O Paraíso é Somente uma Utopia....Ou Não
3 Flocos e Flocos à Parte 3/3
–Esquece Gabriel, esquece, ela já deve ter fugido a essa hora, aquela puta corre muito! — A noite passada reverberava em meu sonho.
–Mas que merda! E se ela tiver visto nossos rostos? Vai contar pra todo mundo! -As palavras de Gabriel ecoavam pela minha cabeça, de repente, tudo preto, a luz tinha morrido, e eu sozinha no vazio, então olhos gigantes e vermelhos se abriram atrás de mim e me encaravam, senti minha alma se esvaindo de meu corpo, eu corria e corria, mas mesmo assim eles continuavam me encarando, continuavam a sugar a minha alma, até eu simplesmente cair sem ar no vão preto abaixo de meus pés.
Acordo puxando ar desesperadamente, era como se eu estivesse me afogando, tentava respirar,inspirava e inspirava, e nada acontecia, depois de ofegar por algum tempo olho ao meu redor, estava numa cama de casal bem confortável em um quarto de cor negra, estava sem a minha jaqueta e sem as calças, uma pontada de desconforto me veio, não lembrava de ter tirado elas antes de dormir.
–Calma Sue, talvez você estivesse com tanto sono que nem percebeu que tirou, você sempre faz isso. -Disse a mim mesma, não gostava de pensar, "naquilo".
As cortinas fechadas não permitiam que a luz entrasse e o relógio no criado-mudo marcava domingo, 11:00 horas, me levanto para permitir a entrada do sol o que foi inútil, a sombra do prédio vizinho tapava a janela, mas era bem melhor do que se sentir no vazio de novo, mesmo com a pouca luz disponível era possível ver melhor o quarto, quadros com imagens de figuras abstratas estavam presos à parede, o maior de todos era também o mais normal, estava pendurado em cima da cama e mostrava uma mulher de costas, nua, e com as mão prendendo o cabelo negro, lembrava um pouco a mim, tirando a parte de que a mulher possuía uma cor de pele saudável, enquanto eu, pálida. Um barulho me assusta, então sinto uma dor no estômago e me recordo do motivo de sair ontem às 2 da madrugada, a vontade de comer alguma besteira se transformou em uma fome tremenda.
–Ai cacete! Tá bom, eu já te arranjo algo para comer! -Minha barriga roncou de novo como se dissesse, "AGORA". Ouço um barulho vindo da porta ao lado, um chuveiro, havia me esquecido completamente do garoto de ontem, então me toco que o medo que tinha ontem dos babacas me seguindo já poderia ter acontecido, a cama era de casal e os dois lados dela estavam bagunçados, eu estava sem algumas peças de roupa, aquele vagabundo poderia ter feito enquanto eu estava dormindo. Fúria e lágrimas vieram aos meus olhos, eu estava descontrolada, entrei no banheiro arrombando a porta, eu ia matar aquele desgraçado.
–Mas que merda!- Ele gritou abrindo a porta do box para olhar mas eu já corria pra cima dele feito uma louca.
–Seu desgraçado! Maldito! Eu vou te matar! Você é que nem eles, só queria me estuprar!- Falei enquanto tentava bater nele, as lágrimas corriam junto à água que me ensopara toda, eu me cansei e só fiquei chorando.
–Do que... do que você estava falando?- disse ele enquanto saía de uma posição defensiva.
–Você...Você...- O choro não me permitia falar.
–Eu o que garota?! -Me encostei na parede e fui escorregando até o chão, consegui puxar fôlego para falar.
–Você me comeu enquanto eu dormia! Seu doente!
–O QUÊ?!! -Depois de chorar mais um pouco ergo os olhos e percebo que o banheiro dava de frente para a sala, mas precisamente para um sofá-cama, um sofá-cama bagunçado, como se alguém tivesse passado a noite ali.
–Espera, o sofá-cama...-Levanto a cabeça para olhar-lo e quase instantaneamente viro ela de volta ao chão, naquela confusão toda, havia esquecido o que ele estava fazendo. -Ai meu Deus!! Desculpa!
–Pelo o quê? Por me acusar de ter lhe estuprado ou de você ter arrombado a porta do meu banheiro?!!-Perguntou ele com ironia
–Por tudo isso e mais.. -Aponto com o dedo pro membro exposto, ele olha e logo busca alguma coisa para cobrir-lo com imenso desespero, eu não era a única que tinha esquecido pelo visto.
–Você poderia esperar lá fora enquanto me troco?!-Disse ele segurando a porta e a toalha que tinha molhado devido causa a confusão, estava quase caindo e exibindo o membro de novo. -Depois eu arrumo algo para você vestir!
Esperei num banco alto como aqueles de bar, ficava junto a uma bancada que ele tinha na sala a qual dava para a cozinha, peguei um pacote de Cream Cracker que estavam no canto e comecei a comer, parece que aquilo tudo só havia aumentado minha fome. Ouvi a porta do quarto abrindo, ele saiu segurando outra toalha e enxugando o cabelo, vestia uma bermuda com estampa de camuflagem e uma blusa branca, descalço, usava 2 anéis prateados, um no polegar e outro no indicador.
–Ah, eu separei uma camisa e um par de jeans meus para você, mas acho que vai ficar um pouco grande, você se importa? -Falou ele com um pouco de vergonha
–Tudo bem! Ei, você se importa- Apontei para o pacote de Cream Cracker aberto. -Eu estou com fome, desde ontem que não como nada.
–Sem problemas, na verdade, você não quer algo mais, sei lá, com gosto?
–Ah não, não... eu já...já dei problemas de mais para você, eu posso ficar só com isso. -Falei perdendo a vontade de comer.
–Não, que isso?! Eu insisto, eu nem sei porque compro isso na verdade, por que não se troca enquanto eu preparo algo para comermos?- Ele deu a volta na sala e entrou na cozinha, enquanto ele pegava as tigelas e o cereal parei para observar ele mais um pouco, ele parecia tão... Inocente, era bobo e ingênuo, talvez eu tivesse sido muito burra de ter pensado que ele poderia fazer uma coisa daquelas comigo.
–Bom tudo bem, já volto!
A blusa que ele separara era vermelha e do dobro de meu tamanho, os jeans eram folgados demais e ficavam caindo, procurei no armário dele, muitas camisetas brancas mas nenhum cinto, então eu achei as cuecas, eu sabia que era errado, mas, mais errado ainda era ficar só com uma calcinha molhada como roupa de baixo, então, eu peguei a primeira cueca box que eu vi, fechei o armário e finge que não aconteceu nada, um barulho de porcelana quebrando me chamou a atenção.
–Porra! -Ele gritou da cozinha.
–Aconteceu alguma coisa? -Gritei de volta
– Eu derrubei uma tigela!
Voltei a sala e vi ele agachado recolhendo os cacos, em cima da bancada havia uma caixa daqueles cereais de flocos de milho, leite, e uma vasilha com morangos.
–Eram as únicas limpas. -Disse ele com indiferença
–Pode comer, depois eu a uso.
–Não, por que não... dividimos?- disse ele reparando que ainda eu ainda estava sem calças.
–Ok.
Me sentei para comer e ele foi até o estéreo na sala para ligar-lo, e estava tocando Don't Stop Me Now do Queen.
–UOU! É isso aí!- ele dançava no ritmo da música e fingia que cantava a letra, não pude deixar de rir, e ele percebeu. -Quer dizer que você gosta de rir da diversão?!
–Só quando eles ficam muito ridículos se divertindo!- disse puxando engolindo um pouco de cereal.
–AH É?! -Ele correu na minha direção e puxou meu braço
–Que você está fazendo?!- Ele começou a me girar
–Fazendo você ficar ridícula também- Ele respondeu terminando o giro. De repente estávamos dançando Queen no meio da sala e rindo, ele me fazia me sentir de um jeito que já havia me esquecido, ele me divertia de um jeito bobo e inocente, como se eu fosse uma criança de novo. No meio da dança tropeçamos no sofá-cama e ele acabou caindo em cima de mim, os risos continuaram um pouco e cessaram, então, ficamos só a nos encarar durante algum tempo.
–Eu acho que nenhum de nós dois percebeu ainda mas, não sabemos o nome um de outro!- Eu disse encarando aqueles olhos cor de sangue, eram assustadores mas ao mesmo tempo me encantavam.
–Tem razão. -Disse ele se levantando, ele estendeu a mão para mim e eu aceitei a ajuda. -O meu é Dämon, qual o da senhorita? -Disse ele beijando minha mão.
–Sue. -Respondi rindo e fazendo um gesto cortês, como se fosse uma dama.
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