O Patrono Perdido
23 Capítulo 22: O Plano de Dora
Notas iniciais
Ninafora Tonks estava tensa. Muito, muito tensa, apesar do seu rosto aparentar apenas um leve rubor de agitação. Estava parada naquele mesmo cômodo no qual vira Remo pela última vez, a coluna muito ereta, a expressão um tanto séria. Parecia consciente de que estava prestes a levar uma bronca... Afinal, tinha feito arte.
À sua frente, estava o Professor Alvo Dumbledore. Ele a encarava com os olhos estreitos, cheio de suspeitas, as próprias mãos entrelaçadas às costas.
"Não consigo entender...", repetia ele, a testa franzida indicando que realmente quebrava a cabeça na tentativa de compreender o que havia acabado de acontecer. "Você sabe... Que alterar o passado pode ser muito perigoso..."
"Sim, senhor", respondeu ela, prontamente. Mas por mais que se esforçasse para parecer envergonhada por suas últimas atitudes, estava orgulhosa de si mesma. Sim. Sentia-se feliz porque, pela primeira vez em semanas, sentia-se capaz de ajudar Remo. Sentia que não era inútil ou impotente — finalmente, ela havia feito algo por ele. E pela causa de ver no rosto de Remo aquele antigo sorriso do qual sentia falta, Dora, que já não era nem um pouco moralista, quebraria muitas regras do Mundo Bruxo. Talvez tivesse dado uma boa Marota, afinal.
"Você sabe que pode colocar em risco a vida de muitas pessoas com isso?"
"Sim, senhor".
Dumbledore suspirou. Como lidar com aquela menina? Sabia dos sentimentos dela por Remo; sabia o quanto Dora havia se entristecido com os últimos acontecimentos a ele e que teria feito de tudo para ajudá-lo, mas aquilo? Ir tão longe assim, arriscando tantas pessoas? Ela era mesmo inconsequente. Ou talvez... Talvez fosse apenas corajosa. Enquanto a olhava e fazia aquele interrogatório, não conseguia sentir-se bravo com ela. Dora, afinal, tinha indiretamente aconselhado Remo a fazer algo que Dumbledore também gostaria que ele fizesse. Apenas não conseguia admitir aquilo em voz alta.
"Você pode me dizer de novo como fez isso?"
Ninfadora não teria contado a Dumbledore do seu feito. Teria deixado-o ainda como um fato oculto se não fosse a grande destreza do Diretor em perceber que Remo havia voltado ao passado rápido demais. Tinha passado por momentos traumáticos das últimas vezes em que havia voltado — e até mesmo Sirius Black tinha deixado um recado em sua varinha, alertando a Remo que não voltasse mais àquele tempo. Mesmo assim, não hesitara em voltar tão rápido quanto pudera. Aquilo só podia mesmo ter a mão de um segundo envolvido.
Tonks suspirou pesadamente antes de repetir toda a história.
"Eu descobri um jeito de permitir que Remo alterasse o passado. O Portal de Tempo bloqueava a ponte entre o passado e o presente sempre que ele tentava alterá-lo. Então... Remo ficava preso no passado e não conseguia mais voltar ao tempo de agora. Mas..." e deu uma pausa, retirando do bolso das vestes um pequeno papel dobrado. "Com isso, ele consegue alterá-lo e voltar normalmente ao nosso tempo atual."
"Eu escrevi um bilhete", continuou ela, enquanto entregava o pequeno papel ao Diretor, para que ele o analisasse. "Escrevi um bilhete que só poderia ser aberto em uma data específica, em um horário específico e por uma pessoa específica. Quando essa pessoa o abrisse, seguiria as instruções do bilhete e acabaria alterando o passado inconscientemente..."
"Uma brecha", interrompeu-a Dumbledore, olhando bem de perto aquele pequeno papel. "Você encontrou uma brecha no funcionamento do Portal de Tempo. Quando Remo altera o passado, a ponte se quebra. Mas você não o fez alterar o passado. Você o fez alterar..."
"O presente" completou Dora, de prontidão. "Ele abre o bilhete e toma sua atitude poucos segundos antes do fato acontecer. Como isso acontece poucos segundos antes, ou mesmo no exato instante em que o fato acontece, é como se Remo estivesse alterando um fato do presente ao invés de um do passado. Então, a ponte não se quebra e ele consegue voltar ao nosso tempo."
O Diretor não respondeu de imediato. Permaneceu calado por um tempo, os olhos distantes no horizonte, a respiração pesada indicando que estava longe, no mundo das ideias. Quando voltou a falar, ainda não encarava a garota.
"Um bilhete simples... Um bilhete simples, com uma magia simples de revelação de texto em um horário pré-determinado. Dora, isso é... Brilhante."
Ninfadora sorriu envergonhada e desviou os próprios olhos antes de murmurar um agradecimento.
"Quem te ajudou nisso?", retomou o homem, agora com os olhos novamente fixos em sua pessoa.
"Ninguém", emendou ela, mais uma vez agitada. "Eu pesquisei sobre viagens no tempo no Mundo da Magia e descobri que isso era possível."
"Pesquisou sobre viagens no tempo!", riu-se Dumbledore, parecendo se divertir. Ora, como se pessoas viajassem assim no tempo, livremente, no Mundo da Magia! Como se os livros referentes às raras e impossíveis viagens no tempo não fossem difíceis de serem achados e lidos! Aquilo era um verdadeiro absurdo. "Quem te ajudou?", insistiu ele.
"Ninguém", reiterou ela, muito séria.
"Isso é impossível. Mesmo que tivesse toda a coragem e toda a falta de bom-senso desse mundo, você precisaria testar sua teoria. Precisaria ter certeza de que quando a pessoa lesse o bilhete e tomasse sua atitude, aquilo não interferiria na ponte entre passado e presente. Precisaria testar sua hipótese em alguém que não fosse Remo. Se testasse nele de uma só vez, não seria um teste. Ele correria o risco de ficar preso de novo no passado."
Dora fez menção de abrir a boca, aflita, mas foi brutalmente interrompida pelo homem, que continuou:
"Mas não é só isso. Você precisaria ter conhecimento de um fato muito marcante, mas não tão perigoso, que tivesse acontecido naquela época. Precisaria saber o exato local onde esse fato aconteceria, a exata hora dele, quais pessoas exatamente estariam envolvidas. Só assim poderia colocar no bilhete instruções que impedissem esse fato de acontecer. Mas você não estava em Hogwarts nessa época, Dora. Quando Remo tinha quinze anos, você provavelmente tinha apenas dois ou três. Você não pode ter tido conhecimento de nenhum fato tão específico naquela época, nem poderia ter testado sua teoria diretamente em Remo. Você precisou, no mínimo, de um informante com idade suficiente para te contar os detalhes sobre esse fato. Portanto, quem? Quem te deu essa informação?"
Mas então, foi interrompido pelos próprios pensamentos. A sua expressão, que antes estava pesada e confusa, se iluminou. E conforme sua respiração tomava mais uma vez o compasso sereno que lhe era característico, chamou:
"Saia daí de trás, Severo. Venha se juntar a nós."
Com passos rápidos e pesados, Severo Snape, que mais se assemelhava a um vulto preto e um tanto alto, saiu de trás da parede que separava o cômodo do ambiente adjacente. Para a surpresa de Dumbledore, parou bem ao lado de Dora, de frente para o Diretor. Mas não encarava nenhnum deles, tendo conhecimento das possíveis consequências de sua atitude.
É claro. Severo Snape.
Severo era, de todas as opções possíveis, a única presente na Ordem da Fênix que tinha tido muito contato com os Marotos em sua época de Hogwarts. De todas as opções, ele era o único que podia ter sido marcado profundamente por um acontecimento trivial que tivesse ocorrido naquele tempo. Mais especificamente, um acontecimento trivial com Lílian Evans. Sim. Certamente, Lílian então havia sido a pessoa escolhida para que aqueles dois testassem sua teoria. Livrando-a de um pequeno acidente qualquer do cotidiano por fazê-la ler o bilhete no local e momento perfeitos, Snape e Ninfadora haviam auxiliado Remo a alterar o passado — ou melhor, o presente, já que ela certamente havia seguido as instruções do bilhete no exato momento do acidente, bem a tempo de evitá-lo. Era a única possibilidade.
Snape era, além de Dora, a única pessoa que tinha profundo interesse na mudança daquele passado. Enquanto ajudava Remo a descobrir como faziam para alterá-lo, enchia-se da esperança de que talvez pudesse mudar o destino de Lílian e salvá-la da morte, se a história do bilhete funcionasse mesmo.
"Severo...", disse Dumbledore, bem-humorado. "Desde que Remo voltou no tempo, tenho esperado muitas coisas improváveis. Mas a mais improvável de todas é de que vocês dois trabalhariam juntos, afinal, por essa causa."
Severo Snape e Ninfadora Tonks eram exatos opostos, é claro. Não era nem mesmo necessário mencionar que não se davam nem um pouco bem e que pouco tinham contato entre si. Mas ao menos em um ponto, aparentemente, concordavam: ambos queriam o melhor para suas pessoas queridas e lutavam por aquilo. Dora na esperança de ver alegria nos olhos de Remo, Severo na esperança de ver Lílian viva mas uma vez, ambos tinham motivo para desejar a alteração daquele passado.
"Bem!", exclamou o Diretor, finalmente. "Acho que nos resta fazer pouco além de esperar que Remo volte e nos mostre que fim teve essa história. Se ele tiver alterado o passado e mesmo assim conseguir voltar ao nosso tempo sem precisar reverter a situação, com certeza o plano terá funcionado... Só espero que ele não fique preso de novo e precise fazer alguma loucura para voltar ao presente... Ah, Dora. Mais uma coisa. Você o convenceu usando meu nome?"
Ninfadora arregalou os olhos pretos e brilhantes na direção de Alvo.
"E-eu... Bem... Se dissesse a Remo que tinha sido ideia nossa, ele provavelmente não confiaria, então... Eu disse que você é quem tinha enviado o bilhete."
Alvo suspirou mais uma vez, antes de olhar para Severo e concluir:
"Vamos esperar pelo melhor."
~*~
Remo despertou quando sentiu sobre sua pele o calor dos primeiros raios de Sol. Manteve os olhos fechados com mais força por algum tempo antes de abri-los de uma vez. A superfície sobre a qual se deitava era dura e fazia com que suas costas doessem um pouco. Onde estava?
Pela pouca claridade que havia no cômodo, pôde decifrar: ainda estava na Casa dos Gritos. Percebeu que o calor que sentia nos braços vinha mesmo da luz solar; mas essa adentrava a casa apenas por meio de pequenas frestas que se sobressaíam às janelas vedadas. Para sua sorte, não parecia haver névoa que o perseguisse naquele dia, o que provavelmente significava...
Com pressa, procurou-o. Demorou poucos segundos para achá-lo. Sirius Black, assim como ele próprio, estava deitado no chão do quarto. A cama estava vazia e Remo não pôde deixar de sorrir, quase bem-humorado, ao notar que ambos haviam terminado a noite de transformações no chão.
Sirius ainda dormia pesadamente, um tanto afastado de Remo. Aquilo era atípico para sua pessoa — geralmente, o Black, muito agitado, era o último a dormir e o primeiro a acordar dentre todos os Marotos. Era possível que o lobisomem Remo tivesse lhe dado tanto trabalho a ponto de deixá-lo cansado daquela maneira?
Remo surpreendeu-se com seus pensamentos tão precocemente positivos. Era estranho sentir-se relativamente feliz naquela manhã, mas que podia fazer? Era bem verdade que seu tempo naquele passado estava acabando e que logo teria que tomar a pior das decisões que já haviam perpassado sua mente; mas, pela primeira vez em muito tempo, estava quase otimista. Afinal, como poderia não se sentir feliz quando via o Black dormindo assim ao seu lado?
Sem absolutamente nenhuma coberta e ainda somente com as roupas debaixo cobrindo seu corpo, Sirius permanecia com a expressão distante, serena, a respiração profunda o suficiente para fazer com que o outro desejasse aproximar-se mais e abraçá-lo. Cabelos desgrenhados soltos no chão, Sirius costumava dormir de bruços. E Remo quase se emocionou ao notar que, mesmo após vinte anos, ainda tinha privilégio de vê-lo daquela forma.
Mas não tinha tempo para ser tão emotivo. Era dia de semana e teriam aulas ainda naquela manhã. Ademais, ausentarem-se em conjunto do café da manhã no Salão Principal era suspeito demais depois dos últimos acontecimentos. Precisavam se apressar.
Também semi-nu, mas enrolado em diversas roupas de cama, Remo começou a procurar suas vestes. Mesmo após aquela transformação, seu corpo estava cansado, mas não havia mais dores como na noite anterior. Talvez estivesse voltando a se acostumar com sintomas da Licantropia na adolescência. Ou talvez... Bem, ou talvez aquele fosse apenas o efeito que Almofadinhas causava em sua pessoa.
O quarto estava uma desordem; um verdadeiro caos. A pequena mesa de cabeceira estava virada sobre o chão e havia também cobertas por todos os lados, como se houvesse camas suficientes para todas aquelas mantas. Havia também... Papéis. Pequeninos papéis, cuidadosamente dobrados, espalhados por todos os quatro cantos do cômodo. Remo já tinha visto aqueles papéis antes. Eles eram... Eles eram... Oh, não.
Lembrou-se. Aqueles eram os papéis nos quais Remo e Sirius haviam, há muito tempo, escrito seus desejos. Eram os papéis que tinham sido juntados e guardados naquela caixa de tampa de lebre — justamente a caixa que portava a varinha de Sirius no ano de 1995. Era possível que a transformação tivesse sido violenta a ponto de Remo acidentalmente revirar aquela caixa?
Droga. Aqueles papéis não era apenas como as cobertas ou a mesa de cabeceira. Eles eram... Bem, eram importantes. Tinham um valor emocional. E mesmo Remo estando um tanto atrasado para o café da manhã, não podia simplesmente deixá-los no chão daquela forma.
Suspirou, incomodado com o fato de estar incomodado. Por que sempre tinha que se preocupar com tudo? Sem chances de lutar contra sua própria natureza, começou a coletar os papéis, um por um, tentando não acordar Sirius — que parecia estar mesmo longe do momento de despertar.
Coletou um, dois, três, quatro... De repente, parou. Encontrou ao pé da escadaria a caixa de lebre. Estava mesmo aberta, e tampa residia jogada no outro lado do quarto. Mas havia algo errado.
Curioso, Remo aproximou-se da caixa. Lá estava ela, tal e qual sempre, agora totalmente vazia de pequenos papéis. Mas, ao lado do objeto de madeira, havia algo a mais. Era... Uma outra caixa? Não. Um recipiente. Um recipiente também retangular, de madeira, também aberto. Um recipiente um pouco menor que a caixa original e que parecia caber perfeitamente dentro dela, como tivessem sido calculados um para o outro.
Percebeu.
Não. Não era possível. Devia ser apenas um fruto da sua imaginação.
Jogou todos os papéis para cima e ajoelhou-se ao lado da caixa com tamanho estrondo, que mesmo Sirius Black pareceu acordar e resmungar algo. Atônito, Remo pegou o recipiente de madeira e tentou enfiá-lo dentro da caixa aberta. Coube perfeitamente. Tinham mesmo sido planejados um para o outro.
"Não..." murmurou para si mesmo, confuso com os próprios pensamentos. Era possível que estivesse percebendo só agora que aquela caixa de lebre tinha um fundo falso? O recipiente que tinha em mãos e que agora colocava e tirava incessantemente de dentro da caixa original era apenas um fundo falso, muito mais raso que o fundo verdadeiro da caixa. Mas aquela... Bem, aquela era a caixa na qual sempre estava a varinha-portal no tempo real de Remo. Aquilo significava...
Que a caixa podia guardar algo mais em seu interior? Algo que vinha permanecendo fora da visão de Remo, e que só agora ele contava com a possibilidade de encontrar?
"Remo..." murmurou o Black, com a voz um tanto sonolenta. "Que você está fazendo aí...?"
Lembrou-se. No seu último encontro com Ninfadora, ela havia eventualmente dado algumas batidas de mão sobre a caixa. Remo lembrava-se de ter ouvido um som estranho, como se a mesma estivesse parcialmente vazia em seu interior. Dora sabia do fundo falso? Estava tentando avisá-lo?
Seu coração acelerou. Se Sirius tinha mesmo apagado sua memória, era possível que tivesse deixado alguma explicação no fundo verdadeiro daquela caixa? Um fundo ao qual Remo ainda não tinha tido acesso no seu tempo real? Suas mãos passaram a suar. Havia, afinal, a possibilidade de Black ter premeditado tudo aquilo. Ter deletado sua memória e enviado aquela caixa do plano dos mortos, justamente com uma explicação atrás do fundo falso do porquê estava devolvendo a chance de recuperar suas lembranças...
Não. Por Merlin, não. Estava delirando. Cogitar que Sirius estava enviando algo do plano dos mortos... Devia mesmo ter batido com a cabeça em algum momento. Precisava se acalmar. Precisava relaxar...
"Remo", chamou o outro pela última vez, a voz já grave e desperta.
Com o susto, Remo deixou a caixa e o fundo falso caírem no chão, causando um barulho maior ainda. Virou-se para olhar o Black.
Sirius já estava acordado e sentado sobre o chão, os olhos escuros preocupados na direção de Lupin, exatamente como se lessem seus pensamentos.
"O que você tem?", insistiu.
Naquele momento, Remo concluiu: não podia mais mentir. Não podia mais fingir que estava tudo bem e omitir os fatos; não podia mais afastar o Black de si, como se a preocupação dele não valesse de nada. Estava cansado de mentiras. Trêmulo, apontou a caixa caída sobre o chão. Mas tudo o que Sirius fez foi observá-la e voltar a encará-lo, sem entender o motivo de tudo aquilo.
"Nós podemos pegar esses papéis", sugeriu, como se aquele fosse o motivo do nervosismo de Remo.
"Sirius... Você escolheu uma caixa com fundo falso."
Sirius piscou algumas vezes, incerto.
"Como é?", perguntou ele.
"Você não vê?"
Irritado, Remo insistiu em apontar a caixa sobre o chão. Por que ele o olhava daquela maneira? Por que o olhava com inocência, como se não soubesse do que se tratava? Como se não tivesse culpa?
Uma parte de Lupin queria mesmo obrigá-lo a dizer por que tinha causado tudo aquilo; por que raios e como, como tinha apagado as suas malditas memórias e resolvido devolvê-las do dia para a noite. A outra parte... Bem, a outra parte sentia-se culpada, como sempre. Sentia-se culpado por acusar Sirius de algo que não tinha certeza; e mais do que isso, acusá-lo de uma coisa que Sirius nem sabia ainda que faria, dali a alguns anos.
Percendo que algo estava subitamente muito errado, Sirius ergueu-se do chão. Exatamente como havia feito na noite anterior, tentou uma aproximação — mas essa foi imediatamente barrada por Remo. Fosse porque o Black tivesse acabado de despertar ou por Remo agora ter provas que falavam em favor de sua teoria de que ele era o causador de tudo aquilo, os braços de Aluado foram fortes o suficiente naquele dia para empurrar o maior, antes mesmo que ele tentasse uma aproximação efetiva.
Estava tão perdido. Estava dividido. Cada gesto que fazia contra Sirius parecia ser um movimento contra si próprio — contra suas próprias vontades. As palavras de afeto que ele tinha lhe direcionado na noite anterior ainda ecoavam na sua mente. Em um momento de síncope, tinha dito a Remo que o amava. E, ainda assim, era o principal suspeito. O único suspeito.
Talvez se Remo fosse embora rápido o suficiente. Talvez se fugisse dali o quanto antes e tentasse de novo destruir aquela varinha... Talvez se ele próprio fosse capaz de apagar suas recém-recuperadas memórias e tirar Sirius à força da sua mente. Toda sua vida progressivamente girava em torno dele — mas Sirius nem sequer estava vivo no tempo real.
Para sua sorte, ou fosse lá como se chamava aquilo, o maior logo desistiu da aproximação, derrotado.
Sirius direcionou ainda o olhar ao chão, percebendo que não podia mais adiar a dura realidade: Remo não ficaria. Não podia ficar. E ao vê-lo daquela forma, e vendo que era o causador de tudo aquilo, Aluado sentia-se cada vez pior.
"Preciso ir embora", disse, prontamente.
Sirius assustou-se com aquela declaração tão súbita. Tentou mais uma vez:
"Me deixa falar com você."
Se ao menos pudesse levá-lo consigo...
"Preciso ir embora."
Precisava ir. Precisava ir rápido, antes que cedesse. Antes que mais uma vez se desdobrasse às vontades de ambos e adiasse novamente aquela situação. Agora precisava ir embora e descobrir o que Sirius escondia naquela caixa — se é que escondia alguma coisa. Não havia outra opção.
Visivelmente deprimido e agora sem nem mesmo encará-lo, Sirius estendeu a varinha-portal em sua direção.
"Tem razão", disse ele. "Você precisa ir. Ficar aqui não te faz bem."
Hesitantes. As mãos de Remo se abriam e fechavam no ar, aflitas. Pareciam ter vontade própria e definitivamente não queriam pegar aquela varinha. Mas precisavam. Mordendo os lábios, Remo lutou contra si mesmo e ergueu-as à força, com alguma dificuldade. Ainda estavam trêmulas quando se aproximaram consideravelmente do Portal, e a voz de Sirius ecoou no quarto:
"Você vai voltar?"
Remo abriu e tornou a fechar a boca por algumas vezes, sem coragem de responder o que deveria. Independente do que descobrisse na caixa de lebre; independente de ter ou não recuperado todas as suas memórias; independente dos sentimentos que tinha desenvolvido pelo Black, o certo era não voltar. Ou, ao menos, dizer que não voltaria. Mas Remo não conseguiu fazê-lo.
Com a garganta já seca e a umidade concentrando-se progressivamente nos olhos, permitiu-se ser sincero com ele naquele dia. E respondeu, com a voz embargada:
"Tão rápido quanto eu puder."
Dois pares de olhos, então, se encontraram. A vontade de se afastar dele já não existia. E era provável que todo seu corpo exalasse seus reais desejos, porque o olhar de Sirius mudou de alguma maneira em sua direção, mais uma vez tornando-se receptivo. Não esperaram mais respostas.
Também tão rápido quanto pôde, o Black puxou-o para um abraço.
Ao se ver sendo finalmente envolvido por ele mais uma vez, Remo sentiu suas pernas vacilarem. Cedeu ao abraço. Mas o cheiro calmante de Sirius já não estava mais sendo suficiente para aliviar o peso que carregava.
Fechou os olhos, tentando prestar atenção suficiente naquele toque para não mais esquecê-lo. E quando teve a certeza de que não o esqueceria, obrigou-se a tocar a varinha.
Em uma fração de segundos, deixou o abraço de Sirius para viajar vinte anos adiante no tempo.
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