O Passado De Um Mordomo
11 11ª Noite
Notas iniciais
Boa leitura~
Sebastian estava tão chocado que não teve reação imediata. Como lidar com aquela situação? Ao tentar falar, Leo segurou seu braço, prevendo que o companheiro faria alguma besteira. O mais novo odiava admitir, mas Leo estava certo, não era inteligente abordá-lo sem um plano, afinal, ninguém poderia garantir que ele se lembraria do garotinho que vivia em sua casa. Todos os adolescentes foram levados a um quarto, onde esperariam pelo jantar. Todos ainda desconfiavam uns dos outros, pois não passavam de meros estranhos.
– Sebastian, o que houve lá fora? – Perguntou Leo.
– Nada de mais… Apenas uma brincadeira do destino.
Quando acabou de proferir aquelas palavras, um garoto entrou no quarto. Na verdade, não sabia ao certo se era mesmo do gênero masculino, pois os cabelos iam até o ombro e o rosto era delicado demais. A única coisa que o denunciava eram as roupas. Dignas de um príncipe. O garoto, supondo que fosse um, estava sorrindo de forma doentia enquanto olhava para cada rosto confuso. Aquilo seria divertido.
– Boa noite, meus amigos de cárcere! No cardápio de hoje, vocês serão a refeição principal!
– Como?! – Gritou uma garota loira sardenta.
– Vocês sabem o que era “Sodoma”? – A resposta foi o silêncio e não tinha palavras que agradassem mais aquele jovem. – Eu vos explicarei! Sodoma era a cidade do amor! O amor absoluto reinava em suas ruas! Não importava se era homem, mulher ou escravo. Todos viviam livres para amar a quem quiser! – Nesse momento, os olhos das crianças brilhavam imaginando o paraíso. Todos ali tinham sofrido mais do que seus corpos e mentes juvenis aguentavam, por isso, a possibilidade de viver em um lugar como aquele descrito só poderia soar como uma bela melodia aos seus ouvidos. – Mas Deus… Eis que Deus com sua hipocrisia ceifou a vida dos seus filhos, com sua maldita chuva de fogo. Porém, a marca de Sodoma renascerá entre as paredes dessa fortaleza!
Todos continuavam calados, esperando o desfecho daquele conto de fadas, mas o garoto se também se calou. Do nada, começou a fitar seriamente todos os presentes. Nenhum deles fazia ideia do que realmente acontecia naquela cidade e que eles iriam reproduzir. Nenhum gritou de espanto ou discordou do que tinha dito. Ele deu um minuto para algum deles se manifestar, mas não houve nada. Desapontado, virou as costas e saiu majestosamente com suas roupas finas e seu andar elegante.
Leo não esperou a porta bater para sair correndo atrás da figura de cabelos longos, só não contava com um guarda para segurá-lo no momento em que saiu do cômodo.
– Onde pensa que vai, moleque?! Fique ai dentro que é o seu lugar!
– Você está me machucando!
– Oh, estou machucando a princesinha? Me desculpe, senhorita, talvez um tratamento especial combine com vossa alteza!
O homem segurou Leo pelos cabelos levantando-o com desdém. Cuspiu no rosto do italiano e riu da expressão de dor que este fazia. Só Deus sabe o que teria acontecido se o garoto de cabelos longos não tivesse intervido nas ações daquele brutamonte.
– Solte-o, desgraçado! – Gritou o jovem e assustado, o guarda soltou Leonardo que caiu sem dó no chão. – Ou você quer ficar no lugar dele?!
– Desculpe-me, senhor. Estava apenas cumprindo ordens.
– Ah é?! Então vou lhe chutar, mas estou cumprindo ordens! – Com isso foi um chute certeiro na barriga avantajada do homem, que se contorcia no chão balbuciando alguma coisa. Leo riu da cara que ele fez, mas desfez o sorriso quando o outro garoto mandou o seguir.
Eles andaram um pouco até a próxima porta, onde entraram. Ficaram em silêncio por uma coleção de segundos, até que Leo tomou a coragem e o desejo que guardou durante todos aqueles anos de escravidão.
– Você se lembra de mim?
– Como posso esquecer-me da minha própria face? Qualquer espelho traria tua lembrança.
– Eu não vejo um espelho há tempos, mas posso imaginar que eu não esteja tão bem quanto você.
Giovanni levou o irmão até um luxuoso espelho, onde Leo viu a forma precária que se encontrava. Seus cabelos iam até a metade do pescoço, cortesia da bruxa que não permitia cabelos longos por conta dos piolhos. Sua roupa estava imunda, rasgada e pequena para seu porte. Seu rosto estava igualmente sujo, embora a beleza dos traços fosse incontestável. E claro, a palidez e o corpo magro deixavam claro que sua vida não fora nas cortes inglesas.
– Meu irmão… Foram tantos anos a tua procura e estava nesse lugar?
Eles se abraçaram e olharam um para o outro como um jovem casal de amantes. Giovanni era mais alto, então Leo tinha que olhar para cima para ver os doces olhos castanhos que sentira tanta falta. Ouvir o coração do outro pulsando compensava qualquer espera. Eles tinham encontrado a outra metade. De repente, Leo começou a chorar nos braços do irmão.
– Leo?! O que houve?!
– Sabe… Meu dono prometeu que iríamos nos encontrar de novo… Mas demorou tanto, que eu passei a pensar que isso era mentira… Mas agora estamos juntos e ele foi condenado a morte! – Dizia entre soluços. – E eu nem pude agradecer…
Abraçou Leo com força e afagou seus cabelos. Era horrível encontrar uma pessoa após anos de separação e a ver chorando. Que belo protetor estava saindo. E o mais triste, é que ele sabia de toda a verdade, mas não poderia contá-la ao irmão, nunca, em hipótese alguma.
– Leo, você veio sozinha para cá?
– Sim.
Não pensou em outra resposta. Se falasse de Sebastian, o irmão iria salvá-lo também, porém nada garantia que o mais novo roubasse Giovanni como roubou Albert. Não poderia correr esse risco. Durante os 120 dias, eles ficaram no quarto, sem sequer se atrever a olhar as atrocidades que aconteciam do lado de fora. Os gritos durante a noite os impediram de dormir algumas vezes, mas nada que os fizessem ter vontade de sair.
Depois, Leo foi para França com o irmão o qual era protegido do marques de Sade. Eles viveram felizes e escondidos numa mansão no interior do país.
Enquanto a cena do reencontro fraternal acontecia, Sebastian e os outros jovens foram convidados para o jantar. Enquanto seguia o fluxo de pessoas, o francês viu uma janela aberta, não só isso, viu a única chance de sair com vida daquele lugar. Quando passou por ela, sentiu a brisa o chamar para fora e não teve dúvidas, pulou no parapeito da janela e se atirou do 2º andar. Se os outros viram, fingiram que não perceberam.
Com algumas piruetas herdadas do seu tempo de acrobata, Sebastian pousou suavemente no chão como um gato. Olhou brevemente para trás e saiu correndo pelo jardim da mansão que pareciam não ter fim. Já estava assustado com a ideia de estar correndo em círculos quando ouviu uma voz conhecida.
– Você não está cansado?
Ele virou imediatamente e viu Jean. Sorrindo de forma inocente aparentando ter mudado somente na altura. Sebastian teve certeza, ainda era o mesmo Jean de sempre.
– Jean… Você se lembra de mim?
– Sebby, como posso esquecer o meu irmão? – O loiro foi de encontro ao mais novo e o abraçou, este não sabia como reagir, então apenas se deixou abraçar. Jean podia não ter mudado nada, mas ele havia mudado muito. – Sebby, eu te procurei tanto! Por todos os lados!
– Como você me encontrou?
– Eu não te encontrei. Tem algumas coisas nesse mundo que nem você, nem ninguém deveria saber…
– O que houve?! Me conte, Jean!
– Você não mudou nada… — Falou alisando os cabelos negros. – Há alguns anos, nossa mãe ficou doente e acabou falecendo. Então herdei o título, o dinheiro e os negócios da família. Mas eu também fiquei doente e estava com tanto medo…
– Medo?
– De morrer sozinho. Eu queria encontrar alguém, qualquer pessoa da minha família, então Ele apareceu me dando ajuda. Ele prometeu que iríamos nos encontrar, Sebastian!
– “Ele” quem?
Antes que pudesse notar, sentiu um vento frio passar por suas pernas. Até Jean percebeu essa mudança de atmosfera, pois recuou um pouco quando isso aconteceu. Então, do lado deles, surge a figura tão conhecida para ambos, com seu típico olhar faceiro.
– Se não são os protagonistas da história de amor mais trágica que “Romeu e Julieta”! É tão bom ver todos reunidos!
– Maldito! O que você está fazendo vivo?! – Gritou o moreno, sentindo a raiva aflorar em sua pele.
– Ora, vim pegar o que é meu por direito. Ou você acha que se encontraram por um acaso do destino? Ou Deus uniu vocês?! – Ria com vontade ao ver a expressão de Sebastian, não cansava de brincar com os humanos, nunca perdia a graça. – Seu querido irmão deu a vida para lhe ver, moleque, fique grato a ele nos dois minutos que o restam!
– Diga que esse louco está mentindo, Jean!
– Entenda, Sebastian… Eu não tive tempo para pensar nas consequencias… Ou era isso, ou morrer antes de ver-te pela última vez!
Um último brilho foi roubado dos olhos de Sebastian. Não entendia a condição que unia Jean ao contratante, mas pelo que entendeu, isso custaria a vida do francês. Então se pegou pensando em uma chance para o loiro não precisar morrer, todas as coisas lhe passaram pela mente, inclusive de dar sua vida em troca. Mas… Por que não? Parecia razoável, afinal, o loiro estava disposto a pagar o mesmo preço.
Sem hesitar, Sebastian se pôs na frente do irmão o qual ainda estava um pouco mais alto, a fim de protegê-lo do monstro que era Albert. Já tinha sofrido de tudo nas mãos deles, não poderia haver coisa pior.
– Eu lhe dou minha vida m troca! Leve-me no lugar dele!
– Você acha que vou querer uma alma tão podre quanto a sua?! Me dá nojo até olhar para você, moleque!
Antes que Albert jogasse Sebastian para longe, um quarto integrante entrou naquela briga. Ele tinha cabelos brancos e longos e o moreno reconheceu na hora se tratar daquele ser que o ajudou a fugir da França. Ele denunciou sua presença com aquela risada sarcástica e arrastada. Seu manto preto continuava pelo chão, como o véu de uma noiva negra.
– Sinto muito, “Albert”, mas esse humano não irá com você… Ele morrerá esta noite pela foice de um Deus da morte. – Disse entre risinhos cinismo.
– De forma alguma! Vocês não podem roubar uma alma que me pertence! Temos um contrato que está acima de qualquer coisa!
– Creio que nem mesmo um príncipe demônio como você está em posição de mudar a decisão de Deus… Hihihihi.
– Hahaha! Não me diga que seu Deus quer esse amaldiçoado junto dele?! Parece que qualquer um alcança o paraíso esses dias! Quem sabe eu também não passe por lá!
– É de seu conhecimento que a alma dele nunca foi corrompida. Ele permanece tão puro quanto no dia que nasceu e nem mesmo a maldita marca que tu fizeste nas costas dele conseguiu maculá-lo. Essas almas são preciosas.
– Não permitirei que o tire de mim!
– Felizmente, não vim pedir sua permissão.
O deus da morte sacou sua foice e Albert avançou sobre ele na vil tentativa de impedir o inevitável. Sebastian e Jean permaneceram parados e de mãos dadas durante toda a luta. O golpe final aconteceu quando o de cabelos brancos prendeu o contratante no chão usando sua foice. Foi a primeira e única vez que Sebastian viu aquele homem de forma tão miserável.
– Não tenho nada contra você, demônio, mas se insistir em atrapalhar meu trabalho, não terei escolha.
Com um olhar indiferente, o albino apontou sua arma para os dois mortais que se encontravam paralisados. Jean agiu por puro instinto quando abraçou Sebastian o protegendo da lâmina afiada que se aproximava. O loiro sorriu até o último instante, sentindo o cheiro de seu irmão mais novo.
– Adeus, Sebby…
Lágrimas escorreram livremente quando o moreno viu aqueles filmes saírem da ferida do irmão e quando eles pararam de correr livremente pelo ar, sentiu todo o peso do mais velho cair sobre si. Ele impediu que o loiro caísse no chão a todo custo, o abraçando forte e sentindo as últimas lagrimas que derramaria em sua existência. Albert socava o chão com raiva enquanto amaldiçoava o deus da morte por ter roubado a alma de suas mãos. Foi quando olhou para Sebastian e sorriu perversamente. Não iria devorar a alma dele, seria intragável demais, porém não existia apenas uma forma de tragar uma alma.
– Sebastian… Príncipe farsante, você me deve sua alma.
– De que forma há de tê-la se sente nojo até de olhar para mim?! Miserável hipócrita!
Ele protegia o corpo do irmão com todo afinco, como era pesado, já tinha o deitado no chão, mas em nenhum momento o soltou. Levaria aquele cadáver até um lugar digno de ser enterrado.
– Não preciso devorá-la para tê-la… Sebastian… — Chegou perto do jovem e pousou a mão em seu queixo. – Você foi um dos melhores que já me serviram. Penso porque não poderia ser assim para sempre.
– Fique longe, pervertido.
– Não seja tão cruel, Sebastian. Vivendo eternamente, poderá encontrar Jean de novo.
– Não me faça de idiota! Ele está morto! Não sou tão ignorante quanto você pensa!
– Almas voltam como pessoas diferentes, meu jovem. Não vejo porque com Jean será diferente.
Uma faísca de esperança nasceu no coração de Sebastian. Albert falava de forma tão convicta, não tinha como duvidar de sua teoria. Afinal, o credo cita claramente a ressurreição, então Jean poderia voltar. Com aquilo, ficou calado e esperou mais da explicação do mais velho. Aliás, suas suspeitas de que ele não era humano estavam cada vez mais certas, pois que humano permanece com a aparência de vinte e poucos anos por tanto tempo? Ele não tinha envelhecido um dia sequer.
– Posso fazer vocês se reencontrarem, mas terá que fazer o que eu mandar. Certo? – O silêncio falou por si e o contratante prosseguiu. — Dei-me tua mão.
Sebastian estendeu a mão que fora marcada pelo ferro rubro. O homem então fez um corte, bem em cima de sua cicatriz. Uma careta de dor foi tudo que o mais novo fez para mostrar o desagrado, então Albert bebeu o líquido até estancar o ferimento. Em sua própria mão, fez escorrer um filete de sangue e o ofereceu a Sebastian. Ele hesitou, mas a única coisa que pensava era nos olhos azuis de Jean. Não poderia morrer sem vê-los, então bebeu até a última gota do sangue do contratante. Estava feito.
Quando o francês soltou a mão do mais velho, começou a sentir uma dor lancinante na cabeça, se contorceu no chão, gritando e amaldiçoando Albert por tê-lo enganado. Jogou o corpo de Jean para longe, durante esse surto de dor, ao se dar conta disso, tentou rastejar até o irmão, mesmo com a dor o torturando. Durante esse pequeno espetáculo, o demônio ria com gosto e sadismo. Esperou pacientemente até que os gritos de Sebastian se esvaíssem e observou ele praticamente desfalecer sobre o cadáver.
Então houve o silêncio. Albert então começou um pequeno discurso, destinado a Sebastian.
– A maioria dos humanos viram demônios depois que suas almas vagam por tempo demais nas chamas do inferno. Você é um dos raros casos em que sua alma foi totalmente corrompida enquanto estava vivo e, posso dizer com folga, que és o mais sujo dentre os “perdidos”. Sebastian, levante.
Como uma marionete mecânica, o moreno levantou. Os seus olhos negros estavam tão escuros como sempre, mas ao sentir o cheiro do sangue do cadáver aos seus pés, se tornaram tão escarlate quanto o líquido. Perguntas surgiam em sua cabeça de recém-criado, a mais persistente era “quem sou eu”. Nada naquele cenário fazia sentido para ele, nem mesmo o corpo desfalecido que o tentava com aquele cheiro enlouquecedor.
Lambeu uma pequena quantidade de sangue que estava em sua mão marcada. Agora aquela marca lhe parecia tão vazia. A única coisa que ela significava, era a união eterna com aquele que o “acordou”.
Sebastian sorriu e abraçou sua vida nova com prazer e bom gosto.
Notas finais
Atenção as pessoas que já contrataram assassinos para me matar: podem cancelar o pedido!
Ou não... Isso depende se vocês gostaram XDDD
Aliás, essa é a última chance dos fantasminhas se mostrarem! Vamos lá, pessoas! É só uma vez ç.ç
Obrigada por me acompanhar até aqui, muito obrigada ^-^
~Kissus~
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