O País das... Maravilhas?
5 Capitulo 4
Notas iniciais
O país das maravilhas realmente estava em apuros. Todos os meus supostos sonhos estavam certos quanto o atual estado desse lugar... Tudo parecia morto, vermelho e assustador. Apesar do coelho ter atrasado as cartas que nos perseguiam, não demorou muito para que outras viessem atrás de mim depois que atravessei a porta, afinal, estavam por toda parte... A rainha de copas realmente tomara conta de todo o território.
Minhas pernas estavam cansadas e minha cabeça ainda girava um pouco... Maldito tranquilizante... Eu não aguentaria correr por muito tempo, precisava de um plano. Então olhei ao meu redor e reconheci o lugar, estava bem próxima da mesa de chá, onde – de acordo com meu suposto sonho – jazia sem vida o corpo do chapeleiro. Eu não tinha muitas opções em mente e nem muito tempo para planejamento, então resolvi correr para lá mesmo.
Logo pude identificar a clareira no meio da floresta, onde a cena grotesca estava montada... outro sonho correto... Evitei a ponta da mesa onde eu havia visto o meu velho amigo e me escondi de baixo da mesa, agradecendo pela toalha chamuscada não estar tão acabada, e ser suficiente para me manter fora de vista até que eu pensasse em algo.
As cartas logo alcançaram o lugar, mas haviam me perdido. Um grupo se separou e continuou correndo nos arredores, enquanto outro ficou para trás e procurava por rastros meus com mais calma... Eu por debaixo da mesa me deitei de barriga no chão, tentando ver onde estava cada um e tentar esquematizar uma fuga, foi então que ouvi algum ruído vindo do chão, e fazendo coçar um pouco o ouvido. Mas o que é isso?
Olhei para o chão em busca da origem daquele ruído irritante e não vi nada além de um pequeno gafanhoto... Calma, ele está pulando na minha frente para chamar minha atenção? Deitei o rosto na terra novamente, me aproximando do inseto, que logo pulou em meu ouvido, me fazendo arrepiar e prender um grito.
—- Alice! Alice! Que bom que está aqui! – A voz fina do inseto era extremamente irritante aos ouvidos, mas dava para entender o que ele dizia.
—- Não posso ficar falando! – Sussurrei o mais baixo que conseguia, fazendo minha voz sair como um sopro suave... mas pelo jeito, para o pequeno animal foi o suficiente. Ele saiu pulando um pouco mais para frente, subindo em cima de um pequeno vidro que eu logo reconheci.
A garrafinha de vidro estava quebrada, restando apenas o fundo inteiro e um restinho de liquido azul no fundo, enquanto a parte superior estava despedaçada do lado, e a pequena etiqueta escrita “Beba-me” estava quase enterrada, amassada e levemente avermelhada... Da ultima vez que bebi essa solução foi para entrar em uma portinha minúscula na primeira vez que vim no País das Maravilhas.
O inseto pulava insistentemente sobre o vidro, claramente querendo que eu bebesse. Bom, não tinha muita escolha e nem tempo para discutir, cada vez mais os passos na clareira se aproximavam... As cartas eram um tanto quanto atrapalhadas, mas acabariam por olhar embaixo da mesa.
Me estiquei até alcançar o recipiente. Tinha tão pouco... será que iria fazer efeito? Com cuidado para não me cortar, enfiei o dedo no fundo do vidro, o molhando com o restinho do liquido e levando a boca. Por alguns segundos, achei que não havia adiantado enquanto olhava para o bichinho na minha frente, mas logo comecei a diminuir, até ficar num tamanho em que o gafanhoto ao meu lado parecia um cavalo.
—- Funcionou! Mesmo sendo tão pouco! – Disse eu aliviada, me levantando no chão e tentando limpar de forma falha minha camisola do manicômio.
—- Sim, mas não por muito tempo. – Disse o animal, se posicionando ao meu lado, me oferecendo suas costas – Preciso te tirar daqui.
Subi na minha montaria saltitante e saímos debaixo da mesa. Com facilidade e sem preocupação passamos pelos soldados da rainha e adentramos a floresta, nos afastando com segurança da presença deles, logo os passos, silhuetas e vozes já haviam sido apagados do ambiente.
—- Para onde vai me levar, gafanhoto? – Perguntei, amaldiçoando meu cabelo em silencio, que a cada salto tampava meu rosto.
—- Vou te levar a um lugar onde esses cabeças de batata não irão te procurar.
Nos seguimos por um tempo... não sei ao certo quanto, pois acabei cochilando nas costas do animal, não sei como ou por que, mas as suas costas me pareceram extremamente aconchegantes e meu corpo estava cansado de tanto correr.
Comecei a acordar com um aperto no peito. Começou leve, mas logo se fortificou e eu não conseguia respirar. Abri os olhos assustada, ouvindo a voz do gafanhoto, que olhava para mim de relance.
—- Alice? Esta bem?
O animal parou de pular e me deixou escorregar de suas costas para o chão com leveza, me olhando preocupado. Logo senti uma forte dormência nas pontas dos meus dedos, trazendo as mãos para perto do meu rosto para que pudesse ver o que estava acontecendo, logo notando que meus dedos aumentaram de tamanho devagar... O efeito estava acabando.
Então meu corpo foi aumentando de tamanho... O gafanhoto diminuía ao meu lado, ainda parecendo preocupado, enquanto eu voltava ao meu tamanho normal, e eu fechei os olhos enquanto acontecia. Demorou em torno de trinta segundos para que toda aquela sensação sessasse, e só então eu abri os olhos novamente... Mas que diabos!
Acima de mim, eu podia ver o telhado de pequenos prédios que me cercavam. O clima era frio e uma fina camada de nevoa acinzentava o ambiente. Ergui o corpo, me sentando no chão frio e me assustando com um rapazinho agachado ao meu lado.
—- Você esta bem? – Dizia ele parecendo realmente preocupado. Seus olhos castanhos me fitavam profundamente, como se procurasse uma falha que devesse ser consertada, eu respondia apenas assentindo com a cabeça.
—- Onde estou? – Dizia desviando o olhar dele por um momento. Eu estava em um beco úmido e sujo. Ao meu lado estava algumas garrafas vazias de vidro, uma delas quebrada.
—- Você esta em um beco sujo no vilarejo do porto. – Respondeu ele, correndo os olhos agora para o meu corpo, me fazendo corar. Eu sabia que ele olhava para as marcas do incêndio na minha pele, que me deixavam com uma aparência monstruosa, e de brinde, usava uma camisola de hospital. – De onde veio? – Não sabia como responder. Com certeza dizer que estava no país das maravilhas não era uma opção... e eu tinha certeza que lhe contar sobre minha fuga de um manicômio o deixaria pouco confortável. – Tudo bem. – Completou ele, aceitando meu voto de silencio... notei que ele olhava de relance para as garrafas e tirou sua própria conclusão, se levantando em seguida e esticando a mão para mim. – Venha.
Meio temerosa, mas sabendo que precisava de ajuda, aceitei o gesto do rapaz que me pôs de pé. Vilarejo do porto... Já havia ouvido falar nesse lugar antes de ser mandada ao manicômio. Papai fazia algumas viagens de trabalho, e já o ouvi dizer que estava indo ao vilarejo do porto, mas eu nunca o havia acompanhado até lá, por tanto não conhecia nem um pouco. O rapaz de olhos castanhos escuros e cabelo ondulado segurou minha mão com gentileza e me levou para dentro do pequeno estabelecimento ao lado. Apesar de gentil, seu jeito me era um tanto quanto estranho, e eu sabia que ele me observava de relance.
O lugar estava vazio e parecia ser um bar... Não era nada muito chique, mas pelo pouco que vira na rua enquanto caminhavam até a entrada, provavelmente era considerado um dos melhores da localidade. Uma moça no balcão nos olhou confusa, e seu rosto claramente expressava nojo ao olhar pra mim, me fazendo virar o rosto, envergonhada.
—- Espere aqui. – Disse ele, soltando minha mão em frente a uma porta que provavelmente daria na cozinha do estabelecimento, enquanto ele se aproximava da mulher no balcão.
Eu não sabia onde enfiar o rosto... Estava envergonhada... Todos no manicômio já haviam se acostumado com minha grotesca aparência, então os olhares de surpresa ou nojo já não existiam mais... e sinceramente? Eu já havia esquecido o quanto era ruim receber esses olhares. Agora nesse lugar desconhecido, teria que enfrentar isso novamente, e eu não sabia se aguentaria... Eu preciso de Anna... Não sei o que fazer...
Então, podia ouvir o que provavelmente era uma pequena discussão, que tentava de forma falha ser silenciosa.
—- O QUE? Voce quer que eu ajude ela? – Sussurrou com urgência a moça de olhos verdes com uma linda cabeleira castanha, longa e cacheada. – Pelo amor! De onde você tirou ela? Parece ter saído de um hospício!
—- Por favor, Rebeca! – Advertiu o rapaz... pelo jeito, era ele quem estava no comando desse lugar. – Ela esta completamente perdida...
—- Mande-a para policia! – Respondeu a moça, sem parar de secar uma grande caneca de cerveja que segurava nas mãos.
—- Faça o que eu mando! – disse ele lhe apontando o dedo indicador – Depois com mais calma verei o que posso fazer.
Eu não era bem vinda... não deveria estar aqui... E não deveria mesmo! Como eu vim parar aqui? Até onde eu sei, estava nas costas de um gafanhoto que me salvou de um exercito de cartas no país das maravilhas! Anna esta lá... o coelho vai me procurar lá... eu preciso voltar!
Meu devaneio foi interrompido pelo barulho de alguém limpando a garganta na minha frente... Era a mulher do bar. Seu olhar de nojo e desprezo me intimidava, me fazendo cruzar os braços e abraçar meu próprio peito.
—- Olá... é... garota! – Disse a moça com um falso sorriso, que se desmanchou rapidamente. – Serei sua baba hoje... Me acompanhe, por favor.
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