O Par Perfeito - Livro 1
2 Tópico da Postagem: Flora e o Príncipe
Notas iniciais
1998
“Estamos destinados a estarmos perdidos e então sermos encontrados aos olhos de quem nos ama! Muitas histórias de amor são conhecidas por ser algo irreal, algo tão mágico que a realidade não as atinge e é por isso que no fim sempre haverá o final feliz. Se estiver lendo isso, talvez se lembrará da Cinderela, Rapunzel e tantas outras princesas, afinal, essa história parece-se tanto com um conto de fadas, e talvez realmente seja, mas este é, na verdade, o conto da Flora. E ele é a mistura perfeita entre o mágico e o real.”
Flora sempre fora sonhadora, aquele tipo de garota que sonha com seu príncipe encantado montado em um cavalo branco. Naquela época aquilo parecia muito real e alcançável, claro, como seria para qualquer garota de seis anos. Ela sempre estava perdida em seu mundo imaginário, aquele onde só as crianças conseguem entrar. Em seu mundo, a pequena Flora era simplesmente tudo, desde uma princesa até a mais bela flor e neste lugar tão especial era capaz de realizar todos os seus desejos, mesmo que eles durassem poucas horas.
Com os pés descalços e cabelos ao vento, ela dançava valsa, seu quintal era o reino, seus amigos, os mais fiéis escudeiros e sua família era a realeza, o maior tesouro que a pequena tinha.
Naquela época seu único receio era: E se sua história fosse diferente? E se talvez fosse ela quem devesse procurar o príncipe? Onde estaria ele agora?
Para Flora as princesas eram muito chatas, faziam os príncipes passarem por grandes problemas enquanto elas dormiam ou esperavam ser salvas. Ela não seria assim. Era uma princesa esperta e com toda certeza resgataria o príncipe.
A menina adorava mistérios, sempre gostou de descobrir coisas novas, sua paixão pelo desconhecido aumentava cada vez mais e talvez tenha sido isso que a levou direto a um mistério que jamais esqueceria.
***
Era uma tarde ensolarada e sua mãe, depois de muito custo, havia a liberado para passear no parque. Flora vestia um vestido ridículo com estampa de bichinhos. Odiava-o com todas as forças, afinal, uma princesa deveria se vestir com vestidos rosa e rodados, não com aquela estampa de bicho chamativa.
Naquela época, ao invés de carros lotando as ruas, eram as crianças que tomavam conta do lugar, tudo que se ouvia eram as risadas e as gritarias, todos tão alegres e o mais incrível é que estavam felizes apenas por poderem andar na grama molhada e brincarem de pega-pega. As mães não precisavam preocupar-se com bandidos ou movimento dos carros, por isso sentavam-se de frente a suas casas tricotando ou cochichando entre si:
— Amiga, ficou sabendo que o João, pai daquele rapaz bonito e simpático, simplesmente largou o rapaz? O pobre do menino teve que ir morar com um tio.
— Como poderia saber se o rapaz era bonito se jamais viu ele? — Dona Larissa perguntou, olhando para a amiga.
— Bem, escutei muitas mães falarem que as filhas não pararam de suspirar por causa da sua beleza. Acho que essa vai ser a fofoca do mês da vizinhança.
— Acho que não amiga, não ficou sabendo, a dona Emília da rua de trás separou do esposo. — Outra amiga delas exclamou com a mãe de Flora. —Pobre coitado. Era um homem tão distinto. Parece que o casamento não estava mais dando certo. Fiquei com dó, mas a vida é assim, não é mesmo? Do nada, tudo muda.
— Ah, mas essa não foi a fofoca mais falada não, vocês não ouviram... — E assim as mães passavam as tardes, conversando entre elas sobre a vida da vizinhança, não falavam por mal, muitas vezes era apenas uma preocupação genuína que tinham com o próximo, algo que com o tempo foi se perdendo. Hoje as pessoas nem sabem mais quem mora na casa ao lado. Flora correu para longe da conversa dos adultos, pois a mãe odiava crianças ouvindo os mexericos. Então correu pela calçada, escapando do olhar reprovador da mãe.
Podia sentir o vento no rosto enquanto a pele esquentava pelo esforço da corrida. Naquele momento, enquanto corria, novamente se encontrou em seu reino, imaginou-se galopando em um lindo cavalo preto, no qual a jovem menina estaria fugindo. Então do nada algo a fez parar, logo no exato momento em que o monstro imaginário perseguia a princesa. Ali, caído na calçada, um garoto loiro sorria.
Era uma foto amassada e um pouco suja. O garoto vestia uma roupa engomadinha e bem cuidada, o cabelo era penteado para o lado, os olhos eram verdes e ele dava um sorriso com covinhas, algo tão fofo que a pequena não conseguia tirar os olhos. Ele parecia ser pouco mais velho que ela, talvez uns 12 anos, e em seus olhos tinham um brilho diferente, como se ele estivesse chorando.
Flora decidiu levar a foto consigo, deixando-a colada no espelho do quarto e ali passou os dias sonhando e imaginando mil e umas aventuras, que batalhava contra um exército de esquilos furiosos, cruzando reinos só para salvar o príncipe perdido. O problema era que a menina de nada realmente sabia sobre o príncipe, apenas que ele era um reflexo de tristeza e ela sonhava dias e noites em poder trazer alegria àquele rapaz.
***
— Mãeeeeeee, Flora tem um namorado. — O irmão muitos anos mais velho saiu gritando pela casa, segurando na mão a bendita foto. — A Floflo tem namorado. — Cantou zombando da irmã. Ricardo era um amor, mas as vezes sabia ser bastante irritante, principalmente quando estava zoando com a irmã.
— Larga isso Rick — disse Flora com lágrimas nos olhos.
— Calma, calma. — A mãe interferiu. — Deixe-me ver isso. — falou, pegando a foto da mão de Ricardo e a analisando com uma cara séria.
— Onde encontrou isso, querida?
— Na rua. Mamãe, me devolva, por favor. — Pediu a menina sentindo os olhos encherem-se de lágrimas.
— Para que quer essa foto, minha filha?
— É meu príncipe perdido! Vou achá-lo! — A pequena disse chorosa. A mãe apenas entregou-lhe a foto enquanto Ricardo ria da cara da irmã.
— Quando encontrá-lo, dê isso a ele. — Sua mãe lhe entregou uma corrente. — É o tesouro do príncipe.
Flora arregalou os pequenos olhinhos e se perguntou se a mãe não era uma feiticeira, como nos contos. Aquelas que escondem infinitos segredos por trás de olhos bondosos.
A menina saiu às pressas para o quarto e pegou um pequeno baú para guardar bonecas que vovó Madalena lhe dera em seu aniversário. Lá, a foto e o tesouro de seu príncipe estariam a salvo das investidas de seu irmão bisbilhoteiro.
Pegou com cuidado a corrente, qualquer outra mãe não daria um tesouro a uma criança, mas sua mãe era diferente, era uma feiticeira esperta. A corrente era em forma de notas musicais, uma peça bastante bonita e incrivelmente importante. Flora deitou-se na cama e pegou no sono. Sonhou estar em um grande palácio, em um baile esplêndido e usando um vestido rodado, dançava com o príncipe perdido, bailava pelo grande salão iluminado, entregando-se aos sonhos de criança. Deixou-se ser levada até onde a imaginação e os sonhos fazem moradas. Naquele momento, sem saber, um mero rosto gravado numa fotografia se tornará seu primeiro amor.
E assim, conforme o tempo passava, a pequena Flora crescia e juntamente com ela a vontade de encontrar o príncipe perdido. No entanto, o que outrora era uma fantasia infantil, agora havia se tornado curiosidade. Flora não conseguia se apaixonar por nenhum colega de escola como suas amigas, alguns garotos achavam-na bonita e tentavam paquerá-la, mas a única coisa que a garota pensava era: onde estaria o rapaz da foto? Qual seria a sua aparência atualmente? Será que um dia iria conhecê-lo?
***
2008
O ônibus estava uma bagunça, diversos adolescentes falavam ao mesmo tempo exteriorizando toda a ansiedade que sentiam em seus corpos por estarem viajando sozinhos para se divertir. Pareciam ignorar o fato de ser uma viagem de formatura do ensino fundamental e que haveriam professores indo com eles.
— Flora, me dê a sua mão. — A amiga que estava sentada ao lado dela solicitou, já pegando a mão direita de Flora.
— O que está fazendo?
As duas estavam conectadas pelos dedinhos e a amiga segurava ambos dos dedos com a outra mão, certificando-se de que o “laço” estivesse dado e que o acordo seria de fato cumprido.
— Me promete que iremos nos divertir e fazer coisas novas. Isso inclui dar uma chance para algum gatinho que possa aparecer.
— Aí não. Isso não. Você sabe que eu não consigo. Tenho apenas um príncipe em minha vida e eu ainda nem o encontrei. Como posso fazer isso?
— Você precisa, amiga! Está quase no Ensino Médio e o que viveu até agora? Que experiência temos? Precisamos ter histórias reais para contar mais tarde.
— Mas, e ele? — Flora perguntou retoricamente. Ela encarava a amiga enquanto pensava na proposta descabida — Eu fiz uma promessa. Preciso encontrar o garoto daquela foto, você sabe.
— E se você nunca o encontrar?
— Eu vou! Tenho certeza!
— Tudo bem! Por enquanto eu relevo sobre rapazes, mas vamos aproveitar ao máximo e quem sabe lá, você mude de ideia. Sabe que eu não desisto tão fácil. — Ela piscou.
— Eu sei bem. — Flora desatou o laço dos dedos e abraçou a amiga.
O trajeto era curto, então a bagunça não demorou muito tempo e as meninas não tiveram muitos assuntos para conversar. Cantaram uma vez as famosas músicas de viagem e logo se preparam para desembarcar.
Pegar a bagagem e fazer o check-in dos quartos quase demorou mais do que o trajeto. Os alunos tiveram uma breve palestra sobre regras e responsabilidade antes de se dividirem para ocupar os quartos. Alguns eram grandes, podendo hospedar entre três a seis pessoas. No quarto de Flora, ficariam três meninas, porém uma delas não pode viajar por problemas pessoais, então a dupla de melhores amigas deu sorte de não precisarem dividi-lo.
Elas estavam arrumando as coisas para que pudessem aproveitar o dia passeando pelo lugar. Carla não largava a programação, deixou uma cópia do bolso e a outra colada na porta do quarto.
— Vamos Flora, quero fazer um reconhecimento do local para não perder nada.
— Aí nossa, eu só queria deitar agora. Você está muito animada. — Terminou a frase com a voz abafada pelo travesseiro que jogará no rosto.
Carla logo tratou de puxar Flora para fora da cama e arrasta-la ao redor da propriedade. As duas procuraram a piscina, o salão de refeições, a churrasqueira, a tenda do luau e do baile, a quadra de esportes, o campo onde ocorria as atividades com sabão e tinta, o arvorismo e tirolesa e depois foram ao lago. Elas sentaram na beira do lago para descansar e Carla não perdeu a oportunidade de comentar:
— Imagina que lindo sentar aqui com um rapaz e olhar o pôr do sol? E depois trocar uns beijinhos quentes enquanto as estrelas aparecem no céu.
— Olhar pôr do sol é muito bonito, mas posso fazer isso com você também, podemos voltar mais tarde.
Flora já havia se imaginado com o seu príncipe encantado da fotografia naquele lugar assim que a amiga começou a sugerir, mas ela preferia manter aquela vontade escondida, já que Carla iria ficar brava, provavelmente dizendo que ela deveria procurar alguém real.
— Não mesmo! Eu não vou te beijar! Já estou de olhos no garoto ruivo que estava na piscina e no moreno da quadra de esportes.
Flora apenas riu da piada e do jeito da amiga.
— Você não gostou de nenhum?
— Carla, a gente acabou de chegar. Não estou procurando ninguém.
— Flora, nós combinamos. Combinamos aproveitar e ficar juntas, mas eu tô de olho em muitos rapazes, não prometo ficar 100% do tempo com você. Me perdoa, amiga.
— Tudo bem, só me prometa que virá ao lago comigo depois do café da tarde para conversar. Podemos tomar café juntas e depois vir aqui contar os segredos.
— Combinado!
***
Alguns dias se passaram e as amigas fizeram todos o cronograma planejado por Carla, elas ainda não haviam se separado, mas Flora sabia que inevitavelmente isso aconteceria.
Carla combinou de encontrar o rapaz moreno da quadra de esportes para passarem o dia juntos, então finalmente Flora teve um dia de descanso para ler um livro, ir à piscina e caminhar ao redor sem preocupação.
Na hora do café, as duas se encontraram para passar um tempo juntas e Carla contou à Flora como o rapaz era.
— Eu vou sair com ele amanhã de novo. Você não vai ficar chateada né?
— Está tudo bem.
— Vou conhecer o amigo dele, se ele for legal te aviso. Você poderia vir para conhecer.
— Carla eu não quero ficar com ninguém.
— Aí Flora, acorda amiga. Estamos com quinze anos já, logo você vai pra faculdade, daqui a pouco tá com vinte e nem beijou ninguém ainda. É só conhecer, o que custa?
— Eu não tô preparada pra isso, se eu for, vão querer que a gente forme um casal e se eu não quiser? Aliás, não quero!
— Você vai ficar pra titia? O homem nunca vai aparecer se você não procurar. Tem que mostrar interesse. Isso é vida real, não um conto de fadas. O seu príncipe não vai chegar em um cavalo branco!
Carla ficou tão irritada que bateu na mesa. Flora nem se deu ao trabalho de responder, ela estava muito chateada e irritada com a amiga. Levantou e saiu correndo para longe de Carla, que estava se desculpando aos berros quando viu a amiga se afastar.
Flora correu sem rumo. Queria afastar aquele sentimento de tristeza e solidão dela. Perguntou-se se a amiga estaria mesmo certa, talvez sim. Entretanto ela não queria fazer nada obrigada. Era fato que a maioria das meninas da sala estavam se relacionando ou beijando algum garoto na viagem, mas Flora não era todo mundo, era apenas ela e não poderia estar tão errada assim.
Ela não percebeu para onde caminhava, estava em uma trilha de terra da qual não se lembrava de ter estado antes. Flora olhava as pedras no chão, as lágrimas escorriam pelo rosto e desenhavam pingos na terra batida aos seus pés.
Ela sentiu um vento cortar o ar próximo a ela, tão de repente que a assustou. Ela levantou a cabeça para verificar o que acontecia e ficou estarrecida com o que viu.
Naqueles segundos, o mundo parou.
Ela não sentia mais o vento, nem a tristeza, raiva ou solidão.
Flora congelou e quando conseguiu recuperar o controle de suas emoções, ela soltou um riso discreto, achando graça da situação; rindo do destino.
— É! O cavalo não é branco.
Comentou consigo mesma, quase como um sussurro.
Diante dos seus olhos estava o mais lindo cavalo que já tinha visto em toda sua vida. Seu pelo era em um tom preto como a escuridão, e montado em cima daquele gigante havia um rapaz.
— Falou alguma coisa moça? — O chapéu escondia grande parte do rosto, protegendo contra o sol.
— Eu, é, na verdade… — Flora raramente perdia as palavras e naquele momento, quando mais precisava delas, simplesmente não conseguia achar.
— Está tudo bem? — O rapaz desmontou do cavalo o segurando firmemente pela corda. — Você estava chorando? — A preocupação parecia ser genuína.
— Não. Foi só um... — E novamente não conseguia encontrar as palavras.
— Um cisco em seu olho? — Completou risonho.
— Sim. Não. Droga. — Flora suspirou irritada consigo. — Você deve estar me achando uma boba. — Afirmou chateada após alguns segundos de silêncio.
— Na verdade até esse momento não, mas já que comentou até que olhando de perto realmente parece. — Brincou arrancando uma risada de Flora o que surpreendeu os dois. — Então o que estava fazendo aqui?
— Estou passando as férias com o pessoal da minha sala — respondeu distraída olhando em volta, porém a atenção voltou para ele quando o percebeu rindo. — O que foi?
— Eu quis dizer o que você faz aqui no meio do nada. — Explicou sem conseguir segurar a risada.
— Ah que vergonha. — As bochechas ficam vermelhas enquanto colocava uma mecha atrás da orelha. — Eu estava chateada com uma amiga e saí meio sem rumo, e bem, acabei aqui. E acho que estou perdida.
— Sua sorte que estou aqui, mas pelo meu favor como seu guia, terá que me dar duas coisas em troca. — Barganhou com uma expressão séria.
— Eu não vou sair com você. E nem beijar você. — Logo que as palavras saem corou fortemente, porém, não tinha como voltar atrás.
— Você é hilária demais, sabia disso? — Sorriu para ela. — Relaxa. Não é nada disso. Eu só queria saber o que você falou quando me viu.
— Ah. Isso. — Flora não sabia onde enfiar o rosto, tamanha a vergonha que estava sentindo. — Podemos ir andando enquanto falo? — Tentou desconversar para pensar em uma desculpa, mas por algum motivo as palavras sumiram.
— Claro. — Começaram a caminhar rumo ao hotel fazenda. — E então?
— Eu não quero falar isso — respondeu acanhada.
— Mas a gente fez um trato.
— Sim, mas é algo bobo. — Resmungou.
— Bom, que tal deixar eu decidir isso? — respondeu acariciando o cavalo.
— Tudo bem. — Desiste por fim. Após alguns minutos caminhando em silêncio finalmente quebrou o silêncio. — Eu não sei se você já viu algum filme da Disney, quer dizer, deve achar que é coisa de menininha, enfim, nos filmes de princesas o príncipe sempre busca a princesa em seu cavalo branco, e de alguma forma aquele momento atrás me lembrou isso, exceto que o cavalo não era da cor certa. — Termina de falar ao mesmo tempo em que chegavam no hotel.
— Entregue. — O rapaz retira o chapéu e é quando Flora vê o seu rosto pela primeira vez. Era jovem, possuía sobrancelhas grossas e queixo quadrado e havia o sorriso, ele inicia lentamente e então ia crescendo até ser em toda sua boca.
— Obrigada. — Flora sorriu e começa a se afastar.
— Hey moça. — Se virou lentamente sorrindo.
— Sim.
— Qual o seu nome? — A pergunta dançava pelos lábios do rapaz.
— Flora. E o seu? — Antes que pudesse impedir havia perguntado.
— Para você, sou Príncipe.
***
Os alunos aproveitaram o dia no hotel fazenda e quando deu a noite decidiram ir à cidade para conhecer Canela e os pontos turísticos. Sebastião, o dono e gerenciador do hotel fazenda, conhecia a professora Cecília, que veio na viagem, por isso incumbiu seu filho a entediante tarefa de ser guia turístico daqueles jovens.
— Ele é muito gato. — Letícia conversava com Juliana em frente a lanchonete. Carla e Flora estavam próximas e eram capazes de ouvir a conversa. — Com certeza conseguirei ficar com ele, até porque não tem motivo para ele me negar certo?
— Claro que não amiga. Vocês combinam demais. — Confirmou caminhando para o ônibus.
— Essas duas são insuportáveis, sério. — Carla tinha detestado as duas garotas desde que colocou os pés na sala no primeiro dia de aula. — Sempre se achando as superiores. Elas realmente acham que aquele Príncipe vai querer algo com elas? — A menina sabia tudo sobre o encontro que Flora teve com ele.
— Porque não? Quer dizer, ela é horrível por dentro, mas linda por fora e ele falou comigo, então talvez faça o mesmo com ela.
— Desencana garota. Se ele realmente preferir ela a você, então na verdade é um sapo ao invés de príncipe — diz sorrindo, mas em seguida ficando com uma expressão preocupada. — Acho que esqueci meu celular lá na lanchonete, pode ir indo na frente.
Flora balançou a cabeça para a amiga distraída e caminhou para o ônibus. Decidiu se sentar no mesmo lugar que veio, do lado da janela, a viagem era de cinquenta minutos, mas era ótimo para escutar músicas, deixar os pensamentos soltos e a imaginação voar.
— Oi. — Uma mão entrou em seu campo de visão causando um susto em si.
— Quer me matar? — Questionou olhando para ele. — O que está fazendo aqui? Digo, sentando ao meu lado?
— A sua professora disse para me sentar aqui, e aí sua amiga chegou minutos depois. — Os dedos correram por seus cabelos. — Você parecia bastante distraída.
— É, na verdade estava.
— O que estava escutando?
— Escutando música.
— Só isso? — Seus lábios pareciam querer curvar-se em um sorriso. — Você não vai falar que tipo de música que estava ouvindo, nem nada do tipo? Quer dizer, você falou mais da última vez.
— Só falei coisas bobas, estou poupando ambos dessa vergonha. — Os dedos de Flora batiam freneticamente na perna dela. — Além do mais, é música adolescente demais para você, não vai gostar.
— Não deveria ser eu a decidir se gosto ou não? Além do mais, não achei a nossa conversa boba, gostei do tempo que passei com você Flora, gostei muito. — Finalmente sorri.
— Tá bom. — A garota sabia que naquele momento suas bochechas estavam vermelhas, ou pelo menos deveriam, já que sentia elas queimando. — Você conhece um filme chamado High School Musical?
— Nunca ouvi falar.
— Viu, é bobo. Esquece.
— Hey, fala.
— É um filme que fez muito sucesso, todo mundo adora, pelo menos todas as adolescentes sabem. Eles cantam várias músicas durante os filmes, e eram essas músicas que estava escutando. — Terminou de contar nada feliz. Agora o Príncipe teria certeza de que ela uma menina sonhadora e infantil.
— Acho que seu Príncipe veio com erro da fábrica.
— O que? — O rosto transmitia a confusão com as palavras dele.
— Quer dizer, que príncipe que se preze que não conhece as músicas preferidas de sua princesa? Isso é um erro de fábrica com certeza. — E lá estava o sorriso.
— Você não existe, sabia?
— Claro que sim, sou seu príncipe. E agora você tem a obrigação de me ensinar todos seus gostos musicais. Pode compartilhar esse fone aí.
— Se não gostar pode falar, sabe? — Lembra-o enquanto entregava o fone.
— E correr o risco de perder a princesa? Claro que não, prefiro ficar surdo escutando música ruim. — Riu ao ver a careta de Flora.
— Tá bom piadista, fica quieto antes que o pessoal do ônibus venha reclamar. — Os pensamentos por alguns segundos foram para Letícia e o que estaria pensamentos sobre aquilo, mas logo esqueceu. — Vou soltar o play.
A melodia da música encheu seus ouvidos calmamente, levando cada um para seu próprio lugar especial, o seu refúgio, a sua saída e escape do mundo. A letra mexia todas as vezes com Flora, era viciada no filme, mesmo que jurasse de pés junto que não e como aquela era a primeira música, nada mais justo de ser tão especial.
Com os olhos virados para a janela observava a vegetação passar como um passe de mágica, a noite estava incrivelmente escura, iluminada somente pelo brilho da lua e das estrelas que estavam lá no céu, brilhando.
Em algum momento sentiu um toque na mão dela, mas não era capaz de virar seu rosto e olhar para ele. Os dedos entrelaçaram, e o dedão mexia lentamente em um carinho reconfortante que acalmava e levava um sorriso para o rosto de Flora.
Conforme a música era cantada algo martelava em sua cabeça, como se estivesse tentando mandar uma mensagem, era um aviso que não conseguia enxergar, seus pés batiam no ritmo da música, enquanto aproveitava aqueles breves momentos ao lado dele. O coração começou acelerar quando a última estrofe chegou, pois foi quando finalmente conseguiu entender.
Isso é o começo
De algo novo
É um sentimento tão bom
Para estar aqui com você
E agora, olhando nos seus olhos
Eu sinto no meu coração
O começo de algo novo
O começo de algo novo
(Start Of Something New)
Agosto/2010
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