O Palhaço

1 Prefásio ... e Fim


Nunca gostei de palhaços. Fiquei traumatizado quando tinha três anos em um circo. Sempre desconfiei deles com aquela cara pálida e nariz enorme. Tudo só piorou quando meu irmão mais velho descobriu sobre meu medo. A partir daí ele sempre implicava comigo, com o passar do tempo às implicâncias foram piorando, meu irmão passou a se vestir de palhaço, cada vez vestia uma fantasia pior que a outra, com isso meu medo aumentava com o passar dos dias.

Era véspera de Halloween quando meus pais resolveram viajar. Implorei para que não fossem não queria ficar com meu irmão. Pedi para ficar na casa da vovó ou de meus amigos, mas não adiantou. Não conseguiria dormir sozinho naquela casa com meu irmão. A minha sorte foi que quando meus pais viajaram meu irmão não parava em casa, vivia saindo com os amigos, e deixava a casa só para mim.

Em uma tarde de chuva em que estava sozinho jogando GTA, escutei um barulho de água pingando vindo da cozinha, logo fiquei apavorado por não estar junto ao meu irmão, me sentia inseguro. Vi a torneira pingando e a fechei. Ao voltar à sala encontrei a porta da varanda aberta, a chuva encharcava o chão e o sofá, corri até a porta e a fechei. Notei que no chão havia rastros de lama, neste instante paralisei, tinha alguém ali. Fiquei imóvel, apenas meus olhos se moviam observando o local em busca de algum movimento ou de alguém.

Pensei que poderia ser meu irmão, talvez tivesse esquecido algo ou voltado mais cedo. Chamei e chamei por ele, mas não houve resposta. Já estava achando que a chuva trouxera o barro pra dentro de casa quando ouvi pequenos barulhos atrás de mim, alguém se aproximava. Estava em choque, me virei lentamente para olhar o que estava ali. Buuuh! Um palhaço com a boca triste me encarava, senti meus olhos se encherem de lágrimas e gritei, foi quando o palhaço retirou a mascara e começou a rir, era meu irmão, o esmurrei na barriga com raiva por ter me assustado daquele jeito. Voltei para meu jogo tentando engolir as lágrimas de raiva que agora escorriam pelo meu rosto. Meu irmão saiu da sala rindo e após alguns minutos voltou falando que ia sair para comemorar a noite de Halloween com os amigos, e eu ficaria ali, me entupindo de doces a noite inteira.

Já havia anoitecido e eu estava jogado no sofá vendo Killer Klowns enquanto cortava uma abóbora para colocar na janela para proteção. Havia acabado de colocar a abóbora na janela quando escutei um barulho, sorri e pensei “deve ser mais uma das brincadeiras sem graças do meu irmão". Voltei para a sala atento à TV quando o barulho de um vidro se quebrando me distraiu.

-Léo! Não tem graça, eu sei que é você!

Gritei para o meu irmão. Voltei a olhar a TV, mas os barulhos continuaram. Então tudo piorou, a luz acabou, resmunguei comigo enquanto pegava a lanterna e ia até a caixa de energia que ficava no porão, desci as escadas e tentei achar a caixa com a luz fraca da lanterna que não parava de piscar. Achei a caixa de energia e tentei ligar as luzes apertando alguns dos botões. Mas notei que os fios estavam cortados. "Léo! Só podia ser ele", pensei. Estava subindo as escadas quando ouvi um pequeno barulho, uma música na verdade, desci novamente e encontrei uma caixa de música, pensei que era uma caixa de música comum, me aproximei dela e a fitei, foi quando a música acabou e um pequeno palhaço pulou para fora da caixa, berrei e me virei já pronto para correr dali, mas trombei com algo corpulento, a figura à minha frente era alta, Léo? Não, a pessoa à minha frente era mais alta. Estava em choque para gritar, corri dando a volta pela pessoa parecida com um palhaço e subi as escadas.

Fui para o sótão, mas conhecido pela minha mãe como a casa de bonecas. Estava encolhido em um canto tremendo de medo ou de frio, não sabia o certo. O local estava escuro tirando pela luz dos relâmpagos, a pequena janela atrás de mim tremia com o estrondo dos trovões impossibilitando-me de ouvir qualquer barulho que viesse de dentro da casa. Estava rodeado por bonecas de porcelana com olhos frios e um sorriso que imaginei serem falsos. Cheiravam a naftalina e poeira.

A chuva havia diminuído, estava pensando se saía para averiguar o local quando comecei a ouvir passos subindo as escadas, os passos pararam, será que quem que fosse que estivesse ali já teria ido embora? Foi quando a porta se abriu lentamente rangendo. Fechei os olhos me encolhendo mais ainda. Pensei que haviam se passado minutos, e como nada acontecera resolvi abrir os olhos.

Foi quando um relâmpago iluminou o local e avistei a mesma figura que aparentava ser um palhaço, sem me levantar me arrastei para mais longe que pude daquela pessoa. Mas aquele sorriso triste, medonho e aqueles olhos sombrios me tremiam os ossos, foi quando novamente um relâmpago caiu perto de minha casa, iluminando todo o cômodo pela janela, infelizmente descobri com o que eu estava me lidando, antes o que era um homem alto e maquiado, agora era realmente o que eu mais temia um palhaço!

Tudo escureceu novamente, não conseguia enxergar nada somente escutava uma leve música pensei que era da minha cabeça mais cada vez se aproximava ainda mais, me lembrei de quando estava no porão que teria ouvido a mesma música fiquei espantado por um estante, mas a música continuava, comecei a me arrastar pelo chão novamente, mas agora estava tentando achar a porta, mas não achei, até que encontro alguma coisa macia não sabia o que era, mas provavelmente seria uma antiga boneca de tecido, não tinha certeza, pois não estava fedendo, resolvi voltar, fiquei lá perto da janela quando outro raio caiu, iluminando tudo novamente, o palhaço estava lá, no mesmo lugar.

Depois de olhar para ele, criei atitude e o fitei sem me mexer, ele se aproximou lentamente de mim, fique sem reação, olhei em volte em busca de alguma forma que eu pudesse escapar. Não vi nada... A não ser a janela, não teve outra saída, esperei o palhaço ficar a mais ou menos uns cinco passos de mim e me joguei contra a janela.

Por um momento meus sentidos se entorpeceram e minha visão embaçou. Senti meus ombros doloridos e minhas pernas e braços ardiam. Queria ficar ali até ser encontrado por alguém, mas o pensamento “O palhaço” me fez me levantar. Notei que meus braços sangravam e havia pequenos pedaços de vidro em minha pele. Tentei andar e senti uma dor enorme no meu tornozelo, manquei até a varanda de casa e abri a porta, tentei ir o mais rápido possível para a cozinha, onde peguei um facão, me virei mancando e fui silenciosamente para a garagem, iria tentar sair sem chamar atenção do palhaço.

Cheguei à garagem e ascendi à luz, tapei a boca para não gritar, o cheiro de carnificina dominava o lugar, me arrepiei e tentei não vomitar... Não adiantou, o vômito veio com tudo. À minha frente o corpo do meu irmão estava pendurado por uma corda, sua barriga cortada e algumas coisas a baixo de seu corpo estavam encharcadas do sangue que pingava da barriga dele. Imagino que seriam alguns órgãos, peguei o controle para abrir o portão enquanto o medo me dominava e as lágrimas escorriam pelo meu rosto. O portão não abria, tentei um monte de vezes e nada, então ouvi. O barulho da caixa de música de novo “tã nã nã nã nã nã nã tã nã nã nã nã nã...”. O medo cresceu dentro de mim, tentei abrir o portão com as mãos, mas não adiantou.

Ouvi a música ficar baixa e sumir aos poucos. Então ela voltou, mas pelo lado de fora, o susto foi enorme que não pensei, sai correndo dali o mais rápido que pude, sem me preocupar em fazer qualquer barulho. Não podia fugir, o palhaço estava do lado de fora. Então corri para o local em que achei mais seguro, o quarto dos meus pais. Escondi-me no armário e deixei as lágrimas fluírem, havia perdido meu irmão e provavelmente morreria também. Foi quando enxerguei uma poça escura de baixo da cama de papai e mamãe, sai do armário com cuidado e curioso. Aproximei-me da cama e ergui a coberta, juro que só não vomitei porque já tinha colocado tudo para fora.

De baixo da cama estava o corpo da mamãe, mas como?! Ela e papai haviam viajado... Onde estava meu pai?! Foi então que notei que não me importava mais se morreria, havia perdido as coisas mais importantes da minha vida. Minha família. Apertei o cabo do facão em minha mão e sai do quarto. Caminhei com passos largos em busca do palhaço, me guiei pelo som da música. Minha vida parecia não ter mais sentido, me sentia vazio. Toda minha vida passava diante dos meus olhos enquanto ia atrás do maldito palhaço. E eu tinha certeza de uma coisa. Eu vingaria minha família.

Não sentia mais nada, nem o frio que minhas roupas molhadas havia me dado, nem mesmo a dor no tornozelo que aumentava a cada passo pesado que eu dava. Encontrei o palhaço na cozinha. Ele dava corda à caixa de música. Mirei a luz da lanterna em seu rosto e notei que ele me fitava, mas não parou de rodar a manivela da caixa. Finalmente pude observar suas feições.

Seu rosto era forte, juvenil, mas tinha exposta uma face que demonstrava poder, crueldade, impiedade e um até um pouco de tristeza, e estava com aquele sorriso horripilante. Notei que seu corpo era alto, mas era fino, magro. Observava a pessoa que matara minha família com ódio e amargura. Cerrei o pulso da mão que segurava o facão e senti meu corpo tremer de raiva.

-Onde está meu pai? — perguntei lentamente. Ele não respondeu.

-Onde está mina pai! Berrei com toda minha raiva. Surpreendi-me com o tom da minha voz, mas não mudei minha expressão. Ele não respondeu. Continuou rodando a manivela e me fitando... Foi ai que vi seus olhos. Eles tinham um olhar tão familiar, mas não reconheci, me mantive firme, ergui a arma branca à minha frente, não sei por que, mas o palhaço sorriu um sorriso triste e fraco, não entendi.

Quanto mais me aproximava, o palhaço roda mais rápido a manivela, estava a poucos passos dele quando a música acabou eu esperava ver o míni palhaço pular da caixa, mas desta vez não, desta vez saiu uma faca que fora enfiado bem no coração do palhaço, sem perceber fitei os olhos do palhaço e vi uma lágrima escorrer pelo seu rosto, então ele caiu no chão.

Não perdi tempo e fui à sala para ligar para a Polícia, estava com medo, pois minha casa estava cheia de corpos e não sabia se o palhaço havia mesmo morrido, liguei para a polícia que logo chegou, tentei explicar tudo mais era muito confuso e medonho, mas tiveram que entrar para acreditar. Ligaram para meus avós, assim que viram os corpos. Fui para o hospital e depois de ficar bem me levaram para uma escola psiquiátrica, pensavam que eu era o culpado, mas não era eu tinha certeza disso. Eles nunca acreditaram em mim. E, além disso, eles falavam que eu teria matado o meu pai, eu falei não, até que disseram que ele estava de palhaço, fiquei arrepiado e preferi não acreditar, não queria acreditar, lembrei-me dos olhos do palhaço... Tão familiares. Um dia estava pintando um mímico em uma tela quando coloquei a mão esquerda no bolso. Encontrei um papel, o abri e li atentamente.

“Filho.

Perdoe-me, não aguentei, se algo der errado e eu não conseguir falar com você antes de me pegarem ou descobrirem... Saiba que tive que fazer o que eu fiz, sua mãe me traiu, me traiu com um palhaço de um parque de diversões. Leonardo não era meu filho, era seu irmão... A traição de uma pessoa que você ama é mais dolorosa do que um amor não correspondido, quando alguém lhe trai uma vez pode ter certeza que haverá outras vezes. Não pude esperar outra traição, um dia você irá entender. Te amo meu filho.”

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