O Pequeno pedaço do céu

21 Acredito em monstros


Notas iniciais
Hey, meus lindos! Prontos para mais um capítulo? Estou tão ansiosa para saber a opinião de vocês, que nem consigo pensar no que escrever nas notas hahaha Então... boa leitura!

Existe algo além das sete partes do mundo.

Na sala, há uma porta grande madeira. Alex sempre a deixa fechada. Passa chave, envolve correntes e as vezes até coloca móveis pesados na frente. Ele nem gosta que eu fique muito tempo na sala e eu sei que é por causa da porta.

Mas eu já vi a porta aberta, quando a Lydia ainda não tinha nascido no meu quarto. Vi Alex saindo por aquela porta e depois, em um momento de desespero, tentei sair também.

Eu era menor do que sou agora. Baixo, mais magro.

Fiquei me comportando durante muito tempo para que Alex deixasse eu ficar nas outras partes do mundo. E ele deixou. Então, quando ele estava na cozinha, distraído, eu me desesperei.

Tinha conseguido pegar escondido a chave que mantinha a porta trancada e a usei para tentar me libertar. Joguei as correntes no chão, puxei a maçaneta e corri.

O sol estava forte, forte demais. Meus pés descalços queimaram e não consegui enxergar direito por causa da luz exagerada. Mas eu queria fugir. Precisava. Não suportava Alex.

Antes de ver a porta aberta, eu acreditava quando Alex dizia que não existia nada além da casa, do mundo. No entanto, depois de ter visto ele saindo, tive a esperança de ter algum outro lugar para ir.

Eu estava errado. Muito errado.

Sou burro!

Alex me alcançou enquanto eu corria e gritava para o vazio, desorientado. Ele me derrubou no chão e caiu sobre mim. O corpo grande esmagou o meu. Suas mãos grandes e cruéis seguraram meu rosto, obrigando que eu olhasse a minha volta.

Está vendo alguma merda aqui, Stiles?!”, foi o que perguntou. Lembro-me de me incomodar com seu linguajar feio e de como fiquei decepcionado ao ver que não tinha nada perto da casa, perto do meu mundo terrível de se morar.

Só tinha pedras, algumas árvores secas, grama, areia. Não tinha outros mundos, outras casas, outras pessoas. Tudo que eu tinha imaginado, sonhado, era de fato, só obra da minha cabeça. Nada daquilo existia.

“Aqui fora tem monstros horríveis que destruíram tudo, Stiles ”, explicou o que eu queria nunca ter descoberto. Alex bateu em mim e contou como era perigoso ficar fora da casa.

Ele disse que tinha sido um monstro muito feio e muito grande que fez a cicatriz no rosto dele. Disse que não existia mais nada fora da casa, só pedras, árvores e os monstros destruidores de mundos.

Então aprendi que só o céu não foi destruído, e só no céu ainda existe coisas boas. Tudo terreno fora da casa se resumo a coisas ruins, tão ruins que são piores do que as coisas que eu vivo dentro da casa.

A casa, meu mundo de sete partes, é a única coisa que restou. E o céu. O céu também sobreviveu e foi de lá que Lydia veio, do mundo das nuvens onde habita tudo que é bom.

Todas as pessoas morreram. Só restou eu e Alex. Ele contou que só saia da casa para conseguir comida para mim. Disse que eu era ingrato, burro, que ele me odiava e que eu não conseguia entender que só estava vivo porque ele me protegia.

Depois disso, toda vez que fazia algo errado Alex dizia que ia me expulsar do mundo, que ia me jogar para fora da porta da sala. Eu sempre chorava e implorava para que não fizesse isso.

Não queria ser torturado por monstros. Não queria que o sol queimasse minha pele até os ossos aparecerem. Nem que meus braços e pernas fossem devorados por um animal invisível.

Isso que acontece com quem se perde fora da casa.

Por isso só existe eu e Alex.

Lydia tem sorte por ter nascido no céu. Eu tenho sorte por ela ter vindo do céu.

Meu pequeno pedaço do paraíso não sabe sobre os monstros. Alex nunca disse isso a ela. Eu também nunca tive coragem o suficiente para falar. Então, quando vi Lydia correr até a porta, achar a chave e abrir as correntes, travei no lugar em que estava, no meio da sala.

— Stiles, nós precisamos ir agora! Alex já vai voltar!

Ainda sentia os lábios doloridos e melados por causa do fazedor de xixi de Alex. Não conseguia parar de chorar, as lágrimas só aumentavam enquanto eu olhava para Lydia.

— Vamos!

As pequenas mãos do paraíso agarraram meu braço. Encolhi o corpo e neguei com a cabeça, vendo com desespero a porta aberta, mostrando o que tinha sobrado do mundo cheio de monstros.

— Por que você bateu no Alex? Ele vai ficar furioso! — Disse bem baixo, ainda olhando para o céu, porém, sem encarar os olhos verdes como um lápis de cor.

Não queria enxergar o nojo em seus olhos depois de ter visto o que Alex me obriga a fazer. Ela nunca mais ia me beijar. Ia ter nojo da minha boca! Eu mesmo tenho nojo. Minha boca é feia e toca no fazedor de xixi do Alex. Odeio isso. Odeio!

Mas eu queria tanto que ela ainda me beijasse...

— Stiles, não podemos conversar agora! Vem, por favor! A gente precisa fugir!

Ela gritava, a voz linda e aguda mostrava muita dor e medo. Mais uma vez, ela agarrou meus braços e tentou me puxar para frente, em direção a porta aberta. Suas unhas curtas machucavam minha pele.

Continuei parado no lugar, chorando. Minhas pernas tremiam de medo.

— Não, não, não, não... — Repeti a palavras muitas vezes enquanto me soltava do aperto do céu.

Levei as mãos ao cabelo e puxei os fios pela raiz. Fechei os olhos tentando me controlar, ficar calmo. Queria ser corajoso para Lydia se orgulhar de mim. Porém, não estava conseguindo.

— Stiles! Vamos!

Abri os olhos a tempo de ver as primeiras lágrimas surgindo em seus olhos e molhando o rosto lindo. Tão lindo. Queria abraçá-la e beijar cada uma de suas lágrimas. Queria beijar seus lábios para mostrar que quero o seu bem. No entanto, continuei paralisado, continuei chorando.

— É perigoso, céu! Lá fora tem monstros. — Não sei como as palavras saíram em meio ao choro.

Lydia arregalou os olhos e por pouco tempo, parou de tentar me puxar. Parecia assustada, surpresa. Devia estar com medo dos monstros. Odiava ter que dizer aquilo a ela.

— M-monstros?

— Eu já tentei fugir — Expliquei choroso, encarando o chão enquanto continuava a puxar o cabelo — Mas Alex falou dos monstros. Eu não posso sair!

— Stiles, olhe para mim! Por favor, olhe para meu rosto!

A contragosto, ergui a cabeça. As lágrimas embaçavam minha visão, mas encarei o verde lindo de seus olhos. Olhos do céu. Queria tanto que não houvesse monstros no mundo. Que não existisse Alex.

No meu mundo perfeito, da minha imaginação, só teria eu e Lydia. Mais ninguém. Eu com todos meus defeitos e ela, fazendo tudo parecer lindo e feliz. Ela me fazia feliz.

— Não existe monstros, Alex mentiu!

Neguei com a cabeça uma, duas, três vezes. O céu ergueu a mão, mas não deixei que ela tocasse em mim. Dei vários passos para trás e tropecei em algo. Cai. Cai no chão duro de madeira.

Não tentei me levantar, só puxei as pernas para o peito e abracei. Fechei os olhos na esperança de que fosse apenas um sonho ruim. Um pesadelo. Talvez se eu ficasse parado o suficiente, conseguisse acordar.

— E-eu não vou sair!

— Stiles, por favor...

Abri os olhos e vi algo tão horrendo que meu peito se contorceu e espalhou uma dor muito forte por meu corpo. Minha cabeça latejou e o choro só piorou. Odiava ver o paraíso sofrer.

Ela estava desesperada. Começou a soluçar alto em meio ao choro agoniado, olhava para mim e para a porta repitas vezes. Se jogou no chão ao meu lado e de novo, tentou me alcançar.

Deixei que ela segurasse meus braços. Porém, eu ainda tremia de medo. Queria acreditar no céu. Queria muito. Mas só conseguia pensar no que Alex dizia sobre os monstros, sobre o mundo.

— Alex vai ficar bravo, ele vai me bater! — Lamentei levando as mãos à cabeça. Céu também ergueu os braços, ainda me tocando. — A gente precisa voltar para o quarto, céu! E-ele vai bater muito em mim.

— S-stiles, eu preciso sair daqui! Confie em mim, por favor! A gente pode fugir do Alex.

— N-não vou sair... não posso — Gaguejei e mordi os lábios inchados e nojentos. Meu rosto estava tão quente que comecei a suar. — Estou com medo, Lydia.

— Eu também estou, Stiles...

— Lá tem monstros, céu! E Alex vai achar a gente. — Puxar o cabelo até arrancar os fios aumentava a dor de cabeça, no entanto, me ajudava a ter forças para falar — Ele vai seguir a gente e vai me bater. E-ele vai tirar você de mim!

— Stiles...

— Você não pode me obrigar! Eu não vou! Não vou!

Eu gritei com o céu. Berrei ao ponto de sentir a garganta doer. Sentia tanto medo que não controlei a voz.

Tampei a boca com as mãos, arrependido, sem acreditar no que tinha feito. O céu perdeu a cor. Antes estava vermelha por causa do choro. Mas eu gritei e ela ficou pálida. Muito pálida.

— Desculpa, desculpa! — Embolei as palavras, aflito. — Desculpa!

Lydia olhou para trás, para a porta. Ela não tentou tocar em mim.

— Não me deixa sozinho! — Pedi sem pensar, gritando mais uma vez. Eu sempre falava baixo. Sempre. Mas estava sentindo medo. Medo demais. — N-não me abandona!

Eu era nojento. Burro. Medroso. Feio. Eu me odiava.

Mesmo assim, me ajeitei no chão e joguei o corpo para a frente. Abracei o céu. Apertei sua cintura e escondi o rosto em seu ombro, chorando ainda mais. Esperei que ela me xingasse, que ela me batesse.

— Não vai embora — Daquela vez, minha voz mal saiu.

Ela retribuiu o abraço. As mãos pequenas, mãos lindas, foram até meu cabelo. Meu cabelo feio, que eu tanto sentia ódio. Ela fez carinho em meu cabelo e chorou mais. Muito mais.

Com o corpo tremendo, ela disse as palavras mais lindas do mundo:

— Nunca vou deixar você — Prendi a respiração e ela, respirou fundo contra minha orelha — Prometo.

Tirei o rosto de seus ombros e finalmente, encarei seus olhos. Sabia que eu merecia enxergar seu nojo por mim, seu ódio. No entanto, só vi medo. Muito medo. Assim como eu sentia.

— Eu amo você — Nunca tive tanta certeza de algo como nessas palavras que eu disse.

Ela continuou olhando para mim e então, ouvi a voz de Alex.

Notas finais
Sim, eu sofro escrevendo capítulos como esses.