O Paradoxo Gotham
1 Capítulo 1 — O cheiro da chuva
São José dos Campos.
4h02 da manhã.
O despertador não tocou.
Não precisava.
Isabel já estava acordada.
Havia dias em que o corpo simplesmente desistia de esperar pelo alarme. Depois de anos acordando antes do nascer do sol, seu relógio biológico parecia trabalhar melhor que qualquer celular.
A casa estava silenciosa.
Bel permaneceu alguns segundos olhando para o teto. Ainda estava escuro. Pela janela entrava apenas aquela luminosidade azulada e incerta que antecedia o amanhecer.
Seu primeiro pensamento não foi sobre trabalho.
Foi sobre as crianças.
Miguel tinha deixado a mochila perto da porta na noite anterior, apesar das incontáveis vezes em que ela lembrara que mochila tinha lugar.
Nancy havia esquecido um livro aberto sobre a mesa da sala, cercado de post-its coloridos.
Isabel sorriu.
A adolescência da filha parecia produzir livros cada vez mais marcados e respostas cada vez mais curtas.
— Depois eu guardo.
Levantou-se devagar, tomando cuidado para não acordar ninguém.
Dona Olga também devia estar dormindo. Aos cinquenta e cinco anos, sua mãe tinha energia suficiente para cuidar da própria vida, fiscalizar a dos netos e ainda encontrar disposição para reclamar que Isabel trabalhava demais.
Bel não tinha nenhuma intenção de fornecer argumento para a discussão antes das cinco da manhã.
Na cozinha, colocou o café para passar.
O cheiro familiar logo ocupou o ambiente.
Água quente.
Pó de café.
O pequeno ruído da cafeteira.
Era um ritual repetido tantas vezes que poderia executá-lo de olhos fechados.
Na bancada estavam a bolsa, o crachá do SESI e uma pasta azul recheada de documentos que pretendia revisar durante a viagem de fretado.
Mais um dia.
Mais um processo.
Mais uma análise.
Mais um fornecedor que certamente juraria ter enviado um documento que ninguém conseguia encontrar.
Bel soltou uma risadinha cansada.
— Claro que enviou...
Tomou o primeiro gole de café.
Silêncio.
Então a luz da cozinha piscou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Isabel ergueu os olhos para o teto.
— Ah, não. Justo hoje?
A geladeira desligou.
Voltou.
Desligou outra vez.
Ela franziu a testa.
Aquilo não parecia uma simples falta de energia.
Um zumbido baixo começou a preencher a cozinha.
Bel pousou a xícara.
O som aumentava.
Não parecia vir da rua.
Nem de algum eletrodoméstico.
Parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
As colheres começaram a tilintar dentro do escorredor.
A xícara vibrou sobre a bancada.
O visor do micro-ondas apagou e tornou a acender, exibindo uma sequência de números sem sentido.
Isabel recuou um passo.
— Que diabos...
O ar mudou.
Ficou pesado.
Elétrico.
Os pelos de seus braços se arrepiaram.
Seu primeiro impulso foi olhar para o corredor.
As crianças.
— Mãe?
Não houve tempo para chamar outra vez.
Tudo ficou branco.
Não foi uma explosão.
Não exatamente um clarão.
Foi como se alguém tivesse colocado uma folha branca sobre o mundo inteiro.
E apertado até não sobrar nada.
...
O cheiro do café desapareceu.
Em seu lugar veio outro.
Asfalto molhado.
Metal.
Fumaça.
E chuva.
Muita chuva.
Isabel abriu os olhos lentamente.
A primeira sensação foi frio.
A segunda, dor.
Sua cabeça latejava. O concreto sob suas mãos estava molhado e gelado.
Ela piscou várias vezes antes de conseguir focar.
Não havia cozinha.
Não havia casa.
Não havia corredor.
Não havia amanhecer.
— Miguel...
Tentou se levantar.
— Nancy?
A tontura obrigou-a a apoiar uma das mãos na parede.
Nada.
Só o barulho da chuva.
Isabel respirou fundo e olhou em volta.
Estava em um beco estreito, cercado por edifícios altos o suficiente para esconder quase todo o céu. Escadas externas de metal recortavam as fachadas. Algumas janelas ainda estavam acesas. Luzes distantes refletiam nas poças, borradas pela água.
Havia lixeiras.
Grafites.
Tubulações soltando vapor.
E, ao longe, o som de uma sirene.
Isabel ficou imóvel.
Aquilo não fazia sentido.
Olhou para si mesma.
Ainda estava com a mesma roupa.
A bolsa continuava pendurada em seu ombro.
Ela a agarrou quase instintivamente.
Abriu o zíper.
Carteira.
Documentos.
Chaves.
Carregador.
Canetas.
Um pacote de lenços.
Tudo exatamente onde deveria estar.
Bel retirou o celular.
A tela acendeu.
A data estava correta.
O horário também.
Mas não havia sinal.
Nenhuma operadora.
Nenhuma conexão.
Apenas duas palavras onde deveriam estar as barras de rede:
Serviço indisponível.
Isabel destravou a tela e tentou uma chamada mesmo assim.
Nada.
Tentou outra vez.
O resultado foi o mesmo.
— Tá.
Sua própria voz soou estranha naquele lugar.
— Calma.
Uma vez.
Duas.
Três respirações.
— Pensa.
Primeiro precisava descobrir onde estava.
Depois descobriria como havia chegado ali.
E então encontraria uma maneira de voltar.
O pensamento nas crianças veio imediatamente, acompanhado de uma pressão dolorosa no peito.
Miguel.
Nancy.
Mas não estavam sozinhos.
Sua mãe estava em casa.
Olga saberia cuidar deles.
Sabia os horários, a escola, os remédios, onde estavam os documentos, o que havia na geladeira e provavelmente coisas sobre a rotina daquela casa que nem a própria Isabel sabia.
Os dois estavam seguros.
Isabel se agarrou a essa certeza.
Seguros.
Isso não significava que estivessem bem.
Também não significava que ela pudesse ficar ali.
Mas significava que podia respirar.
Por enquanto.
Guardou o celular.
Foi então que ouviu vozes.
Não eram pessoas conversando.
Eram gritos.
Bel virou a cabeça.
Passos ecoaram do outro lado da rua.
Alguém corria.
Outra pessoa gritou alguma coisa que ela não conseguiu entender.
Então veio um ruído pesado.
Metal vibrando.
Como se alguma coisa tivesse aterrissado sobre uma superfície acima dela.
Muito perto.
Isabel levantou lentamente os olhos.
Nada.
O coração acelerou.
Ela se aproximou alguns passos da saída do beco.
Uma sombra cruzou o alto do edifício em frente.
Rápida.
Alta.
Humana.
Por um segundo apenas, uma capa negra abriu-se contra a chuva antes de desaparecer atrás da borda do telhado.
Isabel parou.
Seu cérebro reconheceu a imagem antes que qualquer parte sensata dele pudesse apresentar uma objeção.
Não.
Ela conhecia aquela silhueta.
Conhecia aquela capa.
Conhecia aquele movimento.
Conhecia desde criança.
Das revistas que começara a colecionar muitos anos antes e que, tecnicamente, agora pertenciam a Nancy.
Mas conhecer aquilo impresso numa página era uma coisa.
Vê-lo atravessar um telhado diante de seus olhos era outra completamente diferente.
— Não...
A palavra saiu quase sem voz.
Isabel olhou novamente para os prédios.
Para as escadas de incêndio.
Para a fumaça misturada à chuva.
Para o telhado agora vazio.
Durante alguns segundos, tentou encontrar outra explicação.
Uma festa.
Uma gravação.
Um maluco fantasiado.
Qualquer coisa.
Mas alguma parte de sua mente já havia chegado à conclusão que o restante dela ainda estava desesperadamente tentando recusar.
Isabel levou a mão à bolsa.
As chaves de casa estavam lá dentro.
A carteira também.
Seus documentos.
Seus cartões.
Tudo o que normalmente servia para provar quem ela era, de onde vinha e aonde pertencia.
Ela apertou a alça da bolsa.
De repente, teve a sensação absurda de que nenhum daqueles objetos poderia provar coisa alguma.
Uma sirene voltou a cortar a noite.
Isabel ergueu os olhos para o ponto onde a sombra havia desaparecido.
Pela primeira vez desde que acordara naquele beco, sentiu um medo diferente.
Não era o medo de estar perdida.
Era o medo de saber exatamente onde estava.
Fale com o autor