O Panquequeiro

1 Uma Jornada Inesperada


"O Panquequeiro"

Uma Jornada Inesperada

A professora Marta, sem pressa, passava carteira por carteira recolhendo uma espécie de envelope da mão de seus queridos alunos. O objetivo era simples.

— Bem jovens, agora que todos já escrevem no papel, irei ler em voz alta e então lhe perguntar o motivo de sua escolha – os alunos escreveram, cada um, os seus sonhos e bem, aquele era o momento de Alex Turnado, o melhor aluno da sala, revelasse o que queria ser.

É hora de mostrar a todos, pensou ele, com braços sobre a mesa e pose imponente.

— Vamos começar com... Bernardo Leviano. Por que o seu objetivo é se tornar um cantor de uma banda famosa?

— Pois eu adoro cantar! – resposta direta, simples e obvia.

A classe começou a xingá-lo, “sabe cantar merda nenhuma!” ou um “toca uma pra mim!” aqui e ali.

— Pessoal, sem zoar o Bernardo, não sejam levianos! Enfim, vamos ao próximo... Augusto, por que quer se tornar um... – meu Deus – um traficante? – questionou assustada.

— Quem quiser comprar alguns bagulhos, aqui estão alguns cartões para contato.

BOCA VON FUMO

Era o nome do “estabelecimento” escrito no cartão.

Professora Marta, com medo de levar um tiro, continuou a aula. E assim se foi, teve um garoto que queria se tornar um jogador de futebol... mas ninguém liga, teve o que queria ser agente da Sasha Grey, outro se tornar piloto reserva de jatos kamikaze e etc. Até que finalmente, a pergunta veio ao nosso protagonista, Alex Turnado.

— Alex Turnado, por que quer se tornar um... Panquequeiro? – enfatizando esta última palavra, no momento seguinte, quase soltou um risinho.

— Bem professora, a minha família sempre seguiu essa área, porém, sem grande reconhecimento. O meu objetivo como Panquequeiro é tornar-se o mais habilidoso do mundo e erguer o nome da minha família rumo ao triunfo! – aquilo soava tão sério, que a professora não acreditava.

— A sua resposta foi a mais sensata, mas... se tornar um Panquequeiro? Desculpe o palavrão, mas, que merda é essa seu idiota? Hahahahaha – as risadas dela foram acompanhadas pelo ataque de riso da classe inteira.

Mas logo, a alegria de todos acabou.

— CALEM A BOCA! PAREM DE RIR DO MEU SONHO! – berrou Alex, arrebentando o chão em um soco de raiva. — EU VOU CONSEGUIR VOCÊS VÃO VER!

–-X--

A luz lúgubre iluminava em tom de sépia o misterioso cômodo. Gotas de sangue, lentamente, pingavam e se espalhavam pelo chão. Neste cenário macabro, estava Alex Turnado, chorando silenciosamente; porém, ao mesmo tempo, com uma grande dor berrando dentro de si.

O líquido escarlate escorria de seus pulsos. Havia tentado suicido pela quarta vez. Incrivelmente, ainda não tinha aprendido que cortar os pulsos com uma lâmina de barbear – mesmo com o modelo mais avançado, Gillette Fusion ProGlide Power – não funcionava! Talvez, inconscientemente, tentava se martirizar e não tirar a própria vida.

— Eles não entendem nada... a magia de ser um Panquequeiro – sussurrou a si mesmo, quando ouviu a porta se abrir. Era sua mãe.

— Filho, você está bem? Eu trouxe sua sopa de cenoura, abobrinha, melão e mostarda favorita! – dona Palmira aproximou-se dele, preocupada e colocou o recipiente com a sopa exótica bem ao seu lado. — Coma e vai se sentir melhor... agora devolve a Gillette que seu pai vai usar para depilar o saco.

A visita da mãe ao quarta já estava terminada, quando o pai de Alex resolve aparecer.

— Moleque filho de uma puta! – berrou ele.

— Puta é a sua mãe! – dona Palmira revidou, xingando-o – e vale ressaltar que não era um palavrão aleatória, a mãe dele realmente fora uma puta, e das boas.

— Você ainda se diz o meu filho? Se cortando com a merda da minha Gillette e se tornando um emo chorão! Onde estão as merdas do CD do Fresno? Se tiver aqui, eu vou te bater é agora mesmo! – seu pai, Tonhão, era uma pessoa impaciente e muito nervosa.

— Pare de falar mal de seu filho, ele está em uma situação difícil e...

— Fique quieta mãe – disse Alex, interrompendo-a. — Pai... – levantou-se lentamente e caminhou, com uma crescente aura de determinação sobrepondo a de agonia, em direção ao seu progenitor. — Ainda vai sentir orgulho de mim, eu irei me tornar um Panquequeiro melhor do que você! Engula as minhas palavras!

— Era emo e evolui pra screamo? Para de gritar na porra do meu ouvido! Eu não irei aceitar você como filho até que se torne um verdadeiro homem. Para isso, só há uma maneira...

Mesmo em uma discussão, aquilo atiçou a curiosidade de Alex.

— Que maneira? Do que você está falando?

— Eu irei lhe dar isso... – era um colar, que havia uma flecha apontando para uma direção, sempre a mesma direção. — Pegue isso e siga o caminho que aponta.

— Por que?

— É um colar passado de geração em geração da família Turnado, caro Alex. Diz-se, nas lendas passadas de nossa família – que existe desde 3458 AC -, que este colar aponta para onde o Deus Panquecudo está.

— Deus Panquecudo? Mas que porra é essa? Tá tirando uma com minha cara? – ele já estava impaciente, talvez herdado a característica de seu pai.

— É o deus das panquecas. Se quiser se tornar o melhor Panquequeiro e não quiser só me superar, mas o mundo inteiro, terá que embarcar nesta jornada, uma aventura arriscada e incerta a qual nenhum membro de nossa família ousou seguir.

— Eu... aceito, não estou nem aí para a lógica.

— Filho, você tem certeza? É uma jornada perigosa, criará inimigos e precisará de aliados. Antes de ir... eu quero que saiba, você é adotado.

— PUTA QUE O PARIU, ESTÁ DE BRINCADEIRA COMIGO? EU VOU ME CORTAR! – não estava acreditando! Filhos da mãe – menos ele!

— Calma é só uma piada para desestressar, Hahahahaha! – riu a sua mãe. — Não esqueça de levar uma marmita em sua jornada.

— Sua trouxa, me pegou de jeito em? Hahaha, se fosse verdade, eu já iria te esquartejar aqui mesmo.

Ninguém mais deu risada.

Mas não importa, aquele era o momento o qual esperava. A jornada de Alex Turnado para se tornar um Panquequeiro finalmente tem seu início.