O Passado Sempre Presente.
5 Capítulo 5
Emília está em sua sala, estava sendo difícil se concentrar nesses últimos dias, pensar na mãe por mais que não gostasse de admitir, mexia e muito com ela com o auto controle que conseguiu nos últimos anos, pouco tinha falado com os tios após aquela noite, apesar da grande quantidade de ligações dos dois, depois de saber da volta de Vitória ela era seguidamente tomada por lembranças e mágoas, pareciam que tinham vida própria.
Todos os poucos encontros entre elas, após Vitória ter ido embora e a ter deixado com os tios, foi do ruim para o péssimo, antes era sua mãe sempre fugindo das suas perguntas do seu olhar e depois do jantar de aniversario onde recebeu a “caixa misteriosa”, foi que tudo piorou, agora era Emília quem não queria mesmo manter contato com a mãe, que evitava as visitas e os telefonemas, e quando não conseguia evitar sempre saia mais e mais machucada. Não consegue dar continuidade aos seus pensamentos seu telefone toca, a trazendo para a realidade.
A noite em sua casa, chega exausta, não pelo trabalho, mais pelo cansaço mental.
Ao abrir a porta dá de cara com uma mala, sua ficha demora um pouco a cair, quando percebe a quem pertence aquela tal objeto, dá um passo para trás, mas ao ouvir uma voz, ela congela como anos atrás.
— Boa noite minha filha.
E seus olhos batem com os da mãe que desce as escadas, ela não consegue tirar os olhos daquela figura tão imponente, de gestos mesmo que sutis eram de uma elegância e delicadeza sem igual, os cabelos já branco não lhe davam um ar de velha, só acentua mais a beleza que ela sempre teve e que em meio a depressão deixou de lado, maquiagem e jóias sempre discreta, um flash dela sentada junta a mãe em frente a penteadeira olhando a caixinha de jóias a atinge tão rápido, que se apoia na maçaneta e assim como essa lembrança veio, foi em um segundo. Emília consegue se recompor antes de Vitória descer o último degrau.
— O que faz aqui Vitória?—Emília anda pela sala largando a bolsa no sofá.
—Zilda não lhe disse? — Vitória olha a filha, não demostra o quanto ser chamada pelo nome pela filha aflige, percebendo o esforço que Emília faz para tentar manter a calma, talvez o mesmo esforço que ela mesma faz, a sobrancelha levemente erguida, uma leve ruga na testa, ela não precisa se olhar no espelho para saber que tem a mesma expressão.
— Sim ela disse que resolveu voltar, não disse que era tão logo —Emília caminha para fugir dos olhares da mãe, aquele olhar que parecia querer ver cada detalhe dela. — O que não entendo é porque essa mala está aqui —diz ela apontando para o objeto da mãe.
— Voltei para a casa. —Vitória engasga, mas disfarçar, aquela casa tinha lembranças fortes demais para ela. — Para a nossa casa minha filha, para ser tudo como era antes.
Emília sorri para a mãe.
— E como se não houvesse passado um segundo desde que me deixou, você… você—Emília seca rapidamente as lágrimas — Você brinca comigo Vitória.
—Não me chama assim minha filha — ela não gostava quando Emília a chamava pelo nome, doía.
— Você quer que eu te chame de mamãe— ela sacode o dedo para ela —Não você perdeu o direito sobre isso há muitos anos…
— Emília eu estava doente, eu não tinha…
— Desculpas…. Desculpas que estou cansada de ouvir, porque não diz a verdade…— Emília interrompe a mãe elevando o tom de voz.
— E de que verdade você fala?
— Que não gostava de mim por lembrar o meu pai ou foi por causa do acidente, ou pelo que tinha naquela caixa, enfim alguma verdade, não a mentira de sempre estar doente.
— Emília isso tudo é coisa da sua cabeça,
— Não… é coisas da cabeça de uma menina, de uma criança, que foi deixada pela mãe, e que foi deixada com os tios, e que nesse primeiro ano recebeu só telefonemas vazios, nenhuma visita, nem um cartão de aniversário nenhum gesto de que ainda se importava comigo — Emília já nem se importa mais em limpar ou segurar as lágrimas, compensa com duras palavras para a mãe.
— Emília eu sinto muito, mas eu precisava ir e achei ser o melhor você ficar com os seus tios.
— E pode ter certeza que foi, não poderia estar com melhores pessoas, Luís foi um bom orientador tanto na vida quando nos negócios, e Zilda não poderia ter sido a melhor mãe estando comigo — Emília fez questão de frisar essas últimas palavras.— Mas nada substitui pai e mãe e você Vitória me tirou os dois.
Emília pega a sua bolsa e sai da mansão.
Vitória senta tamanho o baque ante aquelas palavras, sabia quanta mágoa Emília tinha e o que iria ter de enfrentar. Mas veio disposta a se entender com ela, a resolver tudo,não pensava que seria difícil, tão difícil, mas não vai desistir.
Ela vai até a janela e vê a própria filha a frente do volante, vai até a rua e vê o motorista tão desnorteado quanto ela, aproxima-se um pouco dele.
— Ela disse onde foi?
—Não senhora, mas ela dirige bem, pode ficar tranquila senhora Vitória
—Obrigada senhor…?
—Ariel. —ele estende a mão ela, que retribui com um sorriso tímido, pois se o motorista sabia quem ela era, sabia de sua história.
— O senhor pode me ajudar com uma coisa?
— A suas ordens.
Eles entram Vitória pede para ele subir com a sua mala, ela não iria mesmo sair dali, sabia que não deveria impor a sua presença dessa forma, mas era tão teimosa quando a filha, e já tinha perdido tempo demais.
Ao entrar no seu quarto o tempo voltou, estava tudo igual, sorri ao olhar a cama e lembrar que ainda era a mesma, mesmo depois de todos esse anos ainda estava intacta, quantas lembranças tem ali, muitas, o quarto apesar de parecer fechado, estava limpo e arejado, mas o melhor era a sensação de pertencer a algo. Decide tomar um banho quem sabe Emília volta logo, sabe que ela precisa de um tempo para digerir toda essa situação.
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