No aeroporto, Emília chega esbaforida por estar em cima da hora, de tanto pensar que Bernardo chegaria atrasado e já imaginando a bronca que daria nele, ela é quem chega em cima do laço. Seu Ariel foi de grande ajuda levando a mala dela aeroporto afora, até encontrarem o portão de embarque, Bernardo foi a primeira coisa que ela viu, só não achou graça por estar nervosa, odiava chegar atrasada, mas o acidente que viu no meio do caminho não foi culpa sua. Bernardo vem até eles, já se prepara para alguma piadinha que ele pode falar, mas ele chega um pouco carrancudo até eles, mas não dá bola.

— Oi Emília..— ele diz estendendo a mão de um para o outro— Senhor?— estica a mão para o homem, pensando quem seria aquele ele e porque acompanhava ela.

— Sou Ariel, o motorista de dona Emília. —Ariel tenta não achar graça do homem à sua frente, que claramente não tirou os olhos de sua patroa.

— Ariel muito obrigada, mas pode ir — ela se despede dele e o moço some na multidão do aeroporto.— Desculpa o atraso peguei um acidente na estrada.

— Tudo bem, ainda temos um tempinho— ele diz sem tentar sorri do modo sem graça com que ela pede desculpas, ele fica intrigado com as formas que Emília se apresenta a ela, cada encontro de uma reação diferente, ela pega a alça da mala e ele prontamente segura também tocando as suas mãos. — Deixa que eu levo pra você.

— Não precisa, eu consigo — ela fala sem conseguir tirar a mão dele que pressionava a sua, a posição em que estão um pouco curvados, rostos próximos, estava deixando ela desconfortável. — Além do que você já tem a sua bagagem para carregar— ela aponta para a bolsa de viagem apoiada no ombro dele.

— Não tem problema, ela está leve— ele olha para a sua bagagem e olha de volta para ela — Agora deixa eu carregar a sua, e vamos se ficarmos nesse impasse vamos perder o voo por bobagem.— ela se dá por vencida e solta a alça e escapa da mão dele.

— Tudo bem. — e vai até o balcão da companhia aérea, faz o que precisa.

Terminando o que tem que fazer ela senta em uma poltrona na sala de espera, Bernardo ficou algumas cadeiras distante, mas sem tirar o olhar dela, ela pega o celular tem ligações de casa e uma mensagem de Vitória: “ Emília, minha filha uma boa viagem, quando chegar e se puder liga para mim, só quero saber se foi tudo bem, Mamãe” , aquilo a pegou de jeito, o dia inteiro conseguiu deixar os seus problemas de fora, agradecia e muito a empresa por proporcionar isso, respondeu por mensagem, sabendo não ter condições de falar com ela: “ Vitória, estou no aeroporto, quando chegar ligo sim para você, bjs”, checou novamente o telefone e estranhou por não ver nada dos tios, nem mensagem nem ligação, mas achou melhor assim, fechou os olhos por um momento, instantes depois sentiu um toque em seu ombro era Bernardo a lhe chamar dizendo estar na hora de embarcar.

Tempos depois já estão os dois sentados lado a lado no avião, durante a espera para o voo buscou ficar distante dele, mas ali não podia escapar de uma proximidade entre eles, está sentada na janela.

Durante a espera e agora ali dentro do avião Bernardo, tenta ao máximo não ficar olhando para ela, mas não consegue, notou que ela descansou a cabeça no encosto do avião e fechou novamente os olhos, instantes depois que o avião decola, ele a olha por algum tempo, pela primeira vez desde o hotel ele vê serenidade no rosto dela, também fecha os seus olhos, em um dado momento sentiu um peso nos seus ombros, abriu os olhos e se surpreendeu com a cabeça dela apoiada sobre ele, fica o máximo que consegue parado para não acordá-la, sentindo o perfume suave que vem dela fecha os seus olhos novamente pensando no que Alberto disse de querer vê-la, o perturbava, como ele vai conseguir isso, não sabia, pois ela se transformava quando tocava no nome do pai, ele vai tentar essa aproximação, mas com toda a cautela do mundo, não quer ver Emília sofrer, sabe que ela vai, mas se de algum jeito ele puder amenizar isso, ele fará. Nem percebeu que também dormiu, só acordando quando as luzes foram acesas, Emília ainda repousava em seu ombro, devia estar muito cansada mesmo, Bernardo continuou o quanto conseguiu ficar imóvel, mas do nada um espirrou chacoalhando o seu corpo e o dela junto que tomou um tremendo susto.

— O quê foi? — ela perguntou assustada, dando conta que estava apoiada nele, sem jeito arruma os cabelos.

— Desculpa não quis acordar você— Bernardo fala.

— Eu é quem...— ela nem terminar de dizer tamanha a vergonha que sente por ter dormido e ainda sobre os ombros dele.

— Bom essa não foi a primeira vez que dorme junto de mim— ele sorri mas ela não.

— Já chegamos?— ela corta aquele assunto.

— Vamos aterrissar logo.—ela só assenti e volta a cabeça para a janela escura pela noite que já faz.

Na esteira das bagagens ele sem pestanejar assim que vê a mala dela pega antes dela, Emília já sabendo ser inútil, nem protesta, segue com ele ao seu lado, logo que saem do portão de desembarque vê a plaquinha com o nome “Sr. e Sra. Beraldini” achou estranho aquilo, mas pensa ser um erro bobo, após saber que é de fato seu motorista se encaminham ao carro. Bernardo vai o tempo todo conversando com o rapaz de nome Cícero, ela nem dá muito atenção ao que eles falam, a paisagem do local é nula por estar escuro, então pega os seus relatórios para ler, não quer correr o risco de dormir novamente.

Tempos depois a paisagem ganha vida, ganha luz, Cícero anuncia que chegaram a BellaRosa.

— E porque essas luzes todas?— Bernardo perguntou.

— Vocês não sabem? — os dois se olham e balançam a cabeça— Achei que tinham vindo para isso é a semana dos festivais em comemoração ao aniversário da cidade, tem festival de música, arte, vinhos, comida, flores, entre outros, basicamente cada dia um, durante todo o dia, a cidade está cheia, grupos de tudo que é canto do estado.

— Ah — Emília falou sem entusiasmo, esquecia que cidades pequenas tinham as suas excentricidades.

— Muito legal isso, sabe adoro tirar fotos, acho que terei boas horas de lazer.

— Aqui tem lugares lindos, dentro e fora da cidade, se o senhor quiser eu levo— Bernardo diz que sim, Emília se mantém distante do assunto deles olha por fora da janela a cidade ganhando mais vida.— Perto daqui temos uma linda gruta, o senhor vai adorar lá, aliás os dois um belo lugar para um casal.

— Nós não somos um casal— Emília não percebeu que disse alto demais, só quando viu os olhos assustado do rapaz pelo retrovisor que deu conta— Desculpas, viemos aqui a trabalho.— o moço só concorda com a cabeça e fica quieto o resto do caminho, Bernardo a olha ela continua a olhar pela janela.

— Chegamos— Cícero disse minutos depois, sai do carro e longo em seguida abre a porta para ela.

— Obrigada.

Bernardo também desce, ouve quando o moço diz que ele carregará as malas, ela vai entrando no hotel, está um pouco cheio ali, demora um minuto para ser atendida, por fim diz.

— Tenho reservas em nome da Beraldini.— Emília fala, já com Bernardo ao seu lado

— Sim deixa eu ver— a moça olha na tela do computador, sorri e diz— Sim aqui está suite 13 para Sr. e Sra. Beraldini.— a moça entrega uma chave a ela, que olha o objeto estranhando a forma como a moça falou então dá conta do erro.

—Não, deve ser um engano— Emília devolve a chave a recepcionista— Não somos Sr. e Sra. Beraldini — a menina olha confusa— Não é um quarto só, é dois quartos, não somos um casal— Emília completa.

— Mas a reserva é para um quarto, um casal, veja — a moça vira a tela do computador para Emília, de fato era o que dizia.

—Mas somos duas pessoas, quartos separados, pode por favor ver outro quarto.

— Não será possível senhora, não temos mais suite…

— Pode ser um quarto simples, qualquer um — ela não quer mesmo ter de dividir o quarto com Bernardo, que fica quieto o tempo todo, ela nem se atreve a olhar para ele.

— Não senhora, por conta da semana dos festivais, estamos com todo os quartos ocupados.

— Não posso acreditar nisso, há outro hotel?— a moça faz que não— Pousada?— novamente não—Algum lugar para alugar?

— Não senhora por conta da semana..

— Já sei, semana dos festivais — Emília diz impaciente, coloca as mãos na cabeça, precisa resolver essa situação, sai da recepção do hotel indo para a rua.

— Emília— ouve Bernardo chamando por ela, mas não para, caminha para longe daquele barulho do hotel.— Emília espera— ele a alcança e pegou em seu braço a parando.— É tão ruim assim dividir o quarto comigo?— ela não responde só o olha— Tudo bem fica com o quarto só para você se eu te incomodo tanto, eu me arranjo— e sai do lado dela, caminhando rumo a multidão.

Ela vai atrás dele, mesmo com os saltos atrapalhando e ele dando passos largos, ela o alcança.

— Ei espera — apoia a mão no ombro dele quando o salto prende em uma fresta no chão— Se arranjar onde se está tudo cheio?

— Eu não sei. — e continua a andar ela fica parada no mesmo lugar por causa do pé preso.

— Nós podemos sim dividir o quarto— ele olha para trás e a vê parada de braços cruzados, caminha de novo para ela.

— O que disse?— ele diz querendo ter o prazer de ouvir ela falar de novo, ela respira e ergue a sobrancelha — Não ouvi muito barulho aqui fora.— ele faz um sinal com a mão.

— Podemos sim dividir o quarto — diz séria, ele sorri.

— Por mim tudo bem — e caminha de volta ao hotel, dá uns passos e não a vê, olha para trás ela ficou parada no mesmo lugar— Vamos.

— Eu não posso — ela grita, ele anda de volta para ela.

— Por que, se for por causa do quarto …

— Não, não é — ela o corta ele o olha como quem pergunta o porque — Meu pé.

— O que tem — Bernardo olha para baixo e não vê nada de anormal— Torceu?

— Não, ele está preso— ele não aguenta e dá uma enorme gargalhada— Não vejo graça.

— Emília Beraldini presa pelo salto do sapato— continua a rir, ela não.

Então Bernardo agacha-se em frente a ela, segura em sua panturrilha, ele sente ela ofegar ao seu toque, por estar de saia, sentia em seus dedos a maciez da pele dela, sua mão começa a suar, então vai rápido com a outra mão e dá um puxão no pé preso, ela apoia a mão em seu ombro para não cair sobre ele, sentindo-se livre, Emília se recompõe. Bernardo se põe de pé novamente.

— Vamos?— ela diz.

— Sim vamos.— e começam a andar de volta ao hotel.

Antes de subirem ao quarto preferem comeram algo, é uma refeição rápida e silenciosa, nem um dos dois tem muito a falar, já quarto do hotel ele abre a porta, ela entra, as malas já estão ali, o quarto é lindo, bem decorado amplo, há uma enorme cama de casal, e por sorte um sofá perto da mesa de refeições, ela chega até ele, afofa vê que é confortável, não é muito grande, mas servirá, olha para Bernardo e diz:

— Pode ficar com o sofá, ele parece ser bom.

— Foi o que pensei. — ele pega sua bolsa de viagem e coloca sobre a sua “cama”— Se não se importa gostaria de tomar banho primeiro.

—Sim pode ir tenho que fazer uma ligação.

Ela vai até a varanda com o celular em mãos, disca o número da mãe, pensa muito antes de fazer a chamada, nem sabe bem o que dizer, mas como tinha prometido ligar completa a ligação, no segundo toque ela atendeu.

—Emília? — diz ansiosa.

— Sim sou eu.

— Que bom minha filha, como você está?

— Está tudo bem, foi tudo tranquilo na viagem.

— Que bom, que bom— Vitória diz, faz um silêncio.

— Já estou no hotel.

—Você deve estar cansada.

— Um pouco— Emília diz um pouco sem jeito, não quer colocar a mãe para correr, elas não tem muito o que dizer, ou melhor há muito, mas não agora, por fim Vitória diz:

— Vou deixar você descansar, mas não esquece de comer minha filha.

— Está bem.— Emília sorri sem jeito com a forma maternal ainda estranha ao seus ouvidos.

— Boa noite filha.

— Boa noite.— e desliga olhando para o aparelho, ainda não sabia muito o que sentir com essa aproximação delas,

— Eu terminei se você quiser usar o banheiro— a voz de Bernardo chega até ela, tinha esquecido do seu companheiro de quarto.

Entra de novo no aposento, ele está arrumando sua cama no sofá, vestindo uma regata branca e uma bermuda, tem os braços fortes, fica uns segundos olhando-o, antes de ele se vira caminha até sua mala, abre tira com cuidado o presente que a mãe deu e coloca sobre a mesinha de cabeceira, quando estivesse sozinha iria abrir, e vasculha sua mala, então percebe que só tem uma camisola preta para vestir, não colocou nenhum pijama, mas como ela iria saber que teria de dividir o quarto, por sorte tinha o penhoar junto, assim não iria desfilar pelo quarto só de camisola, com a sua necessaire vai ao banheiro, demora o tempo que pode no banho, para que quando voltar Bernardo esteja dormindo, e de fato consegue, o quarto tem só a luz do abajur da sua cama ligada, ele está virado como quem olha para a cama, mas de olhos fechados, com passo rápido vai até a cama e se põe debaixo dos lençóis só depois tira o penhoar, deita esperando o sono vir.