O Patrono Perdido
1 Capítulo 1: Um Pesadelo Frequente - Parte 1
Notas iniciais
De súbito, aparatou.
Onde estava agora?
Nada daquilo parecia bom aos olhos de Remo John Lupin. Um longo e escuro corredor estendia-se à sua frente. As paredes escuras, cujo papel apresentava severos desgastes — provavelmente frutos do tempo ou dos maus tratos — não possuíam luminárias, e nem tampouco o fazia o teto acima dele. Nenhuma lâmpada ou vela sequer. Nenhuma janela que permitisse a entrada de uma única fresta de luz.
Estava escuro demais para que Remo enxergasse qualquer coisa. Assim, empunhou a varinha e murmurou, em tom quase inaudível: "Lumus!". Um ponto de luz branca surgiu sobre a extremidade da varinha, tornando-a uma pequena lanterna. Estava suando frio. Franziu o cenho e viu, do outro lado do corredor, uma porta semi-aberta. Não escutava nenhum ruído além da sua própria respiração, aflita. Aquilo não era nada bom.
Tentou lembrar-se do último lugar em que estivera antes de aparatar ali, contra a sua vontade. A resposta não demorou a iluminar sua mente: dormindo. Estivera dormindo. Provavelmente dormia profundamente quando algum Comensal da Morte chegou e lançou sobre ele um feitiço, levando-o àquele lugar assustador. Esperava pelo pior.
Os tempos eram de trevas. Estavam na ascensão da Segunda Guerra Bruxa; Voldemort reunia forças e, a cada dia, tornava-se uma ameaça maior. Há apenas uma semana, Bellatriz Lestrange matara Sirius Black. Como Remo poderia ter sido tão tolo e dormir tão profundamente, sabendo que a qualquer momento todos os seus amigos correriam grande perigo?
Culpava a si mesmo. Mas agora não adiantava.
Tomou coragem e, ainda que contra a sua intuição, começou a dar passos em direção àquela misteriosa porta. Começou a ouvir, ao longe, o som do tocar de um sino de uma igreja de trouxas. Estaria, afinal, numa cidade trouxa? Improvável. Com os pêlos do corpo já arrepiados e as pupilas dilatadas — como resultado da pura adrenalina — , Remo chegou à porta.
Empunhou a varinha com mais força. Com a mão livre, girou a maçaneta.
O que Remo viu, então, foi além de suas expectativas. Conhecia sim aquele lugar.
Em meio a uma névoa de pura poeira e quadros tão antigos que as telas estavam já rasgadas, Lupin viu-se frente a uma longa mesa de madeira. Uma mesa na qual ele mesmo estivera, há poucos dias, junto com outros membros da Ordem da Fênix. Seu paradeiro era nada menos que o Largo Grimmauld, número 12: antiga casa de Sirius Black e atual sede da Ordem. Localizava-se em um bairro trouxa e próxima a uma igreja trouxa, o que explicava os sinos ouvidos por Remo.
Era isso, então. Estava na casa dos Black. Mas o que fazia ali?
Havia algo de estranho no cômodo onde se encontrava. Apesar de todos os móveis estarem em seus devidos lugares, parecia haver uma luz acesa dentro da sala. Uma luz vermelha, fraca, que iluminava tudo o que residia dentro do lugar. Mas não havia lâmpadas que estivessem acesas, não — parecia-lhe, na verdade, que a luz tinha sua origem em algum ponto debaixo daquela longa mesa central.
Curioso, Remo ajoelhou-se no chão com intuito de ver qual era a fonte da estranha luz. Embaixo da mesa, deparou-se com nada além de um só pequeno objeto: uma caixa preta, simples, retangular. A sua tampa não era inteiramente lisa, mas possuía, talhada sobre si, a imagem de uma pequena lebre familiar. Onde antes vira aquele animal?
Não importava. Tomado pelo ímpeto da ansiedade, abriu-a imediatamente.
Uma solitária varinha era o que estava do lado de dentro. Como estava inteiramente embebida na luz vermelho-fluorescente que dela reluzia, era impossível ver seus detalhes, cores ou materiais. Mas era, definitivamente, uma varinha.
Agora um pouco mais calmo, Remo franziu o cenho, também confuso, e aproximou os dedos da mesma. Não parecia haver perigo. Pegou-a na mão.
No entanto, assim que pôde segurá-la, começou a ouvir um som de sussurro. Não era o sussurro de uma única pessoa; era diversos sussurros, formados por diversas vozes, de diferentes pessoas, que começaram a entoar, como em um coro, as seguintes palavras:
Esse portal está lacrado
Ele não pode ser aberto ou fechado
"Ah... não..." murmurou para si mesmo, dando-se conta agora de que tinha sido uma grande burrada pegar aquilo em mãos. Começou a tentar soltá-la, mas agora via que era impossível: suas mãos estavam coladas à varinha. "Não..."
Os sussurros pareceram aumentar vez mais, gradativamente, mas as palavras proferidas eram as mesmas:
Esse portal está lacrado
Ele não pode ser aberto ou fechado
O desespero apossou-se dele. Era inútil tentar resistir. Cada vez mais, puxava as mãos para si, mas cada vez mais elas pareciam irreversivelmente coladas na varinha. De súbito, percebeu que a intensidade da luz vermelha começava a diminuir. O cômodo, em poucos segundos, apagava-se como um todo.
Ao ouvir alguns passos próximos à porta por onde entrara, Remo virou-se para olhá-la, ainda que impossibilitado de defender-se agora, já que a sua própria varinha encontrava-se sobre o chão empoeirado, inalcançável.
A porta abriu-se. Do outro lado, surgiu um vulto.
*
Remo John Lupin acordou em pulo, com um grito, empunhando a varinha como se fosse atacar alguém que o estivesse observando dormir. Enquanto ofegava, virou levemente os olhos para o seu lado esquerdo, e encontrou o rosto pálido de Ninfadora Tonks. Ela o olhava como quem assistia a um morto levantar-se.
"Certo..." disse uma outra voz, masculina, dentro do quarto. Erguendo um pouco mais a cabeça, Remo viu, ao canto do cômodo, o auror Alastor Moody.
Estavam na casa do próprio Lupin. O quarto, forrado com o chão e móveis de madeira, não era amplo e bem ventilado, mas apenas um tanto pequeno, com um característico cheiro de mofo. Agora que acordara, Remo passava a se lembrar que Ninfadora fizera questão de dormir com ele em sua casa, tendo em vista que Remo prosseguia tendo terríveis pesadelos há exatamente sete dias. Mas quanto a Olho-Tonto... Bem, Lupin não fazia idéia do motivo da sua presença.
Com o coração ainda freneticamente acelerado, Remo soltou a varinha que amanhecera ao seu lado na cama. Moody voltou a falar:
"Isso acontece há uma semana, você disse?", perguntou ele à Tonks.
A menina assentiu com a cabeça, também ainda trêmula.
"Certo...", repetiu ele.
Depois de um longo suspiro, Remo tomou a coragem necessária para falar. Sua cabeça latejava como nunca. "O que está acontecendo aqui?".
"Remo... desculpe", começou Dora. "Eu não sabia o que fazer... Já faz uma semana."
"Eu pedi que você não contasse a ninguém."
"Remo, não a culpe", disse Olho-Tonto, um pouco indiferente. "O caso parece bem grave. Você precisa de ajuda."
"Eu sei me cuidar", murmurou Remo, agora também irritado, além da dor e do cansaço físico e psicológico.
"Não é esse o caso", insistiu Moody. "Isso é caso de Legilimência."
"Não, não é Legilimência", respondeu Lupin.
"Você tem o mesmo pesadelo há sete dias, encontra o mesmo objeto, encontra um vulto estranho, escuta uma sentença que fala sobre um portal, não sabe sequer onde está e acha que não é Legilimência?", prosseguiu o outro, e quanto Lupin encarava Ninfadora com desaprovação. Era possível que ela realmente tivesse contado tudo a Moody, sem nem ao menos consultá-lo antes? Dora desviou o olhar, incomodada.
"Vou te dizer uma coisa. A sua mente está sendo controlada. Alguém quer que você ache esse portal."
Um pouco deprimido, Remo deixou que seu olhar caísse sobre o chão, enquanto ainda ouvia aquele homem falar: "Nós temos que descobrir onde isso está."
Remo entendia a preocupação de Olho-Tonto. Há uma semana, Sirius Black havia morrido. A cada dia, Voldemort tornava-se mais forte e aumentava o seu exército; o próprio Lupin, bem como o afilhado de Sirius e todos aqueles que compunham a Ordem, estavam em incomparável perigo pois, por mais que a maior parte do sangue ainda não tivesse sido derramado, já estava iniciada a Segunda Guerra Bruxa.
Mas uma parte de todo aquele pesadelo ainda não estava sob o conhecimento de Moody. Nem sequer sob o conhecimento de Dora. Porque, pela primeira vez em sete dias, ocorrera uma alteração no sonho.
"Eu sei onde o portal está", disse ele.
Todo o rosto de Moody iluminou-se em esperança. "Você sabe?"
Lupin assentiu com a cabeça. "Dessa vez, eu reconheci o lugar. Uma longa mesa, quadros velhos e cheios de poeira, um sino de trouxas ao longe...". Naquele momento, Ninfadora e Moody entreolharam-se, como se também acabassem de descobrir o paradeiro do amigo no sonho. "A sede da Ordem", revelou Remo.
Um profundo silêncio invadiu o quarto. Dora apoiara a testa nas mãos, em um gesto de desconsolo; quanto a Alastor, ele apenas manteve o seu olhar preocupado ao longe, pensativo.
"Bem... nesse caso... nós não podemos nos reunir com a Ordem ali, até sabermos que risco estamos correndo. Se tem um portal sob Artes das Trevas ali..."
"... alguém entrou e o colocou lá", completou Dora. "Mas se a casa está mantida sob um feitiço Fidelius protegido por Dumbledore... Como podem ter entrado?".
Moody olhou novamente, sério, para o amigo ainda atordoado pelo sonho. "Só eu e Remo descobriremos isso, quanto antes formos lá."
A situação não era boa. A antiga residência de Sirius Black era, até então, um dos lugares considerados mais seguros pela Ordem da Fênix. A única forma de entrar seria se o próprio Alvo Dumbledore, fiel do segredo, contasse com seus próprios lábios, ao invasor, sua localização. O tremor evidenciado pelas expressões das três pessoas que lá se encontravam era justificado pela possibilidade de estarem correndo um risco há tempos sem nem saber, tendo em vista que as reuniões no Largo Grimmauld eram cada vez mais freqüentes.
"Bem!" exclamou Moody, com um entusiasmo que carecia ao dono da casa em que se encontravam. Ele virou as costas a Remo e Tonks e encaminhou-se à porta do quarto, enquanto ainda falava. "Te encontro em uma hora no Largo Grimmauld, Remo. Vou levar Quim e Snape..." e então, o resto da frase saiu quando Moody já estava ao pé da porta, mais como um murmuro para si do que uma declaração em voz alta: "...quem sabe, eles servem de algo."
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