O Patrono Perdido

10 Capítulo 9: A Última Chance


Notas iniciais
Gente......... oi ❤ Não, vocês não leram errado: esse capítulo tem quase 5 mil palavras, de fato. Eu passei os últimos 2 dias pensando se conseguia dividi-lo em duas partes, mas NÃO DEU. Ele é pra ser denso mesmo, porque tem muitas informações, e eu não podia dividi-las, então... Espero que vocês me perdoem pelo tamanho, hehe. Aliás, boa leitura e boa SORTE com esse capítulo. Comentem ao final, suas lindas.

Remo John Lupin já se arrependera de muitas coisas ao longo da vida. Sim; quando se tem trinta e cinco anos nas costas e um histórico de vida como o seu, é bastante comum um sentimento de legítimo remorso em relação ao passado. Mas nunca — nunca– Remo se arrependera como o estava fazendo naquela noite.

Pela posição da Lua Crescente no céu, estava claro que eram mais de dez horas; e fazia já mais de dez minutos que Lupin esperava, na absoluta escuridão, a porcaria de amigo que conhecia como Sirius Black.

A noite em Hogwarts já era naturalmente um tanto assustadora; mas fora dos limites do Castelo e nas proximidade do Salgueiro Lutador, ela era pavorosa. Dava a impressão de que, a qualquer momento, uma criatura das Trevas apareceria para assustá-lo — e havia uma infinidade delas que vagavam pelas vastas áreas descobertas da escola quando a noite caía -, de forma que um simples bater de asas de um morcego longínquo estava causando-lhe medo.

Talvez tivesse mesmo caído em uma emboscada: Sirius só podia estar planejando algo muito ruim contra ele, deixando-o naquela absoluta escuridão sem ninguém.

De súbito, no entanto, algo se movimentou por entre as sombras. Em uma questão de segundos, pulou sobre a sua frente um enorme cão preto, de olhos quase brancos, que contrastavam com o breu absoluto daquela noite fora do Castelo.

Qualquer outra pessoa talvez fugisse pelo medo da postura ameaçadora que o animal mantinha — orelhas abaixadas e uma expressão de quem estava prestes a atacar. Mas Remo reconheceu-o imediatamente, e tudo o que fez foi gritar "Sirius!", enquanto o cachorro dava-lhe as costas e saía correndo em sequência, enfiando-se em uma moita.

Ele só podia mesmo estar de brincadeira com a sua cara.

Ainda um tanto assustado, mas agora também esperançoso, Remo correu ao seu alcance. Chamou-o de novo, em um grito, quando finalmente chegou ao arbusto por ele escolhido. Debruçou-se e afastou as folhas na tentativa de vê-lo. Não deu certo.

A terra sob seus pés pareceu vacilar e Remo caiu sentado, deslizando por uma longa ladeira e caindo por sobre um amontoado de folhas calculadamente posicionadas bem ali, pelo menos a trinta metros abaixo de onde antes estava.

"Sirius!", gritou pela última vez, irritado, erguendo-se e sacudindo as vestes daquela terra úmida e incômoda. Às vezes também queria poder andar sobre quatro patas e não ficar deslizando e caindo a cada tropeço que dava na floresta.

Quando colocou-se de pé e levantou os olhos, toda a sua raiva se extinguiu.

Estava agora em uma parte diferente do terreno externo, onde altas árvores, espaçadas entre si, serviam como hospedeiras a diversos tipos de flores que nelas se penduravam e delas ocasionalmente despencavam, como trepadeiras. A terra ali parecia mais firme e mais escura, mas não estava úmida, por mais que adiante se estendesse um pequeno lago de águas claras.

Havia um cheiro adocicado no ar, provavelmente de alguma erva ou flor das quais Aluado não conseguiria lembrar o nome, e o único barulho que se podia ouvir consistia no som de cigarras, muito distantes. Não se podia vê-las. Ao invés dessas, podiam ser vistas por todos os lados pequenas chamuscas-roxas, que eram minúsculos insetos, semelhantes a vagalumes, que iluminavam bosques e jardins.

As chamuscas-roxas podiam ser muito perigosas quando agressivas — bastava que batessem freneticamente as asas perto de alguma superfície para causar nelas um sério incêndio -, mas, tranquilas como estavam, pareciam pequenas criaturas encantadas, já que delas emanava uma luz lilás-fluorescente que fazia com que parecessem apenas pontos coloridos de luz que pairavam no ar.

Remo não lembrava de ter ido àquele lugar alguma vez, nem tampouco de ter visto uma criatura daquela antes. Mas deslumbrado como estava pelo que via, esqueceu-se de todos os demais lugares onde já estivera; estava a um passo de também esquecer Sirius Black e o real motivo de estarem ali, mas uma voz falou às suas costas, trazendo-o de volta à consciência.

"Ainda bem que fui te buscar no Salgueiro", disse Almofadinhas, e Remo virou-se para encará-lo. Estava logo atrás, com um dos pés ainda na ladeira por onde Lupin havia chegado. "Você ia ficar lá a noite inteira."

"Você me mandou lá de propósito."

"Se você se lembrasse desse lugar, não teria sido enganado. O Jardim das Sombras", respondeu o Black, apontando para o chão de terra.

Remo direcionou os olhos ao chão, e então entendeu onde estava. Devido à intensa luz lilás que era emanada das pequenas chamuscas, mesmo durante a noite o solo era repleto de sombras, fossem elas das árvores, das flores ou de quem passasse pelo lugar.

"Mas eu nunca vim aqui", defendeu-se o menor, fitando-o de novo. "Ninguém conhece esse lugar. Nem mesmo Rabicho disse que conhecia."

"Rabicho?", perguntou Sirius, rindo em sequência. "Claro que não conhece. Eu só trouxe você aqui. No fim do último ano."

"E me trouxe por quê?"

"Você não sabe?"

Remo recuou alguns passos em direção ao jardim. Era uma pergunta retórica. Sim, sem dúvida, uma pergunta retórica. Ora, por quê? Não era possível.

A muito custo, alguma engrenagem começou a rodar dentro do seu cérebro. Tinha um palpite do porquê. Mas não era possível. Eram só amigos. Sempre tinham sido só amigos. Andavam desde os onze anos juntos e sempre haviam sido só amigos.

Aquilo não era real. Aquele não podia ser Sirius.

Mas falava como Sirius, andava como Sirius e parecia também pensar exatamente como ele. A aparência era a mesma. O sorriso e os olhos, tudo era igual. Mas Sirius Black não teria uma atitude como aquela. Uma ideia como aquela. Não podia.

No entanto, se não podia, por que então o mais alto sempre o observava, repetidas vezes, ao longo do dia? Por que procurava a sua aprovação depois de ter defendido Tiago da pancada de um balaço? Por que tantas vezes se mostrava receptivo, e de repente agressivo, em relação à sua companhia?

Não podia.

Começou a ligar os pontos.

No seu caderno de Poções, um desenho escondido de Sirius Black, que só podia ter sido desenhado pelas suas próprias mãos, enquanto o olhava. E quando Sirius voava pelo Campo de Quadribol, era nele que a sua atenção residia durante todo o jogo, de forma que Remo nem mesmo percebia a existência dos demais jogadores. Por fim, teve uma vontade inexplicável de enfiar a cabeça na terra e esconder-se da vergonha a cada vez que a mão de Almofadinhas tocara na sua, enquanto corriam juntos para a aula.

Não era possível que um sentimento tão errado pudesse ser mútuo entre eles. Tinham que ser só amigos, porque era assim que deveria ser. Não era possível que aquela insanidade fosse recíproca.

"Quem é você, afinal?", perguntou o Black, despertando novamente o outro de seu transe. Os seus olhos eram tão escuros, que quase não se podia distinguir entre íris e pupilas. Mas naquele escuro absoluto dos olhos de Sirius, Remo via, refletidas, as pequenas luzes roxas que pairavam pelo jardim à sua frente, e os próprios olhos do maior pareciam duas áreas de céu estrelado, amplas como o Universo, mas silenciosas — e assustadoras — como uma noite nos terrenos externos ao Castelo de Hogwarts.

Remo tentou pensar em outra hipótese. Tentou convencer a si mesmo de que aquilo não era real. Não podia apaixonar-se por uma pessoa que não era nada além de uma projeção de um feitiço. Aquele não era o Sirius verdadeiro; Sirius Black estava morto, e nada poderia trazê-lo de volta. Era só uma ilusão. Apenas uma mentira. Mas como podia doer-lhe assim, vê-lo tão de perto e não poder fazer nada, se tudo não passava de uma mentira?

"O que você-", começou Sirius de novo, mas foi interrompido pelo mais baixo.

"Você não é real", disse Remo, mais para si mesmo do que para o outro.

Sirius pareceu não entender ou não gostar nem um pouco do que ouvia.

"Como é?"

"Você não é real!", insistiu Lupin, agora em volume mais alto. Precisava sair dali o quanto antes; antes que algo muito mais surreal acontecesse. "Você é só uma projeção da minha cabeça. Me dá logo a sua varinha!"

Aí sim pareceu conseguir irritá-lo.

"Eu não sou real?", perguntou ele também mais alto, avançando alguns passos enquanto Remo os recuava. "Você é que não é real. Pensa que pode chegar aqui e tentar ser um de nós, quando você não consegue nem fingir ser você mesmo?"

Assustado com aquela última frase e com o rumo que a conversa tomava, Remo tornou a abaixar a voz, passando agora a murmurar as palavras:

"O que você sabe sobre o que eu sou?"

Sirius não avançou mais. Também não tornou a falar tão cedo, e logo o remoto barulho das cigarras tornou a ser o único a ocupar o ambiente. Um vento curto e frio perpassou o pequeno jardim e fez com as folhas das árvores se movessem. Então, o maior finalmente retomou a palavra:

"Se você responder a umas perguntas, sem mentir mais, eu te entrego minha varinha e você pode ir embora".

"Não", decidiu Lupin na mesma hora.

"Remo...", insistiu o Black, agora parecendo pensar muito a cada palavra que proferia. "São só três...", e pausou, corrigindo-se: "Quatro. Só quatro perguntas, e você pode ir embora."

Não era uma boa ideia. Mas se aquela era a sua última chance de estar no passado e conversar com Sirius, então não queria tentar pegar a varinha à força. Desarmá-lo não era mais uma opção.

Uma pontada de tristeza atingiu o peito de Lupin, porque agora sabia que teria o que esperava; responderia às perguntas, quaisquer que fossem, e poderia voltar à realidade. Voltar e acabar logo com aquela loucura.

"Quais perguntas?", perguntou, forçando-se a aceitar a proposta. Não lhe agradava ter que responder a nada e nem tampouco agradava-lhe ir embora; mas se não fosse agora, o quanto antes, não iria mais. Era a sua chance de salvar-se.

"Você veio do futuro", palpitou Sirius, logo de cara. Era a primeira pergunta.

Remo sentiu o sangue lentamente abandonando a região do seu cérebro e descendo para o restante do corpo. Sentiu-se frio.

Sabia que não conseguiria enganá-los por muito tempo; mas não percebera que não conseguiria enganá-los por tempo algum.

Assentiu com a cabeça, porque foi o que pôde fazer.

"Por que você veio aqui?", continuou Almofadinhas.

Abriu e tornou a fechar a boca algumas vezes. A sua mente parecia isenta de palavras que se pudessem utilizar. Pegou quaisquer umas.

"Eu não vim", respondeu, em um murmúrio. "Quando toco sua varinha, eu aparato aqui. Mas não sei por quê. É um Portal."

~

Sirius Black deu uma olhada na sua varinha, que não lhe pareceu enfeitiçada, de forma alguma. Ainda assim, não restavam dúvidas de que era um Portal; cada vez que aquele estranho Remo a tocava, ele mudava subitamente, voltando a se tornar o Remo com o qual Sirius se acostumara: apático, distante, desinteressado de tudo e de todos.

Não queria que aquele Remo fosse embora. De alguma forma, não era mais como se ele tivesse voltado a ser quem era depois de dois meses de afastamento; não, agora mais parecia a Sirius que tinha ficado muito mais que dois meses sem ter ao lado aquele Lupin que, agora, tornava a ter. Sabia que aquilo não era possível, mas pareciam-lhe anos. Décadas.

Tinha ainda duas perguntas a fazer. Tomou fôlego para forçá-las a sair:

"Você me vê do mesmo jeito que vê os outros?"

Os outros. Os Marotos.

Remo ergueu os olhos de cor mel na sua direção, parecendo entender no mesmo instante o sentido daquela pergunta. A palavra não era ver. Aquela estranha colocação escondia algo por trás si e, por um breve momento, Sirius desejou — e até chegou a ter esperança de — que Remo não fosse inteligente o suficiente para captar a verdadeira informação que se espremia por entre as palavras.

Infelizmente, Remo era uma das pessoas mais inteligentes de Hogwarts, desde sempre. O legítimo constrangimento que estampou o seu rosto e desviou novamente seus olhos deixou evidente que ele tinha, sim, compreendido a pergunta. E com os olhos já muito distantes dos de Sirius, ele respondeu, mais para dentro do que para fora:

"Não do mesmo jeito."

"Não do mesmo jeito...", repetiu Almofadinhas, enquanto incorporava aquela última resposta.

Um novo sentimento aqueceu seu peito e fez com que um verdadeiro fardo fosse retirado das suas costas.

Remo sentia o mesmo. Sentia que ele não era como os outros. Portanto, era recíproco. Sirius não estava sozinho. Não precisava mais repreender-se a cada vez que se pegava pensando nele de outra forma.

"Mas Sirius, não pode ser."

"Não pode ser por quê?"

"Qual é a última pergunta?"

A sensação de alegria logo deixou-o por completo. Mesmo sabendo que Sirius sentia algo especial por ele e mesmo sendo um sentimento recíproco, Remo ainda pretendia ir embora.

Por quê?

Lembrando-se da última pergunta que tinha pensado em fazer, foi a vez do Black desviar os seus olhos.

Pensara naquela pergunta porque já pressentia que Lupin tinha por ele os sentimentos que agora passava a assumir. Mas agora que comprovava a verdade, não queria mais fazê-la.

Foi tomado por uma súbita melancolia. Já não queria mais saber a resposta, por mais que já fosse um tanto óbvia. Na verdade, não queria nem mesmo que Lupin sequer suspeitasse de que a ideia da pergunta tinha lhe passado pela cabeça.

"Contei errado. Eram três. Pode pegar a varinha."

Remo não deu nem um único passo na sua direção. Não pareceu convencido.

"Qual é a última pergunta?", insistiu o menor, convicto.

"Eu já te disse, eram três."

"Sirius, não eram três."

Só podia ter uma explicação.

Aquele novo Remo, aquele Remo de quem Sirius sentira tanta falta e agora estava ali, vinha constantemente pedindo a sua varinha. Quando ele a tocava, seu comportamento voltava a se resumir à apatia do Remo anterior. Mesmo assim — mesmo depois de ter ido embora, voltado a seu tempo e devolvido o corpo de quinze anos à pessoa a quem ele realmente pertencia -, aquele Remo tornava a voltar ao passado. Assim, dentro de um único corpo, revezavam-se dois Remos: um, o autêntico, desinteressado, afastado, indiferente; o outro, vindo do futuro, era aquele. Aquele do qual Sirius não conseguia afastar os seus pensamentos.

Agora estava claro que ele voltava porque queria estar no passado. Mesmo tendo tido diversas chances de voltar ao seu tempo, ele optava por estar ali. O motivo acabava de ser proferido pelos seus próprios lábios: não via Sirius da mesma forma que aos outros. Tinha desenvolvido algo especial por ele e, portanto, voltava para vê-lo.

E se Remo tinha que vir ao passado para encontrar-se com a pessoa por quem tinha aqueles sentimentos, aquilo significava uma única coisa: ele não tinha a pessoa no seu tempo real. Remo gostava de Sirius e não o tinha mais no seu tempo real e, portanto, voltava para vê-lo. E se ele não o tinha no seu tempo real, aquilo queria dizer...

"Faz logo a última pergunta", suplicou Lupin, aflito. Parecia sentir onde a conversa ia chegar.

Sirius quis dizer-lhe muitas coisas naquela hora. Quis dizer a ele que a pergunta não era importante, que era só uma idiotice qualquer da sua cabeça; quis dizer que, não importava qual resposta ele desse, aquilo não faria diferença alguma; quis, acima de tudo, dizer-lhe que não queria saber a resposta. Mas Remo era muito preocupado, e agora provavelmente já estava pensando no pior.

Pois realmente tudo podia ser visto à luz da sua sensibilidade. Nada se escondia.

"Sirius...", sussurrou, e a sua expressão agora já beirava o desespero.

"Quantos anos eu consegui completar?"

Não obteve resposta. Como não o encarava mais — mesmo porque não queria ver sua reação -, o Black não pôde ter certeza se Aluado não conseguia respondê-lo ou se simplesmente não tinha entendido a pergunta. Na dúvida, e já que não podia mesmo voltar atrás, esclareceu:

"Quantos anos consegui completar antes de morrer?"

Remo escondeu o rosto nas mãos, como se não quisesse ser visto ou ouvido. Sua voz melancólica pareceu dar corpo a um gemido baixo, quase inaudível, que era um prelúdio ao choro.

Antes que Sirius pudesse tentar retirar as palavras proferidas — antes mesmo que pudesse se dar conta do que tinha causado -, o prelúdio passou a um discreto soluço, enfim materializando lágrimas que Remo persistiu em esconder. Mas não conseguia esconder nada; parecia frustrado. Esgotado.

Parecia não ter forças para fazer qualquer objeção que fosse e, cansado de fingir ser o que não era, finalmente conseguia dar vazão aos sentimentos por aquilo que estava passando. Uma experiência terrivelmente triste e assustadora, da qual não tinha culpa por estar envolvido.

Então, conforme algumas gotas do seu choro escapavam ao esconderijo das mãos fadigadas e Sirius as observava caindo e molhando a terra seca, o maior teve a primeira percepção importante desde que aquele Remo tinha voltado pela primeira vez.

Percebeu que não importava se estava ou não vivo, ou quantos anos tinha vivido; não importava se Aluado tinha vindo do futuro ou do passado, ou de qualquer lugar ou tempo que fosse; simplesmente não importava o porquê dele estar ali, contanto que ainda o tivesse por perto. A única coisa que tinha importância era que ele ainda estava presente, e que tudo o que Sirius desejava era que ele permanecesse ali e que parasse de chorar, porque não podia mais vê-lo chorando daquela forma.

E tudo o que podia fazer era, ao invés de ficar interrogando-o, aproveitar cada minuto da sua companhia, tentando convencê-lo de que poderia ser feliz naquele tempo. Tentando convencê-lo a não mais ir embora.

Estava ainda parado, talvez esperando por um milagre, porque não sabia como lidar ao certo quando as pessoas choravam na sua frente. Mas convencido de que precisava tomar uma atitude — e tendo pleno conhecimento de que era inapto a traduzir seus sentimentos em palavras -, Sirius optou por tomar parte no mundo concreto. Porque só isso mesmo que sabia fazer.

Caminhou com largos passos em direção ao mais baixo, que não o viu aproximar-se, e, em um único movimento, afastou do seu rosto as mãos que escondiam as lágrimas, juntando em sequência seus lábios aos dele.

O ímpeto de Remo foi empurrá-lo, em espanto; mas a força com que o fez foi tão pouca, que ficou claro a ambos que a sua vontade real não era afastar-se. Assim, Sirius persistiu: segurou seu rosto com mais vontade e agora com as duas mãos, mas deixando sempre as de Lupin livres — de forma que se ele quisesse mesmo dar-lhe um bom soco e fugir rápido dali, ainda teria a chance.

Mas Remo não usou a chance. Alguns segundos de insistência do Black foram suficientes para se deixasse levar, puxando-o também para si, sem mais lutar contra a correnteza dos seus sentimentos.

~

Algo reavivou-se dentro do seu ser. Quando Sirius de fato iniciou o beijo, foi como se Remo sempre tivesse pertencido àquele lugar, nunca tendo vindo de nenhum outro. Os seus órgãos todos pareceram voltar a funcionar, a pulsar após décadas em dormência, como se não estivesse vivo há muito, e agora ressuscitasse de súbito. E conforme o outro prosseguia no beijo, aumentava dentro de Lupin a sensação de que nunca tinham sido afastados, como se o tempo tivesse simplesmente pausado e agora tornasse a correr.

O toque das mãos dele sobre o seu rosto eram como uma lembrança ocorrendo em tempo real — um tipo de déjà vu do qual Remo sentira falta, mesmo nunca o tendo vivido antes. Um toque que não desejava mais que se limitasse ao seu rosto, mas que o envolvesse como um todo.

O Black também parecia um tanto disposto a não se limitar àquela pequena área, porque conforme dava prosseguimento a um beijo que já se intensificava, uma das mãos já se posicionava sobre a nuca do mais baixo e a outra já descia sobre as suas costas, quando houve a interrupção.

Em um movimento rápido, como se estivesse assustado com algo, Sirius interrompeu o beijo de repente e soltou-o, os olhos direcionando-se à ladeira por onde haviam chegado.

Tentando compreender o significado daquilo, Remo ergueu a cabeça na mesma direção, procurando o que o outro via. Mas não tinha nada ali. Ainda assim, Sirius sussurrou, em tom de alarme:

"Tem mais alguém aqui."

A princípio, Aluado não conseguiu acreditar, mas depois lembrou-se: a qualidade de ser um cachorro em sua forma animago tinha atribuído a Sirius algumas habilidades que faltariam em uma pessoa comum; dentre elas, uma audição e olfato mais aguçados, mesmo quando estava em sua forma humana, o que lhe dava muita vantagem em situações de risco.

Naquela época, era proibido perambular pela escola após as dez horas da noite. Mais do que isso, era absolutamente imperdoável vagar pelos terrenos externos ao Castelo, ainda mais após a meia-noite, da qual já se passavam alguns minutos.

Se fossem pegos por qualquer um — funcionário ou aluno que estivesse disposto a delatá-los -, estariam um tanto encrencados. Portanto, apenas o pensamento de estarem sendo observados causou pânico em Remo, que já não sabia lidar com as fortes emoções daquela época.

Sirius não estava disposto a perder tempo. Em uma fração de segundos, como se já estivesse acostumado a ser observado e agir daquela maneira, sacou a varinha em direção a algumas árvores do plano inclinado e movimentou-a bruscamente em um feitiço não-verbal.

Imediatamente, como se tivesse sido empurrado detrás de uma daquelas árvores, surgiu, cambaleando, um outro menino, de não mais de quinze anos também. Os cabelos eram negros e um pouco apenas mais curtos que os de Sirius, mas excessivamente lisos, e o conjunto da pele pálida com o nariz protuberante caracterizavam uma única pessoa naquela escola.

"Snape!", gritaram os grifinórios ao mesmo tempo. Mas Severo Snape parecia assustado demais para dar satisfações.

Sem deixar de tropeçar nos próprios pés, ele foi correndo ladeira acima novamente, em uma evidente fuga.

Sirius não se deixou ficar para trás. Em uma situação comum para ganhar velocidade, talvez tivesse se transformado em cachorro, mas, havendo a necessidade de sacar sua varinha a qualquer instante, ele apenas desatou a correr em busca do outro, deixando Remo sozinho e atordoado no Jardim das Sombras.

"Sirius!", gritou ele, sem obter retorno. Optou então pela única escolha que tinha: segui-los, agora um tanto preocupado com o que aquele encontro poderia causar.

Enquanto tentava subir de volta a ladeira íngreme pela qual tinha deslizado ao descer, alguns pensamentos o deixavam ainda mais ansioso; mas não adiantava ficar mais ansioso, porque, por mais rápido que corressem aquilo só aumentava o risco do trajeto, e Lupin ia igualmente escorregando repetidas vezes sobre aquele chão lamacento, já ouvindo, a alguma distância, os gritos daqueles dois. Mas que ideia maldita a de terem saído do Castelo.

Por que Snape os tinha seguido? Ou então, o que estava procurando quando os encontrou? Qual eram as suas intenções ao observá-los? Certamente não podiam ser boas.

Já estava quase na metade do percurso. O tempo tornou-se mais frio. As árvores iam aumentando em número e, ao longe, podia-se ver a silhueta do Salgueiro Lutador e algumas faíscas que voavam pelo ar, provavelmente originárias das varinhas daqueles dois adolescentes, que talvez também não tivessem ainda alcançado a superfície.

O sentimento de não estar tão atrasado em relação a eles encheu Remo de esperança, e ele apertou o passo. Agora já estava muito frio, como se nevasse. O piso tornava-se mais escorregadio a cada pisada. Uma sensação de medo ia crescendo dentro de Lupin, mas ele não saberia dizer o motivo.

Quando chegou à borda da ladeira, em poucos minutos, olhou o chão. Identificou nele algumas pequenas bolinhas de gelo, como se a água que compunha aquela lama estivesse solidificando-se devido à baixa temperatura.

"Ah, não..."

Saiu da área do desnível e olhou adiante. Lá estavam o Black e Snape, mas não encaravam-se entre si.

Estavam ambos já desarmados, Sirius caído no chão ao lado do Salgueiro, que não reagia. Severo estava de pé, pouco mais adiante, mas escorava-se em um outro pinheiro qualquer, como se não tivesse forças para manter-se equilibrado sem ajuda. O ar estava absolutamente frio e absolutamente sem esperanças.

Pouco mais à frente, uma fumaça preta, como um nevoeiro, tomava lugar sobre o céu, ocultando a lua e as estrelas. Ainda assim, não era um nevoeiro de fato: eram inúmeras criaturas, de estatura muito grande, que trajavam capas pretas e flutuavam como fantasmas pelo terreno aberto, somando-se umas às outras.

Dementadores.

Remo pensou ter visto pelo menos dez; ou duas dúzias. Mas agora tinha a plena certeza de que eram centenas, que se acumulavam ao redor dele e daqueles outros dois meninos, como se os tivessem caçando; aproximavam-se mais a cada instante.

Como despistá-los? Sirius e Snape estavam desarmados — e ainda que tivessem em mão as suas varinhas, pouco poderiam chegar perto de conjurar um Patrono. Quanto a ele próprio, de nada servira até então seus altos conhecimentos em Defesa Contra as Artes das Trevas, já que tentara realizar o feitiço em aula, como sempre o fizera, sem obter êxito algum.

Sirius encolheu-se ao lado do Salgueiro. De todos, ele era quem estava mais próximo das altas sombras que se aproximavam. Desesperado, Remo tentou pensar em uma solução. Algo que o fizesse feliz, plenamente feliz.

Tentou recuperar a lembrança que usara na aula do Professor M. Fletcher, mas simplesmente não conseguiu. Parecia que ela havia sumido, sido apagada do seu cérebro. Não conseguia sequer se lembrar ao que ela se referia ou qual sentimento exatamente lhe trazia. Precisava pensar em algo novo. Algo bom o suficiente.

Pensou ter visto, com o canto dos olhos, Snape tentando rastejar-se em direção à varinha que residia sobre a grama, mas estava distante. Também não teria chances. A varinha de Almofadinhas, por outro lado, estava bem próxima a Remo, mas jogá-la ao amigo pouco faria efeito, porque Sirius não saberia enfrentar dementadores. E Remo tinha pouco tempo e movimentos limitados.

Então, Lupin fez a única coisa que poderia ter feito: colocou-se rapidamente entre aqueles dois garotos e os dementadores que se aproximavam, e tentou lembrar-se de algo feliz. Algo verdadeiramente feliz.

Feliz ou não, apenas uma memória surgiu naquele instante. Na verdade, algo que não chegava a ser uma memória, porque não havia passado tempo suficiente para que se tornasse uma. Mas pensou em Sirius.

Pensou em Sirius. Com ele. Naquele jardim, há poucos minutos. Sirius jovem e cheio de vida; não pálido como o que se tinha tornado ao ser atingido na Sala do Véu; não magro e exausto como Azkaban o havia tornado. Mas vivo, como o Sirius que o tinha beijado naquele momento. As mãos sobre o seu rosto, na reconstrução de uma memória que nunca existira. Então, ambos correndo juntos em direção à sala de aula, atrasados, fugindo de Filch. E por fim, Sirius rindo e assoprando algo que saía como um pó brilhoso da sua boca — mas o que era? Remo não saberia dizer; agora, porém, envolvia-se na sequência de imagens, como se estivesse dentro delas. E era a melhor sequência de imagens que poderia ter conseguido.

Concentrou-se nelas. Utilizou-se de toda a força física e psíquica que ainda lhe restavam. Não lembrou-se mais de que aquele não era o seu tempo ou a sua realidade, porque agora, de alguma forma, passavam a sê-los.

Na tenebrosa sombra que tinha à sua frente — o maior dos dementadores que ameaçavam Snape e Sirius -, mirou a sua varinha. E enxergando mais nada além daquela sequência de imagens com o amigo, gritou o feitiço há muito conhecido:

"Expecto Patronum!"

Sentiu a própria mão aquecer-se progressivamente. Da base da varinha, surgiu um poderoso feixe de luz prateada, que foi subindo até atingir-lhe a ponta. A ponta então iluminou-se, e dela saiu uma forma indefinida, como uma fumaça reluzente que ocupou o ar, impedindo a passagem do dementador. E continuou.

Remo prosseguiu focado naqueles pensamentos positivos. Já sentia, dentro de si, uma sincera alegria — uma verdadeira esperança — que o não deixava mais ser afetado pelo frio dos dementadores. Tudo o que importava era Sirius, as mãos, a vida, o sopro colorido.

A fumaça reluzente, de repente, tomou forma. No ar, ergueu-se como um animal: um gigantesco cachorro, de orelhas empinadas, de onde emanou uma nova fonte luminosa que aumentou; multiplicou-se; pareceu congelar o tempo e os movimentos de todos aqueles que estavam presentes, para então estourar em uma explosão contra todas as centenas de dementadores, que agora iam sendo, um a um, arremessados para longe.

Conforme, porém, a luz prosseguia saindo da varinha, parecia a Remo que suas forças iam esgotando, como se as tivesse usado completamente para aquele único objetivo. Não sabia o que aquilo significava. Aquele não era o seu Patrono. Não era o Patrono. Alguma coisa estava errada.

"Remo!", ouviu Sirius gritando ao seu lado, em genuína alegria: "Você conseguiu! Você derrubou todos!".

Disse isso mesmo, ou algo parecido. A luz que pairava sobre toda a área externa agora era ofuscante, mas a visão de Remo apenas escurecia. Talvez a pressão estivesse caindo.

Nas proximidades, Severo Snape sussurrava alguma coisa, que parecia ser algo do gênero de "Como ele fez?", mas o som da sua voz também já estava muito baixo, e Remo não conseguiu decifrá-lo.

Estava muito cansado. Muito. Precisava descansar.

Pensou ter ouvido mais alguém gritar mais alguma coisa quando seus olhos involuntariamente fecharam e as pernas vacilaram, fazendo com que caísse desacordado sobre o gramado, em meio ao gigantesco clarão do seu Patrono.

E assim desmaiou, batendo fortemente a cabeça sobre nada menos que a varinha de Sirius Black, que residia no chão ao seu lado — e desaparatando dali no mesmo instante, por puro acidente.

Notas finais
Leitoras lindas, não acaba enquanto não termina. Mas meu teclado tá sangrando aqui, então, por favor, deixem comentários? (Eu to ~um pouco~ dramática esses dias, como vocês podem notar.)