O Passado De Um Mordomo
2 2ª Noite
Notas iniciais
Betado pela ecchichan
A noite estava escura, nem a lua cedia um pouco do seu brilho para acalentar as almas perdidas, toda Paris estava iluminada apenas pelas velas que acendiam dentro das casas. Mas essa luz não era suficiente para clarear a noite. Foi exatamente nesta data, absorta pela escuridão, que Sebastian viu o verdadeiro lado das pessoas, o lado que todos tentavam esconder sob roupas caras e status social. O lado cruel, que muitas vezes, só era despertado com o álcool, substância que deixava todos inconscientes de seus atos, fazendo as pessoas retirarem a mascara e agir como de fato são.
Seu pai postiço se embriagava com litros de vinho, a medida que a taça se esvaziava, gritava por mais, como uma criança faminta, o jovem seguia cabisbaixo até onde fora requisitado e lhe servia um pouco mais da bebida, pedindo por pensamentos para que ele dormisse logo. Era provavelmente a vigésima vez que fora chamado, já se passavam das onze da noite, e ele ainda parecia estar só começando. Cansado e com sono, se distraiu ao colocar o vinho, deixando escorrer parte dele na roupa do homem e outra na toalha de mesa. Quando percebeu seu erro, ficou paralisado. O que seu maldito pai iria fazer com ele desta vez? “Por favor, que ele esteja tão bêbedo que não perceba” pensou, obviamente enganado.
– Seu bastardo! Como ousa derramar tudo isso em mim? – falou levantado a voz juntamente com o corpo gordo e asqueroso.
– S-sinto muito. – não conseguiria escapar da surra, mas ainda tinha esperanças de que ele desmaiasse.
– Não, você não sente! Ainda não!
O que aquele homem queria dizer com aquilo? O que pretendia fazer ao próprio filho? Mesmo que não fosse de sangue, deveria ser tratado como tal, mas isso é uma coisa que nunca aconteceu naquela casa. Segurou os pulsos do menor, seus olhos não demonstravam sentimento algum, se fosse para citar algo que lhe passou pela cabeça, quem sabe... prazer. Assim arrastou o jovem até o estábulo que ficava atrás da casa, que claramente nunca era utilizado, mero enfeite.
Quando chegaram, puxou o garoto pelos cabelos, olhando no fundo de seus olhos escuros, vislumbrando o medo que estava sentindo. Amarrou o pequeno de um jeito que seu braço esquerdo ficasse amostra. Virou-se e apanhou um ferro, usado para “carimbar” os cavalos da família, ainda estava incandescente pelo calor a que foi exposto. Quando viu o que ele tinha em mãos, nosso protagonista se viu pela primeira vez, implorando para ele parar com o ato.
– Eu sinto muito! Por favor, não faça isso! Eu lhe suplico! – apesar dos gritos que saiam da boca do jovem, Edmond só se sentia ainda mais ansioso para lhe dar um castigo adequado àquele garoto que vivia de favor em sua casa.
– Você não sente, mas vai sentir. – sorriu. Com os olhos refletindo a cor do ferro, ele não parecia humano, ou talvez, nunca fora um.
Sebastian gritava mais, a cada passo cambaleante que o pai dava. As amarra s estavam frouxas, quem sabe conseguiria soltá-las antes que o maldito se aproximasse. Mas não conseguiu fazê-lo tão rápido, faltava pouco para se libertar, quando sentiu o brasão da família fazer uma marca na sua pele, queimando e deixando uma cicatriz horrenda nele, como se aquele bárbaro quisesse que Sebastian nunca se esquecesse dos tempos que passou na casa. O jovem gritou em plenos pulmões, se contorceu tamanha era a dor que sentia. Mas não era maior que o ódio, lhe subindo a cabeça e tomando conta de todos os seus sentidos. Movido pela raiva, livrou-se das amarras e antes que o velho notasse, arrancou o ferro de suas mãos. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.
Inúmeras vezes o apunhalou deixando a mesma marca que estava encravada na sua mão e na sua alma. Com um sorriso incrivelmente largo no rosto, o matou com suas próprias mãos, ouvindo os gritos daquele que um dia chamara de pai. Quando acabou, olhou para o cadáver que jazia no chão, a expressão dele não era a mesma de dez minutos atrás, uma lágrima solitária invadiu o rosto morto, deixando Sebastian ainda mais satisfeito com sua ação.
O pequeno se arrastou até um poço que ficava próximo ao estábulo e jogou água na ferida, ainda dolorida. Sentou no chão olhando para o céu, iluminado apenas pelas estrelas, fazia tempo que não olhava para ele. Lembrou-se do que fez e constatou que não poderia mais habitar aquela casa, sendo assim, deveria ir embora naquela noite.Na verdade o fez pelo seu orgulho destrinchado. Com as roupas do corpo foi em direção ao portão principal, dando uma última olhada naquele inferno, nunca mais voltaria para lá. Quando continuou seu caminho, deu de cara com Jean, segurando um gato sujo e extremamente magro, o garoto foi em direção ao irmão mais novo sorrindo por causa do bichano.
– Será que mamãe vai me deixar ficar com ele? – para um garoto rico, realmente deveria ser sua única preocupação. Era o quinto gato que trazia para casa, todos na mesma condição.
– Se for você pedindo, acho que sim. – Sebastian não tinha forças para conversar com seu irmão e único amigo, a dor no braço lhe negava qualquer tipo de pensamento.
Jean lhe fitava com seus imensos orbes azuis, o que na opinião do menor, era o que ele tinha de mais belo, sim, a coloração dos seus olhos era tão linda que se sentia atraído pela figura. O jovem tinha cabelos pretos, olhos escuros e uma pele tão pálida quanto papel, mas seu irmão parecia um anjo de tão gracioso, os fios loiros eram a única coisa que tornavam aquela noite envolta na penumbra, algo encantador. O vento frio o fez estremecer, não estava acostumado a sair sem agasalhos.
– Vá para casa, meu irmão. Vou passear um pouco.
– Sim, mas volte logo, está um frio enorme aqui.
O pequeno apenas assentiu com a cabeça e continuou andando, mas não por muito tempo. Aquela seria a última vez que veria a figura tão amada, deixaria passar sua chance de dizer “adeus”? Ele ainda tinha sangue correndo nas veias, então não conseguiu ficar imparcial em relação a isto, mas o que seria uma despedida a altura daquele momento? Um aperto de mão seria um “até logo”, um abraço seria “vou demorar”. Queria algo que demonstrasse tudo que sentia. Mas sua inocência infantil não lhe ajudava nessa escolha. Sem pensar duas vezes virou-se, puxou o braço do irmão e o beijou de surpresa.
– O que foi isso, Sebby? – Jean colocou a mão na bochecha, sem entender exatamente o porquê do mais novo fazer aquilo.
– Eu te adoro, maninho. Promete que nunca vai se esquecer de mim? – falou olhando diretamente para seus olhos, lindos olhos.
O que ele tinha falado? Corou no mesmo instante que a razão veio a sua cabeça, não poderia dizer que estava indo para sempre e aquilo foi quase incestuoso. Não queria ouvir sua resposta, então foi em direção ao portão, aquela seria a última vez, sim, nunca mais ouviria sua voz, sentiria seus abraços ou veria aqueles lindos orbes cor de céu. Mesmo tendo muita vontade de ficar perto dele, a repulsa que sentia daquela casa era ainda maior, não poderia respirar o mesmo ar que aquelas pessoas respiravam. Já estava fora dos domínios da família quando sentiu uma mão em sua cintura, outra em seu rosto. Logo estava de frente ao irmão mais velho, que lhe pregou um beijo, um beijo na boca. Ele dava selinhos de leve enquanto apertava Sebastian contra seu corpo, este apoiava ambas as mãos no peito do garoto, permitindo o assedio. Não demoraram com o ato, quando se separaram o loiro se aproximou do ouvido do moreno e sussurrou:
– Eu prometo, Sebby. Eu te amo. – em um tom assustadoramente sexy, que fez o pequeno estremecer.
O garoto não podia continuar de frente a ele, antes que pudesse cogitar qualquer coisa, saiu correndo, deixando seu irmão, que acabara de lhe beijar sozinho em frente a mansão. Michaelis queria sentir aquele gosto mais vezes, queria ter o prazer de experimentá-lo, mas por que se sentia tão errado? Colocou a mão na boca e passou a língua por ela, nunca iria se esquecer do momento que seus lábios se tocaram, nunca ia se esquecer de Jean, a única pessoa no mundo que disse que o amava, mas que tinha abandonado. Como ele deveria reagir afinal? Vergonha, tristeza ou ódio? Seria possível sentir tudo isso ao mesmo tempo? Quando chegou ao centro, viu o que tinha feito, Jean deve ter pensado que o jovem fugiu por sua culpa, como pode ter feito isso? Recebeu uma declaração e fugiu? Não estava nem um pouco certo.
Cansado de tanto rodar pelas ruas desertas, sentou-se junto a um muro na esperança de conseguir dormir, mas tinha se esquecido de uma coisa: como se sairia sozinho naquele mundo? Nunca esteve por conta própria, quer dizer, uma vez, mas que tinha acontecido há muito tempo, não gostava nem um pouco da solidão. Perdido em seus pensamentos, mal notou uma figura albina que o fitava muito perto, vestia-se todo de preto e tinha um largo sorriso no rosto.
– Hihihihi... Você é um garoto bem teimoso, hein? – sua fala era arrastada e um tanto debochada, o que irritava o jovem – Querendo ficar até tarde na rua... é perigoso, sabia?
O pequeno não se sentiu confortável perto dele, mas também não se assustou, por um motivo estranho, não sentiu vontade de correr ao ver o homem sentado ao seu lado.
– Não estou aqui por opção, e quem é você para me dizer isso?
– Ainda é insolente... você é bem interessante, Sebastian Michaelis. Mal sabe com quem está falando e fica proferindo besteiras. – o pequeno se surpreendeu pelo albino saber seu nome, mas ainda permaneceu imóvel. O homem se levantou vagarosamente, parecendo ter certa idade, mas um físico invejável, pelo que o garoto percebeu. – Você prefere chorar sozinho, meu jovem?
– E-eu não prefiro nada. E não estou chorando! E responda a minha pergunta!
– Hihihi... que atrevido. Eu nunca falaria assim, com o shinigami que vai pegar minha alma. – o moreno caiu para trás, o que aquele lunático estaria falando? Não... era só um louco que vagava pela rua e o encontrou.
– S-shinigami? Então, eu vou morrer?
– Ainda não... mas um dia sim... e eu quero ter o prazer de recolhê-la. Você é um garoto muito precioso.
Sebastian suava frio, suas pernas tremiam de medo, aquele homem não parecia mentir em nenhum momento. Mas o que ele queria com a sua alma? Ninguém se interessou por ele em vida, teria que morrer para encontrar alguém que se importasse? Mas ainda não havia chegado a hora de partir, então o shinigami estaria só conversando com o moreno, mas devia estar infringindo alguma regra para isso.
– Eu vou lhe dar minha alma, contanto que faça um pedido meu. – o albino voltou sua atenção ao jovem.
– Não é assim que funciona... eu não fico com sua alma... mas posso fazer um pedido seu... – sorriu maliciosamente, deixando Sebastian inseguro. Mas era sua chance.
– Me leve daqui. Não importa onde, só me tire deste país.
– Como desejar, Sebastian Michaelis.
Em um pequeno esforço, o shinigami pegou o rapaz no colo e deu um pulo. Pessoas normais não chamariam de pulo, mas sim de voo. Sim, eles voaram nos céus de Paris, felizmente a escuridão os escondeu dos olhares curiosos.
Notas finais
Mas eu te adoro nee-chan!Lembrem-se: reviews.
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