O Parasita
1 Prólogo
Dez horas da noite. O sol já se pôs há muito e as ruas ficam desertas como de costume. É hora voltar para casa.
Peguei minha maleta, me despedi do pessoal da mecânica e parti para casa. Meu nome é Tony Robins, e, sinceramente, acredito que minha vida poderia ser bem melhor.
Sigo meu caminho para casa percorrendo uma avenida bem conhecida, feita quase totalmente de paralelepípedo e até que bem iluminada, por postes negros de aproximadamente dois metros e meio de altura. Em toda a sua extensão, até onde a vista alcança, temos lojas pequenas, cafeterias e casas de tamanho e acabamento mediano. A rua não parecia ter fim.
Como de costume, deixo o trabalho com muitos pensamentos e lembranças que me fazem refletir sobre o meu dia a dia. Meu pai diz que sou um fracasso para toda a família, que já nasceu forte e dominante. Meus amigos dizem que tenho sorte por poder levar uma vida comum. Meus colegas de trabalho dizem o pior: Que sou adequado para o trabalho que tenho.
Eu não sou adequado para o trabalho que tenho. Eu quero estar lá em cima, dos prédios principais que possuem pessoas tão importantes que fazem alguma diferença para esse mundo. Diferença de verdade. E, além disso, são cercados por pilhas de dinheiro.
Os pensamentos enevoaram minha mente e acabei por esbarrar em uma caixa de correio na calçada. Que descuido. Meus irmãos sempre diziam que eu não chegaria a nenhum lugar sendo descuidado desse jeito. Bom, não tenho culpa por ter nascido um simples O.
Mais caminho veio e mais pensamentos chegaram. Uma chuva rompeu o cenário monótono que se repetia por um tempo já, e que continuaria a se repetir. Rapidamente formaram-se possas d'água no chão e mostraram o meu reflexo. A roupa bege cheio de manchas pretas, típica de um mecânico qualquer, um homem pequeno e gordo, com seus cabelos curtos caindo na frente da testa, guiando gotas d'água na extensão da sua face esburacada e olhos castanhos escuros foram componentes da imagem refletida pela gota d'água.
Felizmente, sou forte e não me deixo abater por esses detalhes. Eu serei alguém grande, eu sei que serei. Só preciso ter a oportunidade de tentar. Se eu tiver, arriscarei. Quais eram as regras mesmo?
Continuei meu caminho, olhando a chuva cair e, ocasionalmente, alguns postes se apagarem. Um ou dois animais passaram nos derredores da avenida, mas apenas as suas silhuetas eram visíveis. Continuei meu caminho e continuei meu caminho, de novo e de novo.
Até que, então, decidi parar. Escutei um grito vindo do outro lado da avenida, na calçada oposta. Era o grito de um homem, seguido por algumas risadas baixas. Interessante, estive pedindo por uma oportunidade e ela vem até mim justo hoje. Sem pensar duas vezes, atravesso a avenida e sigo a fonte do som.
Passando por algumas conexões e poucas ruas, chego a meu destino: Um beco. Nesse beco, três pessoas ameaçam um senhor. Caso ele não aceitasse os termos dessas pessoas, elas ameaçaram o sobrepor. Realmente era a minha chance.
Como o lugar era pobremente iluminado, consegui rodear o grupo até achar a posição na qual ficava completamente não rastreável, dado que a escuridão escondia minha aparência e a chuva cobria meus sons. Lentamente abaixei a maleta e, de lá, retirei uma ferramenta. Nesse momento, o senhor era agredido por uma das três pessoas, enquanto as outras duas observavam a cena. Eles repetiam termos sobre dinheiro e posse.
Aproximo-me de uma das pessoas e percebo que se trata de um homem de altura mediana, magro, e de cabelos e faces desconhecidas devido a baixa iluminação. Ele será a primeira vítima.
Seguro a ferramenta, uma chave de bicicleta de uns 15 centímetros, em minha mão direita. Sem pestanejar, e com meu objetivo em mente, curvo-me e, com certo impulso, desfiro um ataque lateral que acerta a parte traseira da base do pescoço do homem alto, ao mesmo tempo que a pessoa que trata do senhor desfere um soco na sua barriga. Os dois gemem de dor. A pessoa com o senhor não percebe a minha ação, mas o outro capanga se vira para mim. Ele está armado com um bastão de beisebol.
Aproveitando do choque que o usuário do bastão levou ao ver o golpe que desferi em seu companheiro, aproveito para rapidamente me aproximar dele e desferir meu ataque, que conta com dois passos: O primeiro é uma investida, com meu corpo abaixado, usando meu ombro esquerdo na frente. O ataque é efetivo e o acerta na barriga, empurrando-o, mas em resposta o capanga desfere um ataque descuidado com o seu bastão, que atinge minhas costelas no lado direito do meu corpo. Ignorando o dano recebido, giro meu braço horizontalmente na altura da cabeça do adversário, e a chave de bicicleta bate com grande força em sua têmpora, fazendo com que ele caia.
A terceira pessoa, então, percebe a ação e vira-se para seus capangas, que estão no chão. Rapidamente, enquanto ele analisa a situação, pego o bastão de beisebol que estava sendo usado pelo capanga que acabou de cair. Sinto uma dor imensa nas minhas costelas, mas ignoro isso novamente. Tenho meu objetivo claro em mente.
— Que tipo é você? — Gritei para o meu último adversário, que demorou para responder. — Responda-me! Já! — E levanto o bastão em sua direção, com ambas as mãos.
— O! Sou tipo O! — Ele responde. Sua única arma é um soco-inglês. Suas mãos tremem.
— E seus amigos? Que tipos eles são?
— Aquele ali é O também — Disse ele. Apontando para o primeiro a ser derrubado. — O outro é um tipo N. — Era tudo o que eu precisava saber.
— Fora! — Ordenei, apontando para a saída do beco. O adversário saiu correndo para longe, mas bati no chão com o bastão para intimidá-lo ainda mais. Uma grande quantia de água do chão foi espirrada com o impacto.
Olhei, então, para o senhor. Ele estava em pé, meio encurvado, mas aparentava estar bem. Isto é, ele poderia estar pior.
— Obrigado, meu rapaz — O senhor disse, com voz um pouco trêmula. Era um senhor um pouco magro, meio baixo, de cabelos grisalhos e pele enrugada. Trajava roupas de negócios. — Há algo que eu possa fazer para te recompensar?
— O seu tipo — Disse, sentindo a dor nas minhas costelas. — Qual é o seu tipo?
— Ora, sou N. Vivo por esses locais aqui, filho. Tenho bens que são condizentes com o meu tipo, então posso o recompensar bem!
Meu objetivo estava cumprido, agora era hora de pegar minha recompensa.
— Já pode ir embora, senhor — Eu disse, no tom mais leve que consegui, apesar de minha respiração ofegante não ter deixado parecer leve. — Veja, sou tipo O. E minha recompensa já está aqui, e não é o senhor. Na verdade, o senhor teve sorte. Vá!
O senhor, entendendo o que quis dizer, deixou o lugar as pressas. Aproximei-me do capanga que utilizava o bastão de beisebol inicialmente, que estava com roxidão evidente em seu rosto no lugar que o bastão o acertou. Ele era alto e era de peso mediano, de cabelos curtos e escuros e, acima de tudo, um tipo N.
Isso significa que hoje, quando voltarei pra casa, serei um tipo N! Isso vai doer, mas vai valer a pena. Afinal, esse era o meu objetivo.
Notas finais
Obrigado pela leitura!
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