão.
— Uma semana que trabalha aqui não é mesmo? – indagou Brass ao CSI.
— Sim senhor.
— Eu sou o capitão Jim Brass, sou responsável pela Homicídios, eu acompanho os casos junto de algum CSI, você já pegou pequenos casos não é?
— Sim.
— CSI Grissom já pegou algum caso de estupro?
— Não senhor.
— Este é o primeiro, eu me esforço para manter a paciência nestes casos, estupros são os que me enojam mais.
— Eu compreendo.
— Pegue o seu kit de trabalho, eu vou aguarda-lo no carro. – Brass apressou o passo deixando Grissom sozinho.
— Ele não pode te ver? – indagou Grissom a Hotchner.
— Eu estou na sua mente Grissom, só você pode me ouvir agora tenha foco, o que fez neste momento?
— Fui ao vestiário buscar meu kit e ir encontra-lo no carro.
— Vamos fazer isso. – Grissom refez todos os passos na companhia de Hotchner, tudo parecia real, ele teve a sensação de que voltou no tempo, todavia tudo aquilo se repetia na sua mente.
Grissom pegou seu kit e foi de encontro a Brass que o conduziu a residência de Elizabeth Carter. Ao chegar ao local, Brass alertou a ele que aquela vizinhança era barra pesada e que o CSI tivesse cuidado.
Já havia policiais pelo lugar, a porta da casa estava aberta, Grissom entrou na companhia do capitão, ele logo avistou a senhora Carter discutindo com algum policial, a mesma exigia que todos eles fossem embora.
— Minha filha é uma vagabunda! – berrava a senhora Carter – Ela ligou para a polícia inventando tudo isso!
— Deixe comigo – pediu Brass ao policial – senhora Carter, eu sou o capitão Jim Brass e este é o CSI Gil Grissom.
— Podem ir embora daqui? Não houve crime nenhum!
— Recebemos uma denúncia de sua filha Amanda Carter, ela alega ter sido violentada.
— Tudo mentira desta vadia! Podem ir embora!
— Eu já conheço mulheres do seu tipo – disse Brass – o seu parceiro é um forte suspeito, onde ele está?
— Caiam fora da minha casa!
— Se gritar mais uma vez passara a noite na delegacia, agora com licença temos um caso para trabalhar.
— Então descubram vocês mesmos que tudo isso é uma mentira – a senhora Carter deu-se por vencida – a vagabunda está no quarto dela logo ali!
Grissom caminhou até o quarto indicado pela senhora Carter, a porta estava entreaberta e Grissom visualizou a jovem Amanda agarrada ao travesseiro na cama.
— Com licença – pediu Grissom batendo a porta – Polícia Forense de Las Vegas.
— Não poderiam ter enviado uma mulher? – retrucou Amanda entre as lágrimas.
— Desculpe.
— Está bem, o que veio fazer? Me interrogar?
— Eu preciso processar a cena do crime.
— Está nela, foi aqui que o infeliz me violentou. – Amanda começou a chorar.
O capitão Brass apareceu e conduziu Amanda para um hospital para que ela fizesse um exame de corpo de delito e Grissom processou a cena do crime.
— O que fez depois disso? – indagou Hotchner ao seu lado.
— Assim que processei a cena eu fui para o hospital para questionar Amanda sobre algumas evidências que encontrei.
— Certo, vamos para lá. – pediu o agente.
Grissom o guiou até o hospital onde encontrava-se Amanda, ela já havia sido examinada, Grissom com autorização da vítima foi para o seu leito interroga-la referente às evidencias encontradas por ele, após isso Amanda recebeu alta, porém ela não tinha ninguém para busca-la, sua mãe se negou a apoia-la. Amanda ficou magoada, sentiu-se sozinha e se queixou a Grissom e ao capitão Brass.
Brass se sensibilizou com a situação da adolescente e a convidou para um jantar em algum restaurante, Grissom acompanhou os dois. Chegando ao lugar Amanda fez pedido de uma refeição do cardápio e a opção escolhida foi massa com bolonhesa, ela pediu para beber vinho, mas Brass negou e pediu um suco para ela.
Quando Amanda iniciou sua refeição Brass recebeu um telefonema, uma informação de onde se encontrava o suspeito do crime então ele pediu que Grissom fizesse companhia a adolescente e que depois da refeição ele a levasse até a delegacia.
— Você conversou com ela? – perguntou Hotchner.
— Sim – Grissom direcionou seu olhar a Amanda – ela começou a falar comigo.
— Qual é o seu nome? – perguntou Amanda.
— Gil Grissom.
— Você vai pegar o desgraçado do namorado da minha mãe?
— Sim.
— As provas são suficientes?
— Porque não termina sua refeição?
— Não gosta de conversar?
— Não é legal que falemos sobre isso.
— Está bem – Amanda era uma garota carente, ela sentia necessidade de falar com alguém – o que gosta de fazer?
— O que?
— Você aparenta ser um nerd, eu tenho certeza que lê livros chatos.
— Eu estudo insetos.
— Credo!
— São interessantes.
— Você é estranho, mas é legal.
— Agradeço ao elogio.
— O que gosta mais gosta de fazer?
— Palavras cruzadas.
— Eu disse você é um nerd!
— E o que a Amanda gosta de fazer?
— Gosto de hipnose.
— Hipnose?
— Sim, quando eu ficar maior de idade vou embora daquela casa e aprenderei a hipnotizar as pessoas, assim vou voltar para casa e hipnotizar minha mãe se matar.
— Não fale uma coisa dessas.
— Eu falo sim! – Amanda terminou sua refeição – Sabe o que ela faz comigo Gil Grissom? Ela me obriga a faxinar a casa todos os dias, eu deixo a casa impecável e ela diz que está suja, ela faz com que eu limpe cada centímetro das coisas, ela me ofende de coisas horríveis, disse que depois que eu cresci me tornei uma vagabunda, ela bate em mim a toa, cada mês tem um namorado diferente e sempre são homens que não prestam, são alcoólatras, drogados, bandidos, eu suporto todos eles dentro de casa, sempre suportei quieta, mas este último ultrapassou os limites, ele me violentou com ela dentro de casa, eu gritei por ela, mas não tive ajuda depois ela o deixou fugir e tentou me impedir de ligar para a polícia, mas quando ela saiu para fumar o baseado dela corri para o telefone e liguei!
— Você está nervosa, fique calma. – pediu Grissom.
— Eu sou sozinha neste mundo.
— Não é e se depender de mim o infeliz que te tocou vai para a cadeia.
— Jura? Você está ao meu lado?
— Claro. – Grissom pediu a conta – Agora nós vamos para a delegacia.
— Está bem.
— Tem algum parente além da sua mãe?
— Uma avó viciada em bingo? Ela tem uma casa em um bairro distante, mas essa hora está na jogatina dela, sabe ela tem uma casa próximo ao deserto de Nevada, ela tem uma casa enorme e quase não tem vizinhos, quando ela morrer eu vou ficar com aquela casa porque quero morar isolada de todos.
— Está bem Amanda Carter, vamos para a delegacia, você ficará lá essa noite.
— Ficarei sozinha? Claro que sim não é? Eu não tenho ninguém.
— Uma assistente social ficara com você.
— Odeio essas assistentes, muitas delas já foram a minha casa, mas nunca me tiram de lá!
— Se eu ficar junto aceita ter uma assistente social por perto?
— Está bem, assim você pode me contar como é estudar insetos. – Grissom pagou a conta do jantar e levou a jovem Amanda para a delegacia de Las Vegas.
— Grissom, Grissom! – clamava o agente Hotchner.
— O que? – Grissom abriu os olhos e se viu deitado no sofá.
— Você conseguiu.
— O que? O que eu consegui? – Grissom sentia-se sonolento e se colocou sentado.
— Recordar esse diálogo com Amanda foi útil.
— Por quê?
— Amanda mencionou sobre ter uma avô que morava em uma casa isolada próximo a um deserto, este pode ser hoje o seu esconderijo.
— Sara pode estar lá! – Grissom ficou de pé – Mas eu não tenho o endereço.
— Eu tenho uma analista que consegue tudo. – Hotchner pegou seu celular e enviou uma mensagem para Garcia.
[...]
Em meio à tremedeira Sara começou a espirrar, aquilo era sinal de que ficaria doente, também pudera, Amanda derramou sobre ela um balde de água fria e nem forneceu uma roupa seca depois. Sara encolhia-se bastante esforçava a se imaginar que não estava com frio.
Não havia mais nenhuma música dos Beatles a ser tocada e por isso o barulho da hélice do circulador lhe irritava cada vez mais.
Sara lamentou para si a falha de seu plano, pois desde que implorou para Amanda lhe fornecer alimento e cobertor a mesma não voltou e ela acreditou que ela não viria. Era horrível ter que ficar ali sem noção do tempo, Amanda havia comentado que já era de noite quando foi a última vez ao cômodo, mas não dava para saber, o lugar não tinha janelas, nenhum relógio, nada além daquele colchão velho e agora do balde vazio jogado ao chão.
O medo assombrava a CSI, ela imaginava horrores, se via trancafiada ali morrendo de fome, desejava que a porta se abrisse, porém temia que Amanda regressasse para lhe ferir ou matar. Sara nunca se considerou uma pessoa medrosa, uma vez em uma conversa Nick comentou que ela aparentava ter sido uma garota corajosa durante o colegial que não se amedrontava diante de uma briga, que os outros deviam temê-la. Queria ela ser essa corajosa que seu amigo imaginava que foi quando mais nova, queria ela não ter medo e conseguir enfrentar Amanda Carter, Sara não era uma pessoa covarde, entretanto era óbvio que sentia medo.
Mais uma vez o barulho da porta se destrancando a desligou das suas divagações, com esforço por causa da dor nas pernas colocou-se sentada.
— Está se comportando bem! – exclamou Amanda que carregava consigo uma caixa de pizza e claro o seu bastão de baseball.
— O que fez no cabelo? – Sara logo reparou.
— Gostou? – Amanda riu – Eu pintei para ficar morena igual você.
— Minhas roupas! – Sara viu que Amanda fazia uso da última vestimenta que usou.
— Eu achei um pouco brega, mas se Grissom gosta fazer o que? – Amanda jogou a caixa de pizza no chão – Sua refeição!
— Obrigada. – Sara puxou para próximo de si a caixa, a mesma continha apenas sobras.
— Achou que fosse ganhar uma pizza inteira?
— Eu não achei nada. – Sara preferiu não contraria-la.
— Eu acho bom – Amanda ia saindo.
— Espere! – Sara recordou seu plano.
— O que?
— Você... Você...
— Fala logo! – Amanda levantou o taco de baseball.
— Você está usando a blusa errada. – mentiu Sara.
— Como assim errada? – Amanda olhou para a blusa.
— Está errada.
— E como devo usa-la?
— Eu te mostro. – Sara respirou fundo desejando que o plano desse certo.
Amanda aproximou-se e se agachou perto do colchão e aquela foi à chance única de Sara que se agarrou ao braço dela e apertou o botão do relógio.
— Desgraçada! – vociferou Amanda que foi para cima de Sara, mas acabou deixando o bastão de baseball rolar pelo chão.
Sara estava ferida, mas teve que encontrar forças para enfrentar Amanda, seu instinto de sobrevivência falava mais alto, as duas entraram em uma luta corporal de tapas e socos. Amanda tentava a todo custo puxar o bastão de baseball, porém quando Sara percebia fazia de tudo para impedi-la.
Sara distribuiu socos e tabefes pelas costas, barriga e cabeça de Amanda que quando podia revidava, as duas rolaram pelo chão e em meio a luta Sara conseguiu desgarrar-se de Amanda e se apoderou do bastão.
— Vem sua louca, vem agora!
— Dá o meu bastão de baseball! – Amanda pegou o balde jogado ao chão e tentou acertar Sara com o objeto, entretanto Sara conseguiu ser ágil e assim golpeou Amanda na cabeça.
Amanda Carter caiu ao chão com a cabeça sangrando, a cacetada de Sara foi forte que a derrubou de primeira, Sara ainda permaneceu com o bastão na mão com ele erguido achando que Amanda fosse levantar para se defender, mas ao ver o sangue escorrendo da parte de trás da cabeça notou que ela não levantaria, porém ela foi com toda cautela verificar o pulso: Amanda estava morta.
Sara jogou o bastão no chão e exclamou um grito de desespero e alívio, ela estava livre de Amanda, Grissom estava livre de Amanda. A CSI sentiu suas pernas fraquejarem e deitou-se ao colchão para recuperar suas forças.
— Sara? Sara?— era a voz de Grissom vindo do relógio, pois o mesmo se tornava uma escuta após o botão ser acionado.
— Gil? – Sara se rastejou até o corpo de Amanda e lhe arrancou o relógio.
— Sara, onde você está?
— Eu não sei Gil... – ela estava ofegante – Amanda está morta.
— Fique tranquila meu amor, eu já sei onde está estou indo busca-la!
— Eu vou te esperar...
— Sara, eu te amo!
— Eu também te amo – Sara sentiu peso nas pálpebras – eu te amo muito.
Eu não era uma criança medrosa, mas eu estava com medo.
(Natascha Kampusch — 3096 Dias)

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