O Pequeno Dragão
3 Choque!
Capítulo 3 — Choque!
Reikai, sexta-feira, 23h
— Pois não, Koenma-Sama? – disse Ayame, fazendo uma pequena reverência. Seu chefe parecia aborrecido e agitadíssimo.
— Ayame, quero que tome conta do trabalho aqui para mim. Vou ao Ningenkai e não sei exatamente quando volto. E você, estrupício, para de chorar! Não estamos no meu velório. Você está me irritando! – disse ele a George Saotome, que parecia inconsolável.
— Não consigo evitar, Koenma-Sama, aqui ninguém me dá atenção... Quem vai conversar comigo? – murmurou o pobre ogro, que foi solenemente ignorado.
— Enfim, Ayame, confio em você. Vou me reunir aos Reikai Tentei no templo de Genkai. Temos sérios problemas.
Ayame notou o semblante carregado de Koenma, mas preferiu não dizer nada. Despediram-se e o príncipe do Reikai partiu em sua nuvem.
— Bom... George-san, se acalme – disse ela com benevolência a George, que continuava chorando. Ela não gostava do tratamento grosseiro que seu superior destinava ao ogro. Ainda assim, era possível notar o quanto George era devotado a Koenma, quase como um cão pode ser devotado ao seu dono. – Então, dê uma limpeza nesta sala, por favor. Koenma-Sama é um tanto bagunceiro, veja só, tantos documentos espalhados nessa mesa... Deixe tudo organizado para nós, está bom? Enquanto isso, vou preparar um chá, você vai se sentir melhor.
O ogro parou de soluçar e olhou para a moça cheio de gratidão. “É, realmente, lembra um cachorro devotado”, pensou ela, saindo do recinto. Voltou alguns minutos depois, com duas xícaras de chá e chamou o ogro para se sentar ao seu lado, ao que foi prontamente obedecida.
— George-san, Koenma-Sama parecia abalado e nervoso, não é...? – Aí o ogro já foi dizendo logo tudo o que sabia.
— Não entendi muito bem, mas parece ser algo grave que aconteceu com Hiei, Ayame-san! Inclusive Koenma-Sama mandou Kurama ao Makai para buscá-lo, acredita? – respondeu ele afobado. Ayame ficou espantada. Kurama indo para o Makai buscar Hiei? O youkai de fogo estaria incapacitado ou algo assim?
~
No Makai, Mukuro olhava Kurama Youko se afastar com Hiei nos braços, sob forte chuva. O diálogo travado antes entre os dois fora um tanto quanto tenso. Ela não queria deixar que a raposa levasse seu guerreiro para o Ningenkai, mas por fim acabou sendo convencida. Yukina estava lá e poderia se dedicar exclusivamente a cuidar do irmão, que fora vitimado por algo que não sabiam o que era. Mukuro era uma guerreira cruel e sanguinária, mas aprendeu a considerar muitíssimo o youkai de fogo e seus sentimentos por sua irmã gêmea. E Kurama a desarmou ao lembrá-la de que, ali no Makai, Hiei poderia ser facilmente atacado de novo, por causa do seu estado atual.
A comandante os observava, enquanto seu pensamento estava a mil. Vivendo no mundo das trevas, ela já havia presenciado muitas coisas cruéis, mas o que havia acontecido com Hiei, seu braço direito, era uma enorme bizarrice. Por Deus, quem teria feito aquilo?
Ao seu lado jazia o youkai índigo, que fora até ela com aquela história bizarra de uma bruxa ocidental, de cabelos volumosos, atacando Hiei com uma varinha¹. Como ela percebeu a mentira e ele não disse logo quem o mandara envenenar seu subordinado, ou algo do gênero, matou-o.
Andando velozmente por uma das florestas do Makai, o youkai raposa viu no chão uma garrafa de bebida quase vazia e a faixa que Hiei costumava usar para ocultar o jagan. Abaixou-se com cuidado para não incomodar o amigo, que continuava desmaiado, e pegou os objetos. Iria analisar o conteúdo da garrafa em casa.
Kurama, definitivamente, não esperava ver Hiei daquele jeito. Ainda estava desacordado e com uma palidez preocupante. Tomara que ele não adoeça ao pegar essa chuva toda, pensou Youko.
Ningenkai, sábado, madrugada
— Koenma-Sama? Chegamos. Vim primeiro à minha casa pegar um cobertor. Está fazendo frio.
— Que alívio, Kurama – respondeu o príncipe, em sua forma adulta, ao celular – Como está Hiei?
— Ainda não acordou, mas não parece estar ferido. Infelizmente pegamos aquela chuva do Makai...
Koenma se arrepiou ao ouvir isso – as chuvas do mundo dos youkais eram terríveis.
— Chegaremos em breve aí. – Kurama despediu-se e desligou o telefone. Foi até seu quarto e pegou o primeiro cobertor que viu para cobrir o koorime, que estava com a pele já meio fria. Preferiu deixar para tomar banho quando voltasse, depois que Hiei estivesse seguro, com seus amigos e Yukina. Por sorte, sua mãe estava dormindo e não o viu entrar nem sair.
Chegou às escadarias do templo de Genkai rapidamente com Hiei desacordado nos braços, ambos molhados e meio sujos de lama. Todos estavam reunidos na sala do templo, visivelmente preocupados com o koorime, pois Kurama não dissera o que, realmente, tinha sucedido com o baixinho.
Yukina, ao término da conversa entre Kurama e Koenma, disse com os olhos marejados:
— Puxa... Eu fui grosseira com Hiei-san, não devia ter falado com ele daquela maneira. Me sinto culpada... E se ele morr-
— Yukina-chan, que é isso? – respondeu Botan, segurando sua mão. – Você não ouviu Koenma-Sama? Hiei está fora de perigo, apesar de que não sabemos o que houve.
— Sim, querida Yukina-chan – disse o apaixonado Kuwabara, segurando sua outra mão – Vamos descobrir o que houve e tudo ficará bem! Eu garanto! O baixinho não vai morrer. Logo você o verá por aqui perturbando a gente – arrematou, com um sorriso enorme no rosto. Shizuru apenas olhou para ele e meneou a cabeça.
— Como sempre, prometendo o que não pode cumprir, não é, maninho? – disse ela com certo desgosto. – Bonito vai ser se Hiei tiver ficado tetraplégico ou tiver perdido os cinco sentidos.
— Cacete, Shizuru-san! Para com isso! – exclamou Yusuke irritado, ao ver que Yukina estava prestes a chorar de novo. Aquele clima estava pesado, denso, e Shizuru não ajudava.
— Vocês são otimistas demais. Eu sou realista. – disse ela, apagando seu cigarro.
— Não confunda realista com pessimista, mocinha. Você assiste filmes demais – repreendeu Genkai. — E parem com essa discussão de uma vez. Ouçam! É Kurama chegando!
Passos. Todos se levantaram enquanto Genkai abria a porta para o ruivo Shuuichi Minamino entrar com Hiei. O choque foi geral. Param-nos na porta:
— Que é isso, Kurama-kun? – disse Kuwabara, os olhos arregalados.
— Meu Deus, não acredito! — Botan pôs as duas mãos no rosto, em choque, enquanto Yukina e Shizuru tentavam chegar mais perto de Kurama.
— O quê?! Kurama-kun, cadê o Hiei? – gritou Yusuke, já querendo sacudir o amigo.
— Calma, Yus- – ia pedindo Keiko, mas o noivo estava nervosíssimo e a confusão estava instaurada. Não só ele, aliás; o salão do templo virou um turbilhão de vozes exaltadas e alguns gritos. Até Koenma estava abalado. Todos falavam ao mesmo tempo, até que Genkai gritou para que se calassem, senão Kurama não conseguiria se explicar.
— Vocês poderiam ao menos me deixar entrar com ele? — disse ele, aborrecido. Enrolado nos seus braços, havia um bebê de aproximadamente três meses, com cabelos pretos, magro e de aparência abatida, dormindo um sono profundo.
~
Depois de muito tempo, Kurama conseguiu um pouco de silêncio por parte dos amigos e começou a dizer:
— Então, Kuwabara-kun, recebi seu SMS, mas quando fui abri-lo, a bateria do meu celular descarregou.
— Kazuma e eu sentimos algo estranho, um mau pressentimento em relação a Hiei, e resolvemos contatá-lo, Kurama-san – disse Shizuru. – Como eu sei que você gosta de estudar à tarde em casa, disse a meu irmão que mandasse um SMS em vez de telefonar. — Os demais também disseram sentir algo estranho em relação a Hiei, no fim de tarde daquela sexta-feira.
— Mas o que aconteceu, Kurama-san? – perguntou Yukina. – Como Hiei foi transformado em bebê?
— E onde está o jagan? – inquiriu Keiko, chamando a atenção de todos para a testa do bebê, ainda no colo de Kurama, que ainda estava de pé, rodeado pelos amigos. Não havia jagan algum. Então Hiei fora transformado em humano?
Koenma, ainda lutando para digerir aquele monte de informações de uma vez, perguntou a Shuuichi:
— Mukuro deu alguma explicação?
— Não, Koenma-Sama. Segundo ela, um monstro qualquer chegou lá dizendo que viu uma bruxa cabeluda lançando sobre Hiei um feixe de luz azul com uma varinha... – respondeu Kurama, com expressão de total ceticismo. – Dá para acreditar?
— O caso é que o Makai é um lugar complicado, com demônios mais complicados ainda, traiçoeiros e vingativos. Será que não foi a própria Mukuro quem enfeitiçou Hiei? – inquiriu a shinigami.
— Não posso afirmar com certeza, Botan-san, mas parece improvável. Mukuro pode ser cruel, mas não mentirosa. Se ela quisesse deixar Hiei incapacitado, ou mesmo matá-lo, não inventaria uma história dessas. Simplesmente o mataria.
— Eu, hein? – disse Yusuke, ainda meio incrédulo. – Tô fora. Nem quero estar por perto quando o baixinho acord-
Um guincho estridente ecoou pela sala, vindo dos braços do ruivo. Envolto em sua capa preta e em um cobertor (Kurama estava tão nervoso que não pensou em pegar algo menor para proteger Hiei do frio), o koorime gritava a plenos pulmões.
Me transformaram em criança? Que absurdo! E como vim parar aqui no Ningenkai? E... COMO VIM PARAR NO MEIO DESSES INFELIZES?
O que ninguém sequer suspeitava era que Hiei estava entendendo perfeitamente o que acontecia a seu redor² e que toda aquela transformação o havia deixado em franco desespero. Era demais para ele! Ver todos aqueles idiotas olhando para si, sentir uma fraqueza, uma fome avassaladora e um desconforto no ventre... Ah, não... Ele tentou segurar, mas parecia impossível. Um cheiro característico se espalhou pelo cômodo e gerou protestos. Kurama desenrolou a capa onde ele estava e exibiu um Hiei despido e sujo de...
— Bosta! Que nojo! – reclamou o descendente de Raizen, enquanto levava um soco da noiva.
— Você também faz isso, seu delinquente!
Hiei percebeu o olhar de Yukina sobre si. Não, ela não!
— Hiei-san...? – dizia Yukina abismada com o que via. Ela nunca havia visto a nudez masculina, nem mesmo a de um bebê, já que no País do Gelo não havia homens.
— Kurama-kun, ele te sujou! – apontou Kuwabara. Realmente, a roupa do ruivo Shuuichi tinha sido “premiada” também. Ele ficou desconcertado.
— Como fede! – dizia Koenma, tapando o nariz.
— Então Koenma-Sama nunca foi bebê e nunca sujou uma fralda, não é? – respondeu Genkai com ironia. O príncipe fechou a cara, mas não disse nada.
— Gente, pelo amor de Deus, o Hiei não pode ficar sujo! – gritou Botan. De fato, o bebê Hiei já estava rouco de tanto gritar nos braços de Kurama, que o pegou de forma desajeitada por debaixo dos bracinhos. – E com certeza deve estar faminto. Mestra, a senhora pod-
— Isso é com vocês, Botan. Não faço ideia do que fazer com uma criança, nunca cuidei de um bebê na vida... – disse a velha abruptamente, espantando os presentes. – Ué, por que estão me olhando assim? Sou a mestra do Leikou-Hadouken, não uma vovozinha com experiência em cuidar de crianças pequenas.
Que história é essa, velha retardada? Vai me deixar à mercê desses incompetentes? Eu esperava mais de você! Pensava Hiei, revoltado, sem conseguir parar de gritar.
Depois daquela estranha recusa de Genkai em ajudar a solucionar o problema do agora bebê, Kuwabara se aproximou, fazendo Hiei gritar ainda mais. A última coisa que ele queria era ser pego por aquele infeliz.
Saia de perto, senão eu te mato, desgraçado! Não encoste em mim! Não enc-
— Nhé! Nhé! Nhé! – ignorando seus protestos enfurecidos, o jovem pegou o youkai bebê com cuidado para não se sujar e disse:
— Calem a boca! Enquanto vocês ficam aí discutindo, o baixinho aqui está quase morrendo de tanto chorar! Minha mana, nunca banhei um bebê, você me ajudaria...? – Shizuru fez que sim com a cabeça. – Obrigado.
— Deve estar com frio também, quando o peguei na fortaleza de Mukuro e vim com ele para cá, estava chovendo – falou Kurama, ainda um pouco constrangido pela sujeira em suas roupas.
— Nossa, ele vai acabar ficando doente! Vejam como já está pálido, o pobrezinho – exclamou Botan.
— Mestra, me arranje uma bacia com água morna? – pediu Shizuru.
— Sim. Yukina, providencie logo a bacia, por favor. E panos limpos.
— Sim, mestra – a pequena koorime correu para dentro da cozinha do templo. Shizuru e seu irmão seguiram-na com o bebê Hiei aos berros. Genkai saiu do cômodo logo após, sem dizer nada.
— Koenma-Sama, precisamos saber o que aconteceu. Quem fez isso com Hiei pode querer fazer conosco também... E quem nos garante que o problema de Hiei é apenas virar uma criança? E se houver alguma outra complicação? – disse Keiko. Apesar de não ser uma Reikai Tentei, ela gostava de ajudar os amigos. Era muito perspicaz.
— É verdade, Koenma-Sama. Achei esta garrafa junto à faixa que ele usava na testa – disse Kurama, tirando do bolso a garrafa. Koenma pegou-a e cheirou o gargalo com cuidado.
— Tem cheiro de hojicha³.
— Hojicha, Koenma-Sama? – estranhou o ruivo. – Para mim, o cheiro é de chocolate. – Keiko pegou a garrafa e cheirou também.
— Estão malucos? Isso é refrigerante! – disse ela.
Yusuke Urameshi tomou a garrafa das mãos da noiva.
— Mentira, isso é saquê!
De repente, Botan exclamou:
— Gente, isso só pode ser uma poção que tem o cheiro e o sabor do que a pessoa mais gosta! – pegou a garrafa e cheirou-a. – Estão vendo? Eu senti o cheiro de suco de uva!
Kurama coçou a cabeça. Será que era uma espécie de fruto do passado? Aquilo já estava preocupante demais. E a madrugada avançava sem que tivessem a mínima ideia do que era aquilo que, certamente, tinha transformado Hiei em um bebê humano comum...
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