O Passado Sempre Presente.
9 Capítulo 9
Emília fica atônita com o que ouve, repete “filho de Alberto”, várias vezes como que para ter certeza, cenas de momentos que passou com Bernardo o carinho, os beijos, o desejo, o abraço, tudo vem em uma onda forte que chega a perder o equilíbrio, se apoia na mesa com a cabeça abaixada pela vergonha ao se dar conta que estava a um ponto de ter um envolvimento com o seu irmão, com seu meio irmão corrige mentalmente, seus pensamentos estão confusos, lágrimas lhe vem aos olhos, mas não se permite chorar. Carola aproxima-se da patroa.
— Dona Emília, está tudo bem? — ela põe uma mão nas costas de Emília— A senhora está bem? Quer uma água? — Carola nunca a viu assim e nem entende o porquê dessa reação, sabia que coisas relacionadas ao seu Alberto, eram delicadas, mas jamais imaginou ser assim— Dona Emília? — ela chama mais uma vez, Emília enfim olha para a secretaria, ignorando por completo a presença de Bernardo.
— Carola ligou para o meu tio?— a secretaria faz um gesto afirmativo— Por favor, pode se retirar.— e pede em um tom abaixo do normal—Diga ao meu tio vir rápido por favor, agora vá.
A moça se retira, com o olhar preocupado, mas sabe que mesmo se pudesse não há nada ali para ela fazer, a não ser cumprir o que foi mandado. Emília caminha pela sala.
— Emília eu devo dizer...— Bernardo quebra o silêncio pesado daquela sala, mas ele foi cortado pela forte tapa que ela lhe deu.
— Você sabia disso esse tempo todo, claro que você sabia— ela grita para ele ao se dar conta que ele sabia bem quem ela era.— Somos meio irmãos e estávamos começando a nos envolver, nos beijamos— ela dá outro e inesperado tapa nele, que estala mais forte que o anterior.— Você me beijou, você forçou isso, esse jogo de sedução— ela se prepara para um terceiro tapa, mas Bernardo desta vez está preparado e segura a mão dela no ar antes que atinge a sua face.
— Eu não forcei nada, você estava começando a se envolver tanto quanto eu, estava jogando e gostando tanto quanto eu— ela se sacode para bater nele com o outro braço, mas ele foi mais rápido e segurou também, ela se debate querendo se soltar dele.
— Me solta Bernardo, me solta— Emília com todas as forças que tem tenta se soltar, mas ele é mais forte e a segura firme, como um último recurso ela pensa em levantar a perna e golpear as partes íntimas dele, mas novamente preparado, Bernardo vira rapidamente o corpo dela, a deixando de costas para ele e aperta mais os seus braços em volta dela, presa de uma forma que não consegue nem se soltar nem bater nele, Emília ficou com mais raiva e se debate ainda mais — ME SOLTA OU EU VOU GRITAR. — ela pede com a voz firme, tudo o que ela não queria era estar nos braços dele.
— Emília me escuta, antes de qualquer coisa me escuta por favor— ele pede ao ouvido dela, com aquela mesma voz suave que ele usou na noite em que viu as fotos, por um minuto ela diminui os movimentos para se soltar, Bernardo está quase sem forças mesmo para mantê-la assim, ele não esperava pelos tapas, sabia da raiva que ela teria, mas não algo desse tipo.—Nós não somos irmãos.— Quando ele diz isso o tempo parece ter parado.
Forma mais uma vez um silêncio ali, Emília para por completo de se mexer, Bernardo não a segura com tanta firmeza, é mais um simples abraço do que um aperto para conter a fúria dela, Emília pensa no que ele diz, de não serem irmãos, mesmo sem querer e por pequena que seja sentiu um pouco de alegria ao ouvir aquilo, mas foi por alguns segundos, pois logo mais dúvidas afloraram em sua mente.
— Agora me solta, por favor— ela pede com a voz mais calma, assim ele faz, ela vira de frente para ele, que espera um novo golpe dela, que não vem, ela anda até a sua mesa, olha pela a janela, ele fica parado olhando para ela, esperando para ver o que ela vai fazer, sabe que ela está pensando, articulando e assimilando o que ouviu, conviveu com a versão masculina daqueles gestos. Por fim ela para olha para ele, e a pessoa descontrolada que viu antes não está mais ali, Emília senta em sua cadeira.— Me conta o que quer aqui, senhor Bernardo Boldrin.
— Como disse a você antes…
— Esquece o antes, para mim ele não existiu.— ela fala o cortando, diz de uma forma fria e impessoal, o que em um momento o choca, mas fará como ela quer.
— Como eu disse a sua secretária, senhora Beraldini— ele olha bem para ela quer ver como ela irá reagir.— Sou representante do senhor Alberto Castellini, ele possui uma pequena parte dessa empresa e designou a mim para ficar a par dos negócios e repassar para eles as informações.— ele não percebe nenhuma mudança significativa nela, apenas um leve toque de dedos sobre a mesa.
— E por que só agora, depois de todos esses anos?— ela usa de todo o seu autocontrole ao falar sobre o pai, não quer demonstrar a fragilidade que esse assunto lhe trás, não agora, não de novo, não para Bernardo.
— Meu pai está velho— ele diz de propósito isso, vê que ela respira fundo, mas finge não notar — Ele quer que eu fique por dentro de um império que ele ajudou a reerguer…
— E que abandonou — Emília diz sarcasticamente, ao que ele rebate.
— Você sabe como é a história,a sua história Emília? — Bernardo disse de uma forma que ela não gostou nenhum pouco.
— Isso não interessa a você.
— Se é como pensa.— ele não queria ferir ela, não mais— Bom eu trouxe documentos que confirmam o que eu disse.— ele abre uma pasta que ela nem percebeu que ele trazia e entrega para ela uma pasta de papel, com algumas folhas, Emília olha para os papéis com certa indiferença, folheia aleatoriamente e se depara com a assinatura inconfundível do pai.
— Vou precisar analisar com os meu advogados essa papelada.— diz jogando os papeis sobre a mesa e levanta, dando a entender que a reunião está encerrada.
— Eu não queria que as coisas fossem assim.— ele olha para ela que entende do que ele fala.— Não programei o encontro no hotel.
— Já disse ao senhor que não falarei sobre o que aconteceu entre nós antes, o senhor não venho tratar de negócios, é sobre isso que vamos falar.
Bernardo suspira, e olha tentando ver da Emília que conheceu no hotel, mas nem a sombra dela está ali, levanta também e vai até a porta sabe que ele precisa de tempo para compreender as últimas informações.
— Um minuto senhor Bernardo— ele para e volta um pouco seus passos, ela não queria ter de perguntar mas é mais forte que ela.— Ele está muito doente mesmo?
— Sim — ele abre novamente a pasta e tirou um cartão de visitas e estende a ela— Aqui tem os meus números de telefone, se quiser falar comigo sobre ele ou qualquer outra coisa.
— Você pode deixar com a secretaria — ela cruza os braços sobre o peito e não pega o cartão.
— Não deixarei aqui.— ele coloca sobre os papéis que deu e ela atirou sobre a mesa— Você até pode não querer falar sobre o antes, mas viveu e isso você não pode apagar ou esquecer.— vira de costas e sai da sala em passos firmes.
Quando a porta bate, Emília passa as mãos sobre o rosto, e as lágrimas que segurou vem e a devasta, atira-se na cadeira e chora.
Bernardo se mantém firme até a hora em que entra em seu carro no estacionamento coberto da empresa, ao sentar no banco do motorista as primeiras lágrimas vem, mas ele ainda não se permite chorar, limpa o rosto, liga o carro e dirige com cautela, tenta abafar os pensamentos com música, chega ao o hotel e vai direto ao quarto, já ali com as imagens de Emília tanto no escritório quanto naquele quarto ele se entrega a um remorso por ter sido da forma como foi, não queria que as coisas tivessem sido assim, não tinha planejado ser assim, ele vai ao frigobar e pega uma bebida, e vai até a janela, fica olhando para o nada.
Ele queria sim tomar posse da parte que Alberto possuía da empresa, achava injusto aquela situação do pai. Claro que Alberto não era pai dele, quando ele e sua mãe se envolveram ele tinha dois anos, mas foi Alberto quem o criou como filho, inclusive conseguiu na justiça adotá-lo, seu pai biológico ele nem sabia quem era, sua mãe nunca lhe disse, ele mesmo nem acreditava que ela soubesse quem ele era.
Sua relação com Alberto era e sempre foi de pai para filho,Bernardo lembra de inúmeras situações onde o pai sempre esteve presente, e sorri ao lembrar disso, foi quando entrou no ensino médio que ele soube a verdade sobre(ou pelo menos uma parte da verdade) o “casamento” dos pais, sobre a existência de Emília, sobre a boa vida que ela levava, não que eles vivessem na pobreza, seu pai ainda ganhava valores sobre a sua parte na empresa, era um bom dinheiro, mas pouco comparado ao que a outra família dele tinha, achava injusto o pai ser ou se sentir culpado por um acidente em que a própria filha foi vítima, ele(Bernardo) nunca quis machucar Emília, só queria dar ao pai um pouco de dignidade no fim da vida, pois apesar de ser o pai maravilhoso que foi, parecia ter sempre uma sombra que o deixava triste e deprimido, sempre teve crises horríveis, quando pequeno ele não entendia o porquê de o pai mudar de uma hora para outra, achava que ele tinha feito algo, quando soube da verdade e Alberto tinha os seus momentos Bernardo ficava entre a raiva e a tristeza por não poder fazer nada., sua mãe dizia ser porque ele nunca conseguiu provar a sua inocência, e sendo assim nunca mais iria conseguir olhar para a filha com honra.
Para ele, Bernardo ela não foi atrás de vingança, ela só queria fazer o certo, estando a par do que acontecesse na empresa poderia e queria de alguma forma poder ajudar o pai. Alberto não queria essa aproximação, já que ele não tinha cumprido a sua promessa em provar sua inocência, ele queria deixar tudo como está, mas Bernardo foi teimoso e foi adiante, pediu a procuração e iria se fazer presente na empresa sim. Se conseguisse de alguma forma limpar o nome do pai, teria valido a pena qualquer mal estar que ele pudesse causar.
Tinha uma certa desgosto por tudo o que lia e via sobre Emília ao longo dos anos, nunca entendeu porque dela, mesmo depois de adulta não foi procurar por Alberto, sabia que ela não tinha culpa de nada, mas mesmo assim ele sempre sentia algo estranho com relação a ela, ele não planejou o encontro no hotel, foi um mero acaso, que mudou tudo.
Ele vai até a mesinha perto da cama e pega o bilhete que Emília deixou, desliza os dedos sobre a letra dela, quando acordou na tarde anterior e não a viu sentiu-se muito apreensivo,mas quando viu o bilhete dela, sentiu uma alegria sem igual, e ali percebeu que estava apaixonado, mas que também não tinha como voltar atrás, já estava feito.
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