Em cima da mesa do escritório o Papel e o Lápis ignoravam-se mutuamente. Cada um, em suas concepções individualistas, achava que era o mais importante para seu Amo: o Escritor. A Mão, também chamada de Mestra, parecia ser a única que poderia solucionar essa rixa, visto que somente ela sabia os verdadeiros gostos do Amo. Dessa forma, ambos, Papel e Lápis, recitavam ao vento com o ego inflado suas brilhantes características na esperança que a sábia Mestra escolhesse entre os pupilos, seu preferido.

— Eu sou essencial. Sem mim as palavras não fluem. É com a minha marca que a história se cria. — afirmou o Lápis de forma presunçosa, deslizando com graça em curvas caprichosas sendo guiado pela Mão.

— Se tua função é criar palavras, as minhas são guardá-las, revelando-as aos olhos ávidos pela emoção da leitura. — replicou suavemente o Papel, preenchendo seus espaços brancos com linhas organizadas as belas palavras.

— És um tolo. Tua existência resume-se a me servir. Sem mim tu não expressas nada nesse teu branco vazio. — alfinetou o Lápis com enfado, cutucando o Papel por três vezes quase perfurando-o.

O Papel remoeu em si uma resposta á altura contra aquela violência gratuita. Calou sua indignação, no entanto, ao ver o Apontador aparecer para conversar com o Lápis, afiando-lhe a língua ferina sempre que podia. O Papel sorriu secretamente. O Lápis dava uma de esperto mas nem desconfiava que seu amigo só queria usá-lo.

— Na verdade és tu quem precisas de mim, pois serás mera lembrança quando deixares de existir. — jogou o enigma no ar sabendo que o Lápis não entenderia metade do que dizia.

— Silêncio. — ordenou a sábia Mestra já cansada da conversa. — Concentrem-se em suas tarefas. O Amo de vocês vai voltar a escrever. — a Mão disse, por fim, segurando o Lápis com mais firmeza com o intuito de fazê-los parar de discutir.

E assim prosseguiram as horas, em profundo silêncio, trabalhando orgulhosos no texto que desenvolviam. Os dias se seguiram nesse ritmo e o Apontador sempre que podia aproveitava pra amolar o Lápis que sem perceber acabou ficando um toco. Havia sido consumido pela conversa barata do Apontador, o qual considerava seu melhor amigo. Quem diria... Ele havia recebido o troco de quem menos esperava. Foi como levar um tapa na cara. Tão pequeno o Lápis ficou que a Mão não podia mais segurá-lo. Acabou indo pra lata de lixo, sendo descartado.

— É isso que acontece com quem é tão rígido em suas ideias. Tivesse prestado atenção ao que eu dizia não teria entrado nessa fria. — vangloriou-se o Papel que riu do destino do outro. No fim, ele havia sido escolhido. Ou pelo menos assim pensava até o Escritor entrar no escritório com um novo objeto.

Ele era grande e tinha letras tarimbadas, apresentado um ar de modernidade. O Notebook, como o Escritor o chamava, não era dado a palavras apesar de também trabalhar com elas. A Mestra pegou o Papel e o colocou do lado do Notebook para que ficasse ao alcance da vista do Escritor. No começo a Mão achou estranho os toques que precisava fazer para escrever. A princípio, ela escrevia devagar depois, mais acostumada e com prática, a escrita tornou-se mais rápida. O Papel continuava impávido ao lado do Notebook, exibindo as letras perfeitamente desenhadas pela Mestra.

Um tempo depois a Mão passou a ignorar o Papel. Isso ocorreu após o texto nele escrito ter sido transferido ao Notebook. A Mão acostumou-se a trabalhar com o Notebook por ser mais ágil que os outros objetos, concretizando, assim, o desejo do Escritor. O Papel apesar de incomodado com o tratamento continuava com o peito inflado exibindo as palavras. A Mestra, no entanto, não mais o tocava para ser lido.

Um ventania forte adentrou pela janela quando o Escritor tinha saído do recinto e o Papel acabou por se levantar mambembe da mesa, caindo no chão. As lágrimas da chuva o borraram todo, tornando indecifrável as palavras do texto que orgulhosamente mantinha em si.

— Cumpriu bem tua tarefa. Descansas agora em paz. — falou a borracha meio amarelada escondida ao pé da mesa.

— Do que falas? As palavras ainda existem em mim. — disse preocupado o Papel, tentando não se mover ou rasgaria.

— Ninguém te leria dessa forma... Manchado com tanta prepotência. Destruíste a beleza do texto que existia em ti. Se não fosses tão leve e flexível talvez a tua Mestra tivesse mesmo te escolhido como preferido do Escritor. — tossiu a borracha velha. — Caí aqui por descuido da Mão. E quem disse que de mim o Escritor se lembrou? — reclamou com a voz seca e rabugenta.

O Papel gritou sua dor, inconformado e acabou rasgando a boca, ficando com o rosto em pedaços enlameados no chão escuro, esquecido até o dia seguinte.O Escritor adentrou no escritório, limpou o chão recolhendo os pedaços do Papel e o jogou no lixo fazendo companhia ao que restou do Lápis. A borracha velha grasnou, mais uma vez, mas o Amo não a ouviu e ali ela, sozinha, permaneceu A tela do Notebook brilhou mostrando o texto repassado dias antes para ele eternizado em sua memória. A última palavra escolhida, por uma fonte que imitava a letra original feita pela Mão, mostrava o derradeiro destino dos pupilos arrogantes.

Fim

Notas finais
Fiz esse conto numa noite movida por uma súbita inspiração. Imaginei-me no lugar do Escritor e esse diálogo entre os objetos que normalmente usamos pra escrever estalou na minha mente. Foi bem interessante dar vida a eles, abordando as perspectivas de cada um. Agradeço antecipadamente os comentários por ventura feitos nesse original. ^^

E até a próxima! o/

Virgo no Áries
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!