O Patrono Perdido
28 Capítulo 27: A Um Abraço de Distância
Notas iniciais
A luz dos primeiros raios da manhã que incidia sobre a pele de Remo parecia deixá-la cada vez mais fria ao invés de esquentá-la. Enquanto seus pés caminhavam sobre a terra fofa e úmida, levando-o à distante imagem de Sirius, algo crescia dentro do seu âmago. Era uma sensação.
Lá estava ele, logo à sua frente. O vento que atingia os cabelos desgrenhados era o mesmo que atingia o rosto de Remo, prestes a congelá-lo. De repente, o que parecia antes ser uma manhã agradável transformava-se em uma das mais frias de que Lupin conseguiria se lembrar. Os seus pés já não queriam caminhar.
Agora já conseguia ver claramente a expressão de Sirius. Os olhos escuros pareciam em pânico, caídos sobre sua pessoa. Analisavam o menor a cada passo que dava, medindo e calculando as possibilidades do Remo do futuro ter voltado àquele corpo. Quais eram as chances? Remo não saberia dizer a qual conclusão ele chegava. Nem mesmo conseguia encará-lo por muito tempo.
Quando a distância diminuiu a ponto de deixar em evidência os traços do Black, as memórias ressurgiram. Memórias da Penseira.
Olhos grandes e escuros caídos sobre a sua pessoa, arregelados, iguais ao que estavam agora. Olhos que tremiam e derramavam lágrimas enquanto uma varinha era apontada na direção de um Remo que dormia, extraindo-lhe as memórias. Alguns anos de diferença afastavam aquele Sirius Black do que o Sirius que via agora à sua frente. Mas os olhos eram os mesmos.
Passadas já consideravelmente menores diminuíam mais a cada instante. Precisava mesmo chegar tão perto dele? Era possível que não houvesse outra opção?
A névoa fria acompanhava-o. Mesmo agora, com Sirius mais perto, era possível vê-la. Estava um tanto mais lenta, mas prosseguia vagarosamente engolindo alguns galhos e árvores, a uma certa distância. Ter Sirius por perto já não era suficiente para evitá-la. Mas enquanto via, com o canto dos olhos, aquelas árvores sendo engolidas e sumindo no ar, Remo tinha a impressão de que aquele era o seu destino também. Um bom destino. Sumir antes que precisasse se dirigir ao Black. Sumir antes que precisasse encará-lo de frente depois do que havia vivenciado nas últimas memórias.
Havia duas opções plausíveis na sua mente: uma, abraçá-lo. Abraçá-lo e ficar com ele por todo o tempo que pudesse. A outra, despedir-se. Despedir-se de longe, sem precisar se aproximar muito. Acima de tudo, sem precisar tocá-lo, porque aquilo dificultaria o processo. Mas tocá-lo e despedir-se parecia uma ideia insuportável, quase impossível, para a sua pobre cabeça. Por isso, ia desistindo do abraço conforme se aproximava.
As pernas iam voltando a fraquejar, mas Remo persistia. Precisava cumprir a sua missão dessa vez. Sentar-se e chorar já não era uma opção. Mas o que não havia compreendido até aquele momento era que suas pernas tinham, afinal, vontade própria. Simplesmente não correspondiam quando não desejavam. Assim, e agindo de acordo com sua própria natureza inútil, bastou que Remo chegasse ao pé da ladeira para que vacilassem de uma vez. Fizeram-no tropeçar.
Imaginou que no instante seguinte estaria no chão, talvez com um joelho ralado. Mas quando se deu conta, no instante seguinte estava nos braços de Sirius Black, que o havia segurado, impedindo a sua queda.
Tão logo o cheiro sutil dele alcançou-lhe as narinas, Remo fechou os olhos, embriagado. Braços convictos o seguravam em um abraço unilateral — os seus, desistentes, estavam soltos ao lado do próprio corpo, sem chances de relutar ou de retribuir o gesto. Cabelos desgrenhados roçavam-lhe o rosto. O corpo de Sirius, tanto quanto o seu, tremia naquele momento, como se o Black já previsse a má notícia que viria.
Aquele toque deixava Remo em transe. Podia ter-se deixado ficar ali pelo resto da vida, sem tomar partido. Sem abraçá-lo de volta, sem lutar para se livrar dos seus braços. Apenas sem tomar partido, o corpo solto sem vontade de decidir, pendurado e sustentado por uma força que não era sua. Molhava lentamente a capa grifinória de Sirius, com pingos que voltavam a escorrer pelo seu rosto. O seu estado emocional era uma constante catástrofe.
"Tão logo quando você puder...", murmurou o Black ao pé do seu ouvido, utilizando-se das palavras que Remo havia proferido da última vez que tinham se visto. A voz dele também saía embargada e hesitante, como se não tivesse certeza do seria certo dizer ao menor. "Isso foi tão logo quando você pôde?"
Abraçá-lo era fazer doer mais a despedida. Já tinha passado por aquilo antes. Não abraçá-lo era lutar quanto o seu próprio desejo de se deixar ser puxado pela onda magnética que Sirius exercia sobre o seu corpo. Quando ia vê-lo de novo?
Ao som das palavras dele, Remo sorriu. Era tudo tão simples na cabeça adolescente de Sirius.
Ele não sabia o que era viver trinta e cinco anos, a maior parte deles em guerra, lutando e perdendo sucessivamente todos os amigos que mais prezava. Ele simplesmente não poderia entender a complexidade de ter apagado as memórias de Remo com o intuito de salvá-lo; não compreendia que, a cada vez que Remo voltava, acontecia um milagre que envolvia muitos riscos, e que não era tão fácil e ir e vir ao seu bel-prazer.
Abriu e fechou a boca algumas vezes, sem coragem de proferir o que devia. Ao seu redor, a névoa fria e branca continuava a engolir alguns galhos e árvores, lentamente. Cada vez mais, a presença de Sirius era indiferente para fazer pará-la.
"Você... Vai ter que se acostumar", sussurrou Aluado de volta.
Palavras que não foram tão bem recebidas. Remo sentiu em torno dos próprios braços os músculos do maior se enrijecendo, insatisfeitos. Depois, sentiu o abraço ser afrouxado e o seu corpo ser afastado do dele, para que se pudessem encarar de frente.
"Do que você está falando?"
Olhos cor de mel embebidos em lágrimas não facilitavam a comunicação. No entanto, Remo persistia em evitar derramá-las ao máximo, como soubesse o efeito que elas causavam no outro.
Aqueles olhos ficavam mais bonitos quando Remo sorria, mas já fazia tanto tempo que Sirius não via o sorriso. Quando estavam daquela forma, o Black sentia vontade de dizer a Remo que faria tudo o que pudesse para revertê-los. Mas nem sempre adiantava dizer a Remo tudo aquilo que desejava.
"Você não sabe o que é acordar por três dias acreditando que vou voltar a te ver. A cada vez que o vejo, tento me enganar, acreditando que é você ", respondeu, referindo-se ao fato de sempre tentar acreditar que o outro Remo era o seu.
"Sirius... Três dias não são nada comparados a vinte anos."
O mais alto franziu o cenho na sua direção. Pareceu um tanto assustado. Recuou um passo, tentando ler no rosto de Lupin algum indício de explicação pelas suas palavras. Não encontrou nada. No rosto dele, havia apenas tristeza.
"Você o criou, Sirius. Eu não entendia antes, mas entendo agora."
"Mas de que merda você está falando?"
Remo suspirou. Fixou os olhos no chão. Seria difícil dizer aquilo a ele, que era tão teimoso em aceitar as duras verdades que lhes eram impostas. Mas se Sirius teria que conviver pelos próximos vinte anos com um Remo de quem não gostava, merecia saber o motivo. Merecia saber quem era o culpado, mesmo que fosse a sua própria pessoa.
"Você apagou minhas memórias."
Não o olhava. Portanto, não pôde observar a expressão do seu rosto. Apenas viu, com o canto dos olhos, que Sirius permanecia imóvel à sua frente. Continuou:
"Você sabe... O tempo não é uma linha única. São muitas linhas que correm em paralelo, simultâneas. Quando apagou minhas memórias com um feitiço mal-selado, você me deu acesso a uma nova linha de tempo. Eu posso transitar entre duas delas. Por isso é que posso alternar entre meu passado e presente."
Ainda não olhava. Sirius, que estava parado, recuou alguns passos.
"Eu achava... Que era impossível juntar essas duas linhas em uma única. Mas recentemente descobri... Graças a Snape e a uma outra pessoa... Que não pode ser assim tão impossível. Eu consegui salvar Lílian de ser atingida por um vaso na aula de Transfiguração. Com um plano que foi elaborado no meu presente, consegui alterar essa nova linha do tempo à qual você me deu acesso."
"Remo..."
"Vê esse Remo de quem você não gosta? ", continuou, ignorando a confusão da pessoa à sua frente. "Você o criou. Ele é o fruto das minhas memórias apagadas. Está vivendo no mesmo passado que o meu, mas evita ter relações com você. Ele te ignora porque você vai apagar minhas memórias futuras."
Sirius fazia um sinal negativo com a cabeça. Parecia estar à beira de um colapso com aquelas informações. Mas, mais uma vez, Lupin prosseguiu.
"Ele é a prova de que essas duas realidades se entrecruzam. Você só vai apagar minhas memórias no futuro, mas o Remo do passado já consegue sentir os efeitos que isso vai causar. Enquanto que eu... Eu, que já tive minhas memórias apagadas..." e pausou, sentindo já o peito comprimir-se ao assumir aquilo. "Eu volto a te amar como amava antes... Antes de você fazer isso tudo comigo."
"Eu não fiz nada–"
"Eu e ele...", insistiu Remo, interrompendo o outro. Já imaginava que Sirius reagiria daquela forma. Já tinha previsto que ele diria que não tinha culpa, que não havia feito nada, que era inocente. Mas não tinha mais tempo para ouvir aquele discurso. "Eu e esse Remo estamos com papéis invertidos. Sentimentos invertidos. É mais uma prova de que eu posso juntar essas duas linhas do tempo em uma única. E eu vou fazer isso, Sirius. Custe o que custar."
Depois, não houve mais nada por algum tempo. Sirius não voltou a se afastar, nem tampouco protestou contra o seu discurso. Com o canto dos olhos, Remo via agora que ele voltava a permanecer imóvel, inerte em meio à avalanche de informações. Aquilo lhe deu alguma coragem. Ou alguma preocupação.
Remo não saberia dizer o que foi. Mas saberia dizer que foi uma sensação forte o suficiente para fazer com que levantasse os olhos, encarando-o por vontade própria pela primeira vez naquele dia.
O Black fitava-o com seriedade. A cabeça estava um tanto abaixada, mas os olhos permaneciam fixos na sua direção. Um olhar grave e infeliz, mas submisso. De qualquer maneira, teria que aceitar aquela situação. Ele, muito mais do que Remo, era uma vítima daquele paradoxo temporal. Quase nunca sabia o que estava acontecendo; quase nunca sabia quando ia vê-lo novamente. Remo tratava-o como uma peça de tabuleiro, na qual podia chegar à hora que quisesse e dar algumas notícias sobre um futuro terrível.
"E então?", perguntou Lupin, tentando avaliar aquela sua expressão. Não conseguiria dizer se o maior havia entendido. Na verdade, esperava uma reação muito mais incrédula da sua parte; mas Sirius não estava incrédulo. Na verdade, não exibia mais reação alguma.
"Eu que te pergunto, Remo", murmurou. "O que eu tenho que fazer?"
Remo não respondeu. As palavras de Sirius guardavam um significado maior, com certeza. O que era?
"O que aconteceu com você, Remo?"
Uma testa franzida em sua direção não era a resposta que Sirius esperava.
"O que aconteceu no tempo que você esteve fora?", insistiu o maior. Olhos cor de mel desviaram-se instintivamente para um outro canto qualquer.
"Não aconteceu nada."
Um sorriso fraco estampou-se nos lábios do Black.
"É claro. Você fica fora por três dias. Quando te ouço gritando meu nome, tenho a impressão de que você sentiu minha falta. Mas você chora, e não é por sentir minha falta. Mesmo meu abraço, você não tem certeza se quer. Chega falando de uma linha de tempo e sobre eu ter apagado alguma coisa. Você nem ao menos me olha. Mas não se preocupe", emendou, irônico, já tenho os olhos do outro sobre si. "Tenho certeza de que não aconteceu nada."
"Sirius... Mesmo que eu tentasse explicar..."
"Mesmo que tentasse explicar, eu não entenderia."
Atingido por um baque, Remo estalou a língua, buscando ainda alguma concentração. Esquecera-se de que falar com Sirius na teoria era muito mais fácil do que fazê-lo na prática. Mesmo para falar com um Black de apenas quinze anos, ele fraquejava.
"Sirius... Essa pode ser a última vez que nós nos veremos na vida."
Manter-se focado. Manter-se concentrado no seu objetivo... Já sentindo a bola emocional tomar conta da sua garganta, Remo meteu uma mão no bolso, retirando o bilhete que deveria dar a Sirius. Estendeu-o na sua direção.
"Que merda é essa?"
Não houve respostas. Assim que percebeu que não as teria, o Black arrancou o bilhete das mãos do menor.
"Por favor, não... Abra", murmurou Remo, tarde demais para que o outro o ouvisse. No instante seguinte, Sirius estava com a carta aberta à sua frente, os olhos correndo por aquelas palavras em grande velocidade.
Correram uma vez. Correram duas. Correram três, mais lentamente. Depois, os olhos escuros distanciaram-se. Fixaram-se em algum ponto no chão ou no horizonte, alheios a tudo que os cercava. Tão inertes quanto Sirius havia ficado após ouvir o discurso desconexo do menor.
"O que é isso?", sussurrou, com aqueles olhos distantes, a carta sendo levemente levantada para que Remo pudesse vê-la.
"Essa não é a mensagem. A mensagem só vai se revelar no dia..."
"Onze de Outubro de 1995", completaram ao mesmo tempo, em uníssono.
"Não é essa minha pergunta", emendou Sirius. Abriu novamente o sorriso enfraquecido que havia usado há pouco tempo. Um sorriso infeliz do qual Remo não gostava. "Mesmo que pareça ridículo... Essa carta me fez imaginar que só iríamos nos ver de novo daqui a vinte anos."
Remo pensou ter ouvido. Mas não era possível que tivesse ouvido aquilo. Não era possível... Porque não era possível que Sirius tivesse ido tão adiante. Não era possível que tivesse reparado que a única forma de ficarem juntos seria se Remo o levasse a seu tempo real — já que ele, Remo, tinha seu tempo se esgotando no passado. Não era possível que tivesse descoberto que o seu plano de reavivá-lo era também um plano para que finalmente pudessem ficar juntos, indefinidamente. Não podia ser que tivesse ido tão longe.
Instintivamente, fez um sinal negativo com a cabeça. Quanto ele já sabia? Quanto já havia descoberto das suas intenções? Foi a sua vez de recuar um passo, ainda com o sinal negativo em andamento.
"Remo... Você não faria isso. Tenho certeza que você não faria..."
Lágrimas voltaram a se formar sob os olhos cor de mel. Por telepatia, pelo ar ou pelo que quer que fosse, algumas delas pareciam ser transmitidas aos olhos do outro, que também já se umedeciam. Assim como fizera no Jardim das Sombras, Remo quis esconder o rosto nas mãos. Enterrar-se no chão.
"Sei que você está com raiva", murmurava o Black, e agora a sua voz também já carregava os traços nublados da tristeza. "Sei que você está com raiva, mas Remo... Eu não tive culpa... Não sei o que fiz... Você não pode fazer isso..."
As mãos do menor, enfim, foram instintivamente levadas aos próprios olhos. Era tão injusto. Para Remo, viajar vinte anos no tempo era dar um toque na varinha-portal. Já para Sirius, vinte anos eram vinte anos. Sete mil e trezentos dias. Cento e setenta e cinco mil e duzentas horas, contadas uma a uma.
"Não sou eu... Sirius... É o único jeito..."
"Remo, não sei o que fiz... Mas eu vou reverter... Vou dar um jeito de reverter, para você não querer fazer isso..."
Os soluços de Remo já compunham, além da voz de Sirius, o único som a ocupar o ar. Mas enquanto o outro suplicava-lhe daquela forma, e por mais que sentisse o peso do remorso, Remo percebeu que não era o seu rosto que devia estar escondido entre as mãos. Era muito mais velho que aquele Sirius Black. Muito mais velho, e precisava passar-lhe força.
Abriu o próprio campo de visão e puxou-o, dessa vez, para o seu próprio abraço. Sentiu-se pulsar em soluços juntamente com ele. Pela primeira vez naquele dia, não apenas cedia, mas era quem colocava em prática o contato com Sirius. Tinham apenas um ao outro para se consolar.
O Black ainda murmurava ocasionais "Por favor, não faça isso" quando Remo convenceu-o fisicamente a abaixar o abraço consigo, até que ambos se ajoelhassem e se sentassem sobre o chão. Beijos eram depositados em torno de todo o seu rosto molhado. O que doía mais em Remo não era apenas saber da dor que causaria ao outro — mas também a dor que sentiria sozinho, caso o plano falhasse e nunca mais viessem a se encontrar. Se Sirius não seguisse exatamente as instruções do bilhete — e, talvez, mesmo se as seguisse -, ele provavelmente não sobreviveria ao ataque na Sala do Véu.
Voltar ao futuro sabendo que tinha perdido novamente o Black, dessa vez sem chance de voltar ao passado para vê-lo... Uma ideia que doía tanto, que Remo automaticamente a afastava da própria mente, chorando apenas ao vê-lo chorar, já sem pensamentos concretos.
Quando ambos estavam já sobre o chão de terra úmida, a frequência das lamentos pareceu diminuir. Permaneceram apenas imóveis, os corpos colados um ao outro, enquanto o vento voltava a ser o único som audível. Remo fechou os olhos por um instante, sentindo apenas o roçar dos cabelos desgrenhados sobre sua bochecha. Mesmo se aquela fosse a última vez a senti-lo, já teria valido a pena.
Voltar ao passado desde o início... Desesperar-se repetidas vezes por tornar a ganhar e perder seus amigos em tempo tão curto... Acordar todos os dias sentindo-se fraco, todos os dias sentindo-se frágil quando o Black não amanhecia ao seu lado... Tudo já havia sido suficiente. Apenas para ter, por uma única vez, aqueles sentimentos por outra pessoa, já havia valido a pena. Voltar ao passado tinha ensinado-o a ser grato pelo que havia tido.
Quando tornou a abrir os olhos, viu a névoa branca tomando quase tudo ao seu redor. Todas as árvores das proximidades já haviam sido engolidas; as distantes torres do castelo de Hogwarts já não eram visíveis. Restava apenas Sirius Black, abraçado ao seu corpo, ambos em uma única ilha de cores que se erguia em meio ao caos branco.
Não teria tempo de ver Tiago ou Lílian. Não teria tempo de ver a forma antiga de Rabicho. Não teria tempo de entregar as cartas aos seus outros amigos, porque seu tempo ali havia se esgotado.
"Sirius...", murmurou, afastando-se um pouco para olhá-lo nos olhos. Assim que o fez, Sirius Black pareceu-lhe diferente. Pareceu-lhe... Pela primeira vez, pareceu-lhe um tanto mais envelhecido. Pela primeira vez, pareceu ser exatamente o Sirius Black que o acompanhava na idade; o Sirius que havia visto pela última vez em seu tempo real.
Arregalou os olhos na direção dele, assustado. Mas Sirius pareceu não corresponder à sua reação; talvez, fosse apenas algo da sua cabeça delirante. Apenas uma alucinação qualquer. O Sol e o céu já tinham sido engolidos pela névoa.
"Sirius... Tenho outras cartas... Outras cartas que você precisa entregar para mim", balbuciou, enquanto colocava as mãos no bolso e retirava as cartas de Lílian e Tiago. "Você e eles... Você e eles devem seguir as instruções escritas quando as cartas se revelarem. Você não pode deixar... Não pode deixar de entregar isso a eles."
As mãos trêmulas de Sirius alcançaram a carta enquanto ele assentia com a cabeça, recebendo aquela missão. Os olhos inchados agora direcionavam-se a Remo, ainda suplicantes, para que ele não se fosse.
"Você sabe...", murmurou Remo, lançando um olhar à imensidão branca para então voltá-lo ao maior. "Mesmo que tudo dê errado, Sirius... Mesmo que não possamos voltar a nos ver...", e pausou, a bola de sentimentos entalando-lhe a garganta. "Obrigado por tudo o que você fez por mim. Obrigado por ter me protegido. Eu não tenho nenhuma raiva de você. Eu só tenho amor por você."
Os olhos escuros, que antes pareciam embebidos em tristeza e sem brilho algum, iluminaram-se um tanto. Por mais que Sirius já as tivesse proferido, era a primeira vez que ouvia aquelas palavras de Remo. Utilizando-se das duas mãos, puxou o menor para que viesse com o rosto de encontro ao seu.
Ao sentir seus lábios tocando os do Black, Remo fechou os olhos.
Mantiveram-se naquela posição por um tempo que durou um segundo; ou uma eternidade. Remo manteve-se imóvel até começar a sentir um frio arrebatador. Manteve-se imóvel mesmo quando não sentiu mais o toque dos lábios de Sirius sobre os seus; mesmo quando o chão sob seus pés foi desaparecendo, fazendo com que seu corpo caísse vagarosamente em meio ao nada, flutuando em um túnel do tempo inteiramente branco.
Por mais que quisesse abrir os olhos e ver o que acontecia à sua frente, o medo agora dominava-o por completo. Sirius... Quando iria vê-lo de novo? Havia se despedido o suficiente? O suficiente para passar todo um resto de vida sem ele ao seu lado?
A coragem grifinória iluminou-se em algum ponto dentro do seu ser. Lentamente, Remo abriu os olhos mais uma vez. E a última imagem que viu foi uma figura prateada. Uma fumaça que antes era branca. agora reluzente em diversos tons de prata, ocupava tudo à sua frente. Emanava uma luz própria, como uma verdadeira estrela no céu noturno. Aos poucos, ocupava um formato melhor definido. O formato de um cachorro. O seu Patrono?
Um animal cintilante, elegante, que tanto quanto Remo, flutuava em meio ao nada. Trazia-lhe uma estranha felicidade. Uma sensação de que havia cumprido seu dever e de que tudo ficaria bem. Fosse ou não capaz de salvar a Sirius, ele estaria sempre ao seu lado — o Patrono era a prova disso.
Agora um tanto mais tranquilo, ansioso por poder tocá-lo, Remo estendeu uma mão em direção àquele enorme animal. Aproximou-se dele como por magia. As mãos abertas, a cada segundo, parecem mais perto de encostá-lo. Por fim, teve a impressão de que o conseguiu. Ou quase.
Pois no instante que alcançou o enorme cachorro reluzente, ele se desfez no ar. Dissipou-se em inúmeros e pequeninos pontos de luz que caíram como chuva sobre o corpo de Remo.
Perdeu a consciência em questão de segundos.
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