Fazia dois anos que Sebastian estava na casa. Sem a companhia de Louis, seus dias se tornaram monótonos, porque não conversava com mais ninguém naquele lugar. Mesmo não tendo correspondido os sentimentos do ruivo da forma que o mesmo desejava, Sebastian ficou muito abalado com a perda de um amigo e sentia sua falta, queria ter sido melhor para ele, deveria ter sido alguém digno de receber seu amor. Não podia mais fazê-lo, porém, tinha certeza de que agora tinha uma pessoa no céu lhe vigiando e tomando conta de seus passos.

Há dois anos que o mundo do pequeno se resumia as paredes da casa e as árvores da floresta. Agora ele já estava totalmente acostumado com isso, sua rotina era esperar clientes e proporcionar a eles o melhor prazer de suas vidas. Às vezes ele se perguntava se existia antes daquilo. Não era ele o maior acrobata do Circo do Bosque Negro? Ou tudo aquilo não tinha passado de um sonho? Era difícil lembrar-se de como era antes de Albert surgir em sua vida, e sua memória parecia apagar tudo a medida que o tempo passava.

Sebastian ainda odiava o trabalho, mas já o fazia com perfeição, afinal, ele queria ser bom em absolutamente tudo, não importava o que o ordenassem, ele faria. Com esse pensamento, se tornou o garoto mais desejado do prostíbulo e ainda conseguiu manter o posto de favorito de Albert, o qual dividia com Leo.

Sua relação com o italiano tinha melhorado muito, pois fizeram um acordo e decidiram nunca conversar, assim, a paz foi selada entre eles. Quando deu por si, já tinha 16 anos, idade em que já podia sair da casa e seguir sua vida, entretanto não sabia pra onde ir. Não queria acabar como Leo, que aos 17 anos ainda pretendia ficar lá, Sebastian sentia que a cada segundo que passava ficaria mais difícil de ir embora.

Aliás, a aparência do moreno superou todas as expectativas, ele nunca foi feio, mas sua forma adulta se mostrou muito bela, apesar de ainda estar em fase de crescimento. Seus traços ainda eram delicados, ideal para um prostituto, mas sua pele não era mais a pele macia de uma criança e logo os clientes se cansariam dele.

Sebastian e Leo estavam na varanda, esperando algum cliente aparecer, talvez todos estivessem ocupados com alguma festa comunitária, já que o movimento vinha caindo nos últimos dias. Ambos estavam entediados com a monotonia, pois ao contrário das outras crianças, que usavam seu tempo livre para brincar, eles só sentavam e esperavam algum homem surgir entre as árvores.

– O que você pretende fazer? – Perguntou Leo, quebrando a regra do silêncio que durava dois anos. – Vai embora?

– Eu não sei, mas não tenho intenção de ficar aqui.

– Tu tens sorte, é livre e não se prende a pessoas ou lembranças. Pode partir sem ressentimentos.

– Você chama de sorte, eu chamo de maldição.

Eles continuaram sentados na varanda, sem falar mais nada. Fazia algum tempo que os garotos começaram a se preocupar com seu destino, porque já não eram crianças, logo nasceriam pelos em seus rostos e os clientes não gostavam disso, então mais cedo ou mais tarde seriam descartados. Quando pensava nessa possibilidade, Sebastian tremia, pois lembrava muito bem do assassinato de Louis e não queria ter o mesmo fim. Ele não queria morrer, já tinha cuspido na cara da morte inúmeras vezes, não poderia deixar sua velha inimiga o levar com o gosto da vitória nos lábios.

De repente, Sebastian ouviu passos vindos da floresta. Alguém estava se aproximando rapidamente, e não estava sozinho. A bruxa, que não se encontrava muito longe do adolescente, logo gritou para todos entrarem, provavelmente estava estranhando alguém justo naquele dia. As crianças a obedeceram, mas Sebastian resolveu ficar espiando pela janela qual dos seus senhores estaria chegando. Mas não tinha nada para se alegrar afinal, era apenas Albert com outro menino.

– Seu porco inútil! Continua trazendo essas pragas como se fossem cães abandonados! – Gritou a bruxa ao notar o pequeno. – Ele vai comer o que? Se alimenta de vento?! Porque é a única coisa que temos de sobra nesse inferno!

– Fique quieta – o contratante a pegou pelo braço e começou a sussurrar em seu ouvido, exatamente como fizera na vez de Louis e Sebastian. – Agora ficou mais calma?

A mulher ficou calada e enfurecida, olhava para o semblante do moreno com ódio profundo, ainda mais pelo cinismo que ele detinha. Como podia sorrir em todas as ocasiões? Aquele sorriso lhe irritava. Mesmo assim, puxou o garotinho e o arrastou para dentro, deixando o contratante sozinho, livre para partir novamente. O menino estava claramente confuso, mas acima de tudo, estava magro. Não devia comer direito há dias e dava para ver devido ao seu rosto. Só não fazia mais cara de fome, porque estava com muito medo.

Era hora do almoço quando ele apareceu, mas não tinha comida para todos, isso era fato. Com a aquisição do menino, vinte crianças residiam na casa. Não havia muito para comer, nem espaço para todos dormirem, nos últimos dias, a frequência tinha caído consideravelmente, fator que não ajudava na renda. A bruxa, como todos os dias, mandou todos fazerem uma fila para se servirem, depois, cada um deveria se sentar em qualquer canto para comer. Ninguém comentou, mas todos notaram que tinha menos comida no prato, o qual geralmente já estava quase vazio.

Sebastian sentou perto da porta sozinho, tratando de engolir a refeição o mais rápido possível. Mas o novato resolveu ir justamente para o lado dele, com seu prato que mal cabia nas pequenas mãos infantis.

– Ola, – disse olhando para o moreno. Sebastian não tinha a mínima intenção de falar com ele, mas virou o rosto apenas pelo susto – meu nome é Peter.

– Prazer.

– Desculpe, ainda não sei onde estou e ninguém parece querer me ajudar... Posso te perguntar o que não sei?

Sebastian olhou para o pequeno Peter, pronto para mandá-lo sair de perto, mas bem quando ia falar, encontrou aqueles olhos azuis que o menor possuía. Maldita cor e maldito efeito que ela lhe causava. Era simplesmente encantador o tom do azul que ele tinha, e seu rostinho banco ressaltava ainda mais a cor.

– A vontade.

– Obrigado! Bom, eu vou ser rápido! Para começar... Onde estou?

Pronto. Era justamente a pergunta que Sebastian mais odiava responder. Nas poucas vezes que acompanhou a bruxa até o mercado, quando lhe perguntavam onde morava, não podia dizer “numa casa no meio da floresta” ou pior, “em um prostíbulo”. Mas aquele garotinho merecia saber onde estava, até porque, seria mais difícil com a idade dele compreender o que se passava.

– Vamos lá... Você é um garoto bonito, por isso, imagino que sua família te vendeu para aquele homem moreno. Neste exato momento, você está em uma casa de prostitutos.

Peter não perguntou mais nada. Ficou calado o resto do dia, e, por uma razão desconhecida, seguia Sebastian constantemente, e o mais velho não conseguia reclamar, era adorável ver como o menininho era indefeso. Aqueles atos lhe pareciam tão familiares, sabia quem o menino lembrava, só não queria admitir isso com tanta facilidade.

Naquela noite, Sebastian foi obrigado a dividir seu pão com o menino, pois a quantidade que a bruxa havia comprado era a conta das crianças. Lógico que não cedeu assim tão fácil, porque a comida já era pouca, dividir seria passar a noite conversando com a própria barriga.

– Não faça charme! Você é um dos que mais come! Já está ficando até gordinho!

– É claro que como mais! Olhe o meu tamanho! E não venha me dizer que estou gordo! Todos aqui não passam de esqueletos!

– Você não pode dividir seu pão com o menino, seu pirralho egoísta?!

– Eu não quero ficar com fome!

– Está bem, vossa majestade! Coma seu precioso pão e o faça bem na frente do menino!

Dizendo isso ela jogou o pão em Sebastian. Peter estava ao lado dele, olhando para o chão constrangido com tudo que estava acontecendo. Ele estava com fome, com medo do que podia acontecer naquele lugar, estava sozinho e queria ficar perto de alguém, só para se sentir mais seguro. Sebastian não era muito sociável, e também era um pouco estranho, mas acima de tudo, era um mistério. E Peter começou a pensar assim quando sentiu metade de um pão ser jogado contra ele.

Naquela noite, quando as crianças foram novamente amontoadas no anexo no fundo da casa, Sebastian ouvia a barriga reclamando mais do que o costume. Muitas pessoas dizem ter fome, mas a verdade é que nenhuma delas realmente “teve” fome, apenas a sentiram. Sebastian podia dizer com certeza que tinha fome, ele praticamente a possuía todas as noites, ele e a fome eram quase a mesma coisa. Mas ele não estava sozinho, ouvia a barriga de Peter roncar na mesma intensidade que a sua, talvez fosse porque eles estavam muito próximos. O menininho parecia um gato ronronando, pois mesmo com o som da fome tão alto, ele se encolhia no peito de Sebastian com um singelo sorriso no rosto.

Sebastian mal imaginaria que um dia, iria lembrar-se com saudade daquelas noites, em que junto com as demais crianças, beirou a inanição e a hipotermia.

Peter era um garoto muito medroso e tinha certa dificuldade para conversar com as outras pessoas da casa, falava apenas com Sebastian e vez ou outra, conversava com Leo, mas era só. Tinha cabelos pretos, mais pretos até que os do mais velho, e como foi dito antes, incríveis e delirantes olhos azul celeste. Sua pele era alva, branquinha como a neve e estava no auge dos seus nove anos. A razão pela qual sua família resolveu vendê-lo, foi a situação financeira em que eles se encontravam. Provavelmente, venderiam seus outros dois filhos, mas optaram por Peter primeiro devido a sua beleza.

Para sua sorte, ou azar, ele foi bonito o suficiente para o contratante pôr os olhos nele e se interessar. O garotinho tinha muita sorte, Sebastian soube por Peter que estavam na páscoa, então os clientes deveriam estar ocupados com suas famílias, sendo assim, o menino poderia se acostumar com a profissão antes de exercê-la.

Então os dias foram passando, e Peter já estava na casa há duas semanas, e de certa forma, já estava se habituando. Não tinha se deitado com ninguém desde que chegou, mas falou para o mais velho que seu tio já tinha feito com ele as coisas que os homens faziam lá, por isso, não seria tão difícil. Sebastian não gostava do menino, se irritava quando ele o perseguia e as perguntas dele também eram inconvenientes, mas aqueles lindos olhos azuis não deixavam o moreno tomar qualquer atitude, era inútil lutar contra o efeito alucinógeno que aquela cor lhe causava.

Era uma manhã como qualquer outra, o contratante chegou junto de Sebastian e Leo – e consequentemente de Peter – para uma breve conversa. Depois de enrolar um pouco sobre o verdadeiro motivo da aproximação, ele anunciou o pior:

– Vocês dois podem ter crescido, mas ainda me pertencem. Vou vendê-los para um senhor que mora não muito longe daqui.

Um suspiro irritado por parte de Sebastian, um olhar indiferente vindo de Peter e um grito histérico da boca de Leo.

– Como assim?! Não pode me vender sem mais nem menos! O que pensa que está fazendo?! – O italiano se levantou e quase conseguia olhar de frente os olhos do mestre, mas não tinha crescido tanto assim.

– Eu vou vender você sim, porque esse direito é meu como seu dono. E me espanta você agir dessa forma, Leonardo.

– De que outra forma eu agiria?! Isso não faz sentido, ao menos explique alguma coisa!

– Eu te criei para ser um prostituto perfeito e submisso, me impressiona você ainda achar que um dia eu iria corresponder esse amor tolo e sem sentido.

As pernas de Leo pareciam feitas do mais fino papel, pois quando ouviu aquela frase, ele não se aguentou em pé, caiu olhando para o chão, provavelmente na esperança de se unir ao solo e evitar tamanho sofrimento. Aquilo não podia estar acontecendo, tinha algo errado, mesmo que Albert nunca tivesse dito que o amava, também nunca disse ao contrário, alimentando falsas esperanças no pequeno. As lágrimas desceram uma por uma, pesadas e quentes, não deixando ver nada, mesmo que estivesse apenas a fitar o chão.

O contratante só não riu daquela cena porque seu nojo foi maior. Antes o amor de Leo era um afeto inocente e infantil, nem mesmo Albert notou quando isso se tornou a mais louca obcessão da vida do italiano. E agora, estava ali, chorando no chão feito um verme. Para não olhar mais a figura, Albert saiu andando calmamente pelas crianças, as quais abriam passagem assustadas. Como diz o ditado, não se pode enganar os olhos de uma criança.

Leo continuou chorando, na frente de Sebastian e de Peter até este último colocar a mão em seu ombro.

– Não fique triste, ele não é tão bom assim.

– Ele não era bom... Mas era tudo que eu tinha, e agora, eu o perdi.

O de cabelos pretos mais velhos se irritou com aquela confissão infantil e egoísta do italiano, afinal, ele não era o único que sofria no mundo, como ele pode exigir consolo de pessoas que sofreram coisas até piores?

– Ora, cale essa maldita boca, seu italiano estúpido! Você não é o único, então pare de chorar!

– Não se meta até no meu sofrimento, Sebastian! Fiquei calado quando você passou uma semana inteira chorando por Louis! Aquele pobre coitado que morreu por sua causa!

Sebastian se conteve para não socar Leo ali mesmo, na varanda naquela rara manhã ensolarada. Depois disso, apenas continuou olhando o garoto chorar por um amor, sendo consolado por uma criança de nove anos que acabara de ser separado de sua família. As pessoas são estranhas. Foi isso que passou pela cabeça do francês.

Esse pensamento foi afastado pela visão da bruxa olhando para eles com uma expressão estranha, não que seu rosto já não fosse estranho o suficiente. Sebastian podia jurar já ter visto aquele olhar antes, e só a vaga lembrança o fez tremer, algo muito ruim iria acontecer. O moreno mais velho fitava Leo chorando e articulava um jeito, uma maneira, de não ser tão vulnerável nas mãos daquela mulher, poucos sabiam, mas aquela expressão vazia e com olhar distante, indicava que o moreno estava pensando em algo muito sério.

Não demorou para que Leo quisesse entrar e os dois morenos o acompanharam, até o sofá, onde ele ficou o resto do dia, sem falar, sem comer ou beber, Sebastian achou que ele nem mesmo viu o momento em que ele entrou sorrateiramente no quarto da bruxa. A dona deste deveria estar aos arredores da casa, colhendo alguma coisa para dar sabor ao almoço, então, Sebastian não teve receio algum. A primeira vista, tudo parecia normal, até monótono. Uma cama, um armário com algumas caixas em cima e um criado-mudo que acomodava uma pequena vela.

Começou sua busca pelo armário, sendo ele o elemento mais suspeito no recinto. Apenas alguns trapos cinza denominados vestidos e sapatos gastos com solas ruídas. A parte de cima foi bem mais interessante, eram fotos de várias crianças, com datas nos versos. Sebastian deu uma olhada em cada uma, e notou, que até uma determinada data, as crianças apareciam sorrindo, gordinhas e bem-vestidas na medida do possível. Mais ou menos, há 12 anos, elas pararam de sorrir, suas roupas ficavam mais sujas e seus rostos mais magros. Até que não havia mais fotos.

Sebastian ficou um pouco perturbado com essa descoberta, mas ainda achou pouco, onde havia fumaça, havia fogo, naquele momento, teve certeza que deveria ter algo mais escondido. Procurou nas outras caixas e só tinha mais e mais fotos, então foi ao criado-mudo, onde achou uma caixa vermelha, a tirou de seu esconderijo e viu cartas velhas e amassadas. Seria mentira dizer que ele não teve problemas para lê-las, a verdade foi que as palavras saíram lentamente por conta da falta de prática. Mas ele estava feliz por conseguir lê-las. Naquela manhã, isso foi tudo que ele entendeu:

“Querida Mãe,

A guerra me chamou, e quando isso acontece, só há uma resposta. Creio que a senhora saiba qual seja. Sendo assim, dentro de quinze dias, estarei partindo pela rainha. Por favor, reze para mim e meus futuros colegas, para que voltemos todos a salvos para estarmos novamente, em um lindo natal com nossas famílias. Também peço que continue cuidando dessas queridas crianças, as quais fico feliz em chamar de “irmãos”, aliás, já encontrei cinco crianças que já passaram pela senhora aqui em Londres! Todos são adultos maravilhosos e agradecem a Deus por terem sido enviados para um lar provisório tão acolhedor. Vou continuar a escrever, aguarde notícias minhas.”

Depois de ler essa parte, guardou as coisas correndo da melhor forma que conseguiu e saiu do quarto, suado e desconfiado de todos. Qualquer um poderia tê-lo visto entrar ou sair, então ninguém era de confiança, exceto Leo, pois se ele tivesse visto alguma coisa, sentado onde estava, já teria denunciado Sebastian.

Durante mais de uma semana, o passatempo do moreno foi entrar a surdina no quarto da bruxa, uma, duas ou no máximo três vezes ao dia, para ler um pouco mais das cartas que o rapaz mandava a ela. Tinha quase certeza que se tratava de um filho de sangue, pelo jeito carinhoso e pelos relatos amenizados da guerra. Sebastian praticamente via um jovem, com pouco mais de vinte anos, deitado na cama em uma cabana perdida no território inimigo. Ele deveria saber que a qualquer momento poderia morrer, mas sua preocupação era escrever a sua mãe, para tranquilizá-la, para simplesmente falar: “eu estou vivo, mamãe”. O último pensamento desse jovem ao morrer, deveria ter sido como se explicaria para a mãe. Mesmo assim, não havia medo em suas palavras, porém, qualquer um perceberia uma letra tremida e manchas de lágrimas no papel.

Sua última carta foi a seguinte:

“Querida Mãe,

Nossas esperanças na vitoria estão crescendo, o inimigo está intimidado com o poder de nossas armas, provavelmente, estarei ai no ano novo, brindando com a senhora e meus irmãos. Fiz amigos aqui que pretendo levar para vida toda, um deles, o Harry, tem três filhos! Ah, que inveja desse homem! Mas eu vou ter pelo menos meia dúzia de crianças, só falta achar a garota certa, para eu lhe encher de netos. Amanhã, vamos começar a marchar para o norte, o general disse que será uma caminhada rumo a vitória, agora que as tropas inimigas estão cada vez mais fracas. Sei que suas orações me guiaram até aqui, por favor, continue pedindo a Deus para me levar de volta a seus braços. Me espere para o jantar.”

A única carta enviada pelo exército depois dessa, foi um memorando vermelho com a triste notícia do falecimento do jovem soldado. Sebastian leu essa em poucos minutos,já que sua capacidade de leitura estava sendo aprimorada, mas só para ter certeza do que estava vendo, leu e releu mais algumas vezes. Aquela carta fria e vermelha era bem diferente das outras, que emanavam o amor fraterno de um filho. Um total de vinte e sete cartas curtas sem remetente, justamente para evitar uma resposta. Estranhamente, o destinatário estava borrado em todas e Sebastian desistiu de pensar que foram lágrimas as culpadas de tirar a tinta.

Sebastian sabia que aquilo poderia significar um ponto fraco, mas não tinha certeza se seu sangue era frio o suficiente para atormentar a bruxa com um passado tão triste. Maldita seja a compaixão. Pensou ele.

Saiu do quarto de novo, e poucos segundos depois, Peter estava ao seu lado, o importunando com perguntas. Se perguntou se o menino saberia das suas visitas ao quarto da mulher, mas isso tampouco importava, afinal, quem o pequeno teria ali dentro, se não fosse Sebastian? Ele tinha apenas duas opções, e com certeza não escolheria ficar sozinho.

Foi nesse momento que a bruxa passou, olhando fixamente para Leo, Peter e Sebastian. Por um momento, esse último lhe enviou um olhar de empatia, mas logo tirou essa expressão do rosto. Então, a bruxa falou:

– Leonardo, venha comigo.

Este, sem entender muita coisa, a seguiu até o lado de fora, onde continuaram andando em direção à floresta. Sebastian ficou observando aquela situação suspeita, algo nela lhe remetia a perigo... Olhou para o menino ao seu lado e soltou um breve sorriso que foi retribuído, sem saber a causa desse gesto, pegou o mesmo rumo da bruxa e de Leo, sendo novamente seguido por Peter.

O local que eles chegaram foi naquela casinha, a qual Sebastian já conhecia de longa data. Começou a ficar preocupado, e de novo, assumiu seu posto sobre o galho, o único local que lhe permitia a visão de dentro da casinha.

– Leonardo, você está ficando velho.

– Você também não está ficando mais jovem.

– Seu senso de humor é admirável, ainda mais quando sabe do que se trata. Você sabe, não é Leonardo? O que acontece com as crianças que entram aqui.

– Como poderia esquecer? Meus melhores amigos se foram dessa forma. Só posso supor que meu senhor me vendeu para um gorila, e você não quer me entregar para uma morte cruel.

– Ainda bem que você se lembra. Mas nesse caso, você não será o único. Ele vendeu você e Sebastian para um marques. Me impressiono você não ficar alterado com isso.

– Eu já não sou um moleque vivendo seu primeiro amor. Já estava esperando isso. – Eles ficaram calados por uma porção de segundos, até Leo falar novamente. – Você mata para evitar um sofrimento maior, mas você não é melhor que nenhum dos compradores.

– Cale a boca, menino. Se eu lhe deixar viver naquele inferno, você irá me odiar pelo resto da vida por não ter lhe dado um fim digno agora.

– Eu não vou morrer assim tão fácil.

No instante seguinte, a bruxa puxou os cabelos de Leo, que lutou, não tinha intenção de morrer daquela forma. E por um breve momento, parecia que realmente a sua hora não tinha chegado, mas a mulher em um rápido movimento, mergulhou sua cabeça na água. Aquela cena foi tão horrível para Sebastian, que ele se viu no impulso de pular da árvore e ir ao socorro de Leo. Assim fez.

Diferente da outra vez, com três chutes a porta cedeu diante da sua força. A bruxa se assustou com a batida a um ponto que soltou Leo, deixando o livre para respirar. O italiano estava arfante e vermelho, mesmo assim, não conseguia crer que era Sebastian ali, intercedendo por ele. Só podia pensar que aquele ex-acrobata era muito idiota.


Notas finais
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