O Pequeno pedaço do céu
1 Conheci a primeira mulher do mundo
Notas iniciais
Abri os olhos. Os fechei novamente. Pisquei diversas vezes seguidas.
Aquilo não podia ser real. Impossível! Nunca em toda minha vida vi algo tão lindo, tão assustador, tão arrebatador. Sentia vontade de chorar, meu peito estava acelerado, não conseguia respirar.
Estiquei o braço para baixo, tentando encostar na visão mais linda do mundo. No entanto, o medo retraiu meus músculos, impediu que eu alcançasse o pequeno pedaço do céu que tinha despencado ao meu lado.
— Respira! — Falei muito, muito baixinho.
Não queria acordar a perfeição estendida no chão de madeira. Queria acreditar que era real, precisava ser real! Se não fosse mais uma ilusão da minha cabeça, o maior sonho da minha vida teria se realizado.
Encolhi as pernas deixando os joelhos encontrarem meu peito. Continuei com um braço meio estendido para baixo na intenção de tocar na beldade. Estava com medo, muito medo.
Talvez se eu tocasse na pequena porção do Paraíso, ela fosse se desmanchar em minhas mãos. Não podia me arriscar! Tinha que ficar quieto, apenas olhando. Mas eu queria tocar nela! Nunca desejei tanto uma coisa como aquilo. Meus dedos tremiam de ansiedade.
Arrastei o corpo pela cama dura. Deixei minha cabeça pender na direção da criatura linda. Deus! Aquilo era uma ilusão. Só podia ser! No mundo real não existe coisas tão lindas.
Mundo.
Nos livros que tenho o costume de ler, mundo é algo enorme. Gigante. Imenso. Mas isso é mentira. Não é assim. O mundo real é tão pequeno, que todos os dias eu ando por todo o mundo. Todinho. Cada pedaço.
O mundo real é dividido em sete pequenas partes. A parte em que eu vivo é o quarto. O mundo tem dois quartos. Um meu e outro do Alex. O mundo tem uma cozinha pequena e feia. Não gosto de lá. Também tem uma sala e uma área de serviço. O mundo também tem banheiro. Dois banheiros!
No mundo existe pessoas. Duas pessoas. Eu e Alex. Ninguém mais existe.
Por isso sei que o pedaço do céu ao meu lado não pode ser real. Era impossível que ela tivesse surgido no mundo. Ninguém nasce assim, do nada. Se bem que... eu não sei como as pessoas nascem. Alex nunca me contou.
A beldade parecia uma pessoa. Uma pessoa como eu, como Alex. Mas tinha algo muito diferente. Aquela era a ilusão mais linda que eu tinha. Nunca vi algo tão real e tão... lindo.
A pessoa não era ele. Era ela. Tinha certeza! Aquele ser bonito não seguia nenhuma característica de um homem. Tinha que ser uma... mulher.
Você sabe o que é uma mulher? Eu sei! Já li sobre isso. Nos livros existem mulheres feias e outras bonitas. Elas são pessoas como eu, mas não são chamadas de homem.
Eu não sei porquê. Não era mais fácil chamar toda pessoa de homem? Talvez fosse pela diferença entre os corpos. Nos livros, falam como se o corpo de uma mulher fosse diferente. Eu só não sei o motivo. Nunca explicam o que é tão diferente!
Costumam ter a pele mais fina do que a dos homens. Ou pelo menos, nos livros elas têm. Elas também têm cabelo macio e a roupa fica diferente no corpo por causa de um volume na frente do peito.
É chamado de seios. Mas não consigo imaginar o que uma mulher poderia ter na frente do peito que fizesse a blusa levantar. Uma vez eu perguntei para Alex o que era. Perguntei como que seios se pareciam. Ele riu de mim e disse que eu não conhecia a melhor coisa da vida.
Então sempre achei que mulher era a melhor coisa da vida. E a mais bonita.
Se a pessoa que eu estou imaginando deitada no chão do quarto for mesmo uma mulher, vou saber que sempre estive certo. Mulher é a melhor coisa do mundo.
O cabelo dela era muito diferente do meu. Também era diferente do cabelo de Alex. O dela era quase vermelho. Um tom alaranjado parecido com um dos meus lápis de cor.
Era lindo. O cabelo era perfeito e comprido.
Ela... ela se mexeu! A mulher se mexeu! Ela se moveu!
Deus. Deus. Deus.
Ela parecia real, tão real! Eu precisava tocar em seu braço.
Inclinei ainda mais meu corpo para frente. Estiquei as pernas e deixei o tronco abandonar a cama. Apoiei um braço ao lado da mulher para que eu pudesse sustentar meu peso.
Observei ela se mover para os lados. Movimentos curtos e agitados. Ela grunhiu! Céus! Além de estar alucinando, eu estava escutando coisas? Podia jurar que um som fino de reclamação escapou dela.
Queria ver o rosto da mulher. Precisava ver! No entanto, o cabelo a escondia. Eu tinha que tirar os fios laranjas da frente do seu rosto. Precisava vê-la! Mas tinha tanto medo.
E se eu a machucasse sem querer?
Alex diz que não faço nada direito. Tudo que eu faço é errado. Eu sou errado. Ele tem razão! Faço tudo tão errado que perdi o equilíbrio. Meus braços perderam a força e as pernas escorregaram da cama.
Eu caí em cima do Paraiso!
Desabei por completo em cima daquele corpo pequeninho. Embaixo de mim ela parecia ainda menor, mais frágil. Eu não podia machucá-la! Não podia ferir a pessoa mais linda do mundo. A minha melhor ilusão.
Com medo, joguei meu corpo para o lado. Sai de cima do pedaço do céu no mesmo instante que ela soltou um grito agudo e assustado. Ela sentou com uma rapidez surpreendente.
Ela gritou. Ela gritou! Ilusões não gritam! Eu jamais conseguiria imaginar algo tão verdadeiro, muito menos escutar algo tão concreto. Deus! Ela era real? Aquilo estava realmente acontecendo?
Então ela olhou para mim. Foi a primeira vez que vi seu rosto.
Foi como se eu tivesse recebido um murro no estomago. Minha barriga girou, a garanta fechou. Não conseguia respirar. Esqueci como se respira! Ela era linda. Tão linda. Tão linda. Eu precisava tocá-la.
— Você é linda. — Não planejei dizer aquelas palavras. Elas simplesmente foram despejadas da minha boca.
Ela tinha olhos verdes. Verdes como um lápis de cor! Quase que do tom da minha caneca predileta. Sua boca era linda, linda, linda. Era grossa. Seus lábios eram muito maiores do que os meus. Parecia que ela poderia engolir o mundo de tanto que sua boca era grande.
Nunca vi um nariz tão perfeito, tão bem formado. O formato de seu maxilar era delicado. Delicado, delicado, delicado. Observei como a pele era clara, quase tão clara como a minha. Como ela podia ser tão branquinha e as bochechas tão vermelhas?
Mas ela parecia... assustada. Será que ela nunca tinha visto um homem? Eu poderia dizer que também era a primeira vez que eu via uma mulher. No entanto, a minha maior necessidade naquele momento era tocar nela.
Foi aí que meus olhos desceram para seu corpo e eu constatei o que já desconfiava. Ela tinha os misteriosos seios! A roupa que ela usava fazia um volume na altura do peito.
Eu finalmente podia descobrir o que era aquilo! Podia ver o que o Alex chamou de a melhor coisa da vida. Dominado pela curiosidade, estendi minha mão para o pedaço do paraíso sentado à minha frente.
Meus dedos tocaram por poucos instantes no volume dos seios. Então, ela arfou. Uma quantidade enorme de ar escapou da boca grossa e sua pequenina mão veio em minha direção.
O pedaço de céu bateu em mim!
Recebi um tapa forte no rosto que causou uma ardência quase insuportável nas minhas bochechas. Assustado, abracei meu próprio corpo e arregalei os olhos. Ela ia bater em mim igual ao Alex?
— Tarado! — Foi a primeira palavra que escutei vindo daquela boca.
Ela ficou de pé e começou a gritar. Andou até a porta do quarto trancado e começou a socar com força. Os sons que saiam dela eram cada vez mais agudos e.… desesperados. Ela estava com medo. Muito medo.
Eu não queria que ela ficasse assim. Ela era o meu pedaço do céu! No entanto, eu também estava com medo. Estava com medo dela e sem entender como aquilo podia ser real.
Desejei poder me arrastar no chão até pegar meu caderno. Queria escrever nele. Precisava escrever: Meu nome é Stiles e eu acabei de conhecer a primeira mulher do mundo. Ela é linda. Ela é perfeita. Mas bateu em mim.
Precisava escrever para que se alguma outra pessoa nascesse no meu quarto, eu pudesse ler. Se o céu fosse desabar outra vez em cima do meu pedaço do mundo, eu precisava lembrar de nunca tentar tocar em alguém que acabou de nascer.
— Não precisa ficar com medo. — Sussurrei e desejei que ela acreditasse em mim.
A pessoa mais linda do mundo olhou na minha direção.
Deus! Eu ia morrer com aquela visão.
Ela era linda.
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