Emília sabe que tinha sido fraca, que faltou com sua palavra, que tinha prometido a Bernardo e não consegui cumpri, durante o caminho de volta para casa chorou o que tinha para chorar, não queria que a mãe olhasse ela neste estado.



Bernardo olha Emília sair pela clínica e entrar em um táxi, ele compreendia pelo que ela estava passando e não podia exigir muito dela, não podia culpá-la por não poder ter entrado e ter visto o pai, ele fica uns minutos olhando para o nada, se recompondo antes de ir ver o pai, apesar de ela não ter entrado, sabia ao menos onde ele estava internado e no momento e que quando estivesse apta poderia ir vê-lo quando quisesse. Pelo menos isso, e que de certo modo se surpreendeu a forma como ela reagiu à notícia sobre o pai, que talvez fosse uma questão de tempo esse acerto entre eles.



Vitória observa da janela do seu quarto o táxi parar em frente a mansão e desce, chegando no exato momento em que Emília abre a porta da frente.

— Emília até que enfim.— a primeira coisa que vê é o abatimento da filha.

— Oi — tenta esboçar um sorriso, sabia que deveria ter ligado ou mandado uma mensagem para a mãe, tira os calçados e deixa de canto, Vitória a olha como quem pede uma explicação.— Desculpas por não ter ligado.

— Está tudo bem? — ela olha para a filha que tenta desviar o olhar, mas não consegue, Vitória percebe lágrimas nos olhos da sua menina.— O que aconteceu?

— Eu tive que passar a noite ajudando um amigo, que está com o pai doente muito doente — não tem como dizer totalmente a verdade para a mãe, mas não quer mentir, não nesse recomeço delas.

— Sinto muito em saber disso— Vitória toca em sua mão, Emília segura as lágrimas.— Posso fazer alguma coisa?

— Não, nem em eu consegui— ela põe a mão sobre o rosto, não quer desabar na frente dela, talvez e com certeza a mãe não entenderia a profundidade daquelas palavras o que de fato ela não conseguiu fazer.

— Minha filha— Vitória se controla para não correr e abraçar a filha, mas aprendeu a respeitar o tempo dela e continua a segurar não mão da filha.— Vai ficar tudo bem, você vai ver, que tal descansar um pouco?

— Eu preciso de um banho, antes de qualquer coisa.— ela começa a subir os degraus, Vitória segura firme em seu braço.

— Eu estou aqui, estarei aqui.— Vitória olha dentro de seus olhos, por estar um degrau acima da mãe, Emília beija sua testa e diz.

—Eu sei — uma lágrima corre sem querer, Vitória limpa o seu rosto— Muito obrigada por estar aqui.— Emília completa e deixa a mãe.

Vitória olha ela subir as escadas com o ar cansado, sentia ser algo bem sério pelo que Emília estava passando, pouco sabia da vida adulta da filha, não fazia ideia de quem podia ser esse amigo e o grau de amizade dos dois, podia julgar grande pelo tanto que ela está triste. Tentaria de alguma forma ajudar, esperava que pudesse.

Emília toma o banho mais demorado que lembra, era como se água conseguisse de alguma forma aliviar o estado que se encontrava,que junto com a água um pouco daquela tristeza fosse embora, pensa pela primeira vez o quão sério pode ser o estado do pai, e de tudo o que pode acontecer, se for verdade que ele tenha câncer, e o quando avançado pode estar, terá que agir, terá que ir vê-lo, terá que ter coragem de fazer isso, não por Bernardo, mas por ela, ao mesmo tempo que pensa isso, pensa também que tem uma parte de si que não quer ir vê-lo para não dar o braço a torcer que esse passo deveria ter sido dele anos atrás, achava mesquinho e infantil pensar assim, mas não consegue evitar, por fim saí do banho, veste um roupão e prende uma toalha na cabeça, ao sair do banheiro pega o telefone e ainda não tem nenhuma ligação ou mensagem de Bernardo, não sabia que horas sairia o resultado do exame, mas sabia que ele iria entrar em contato. Decide não ir a empresa, não tem condições para tal, e nem conseguiria dormir apesar do cansaço, mas de certo modo precisa ocupar a cabeça antes que enlouqueça ´por pensar, liga para Carola desmarcar seus compromissos levar o que podia precisar para trabalhar de casa, a secretaria disse que logo estará na mansão. Emília aproveita esse tempo e troca de roupa. desce e a mesa está posta para ela tomar café.

— Vem Emília, coma alguma coisa.— Vitória a chama, por mais que não sinta fome, sabe que deve comer algo, e que se não o fizer terá a mãe em cima de si. Emília senta.



Bernardo está no quarto com o pai, um enfermeiro o ajuda a se vestir, ele fica olhando Aberto de costas e pensa como seria a reação dele se avistasse Emília entrar por aquela porta, e como seria o encontro deles.

— Não vai trabalhar hoje de novo Bernardo? — o pai fala o tirando dos seus pensamentos.

— Não vou ficar aqui com você.

— Posso saber o porquê de tanto? — ele já está vestido, e olha para o filho. Bernardo entende que o pai sabe que algo está acontecendo, ele levanta e ajuda o pai a levantar, era hora do passeio dele pelo pátio da clínica.

— Só estou querendo ficar um pouco mais com o meu pai, não posso? — Bernardo passa o braço pelo do pai o apoiando e andando com ele.

— Poder pode, mas sinto que tem tentando esconder algo de mim.

— Não há nada meu pai, nada com o que deva se preocupar.

— Então tem alguma coisa de fato o preocupando.— ele parou e olhou para o filho.

— Pai — eles chegam ao pátio, ele ajuda o pai a sentar em um banco protegido pela sombra de uma árvore. Bernardo sabe que não deve falar de suas suspeitas ou sobre Emília, mas o pai não o deixará em paz sem que ele diga algo convincente.

— É sobre Emília? — Alberto parecia decifrar os pensamentos do filho.

— Sim e não, bom como devo dizer— Bernardo aproveita a deixa e dizer uma meia verdade.— Eu ainda não sei como faz ela se aproximar do senhor.

— Eu entendo, entendo você não conseguir, é uma tarefa difícil, ela deve ser uma pessoa difícil.

— O senhor não sabe como— e Bernardo sorri, ao lembrar do gênio forte que ela tinha.

— Como ela é? Alberto perguntou curioso, era a primeira vez que fazia essa pergunta ao filho.

— Como ela é? Ah meu pai Emília é... — Bernardo levanta e ficando olhando uma flor que tem ali.— Ela é uma pessoa forte, decidida e direta, na empresa você sente a presença dela mesmo ela não estando presente, nos negócios você percebe o quanto ela inteligente e parece gostar muito do que faz, e o quão perspicaz ela é, atenta a cada detalhe.— ele virou para o pai, mas sem o olhar, mantém o olhar mais adiante, como se olhasse para outra coisa, outra pessoa, talvez vislumbrando a imagem dela diante de si. — Mas quando você a olha bem vê a fragilidade que ela tem, você consegue ainda perceber uma doçura naquele olhar forte que ela carrega, a delicadezas de seus gestos, ela é inexplicável, eu…

— Você está apaixonado por ela— Alberto o corta e diz, Bernardo vira o seu olhar para o pai, e percebe que sem querer se entregou.

— Pai, eu….— ele ter alguma coisa para dizer, se explicar, mas as palavras parecem fugir de si.

— Esse era um receio que eu tinha sobre essa sua aproximação com ela, parecia sentir que isso poderia ocorrer. — Bernardo senta ao lado dele.

— Eu não sei como isso aconteceu— ele prefere abrir seu coração ao seu pai,e contar tudo, ou quase tudo, seria um jeito de desviar a atenção do pai e dele mesmo sobre a espada que estava sobre a cabeça deles.— antes de eu ir a empresa eu a vi em um hotel, e quando eu coloquei meus olhos sobre ela, eu nunca mais consegui parar de pensar nela, parar de olhar ela, mesmo que ela não estivesse diante de mim, nunca acreditei nessa coisa de amor à primeira vista, ou que isso pudesse acontecer comigo, mas naquele instante em que a vi, tudo, mas tudo meu pai mudou.

— Vocês estão se relacionando?

— Ela sabe o que eu sinto, eu sei que ela sente algo por mim, confesso que nos beijamos, mas não afirmamos nada de concreto. A vida dela está conturbada…

— Como assim?

— O senhor sabe que ela e a mãe não tem um bom relacionamento, e Vitória voltou e quer refazer esse laço com ela. — Bernardo conta resumidamente fatos que Emília confidenciou a ele, sobre a mãe os tios, Alberto ouve com calma e atenção a tudo.

— Eu sabia que Zilda tinha solicitado a tutela de Emília, mas não sabia que ela tinha ocultado isso de Emília e que de certo modo isso contribuiu ainda mais para o afastamentos de Emília e Vitória. Ela sempre amou a filha, e muito, era lindo ver o cuidado com o qual ela tinha com a menina.

— Sim foi um ponto forte, Emília sempre sentiu ser abandonada pela mãe e pelo senhor.— Bernardo olha para o pai e a tentação foi demais— O senhor nunca pensou em ir procurá-la, falar com Emília?

— Muitas e muitas vezes, teve uma vez que Luís levou uma foto dela na escola, junto tinha um trabalho que ela fez sobre o emprego do pai, escreveu sobre mim e as empresas, fiquei muito tentado após ler o trabalho dela, mas a covardia foi maior, não sei se ela entenderia, ainda hoje nem sei ser possível que ela entenda o que nem eu compreendo bem, ser covarde a esse ponto— ele diz comovido, Bernardo segura a mão do pai.

— O senhor se arrepende de ter se envolvido com minha mãe?— ele vê o pai franzir a testa, e fechar os olhos.

— Por sua causa e pelo bons anos que vivemos não me arrependo, mas lamento pelo o que perdi, e pela forma que agi e o que tudo isso causou, que se eu tivesse feito de outra forma, tudo poderia ser diferente. — Alberto olha para o filho e diz sério — Bernardo, eu não posso falar para evitar esse envolvimento com Emília, eu mais que ninguém sei que não controlamos nossos sentimentos, tenho medo que vocês se machuquem com toda a história que cercam…

— Mas tudo está se resolvendo, vai se resolver… — Bernardo diz esperançoso.

— Não é tão simples assim meu filho, tem coisas que você não sabe.

— Como assim? — ele percebe que o pai tem mais a dizer, Alberto leva tempo demais para responder como escolhendo o que dizer.

— Esse possível relacionamento de vocês não vai ser visto com bons olhos, principalmente por Vitória, por você ser filho de quem é.

— Eu não tinha pensado nisso— Bernardo levanta e pensa por uns segundos, sabe que o pai tem razão.— Mas pai, se ela for contra, eu não me importo, só importa se Emília gostar de mim, daí está tudo resolvido.

— Não se filho, é complicado, pode ser ainda mais complicado.— ele diz pesaroso, Bernardo volta a sentar ao lado dele,

— Tem mais alguma coisa que o senhor quer me dizer?

— Não, nada. — ele diz querendo levantar, Bernardo fica com outra impressão, mas prefere não insistir.



O dia já estava no fim, a noite já se faz presente a um tempo, e nem uma outra notícia de Bernardo, ela tem o celular grudado no corpo, para ao menor sinal ela atenderá, mas até o momento só uma mensagem no meio do dia dizendo “Que ainda não tinha o resultado, que assim que tivesse entraria em contato com ela”, e mais nada, estava lutando para não ligar para ele, o dia ela conseguiu preencher com trabalho da Beraldini, trabalhou no escritório que tem em casa, Carola deixou o que pediu e voltou a empresa e ia repassando o que fosse útil e necessário a patroa. Porém o que podia fazer tinha acabado, durante o dia teve inúmeras visitas da mãe, mesmo que ela nada falasse, entrava a olhava e saia, por insistência dela parou e almoçou, o que foi rápido, o jantar foi quase em silêncio também, só fez por causa da mãe, que parecia querer perguntar algo a todo instante mas se controlava, necessitava manter a cabeça ocupada, agora sentia o corpo pedir um descanso, a noite mal dormida e o dia tenso cobravam por uma trégua, mas a cabeça estava a mil, sabe que não adianta deitar sem uma notícia, resolve caminhar um pouco pelo jardim, leva consigo o celular e reforça a Anitta que se alguém ligar a chamar imediatamente.

Estava uma noite de céu sem lua, ela caminha e senta em um banco, sente o perfume das rosas da mãe, e lembra da tarde com Bernardo em meio as rosas daquela mata em BellaRosa, sentiu as lágrimas encher os seus olhos, parecia ter sido a um bom tempo esse dia, parecia que já convivem há muito tempo, queria falar com Bernardo sobre eles, mas neste momento parece ser impossível, está sim apaixonada por eles, que não há muito a dizer, que não vê uma forma de não se relacionarem, nem se quisesse e nem quer, quer sim ter ele em sua vida, decidida a dizer para ele os seus sentimentos parece ter um pouco de felicidade em meio a tristeza da situação, mas deixa-se levar pela lembranças boas que teve com ele nesse período. Passa um bom tempo ali, perde o senso do tempo, em meio às lembranças da viagem Levanta e caminha até a estufa da mãe, jurava que a veria ali, após o jantar Emília se recolheu ao escritório e não a viu mais, mas ela já deve estar no quarto, ela caminha entre as rosas, toca uma, sente o cheiro de outra, assim como a mãe ela também tinha uma história com rosas vermelhas, o telefone apita, com o coração aos pulos olha o telefone e vê uma mensagem, mas para sua tristeza não é de Bernardo, então resolve mandar uma: “oi...alguma notícia?” feito isso e sentindo um pouco de calma, decide subir ao quarto e tomar banho.



Sentiu uma frustração em ver o celular sem uma mensagem dele de retorno a sua pergunta, quando sai do banho, não entende essa falta de notícia dele, será que ele tinha ficado chateado com a forma como ela agiu na porta da clínica?, não seria do feitio de Bernardo, então decide ligar, mas o aparelho só chama, tenta mais uma e nada, por fim joga o aparelho sobre a cama e senta, queria voltar a clínica e falar pessoalmente com ele, mas sabe que não conseguiria, deitou abraçando as pernas, e deixa as lágrimas molharem seu rosto, não gostava de sentir tão vulnerável a uma situação, sabia que estava emocionalmente esgotada, cansada e sentia-se só, como um sinal, o vento da janela carrega o cheiro das rosas ela levanta, e sai do quarto, caminha vagarosamente pelo corredor, abre suavemente a porta, vem uma luz pela brecha da porta do banheiro, que deixa o ambiente suave, ele encosta a porta e chega aos poucos perto da cama, ela dorme confortavelmente, Emília toca a mão que está sobre o cobertor, e diz de leve:

— Mãe — e solta o ar que nem tinha se dado conta que tinha prendido desde que entrou no quarto, e sentiu um alívio enorme por dizer essa palavra pequena de três letras e diz de novo um pouco mais alto, com as lágrimas já querendo sair.— Mãe.

Vitória abre os olhos pouco a pouco, sem acreditar quem está diante de si, achando ser um sonho, mas sentiu um toque de uma mão junto a sua, e é real, sua filha encontra-se ali, de pé como se ainda fosse pequena e tivesse tido um pesadelo, Vitória sabe o que ela vem buscar e fica comovida por isso, por ela se lembrar dela e ir procurar conforto com ela, mas nada diz, apenas puxa as cobertas para ela deitar, Emília deita de frente para mãe que com uma mão segura a sua e a outra passa suavemente sobre o seu rosto, limpando as lágrimas que insistem em cair.

Emília sente o toque delicado da mãe sobre sua face, e tinha esquecido como era gostoso, e como isso a acalmava, a mãe nada diz, tem seus olhos marejados, fecha os olhos para sentir melhor o carinho dela, e sem perceber sentido o amor da mãe vai dormindo.

Vitória fica observando a filha ir dormindo, vê que a respiração dela vai acalmando assim como a sua, se não estivesse tocando a filha, juraria ser uma miragem a ter ali, deitada consigo, tinha passado o dia observando o quão tensa e apreensiva ela estava, a cada toque do telefone um sobressalto, o celular sempre na mão, o silêncio nervoso, perguntava até quando ela aguentaria e o que estava acontecendo, manter uma distância para respeitar ela, estava sendo difícil, preferiu até mesmo se recolher mais cedo, e agora ali estava sua filha a surpreendendo, e a deixando com a certeza que o que estava passando era grave. Continua com o carinho sobre ela, com o coração mais leve por essa aproximação das duas, também sentiu o sono voltar e feliz vai se entregando a ele.