O Patrono Perdido

3 Capítulo 2: A Volta ao Passado


Notas iniciais
Olá aos meus novos e queridos leitores! Gratidão enorme a todos os que passaram a acompanhar essa história, e uma maior ainda aos que deixaram comentários! Como eu disse, esse capítulo é um pouco maior do que as partes anteriores, mas, a partir dele, todos têm essa mesma média de tamanho (espero que vocês gostem de ler bastante, hihi). Por favor continuem deixando reviews, eles fazem meu dia mais feliz.

O ar parecia rarefeito. Ofegante, Remo Lupin nem sequer podia sentir o oxigênio entrando pelos seus pulmões. As pupilas estreitadas foram dilatando-se conforme ele se dava conta de que estava no absoluto escuro.

"Não..." murmurou, não conseguindo evitar o pensamento alto. Onde estava? Estava perdido. A varinha fora mesmo um portal, e agora estava perdido. Caíra na armadilha. "Não... não...", repetia enquanto, desesperadamente, procurava a varinha nas vestes. Não estava lá. Enquanto apalpava a si mesmo, percebeu que não estava mais com as vestes que antes estivera; haviam trocado suas roupas?

"Não...". A adrenalina e o medo correndo pelas suas veias eram tamanhos, que não conseguia raciocinar. Não conseguia ter ideias. Suplicava a si mesmo que estivesse sonhando quando, por um acaso, encostou sua mão em uma superfície plana e identificou, pelo tato, uma varinha. Torcendo para que fosse a sua, empunhou-a à sua frente. Não conseguia definir o que seria ou não prudente naquela hora, então apenas gritou: "Lumus!".

A luz que saiu da ponta de sua varinha apenas serviu pra deixá-lo ainda mais desesperado: enxergou, a uma proximidade considerável, um homem deitado e virado de costas para si. Apavorado com o susto súbito, Remo gritou. E para a sua mais profunda assombração, o homem pareceu acordar, e agora gritava também, virando-se na sua direção.

Os dois permaneceram gritando por alguns instantes. Na tentativa de se afastar daquilo, Remo recuou e caiu da curta superfície na qual se encontrava, batendo a coluna no chão. De repente, a luz do quarto no qual estava foi acendida.

"P-PETTIGREW!" gritou, dando-se conta de quem acendera a luz do quarto com um movimento de varinha era Pedro Pettigrew, agora um cúmplice desprezível do Lorde das Trevas. "Expelliarmus!", exclamou então, produzindo um feitiço que jogou longe a varinha de Pettigrew.

"QUAL É, REMO?!" gritou também Pettigrew, agora desarmado. "O que deu em você?!"

Remo ergueu-se rapidamente do chão, a varinha agora apontada para a garganta do outro.

"O que você quer comigo?" perguntou, em tom ameaçador. "Por que você me trouxe aqui?"

"Remo, eu não te trouxe, cara!", defendeu-se Pedro, erguendo as duas mãos em um sinal de redenção. "Você pirou, Remo! Você está fora de si, parceiro!"

"Não me chama de parceiro!" gritou Lupin, ameaçando aproximar mais ainda a varinha de Pedro. O outro encolheu-se, mas persistiu:

"Você não é mais meu parceiro agora, Remo?!"

Então, os níveis de adrenalina começaram a baixar no organismo de Remo Lupin. E quando o excesso de adrenalina cai, as pessoas voltam a si, e dão-se conta de coisas que antes passavam despercebidas.

Ele ainda encarava aquele sujeito traíra, desprezível, trapaceiro, quando compreendeu que algo estava errado com aquele Pedro Pettigrew. Aquele Pettigrew não estava calvo em diversos pontos da cabeça, não. Ele não fedia a urina de rato, e suas unhas e dentes não estavam, respectivamente, compridas e amarelados.

"Remo... mas o que... por você está me olhando assim?"

Ao invés daquilo tudo, da imagem nojenta que Remo atribuía ao seu ex-amigo, ele agora via outra coisa. Pettigrew trajava um pijama de mangas longas e ligeiramente apertado, em tons de vermelho. Seus cabelos curtos possuíam uma cor viva de castanho, e os grandes e arrendados olhos tinham um ar de curiosidade. Sua pele não era feia e enrugada. E, mais importante do que tudo, todos os dedos da sua mão direita estavam intactos. Pedro Pettigrew estava jovem.

Os joelhos de Lupin vacilaram. Seus olhos não acreditavam no que viam. Sua mão também fraquejou, e por pouco a varinha não caiu no chão. Com os olhos arregalados na sua direção, as pupilas dilatadas em um conjunto de medo e surpresa, Remo gaguejou o antigo apelido de seu parceiro Pettigrew:

"R... R-Rabicho?"

Rabicho pareceu aliviado:

"Caramba, Remo! Você quer me matar do coração? Achei que você estava possuído, ou sei lá!"

Enquanto o mais baixo contava de seu susto, Lupin correu os olhos pelo cômodo onde se encontravam. Dispunham-se, no pequeno cômodo, quatro camas cujas roupas vermelhas caíam desajeitadamente sobre um chão de madeira. A um canto do recinto, quatro duras malas amontoavam-se, e Lupin chegou a reconhecer uma delas como sua própria. Eram também quatro as mesas de cabeceira que sustentavam igualmente quatro abajures individuais — que não eram ligados em tomada, mas bastava um toque de varinha para que se acendessem ou apagassem -, e imperava sobre a parede uma gigantesca janela em forma de vitral.

Uma vez mais, Remo sentiu sua consciência entrando em completo apagão. Estavam em um dos dormitórios masculinos da Torre da Grifinória, em Hogwarts.

O desespero apossou-se dele:

"Não", murmurou, enquanto revistava freneticamente suas vestes em busca do portal que o trouxera ali. "Onde está? Onde está?", repetia, mais para si mesmo do que a Pedro, pois o amigo pouco parecia capaz de ajudá-lo.

"Onde está o quê?"

"O portal!", gritou Remo, agora ajoelhando-se ao lado da sua cama para procurá-lo embaixo da mesma.

"Que portal, Remo?", insistiu Rabicho, agora aparentando muito mais do que uma simples preocupação.

Lupin parou o que estava fazendo e encarou o amigo antes de exclamar, como um último recurso:

"A varinha de Sirius!"

Pettigrew pareceu um tanto surpreso com a resposta. Adquiriu uma expressão de desconfiança e deu de ombros, antes de responder:

"Bom, se é a varinha do Sirius que você quer, claro que ela está com Sirius mesmo."

"Sirius... Black? Sirius Black está aqui?"

"Mas é claro que Sirius está aqui! Onde mais ele estaria, parceiro?"

Remo sentou-se no chão. Sirius Black, um de seus maiores amigos, que deveria estar morto há uma semana, tinha ressuscitado do mundo do além. É claro que aquilo tudo — a aparência de Pettigrew, o fato de estarem juntos em um dormitório da Grifinória, a sobrevivência de Sirius — só poderia significar uma coisa.

Já esperando pelo pior, Lupin olhou lentamente o verso de suas próprias mãos. Jovens. Não havia ruga alguma, não havia queimaduras, não havia nenhuma marca sequer além de um único e pequeno corte, provavelmente provocado por ele próprio, em uma de suas transformações. Um corte que, se estivesse em seu tempo, seria já uma cicatriz. Mas não era ainda uma cicatriz.

Remo tocou o topo de sua cabeça e o excesso dos seus próprios cabelos o assustou. Não parecia mais estar enfrentando uma queda de cabelo, já que, pelo tato, certificava-se de que os fios saudáveis estavam intactos.

Por fim, tocou seu próprio rosto. As mãos não se depararam com nenhuma ruga tampouco. A sua pele macia e extremamente rejuvenescida tinha retornado, e ele estava sem bigodes.

Enquanto dava-se conta do que de fato estava acontecendo ali, percebia que Rabicho ainda falava, igualmente desamparado com a situação e com as reações do amigo — e a verdade era que, confuso como estava, Lupin não podia prestar atenção a todas aquelas palavras, mas conseguia captar algumas no ar, perdidas. Elas eram:

"Remo, eu não sei o que deu em você... Essa história de portal... Você me atacou do nada..."

A cabeça agora doía insuportavelmente. Mas foi impossível desistir de prestar atenção quando Rabicho pronunciou o grand finale, causando em Lupin um fechamento súbito dos olhos e a sensação de que era atacado com um balde de água fria:

"Talvez, quando Sirius e Tiago chegarem, você possa pedir a eles..."

Lupin ergueu-se em um pulo do chão, já sussurrando e assustando o pequeno Pettigrew:

"Não. Eu não vou estar aqui quando Sirius e Tiago chegarem. Eu estou caindo fora."

"Remo... Remo!", gritou Rabicho. "Onde você vai?!"

Mas Remo já tinha saído do dormitório quando gritou-lhe de volta: "Até Dumbledore!", e então, o restante saiu-lhe como um murmúrio, mais para si do que para o outro: "Só ele pode me explicar que droga de Portal é capaz de atravessar vinte anos no tempo."

"Remo, é madrugada! Você está de pijamas!"


Remo chegou à escadaria que ligava o piso dos dormitórios masculinos à Sala Comunal da Grifinória e, agarrando-se ao corrimão para não tropeçar nos próprios pés — tamanha a pressa e a agonia em que se encontrava -, começou a descê-los, não um por um, mas dois ou três de uma só vez, porque não lhe saía da cabeça a certeza de que alguma coisa estava muito errada. Se os seus conhecimentos de trinta e cinco anos valiam-lhe de algo, sabia que era impossível voltar no tempo por meio de um Portal; era preciso um Vira Tempo, e voltar poucos dias ou horas no tempo com um instrumento como aquele já era suficientemente complexo. Voltar vinte anos parecia-lhe surreal.

Ademais, com o uso de um Vira Tempo, o manipulador não rejuvenescia. Via a si mesmo mais jovem, mas como outra pessoa. Assumir o seu próprio corpo vinte anos antes não apenas parecia impossível pelo seu bom senso, mas também pelo seu conhecimento em magia. Dessa forma, a única possibilidade palpável era que tudo ali não passasse de uma simples ilusão.

Uma ilusão causada por um objeto mágico capaz de fazê-lo, como um Espelho dos Sentidos... Ou, mais do que isso, e infinitamente mais provável, um Portal que o tivesse transferido a um local onde sua mente estaria muito mais vulnerável e muito mais penetrável. Um caso de Legilimênicia organizada e avançada.

Quando Lupin estava prestes a terminar a escadaria e chegar à Sala Comunal, o pior enfim aconteceu: começou a ouvir, do outro lado da porta guardada pela Mulher Gorda, dois timbres de voz extremamente familiares. Sirius e Tiago Potter com certeza haviam chegado — sabe-se lá de onde — e estavam prestes a dizer a senha e entrar no cômodo onde ele se encontrava.

Por mais um momento, Remo não soube o que fazer. O desejo de permanecer ali e simplesmente esperar que a porta fosse aberta era maior do que qualquer outra coisa, pois a saudade que tinha de seus amigos falecidos era gigantesca, e talvez estivesse a um único passo de saciá-la. No entanto, era aquela a atitude mais sensata a se tomar? E se estivesse, cada vez mais, afundando-se numa armadilha do Lorde das Trevas? E se aqueles, que pareciam seus antigos amigos, não passassem de marionetes cujos manipuladores estavam além de seu campo de visão?

Estava decidido. Iria esconder-se atrás de uma das poltronas próximas à lareira, esperá-los passar e retomar o seu trajeto.

"Pena de Sangue", murmurou um deles à Mulher Gorda.

No entanto, Remo Lupin não conseguiu. Por mais que tivesse o plano claro em sua mente, suas pernas recusaram-se a tirá-lo dali. E o máximo que pôde fazer, quando a passagem se abriu e Tiago Potter e Sirius Black apareceram como almas verdadeiramente encarnadas na sua frente, foi agachar-se e ajoelhar-se sobre os degraus, de forma que teve a certeza de que teria algum tempo sem ser percebido por aqueles dois que entravam.

O restante foi como um sonho. Ou uma alucinação. Ou simplesmente uma visão alterada da sua própria memória. Quando seus olhos apavorados caíram sobre a imagem de Sirius Black, quase não reconheceram o que viram:

Longos e desgrenhados cabelos alcançavam os ombros de Sirius, e não estavam ralos ou falhos como passaram a se apresentar depois da sua estadia na prisão. A cor preta dos seus fios pareciam formar um conjunto perfeito com os olhos escuros e maliciosos, fugidios, que correram rapidamente pela sala apenas para verificar que ninguém estava ali. Felizmente, os olhos ainda não haviam encontrado Lupin quando, encarando aquela imagem antiga, remota, quase já inexistente no baú das suas memórias, Remo quase lembrou-se daquele outro Sirius que observava. Uma emoção avassaladora tomou posse do seu peito, porque via agora que, no passado, Sirius Black permanecia como sua alma realmente era: uma mistura de apatia e extremo interesse, um paradoxo que Remo nunca conseguira realmente desvendar, já que, passando duas sensações ao mesmo tempo, a expressão de Sirius Black quase nunca transmitia os seus reais pensamentos.

Sirius Black não era mais o homem de esperanças dilaceradas que caminhara para a morte na Sala do Véu; não era mais o homem que passara metade da vida aprisionado, não; agora parecia vivo, cheio de coragem e ousadia, e, acima de tudo, cheio da raiva que pertencia naturalmente à sua personalidade quando jovem. Tratava-se uma raiva insaciável, uma inquietação admirável, que Remo conhecera naqueles olhos desde a primeira vez, quando se encontraram em Hogwarts aos 11 anos — e que se perdera justamente com o restante da maioria dos seus sentimentos, em algum corredor de Azkaban, depois dos incontáveis desastres que haviam permeado a injusta vida que levara. A vida perdida em 1995.

A vontade de Remo Lupin era chorar ao vê-lo, e talvez abraçá-lo. Mas as duas possibilidades estavam distantes demais daquela realidade, pois o pavor que sentia de toda aquela situação era maior do que a sua alegria em rever um velho amigo.

Observando agora com maior atenção, Remo deu-se conta de que o sujeito que estava do lado de Black — e o qual Lupin evidentemente evitava encarar — carregava nas mãos pálidas um pequeno frasco verde-fluorescente, o que explicava o motivo de terem saído sozinhos, provavelmente em plena madrugada e sem chamar atenção dos outros alunos: uma poção certamente roubada do acervo do Professor Slughorn. Tiago Potter e Sirius Black eram peritos naquele tipo de atividade. Mas enquanto deduzia todos aqueles fatos em questão de segundos, dando-se conta de que talvez tivesse mesmo voltado ao passado, um movimento errado de um dos pés de Lupin fez com que um dos degraus da longa escadaria rangesse.

Rangendo o degrau, os olhos negros de Sirius encontraram o pequeno Lupin no instante seguinte, seguidos de perto pelos olhos igualmente atentos de Tiago Potter.

Lupin congelou na posição, enquanto passava a ouvir o murmúrio baixo produzido pelos lábios de Sirius Black:

"Ora...", disse ele. "Vejam se não é o monitor traíra... Resolveu sair pra nos delatar, Remo?"

Mas exatamente do que ele estava falando? Por que iria delatá-los? Uma sensação de iminente perigo tomou conta do seu ser, já que não era com a expressão mais serena do mundo que Black o encarava.

"Não", murmurou Tiago. "Remo, você não saiu pra fazer isso... saiu?"

Agora tornava-se impossível evitar a imagem de Potter. Quando Remo o olhou, foi sorte sua já estar ajoelhado — senão, com certeza teria caído com a surpresa.

Tiago Potter tinha os olhos um pouco menos indiferentes do que os de Sirius. Os seus, azuis como o céu em um dia perfeito de verão, quase tentavam fingir alguma empatia pelos inimigos apontados por Black. Carregava consigo um ar de determinação, quase aparentava ser realmente responsável, mas a sua responsabilidade, sabiam os próximos, era fachada. Óculos de fundo de garrafa envelheciam o seu rosto juvenil, mas Tiago quase sempre trajava um sorriso sincero nos lábios, como quem não se importasse realmente com qual imagem estava passando.

Remo tentava dizer que tudo não passava de um mal entendido, mas os seus lábios não conseguiam terminar o movimento, nem tampouco as cordas vocais colaboravam. E se fosse Legilimência? E se estivesse sendo manipulado? Com o canto dos olhos, viu que Sirius segurava a sua varinha. A varinha-portal. Então, em único movimento, Remo empunhou a sua e o desarmou, declarando: "Expelliarmus!"

Mas o feitiço que vociferou deveria ser feito com grande precisão; sob grande tensão emocional, com mãos trêmulas e o psicológico visivelmente abalado, o bruxo que o executava de forma pouco precisa acabava por atirar seu oponente longe. E lá se foi Sirius Black na direção oposta de sua varinha: enquanto ela voava pelos ares em direção a Remo, Black era lançado brutalmente no chão, em direção oposta. Espatifaram-se, em suas respectivas posições, no mesmo instante.

Lupin correu desesperadamente na direção daquela varinha enquanto escutava Sirius Black gritar "ELE ME ATACOU!", e Tiago gritar também alguma coisa que não conseguiu ouvir. Quando finalmente chegou à proximidade dela, tropeçou nos próprios pés e caiu no chão, e foi arrastado levemente para trás, em um movimento de varinha de Tiago Potter. Antes que se pudesse levantar, Potter tomou a frente, agarrou a varinha do chão — e ao ver que era agora na sua direção que Remo apontava a varinha, gritou também: "Expelliarmus!", terminando por lançá-la longe, mas mantendo-o intacto à sua frente, ainda que no chão. Desde que eram muito jovens, Tiago era claramente mais rápido com a varinha — mas Lupin ficava um tanto frustrado em perceber que, mesmo com a experiência de quase quarenta anos nas costas (contra apenas dezesseis anos de Tiago), o outro ainda era mais rápido.

Remo Lupin falhara. Com o canto dos olhos, via Sirius caminhar na sua direção, meio manco, enquanto perguntava a Potter: "Ele conseguiu?", e Tiago respondia: "Não." Quando os dois aproximaram-se e olharam-no de cima, a proximidade entre eles fez um arrepio percorrer a espinha de Lupin. Era como olhar duas almas penadas, mas extremamente rejuvenescidas, que o encaravam de forma desconfiada e ameaçadora.

"Você acha que é ele mesmo?", perguntou agora Tiago, dirigindo-se ainda ao amigo.

"Não", respondeu Black. "Não é ele. É uma daquelas cobras", completou, referindo-se aos sonserinos. E então, olhando Potter, que por sua vez mantinha os olhos assustadoramente azuis fixos em Remo — que ainda permanecia no chão -, perguntou: "O que vamos fazer?"

"Vamos levá-lo pra cima."

Simultaneamente, dois pares de braços ergueram Remo Lupin em um pulo, e arrastaram-no, à força, ao topo da escadaria que levava ao dormitório.


Quando entraram novamente no dormitório, Rabicho, que assumia a forma de um rato sobre a cama, transfigurou-se novamente no garoto baixo e desengonçado que era. Enquanto Lupin era bruscamente jogado sobre a própria cama e ameaçado com duas varinhas ao mesmo tempo, Pedro grunhiu: "Vocês são loucos! Vocês vão acordar Hogwarts inteira! Todos vamos para a detenção!"

Rabicho era dramático como poucos. Ele recomeçou: "Vocês encontraram Remo!"

Mas foi absolutamente ignorado por todos os outros. Tiago Potter tomou a palavra, e dirigiu-a a Remo, falando muito lentamente para que fosse entendido: "Vamos perguntar só uma vez. Onde está Remo?"

Remo tremia tanto, que se estivesse com sua varinha ela certamente já teria caído no chão — mas infelizmente estava desarmado. Respondeu, aflito: "Sou eu. Eu sou Remo."

Sirius Black avançou na sua direção, encostando a ponta da varinha no seu pescoço: "Não sei que merda é essa de Poção Polissuco, ou como você conseguiu se transformar na imagem de Remo. Mas é bom falar logo onde ele está."

A Poção Polissuco era proibida em Hogwarts, e era responsável por transformar as feições de uma pessoa nas feições de outra, transmutando o usuário em um perfeito clone do sujeito que se queria imitar. Era necessário algo como um fio de cabelo da pessoa na qual se desejava transformar — e tinha efeito muito curto, como em torno de uma hora.

"Rabicho me viu!", gritou Remo, defendendo-se. Tiago e Sirius pareceram surpresos ao vê-lo falar o apelido secreto de Pedro Pettigrew. "Eu apenas levantei da cama, ele me viu! Remo Lupin sou eu! Não me transformei em nada!"

Três pares de olhos recaíram sobre Rabicho, que declarou, dando de ombros: "Levantou assim mesmo. Está totalmente pirado. Não sabia onde estava e ficou falando de um portal", e pausou, antes de recomeçar: "Ah! E disse que eu não era seu parceiro".

Um momento de silêncio tomou o quarto. Remo pediu, ainda apavorado, a Black: "Por favor, preciso da varinha. Da sua varinha."

"Para quê? Por quê?", perguntou Sirius.

"P-porque... Porque... Eu deveria estar em outro lugar. Só a sua varinha pode me levar até lá."

"Isso é ridículo", bufou Sirius.

"Qual sua matéria favorita?", perguntou Tiago, dirigindo-se a Lupin, com grande desconfiança.

Lupin hesitou algum momento com aquela pergunta; depois, deu-se conta: era um teste. Apenas um teste que Tiago fazia para certificar-se de que estavam mesmo falando com Remo, e que não era arriscado para Sirius entregar-lhe a varinha.

"Defesa... Defesa Contra as Artes das Trevas", murmurou Remo.

Potter tentou novamente: "O que você diz à bruxa corcunda de um olho só quando quer ir à Dedosdemel?"

A bruxa corcunda de um olho só era uma estátua de Hogwarts que guardava a passagem secreta para um longo corredor sob a terra — um corredor que levava à Dedosdemel. Era proibida a sua utilização, porque os alunos não tinham permissão para sair da escola quando bem entendessem. No entanto, os Marotos faziam parte da minúscula parcela de alunos que tinham conhecimento daquela passagem, e qualquer um dos quatro saberia responder qual a palavra secreta responsável pela abertura da mesma.

Lupin respondeu prontamente: "Dissendium."

"É ele", sussurrou Rabicho, com os olhos assustados e arregalados na sua direção.

"Esperem", disse Sirius. Por algum momento, permaneceu então calado, encarando Lupin com seriedade — como considerasse se deveria ou não fazer aquela pergunta. Após um momento de consideração, articulou lentamente: "Qual o apelido que...?", mas foi interrompido pelo outro que já respondeu: "Aluado!".

"Não...", suspirou Sirius. "Não esse. Qual o apelido que você quer esquecer? Qual o apelido que você mais odeia em toda a sua vida?"

Tiago franziu o cenho na sua direção, porque desconhecia aquele fato. Lupin tinha algum apelido que detestava? E como Sirius sabia daquilo, se ele, Tiago, não sabia?

"Como... você... sabe isso?", perguntou Lupin. Ouvir aquela pergunta foi como ter uma faca estancada no próprio peito — e certamente, respondê-la seria ainda mais doloroso. Não se lembrava de algum dia ter contado aquilo a Sirius; na verdade, nunca contara a ninguém. Carregara aquele peso consigo mesmo, sozinho, durante todos os anos — um fardo que servia como memória dos tempos que desejava esquecer. Tempos em que sofria segregação por parte dos colegas (e mesmo dos próprios professores), quando seus pais procuravam exaustivamente qualquer escola de bruxaria que aceitasse um lobisomem como aluno. Todos, sem exceção, o segregaram... Até o dia em que fora aceito por Dumbledore na única escola em que ninguém jamais saberia seu segredo; ninguém além de quatro amigos do peito, verdadeiramente confiáveis. Amigos que gostavam dele pelo que era, e não o classificavam como um monstro.

"Você mesmo me contou", disse Sirius. "Não se lembra?"

"Eu não te contei isso", rosnou Remo. "E é confidencial."

"Qual é, Remo?", perguntou Rabicho, curioso. "Somos seus amigos, não somos?"

"Você é ou não é Remo Lupin?", insistiu Sirius, agora com um sorriso de verdadeira maldade estampando-lhe o rosto.

Remo sentiu as bochechas esquentando, e de súbito teve vontade de encontrar um punhado de terra onde pudesse enfiar a cabeça. Aquele apelido trazia-lhe memórias verdadeiramente insuportáveis. Por que merda havia contado aquilo ao maldito do Sirius Black? Com os olhos levemente úmidos devido à raiva e à frustração de ter que proferir aquilo, murmurou, mais para dentro do que para ser efetivamente ouvido:

"Sangue-de-cão."

Triunfante, Black alargou seu sorriso psicótico, antes de responder: "Vamos ver se você se lembra desses detalhes antes de me desarmar da próxima vez", concluiu, ríspido. Com raiva, estendeu-lhe a própria varinha — e, com mais raiva ainda, Lupin a segurou, o mais rápido que pôde.

A sua imagem esticou-se. Deformou-se. Contorceu-se. E dissipou-se no ar.

E uma nova onda de legítimo desespero apossou-se do seu íntimo quando caiu em um espaço imerso em escuridão, cujo destino era incerto.

Notas finais
Kd meus lindos reviews?