– Aonde coloco esses, dona Joana?

– Pode por ali atrás nas mesas, depois eu organizo cada.

Murilo levou a grande caixa para trás de umas prateleiras do lado esquerdo da biblioteca. Deu a volta por elas e novamente ficou olhando para a porta do quartinho.

O sino da recepção tocou.

– Murilo! – Chamou dona Joana. O garoto então voltou para a recepção.

– Desculpa a demora, sempre me perco... Mariana, ah, veio devolver os livros? – Disse recolhendo os livros da garota. – Vai pegar mais algum?

– Acho que não, Mu, assim que passar essa semana louca de provas eu venho pegar alguns. Mas e aí, cadê o Charlie? – Perguntou a garota.

– Viajou essa madrugada atrás de novos livros. Aí agora estou encarregado de cuidar da recepção até ele voltar, mas ainda ajudo a dona Joana com os livros.

– Ah! E o cursinho, como está?

– Muito legal, o pessoal é muito engraçado, muitos ali não querem nada com nada. Mas tenho que me esforçar se quero passar em Direito. Falando nisso, você já sabe o que fazer?

– Meu pai quer que eu vá pro ramo da medicina. – Mariana fez um sinal insinuando que ele era louco. – Mas quero Relações Internacionais, não fiz inglês à toa né? – Mariana olhou para o relógio. – Já está na minha hora, nos vemos amanhã. – Mariana deu um beijo na bochecha de Murilo.

––

Vários meses se passaram e um novo ano se iniciou, os pais de Murilo o pressionaram para arranjar emprego para pagar o cursinho, ele acabou conseguindo na biblioteca, para o desagrado de seus pais. Trabalhar na biblioteca foi ideia de Guilherme, ele achou que dona Joana poderia ter enganado Murilo em relação a ter livros sobre conjuras, pactos e Ceifadores, e que trabalhar lá era o melhor maneira de achar livros sobre esses assuntos. Murilo em apenas um mês procurou em todas as prateleiras, mas nada. Até que descobriu que não tinha acesso a um quartinho, que só era acessado por dona Joana e Charlie, achou estranho e decidiu permanecer trabalhando e sempre questionando os bibliotecários sobre motivo de não poder entrar.

Na última conversa de Mariana e Murilo, antes da garota sair da cidade, ela havia dito que estava pensando em algo e que não iria revelar, pois poderia não dar certo, o que ela tinha pensado era em pedir a sua mãe para vir morar na cidade com o pai. É claro que a mãe achou estranha a decisão da filha, afinal, ela sempre reclamava daquela pequena cidade, mas conseguiu convencê-la e agora morava com seu pai, o doutor Renato Crove, que ficou muito feliz com a decisão da filha.

Mariana estudava na mesma sala de Guilherme, o garoto cada vez mais se apaixonava por ela. Mariana e sua paixão por Murilo? Bom, a garota já não gostava mais dele e estava começando a ter sentimentos por Guilherme. Pois é, algumas mulheres se apaixonam e desapaixonam muito facilmente, principalmente Mariana.

A amizade de Guilherme e Murilo ainda continuava seguindo forte. Doutor Crove havia perdido Murilo como seu paciente.

As investigações sobre o caso Luisa estavam sob “Arquivo Morto”, não havia pistas e nada que pudesse ajudar no caso, a policia achou melhor deixar as investigações de lado.

E sobre os antigos moradores da cidade, Thais saiu para cursar Engenharia Civil em uma das melhores faculdades do país. Yasmin viajou para fora do país ao lado do pai, foram para a Califórnia, agora moravam lá e Mauro se casou com uma americana. Thiago já não teve tanta sorte, acabou enlouquecendo após passar várias noites sem dormir sendo assombrando não só por Alexandra, mas também pela sua antiga empregada, a Conceição, e foi internado em um hospital psiquiátrico, depois por não aguentar ficar calado e por não suportar a pressão, acabou se matando. Seus antigos amigos e colegas não ficaram sabendo, Murilo pensou que Thiago tinha trocado o número do celular e não avisou.

––

– Deixa que eu atendo. – Disse Guilherme. Abriu a porta. – Mariana, entre.

Um dia Guilherme ia estudar na casa de Mariana, e no outro era ela que ia para a casa do garoto. Tinham combinado de estudar juntos para as provas e assim aproveitavam e estudavam para o vestibular.

– Amanhã temos de História e Química.

– Odeio Química. – Disse Mariana. – Ainda bem que tenho um bom professor pra me explicar.

– Verdade, o Lenny é um ótimo professor.

– Não estava falando do Lenny, estava falando de você.

Guilherme riu sem graça. A matéria preferida dele era História, mas era muito bom em Química.

– Que isso, Mari.

– É verdade, você é muito bom em Química, tão bom quanto ele. – Mariana deu aquele sorriso que Guilherme era apaixonado.

Mais sem graça ainda, ele mudou de assunto.

– Amanhã é aniversário do Hugo né?

– É sim. Vou sentir muita falta dele ano que vem, é o professor que mais gosto.

– Eu também. Vamos estudar, porque tem muito conteúdo. – Guilherme disse desanimado olhando para os dois livros de estudos.

Os dois passaram a tarde toda estudando, Mariana tinha uma certa dificuldade com Química, mas Guilherme, teve toda a paciência com ela e explicava tudo novamente.

– Quase oito e meia, Gui. É melhor eu ir pra casa. – Disse Mariana arrumando sua mochila.

– Fica para o jantar.

– Não dá, já foi um custo convencer meu pai a deixar eu ficar até oito e meia, imagina se eu passar desse horário.

– Não rola nada, o doutor Renato Crove é compreensível com seus pacientes. – Guilherme tentou uma imitação da voz do doutor, porém sem sucesso.

Mariana achou graça.

– Mas eu não sou uma paciente.

– Mas você paga pra ele com alguma coisa, lava louça, sei lá.

– Guilherme, do que você ta falando? – Mariana não entendia.

– Sei lá, me ignora. – Ele deu risada.

– Você tem problemas. – Guilherme concordou e os dois deram risada. — Vamos? – Juntos saíram e foram para a porta da casa.

– Aí você chega na sua casa e dá uma outra estudada no conteúdo. – Guilherme disse sorrindo e Mariana deu um beijo em sua bochecha.

– Pode deixar, dar uma lida em História e ficar até de noite estudando Química. Mas nem vou precisar, meu professor conseguiu fazer com que eu entendesse.

Guilherme corou.

Mariana então voltou para sua casa.

Quando apaixonada por Murilo, Mariana não conseguia falar com ele, mas agora que é por Guilherme ela está diferente, talvez porque Murilo tenha sido sua primeira paixão. Era isso que ela pensava, pelo menos.

No outro dia fizeram a prova e receberam as notas de outras provas.

– Passei raspando em Biologia. – Disse Guilherme aliviado.

– Sorte sua. – Se lamentava um garoto loiro.

– Quanto você tirou, Luís? – Perguntou Guilherme e o garoto mostrou a prova onde estava com um grande 2. – Vixe, mas você recupera depois como sempre.

– Espero. Mariana foi bem, eu suponho.

– Só errei uma coisinha. Mas está de bom tamanho, agora se preocupar com o provão.

Sinal soou. Todos se despediram.

– Vamos comigo na Biblioteca?

– Fazer o que lá, Guilherme? – Perguntou Mariana.

– Vou dar uns livros para a dona Joana colocar para vender.

– Ah ok. Mas não vamos nos atrasar, você tem consulta hoje com meu pai.

– Eu sei. Vamos.

Passaram o caminho todo conversando sobre o dia na escola. Chegaram na biblioteca, Murilo estava na recepção.

– Oi. – Disse apertando a mão de Guilherme e beijando a bochecha de Mariana. – O que vieram fazer aqui? Guilherme, você não tem consulta?

– Tenho sim, mas vim trazer uns livros para a dona Joana antes de ir. Ela está?

– Sim, lá naquele quartinho.

Guilherme fez uma cara de desconfiança.

– Vai lá e bata na porta. – Disse Murilo.

Mariana percebeu algo estranho na conversa dos dois.

– Por que estão falando assim?

– Nada, por que a pergunta? – Antes da garota começar a falar, Guilherme continuou. – Vou lá e já volto. – Saiu apressado.

– E as novidades, Mari? – Perguntou Murilo.

– Sábado vou no cinema e amanhã tem as duas últimas provas.

– Huum’, vai no cinema com quem? – Perguntou Murilo dando uma risadinha.

– Com o Guilherme.

– Ah, ele me disse que ia te chamar, mas não tinha dito quando. – Disse Murilo secamente

Murilo estava começando a gostar de Mariana, sabia que Guilherme era apaixonado por ela já há muito tempo. Tinha falado ao amigo que estava gostando de uma menina, mas nunca contou quem era ela.

Guilherme bateu na porta e chamou por Dona Joana, a bibliotecária saiu do quartinho vestindo seu usual avental com o nome da Biblioteca.

– O que faz aqui?

– Vim lhe trazer dois novos livros para a senhora colocar à venda.

– Ah sim. Quais?

Guilherme abriu a segunda abertura de sua mochila e de lá retirou dois livros e os entregou a Dona Joana.

– Não vou colocar para vender, esses vão diretamente para as prateleiras. Muito obrigado novamente pela sua colaboração, Guilherme.

– De nada. – Disse sorrindo. – Se me permite, — Guilherme se curvou um pouco para olhar dentro do quartinho – o que a senhora estava fazendo lá dentro?

A bibliotecária fitou Guilherme e então respondeu:

– Nada demais, apenas...- Ela parou para pensar, mas sem respostas continuou. – Vamos voltar lá para a entrada. – E fechou o quartinho com a chave. Sem alternativa, Guilherme teve que voltar calado.

– Olá, Mariana.

– Olá, Dona Joana.

– E aí? – Perguntou Murilo.

– Depois a gente conversa. – Disse Guilherme cauteloso. – Olha a hora, vou chegar atrasado para a consulta.

Guilherme e Mariana se despediram de Murilo e Dona Joana e foram para o consultório do psicólogo.

– E como você está, Guilherme? – Perguntou o doutor.

– Estou bem.

– Está conseguindo falar com seus pais?

– Na mesma de sempre. – Disse sem olhar para o doutor.

– Você sabe que tem que sempre conversar com seus pais, já falamos sobre isso antes. E com Murilo?

– Murilo é o único amigo em que confio, o resto não me sinto bem em falar. Pode ser meus amigos, mas odeio todos de uma certa forma.

Doutor percebeu um tom de raiva na voz de Guilherme:

– E por que os odeia?

– Muitos motivos, não posso contar com eles pra nada, querem que eu seja algo que não sou.

– Tem certeza que são seus amigos? Talvez devesse rever suas amizades.

– Pois é, já me afastei um pouco deles.

Após a consulta, Mariana foi para a casa de Guilherme junto dele para estudarem.

**

– Já pode ir Murilo, pode deixar que eu assumo daqui. – Disse Dona Joana.

– Só falta atualizar essa página e aí eu já vou.

Já era quase 5 e meia da tarde e Murilo tinha que ir para o cursinho. Dona Joana ficava encarregada sozinha da biblioteca, agora que Charlie tinha viajado.

Terminando, Murilo arrumou suas coisas, se despediu e foi para o cursinho. Dona Joana ficou na biblioteca organizando alguns livros, já que quase não tinha movimento naquele horário.

Dona Joana terminou o que tinha que fazer e fechou a biblioteca, antes de sair ela entrou no quartinho e de lá ela saiu com uma garrafa contendo um líquido transparente com diversas ervas, jogou um pouco em suas mãos e começou a desenhar símbolos no chão e na porta principal, eles começaram a secar e a sumir, Dona Joana recitava palavras e ao terminar fechou seus olhos, logo saiu da biblioteca.

**

Sábado, Guilherme estava na praça.

“Agora vir pra praça me faz esfriar mais a cabeça. É tanta coisa acontecendo...não tenho mais certeza do que quero ou o que vai acontecer. Nem sei porque continuo me martirizando por pouca coisa. Murilo e Mariana são os únicos...”

Algo fez com que Guilherme perdesse sua concentração.

Uma batida de carro. Várias pessoas saíram de suas casas para assistir os dois motoristas discutindo.

– Acabou meu sossego. – Guilherme se levantou do banco e se afastava da confusão, mais e mais pessoas chegavam na rua da praça.

Então voltou para sua casa, antes passou na padaria e comprou os pães que seus pais haviam pedido.

– Vai querer comer, Gui? – Perguntou o pai.

– Não, comi um chocolate.

– Isso não vai te sustentar! – Disse a mãe. Guilherme sacudiu os ombros. – Depois você fica reclamando que está com fome.

– Mãe, daqui a pouco vou pro shopping, eu como lá.

– Mas você vai cedo?

– Sim, vou passar o dia todo com a Mariana no shopping.

– Você e essa garota estão namorando? – Perguntou a mãe, Guilherme nervoso saiu da sala e foi para o quarto, batendo a porta. – E se você tivesse, qual o problema? – Gritou a mãe.

– Mari, daqui a pouco vou shopping. – Guilherme estava no celular com Mariana. – Sim, meus pais me estressaram, então vou cedo mesmo e te espero.

Após se arrumar, Guilherme, ainda nervoso com sua mãe, negou a carona para o shopping e acabou indo de ônibus, assim demoraria um pouco e não chegaria tão cedo.

Chegando, Guilherme foi ao cinema esperar Mariana para decidirem o filme. Depois de algum tempo eis que ela aparece olhando para todos os lados a procura de Guilherme, ao localizá-lo ela abriu um sorriso e os olhos do garoto brilharam.

Se abraçaram tão forte como se não se vissem há semanas.

– Você está linda.

– Obrigada. – Respondeu Mariana sorrindo.

Guilherme percebendo sua espontaneidade logo corou e tentou muda de assunto.

– Ér... qual filme iremos assistir? – Mariana sorriu com o Guilherme encabulado.

– Deixa eu ver. – Mariana olhava para as telas da bilheteria onde passava os filmes e horários disponíveis. – Poxa, aquele ali é estréia e só tem pra tarde.

– Então assistiremos esse de tarde.

– Mas o que faremos enquanto isso?

– Sei lá, vamos andar pelo shopping.

Mariana aceitou e foram para a fila comprar os ingressos.

– Aff.

– Que foi? – Perguntou Mariana.

– Esses casais ficam se beijando na fila.

– E o que tem? – Mariana deu risada.

– É que estou carente. – Disse Guilherme fazendo cara de triste.

– Tadinho. – Os dois riram.

“Próximo”

– Vamos é a nossa vez.

Guilherme não conseguia falar sobre seus sentimentos e sofria por esconder sua paixão de Mariana, achava que perderia sua amizade com ela. Mas o que ele não sabia, é que a garota também tinha os mesmos sentimentos por ele.

Andaram por todo o shopping, almoçaram juntos, deram risada das pessoas. As horas passaram muito rápidas, estavam se divertindo tanto que quase se atrasaram para a sessão, mas antes compraram pipoca e entraram na sala que já estava lotada, sem alternativa, tiveram que sentar nas poltronas próximas as paredes onde ficava difícil ver direito a tela.

Guilherme dividia seu refrigerante com Mariana, na metade do filme, em uma cena engraçada o cinema todo deu risada e os dois não foram exceção, pegaram juntos no copo, os olhares se encontraram e pararam de dar risada, seus lábios se tocaram pela primeira vez.

Era como se houvesse apenas os dois adolescentes em uma sala vazia e silenciosa se beijando. Esqueceram de todo o resto e ficaram lá com as bocas juntas por um bom tempo. Guilherme deu tímido sorriso no final, Mariana olhou fixamente para o filme e sorriu.

Passaram o resto do filme em silêncio, mas não paravam de sorrir. Após acabar o filme, se levantaram, e com iniciativa, Guilherme pegou na mão de Mariana e juntos saíram de mãos dadas.

A garota sempre quando deitava ficava imaginando aquela cena, ela e Guilherme de mãos dadas, se abraçando, se beijando, e agora estava se realizando.

– Acho...acho que precisamos conversar. – Disse Guilherme.

– Também acho. – Mariana sorriu.

**

– Olá, Murilo.

– Charlie, que bom que já chegou. Dona Joana, o Charlie. – Murilo ajudou o velho senhor com as bagagens. – E como foi a viagem?

– Foi ótima. — Dona Joana foi receber o marido. – Joaninha, saudades.

– E esse bom humor, Charlie? – Perguntou a esposa.

– Apenas saudades dessa cidade, da casa, dessa biblioteca.

– E de mim?

– E de você, é claro. Veja, trouxe os livros que pediu. – Charlie colocou a mala maior sobre o balcão e abriu, de lá retirou uma pilha de livros.

Sem perceber, Dona Joana na empolgação acabou deixando cair uma chave, Murilo reconheceu pelo desenho verde nela e acabou pegando e guardando.

– Bom, já volto. – Disse, mas os bibliotecários não o escutaram. Murilo aproveitou a distração dos dois e foi para o quartinho, a biblioteca estava cheia, porém em silêncio.

Chegou na porta e conseguiu abri-la com a chave. O quartinho continha várias prateleiras, mas estavam vazias, Murilo viu apenas dois livros sozinhos, foi até eles e pegou. Examinou o menor, era um fino com capa vermelha, parecia um mini dicionário de runas, não achou nada de útil. O segundo tinha a capa marrom e surrada, era bem antigo, as folhas estavam amareladas e algumas estavam comidas, havia vários símbolos e desenhos de animais. Sentindo um arrepio na nuca, Murilo fechou o livro e colocou de volta na prateleira. Dando mais uma olhada em volta, percebeu símbolos no teto e nas paredes, diversas garrafas de variados tipos e tamanhos, algumas vazias outras não, mas o que chamou a atenção do garoto foi um porta retrato de dona Joana mais nova com uma moça, ele logo reconheceu era Conceição, a antiga empregada da família de Thiago.

A porta as suas costas escancarou e entrou uma furiosa dona Joana.

– Sabia que não tinha deixado a chave na porta. O que você faz aqui?

– Dona Joana, me desculpe, mas desde que comecei a trabalhar sempre tive curiosidade em saber o que havia atrás da porta.

– Agora você já sabe que não tem nada demais. Vamos, saia logo daqui. – Dona Joana falou tentando controlar seu tom de voz.

– Antes, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Qual sua relação com a Conceição?

– Glória? Era minha irmã mais nova. Por quê?

– Bom, ela era uma bruxa.

– Uma curandeira! Como você soube isso?

– Uma longa história. Já que era irmã dela, então a senhora pode fazer esses rituais?

– Qual o seu interesse nisso?

Murilo explicou sobre o Ceifador.

– Entendo. Bom, sente-se. Ceifadores são anjos da morte, eles têm o poder de tirar e dar vida a alguém. No entanto, quando uma vida é ressuscitada, uma outra tem que acabar. Eles são responsáveis por levar as almas para o outro mundo. Não são do céu e muito menos do inferno, e se recusam a dizer a alma o que as espera. Isso é um pouco do que sei sobre eles.

– Li uma vez que eles podem ser controlados, isso é verdade.

– Meus ancestrais vieram de Gilbratar, lá a magia e bruxaria não era tão forte como na América do Norte, usávamos apenas para fins medicinais e ajuda na natureza. – Dona Joana deu uma pausa. – Mas muitos viajavam e descobriam livros sobre rituais poderosos de invocação e controle sobre criaturas, inclusive Ceifadores e até Demônios. Mas entenda Murilo, esses rituais são artes obscuras e inapropriadas, não se deve controlar outros seres em proveito próprio. Quando você tenta forçar seres poderosos e hostis a te obedecer, eles tentam achar alguma falha em seu ritual para se virar contra você.

– A senhora poderia me ajudar a acabar com um Ceifador?

– Teríamos que refazer um contra ritual, Murilo, e não é nada fácil. Ou...

– Ou? – Perguntou Murilo ansioso.

– Teremos que matá-lo.

– Como é? – Murilo se levantou em um salto. – É possível matar um Ceifador? Eles não são anjos?

– Eles não são anjos como os do céu, e sim, é possível matá-los com a Foice da Morte. – Dona Joana respirou fundo. – Há apenas boatos de que a própria Morte, que é o chefe dos Ceifadores, possui uma foice similar a dos seus próprios servos, porém um pouco menor, que é capaz de matá-los.

– Então é só achar essa tal foice!

– Murilo, isso são boatos, lendas. O mais fácil seria, talvez, fazer o ritual.

O garoto se acalmou e sentou.

– E como que funciona esse ritual?

– Vamos invocar o Ceifador e quebrar as correntes que as ligam em você.

– Só que tem um problema, não era apenas eu e Thiago. Thais, Alexandra e Yasmin também participaram.

– Isso vai além do entendimento de adolescentes, vocês não deveriam ter mexido com o que não sabiam.

– Conceição disse a mesma coisa. – Percebendo a tristeza em Dona Joana, Murilo continuou. – Ela tentou invocar o Ceifador em um ritual e não deu certo.

– Ela fez errado! O pacto não era apenas entre duas pessoas, era entre cinco. Irei ajudá-lo Murilo, agora sei o verdadeiro motivo da morte de Alex. Mas primeiro terei que encontrar o livro certo para o ritual. Esse, — pegou o livro marrom da prateleira – é apenas para curas individuais. Terei que mandar Charlie novamente em uma viagem, mas dessa vez será para o Reino Unido para encontrar alguns amigos nosso, mas talvez só daqui a um mês. Pode aguentar até lá?

– Se agüentei até agora, acho que posso suportar mais trinta dias, não sei quanto a Thiago.

– Ótimo. Vamos Murilo, a biblioteca está cheia, receio que o mal-humor de Charlie volte, caso não o ajudemos. – Juntos saíram do quartinho, Dona Joana trancou a porta.

Murilo agora estava mais motivado, estava com esperanças de que poderiam acabar logo com tudo.

**

Quase uma semana de namoro de Guilherme e Mariana.

– Eles são tão bonitinhos juntos né? – Disse uma garota morena do 1º Médio.

– Acho que Guilherme merecia uma menina melhor. – Disse outra menina emburrada do 1º Médio ao ver o casal passar.

– Você só está com inveja. Eles combinam. – Criticou a garota morena.

Era hora do intervalo.

– Espere aqui, Mari, vou no banheiro. – Guilherme deu beijo na namorada.

Um garoto loiro de olhos pretos esperou Guilherme se afastar e se aproximou de Mariana.

– Oi, Mariana, tudo bem?

– Tudo sim e com você, Victor?

– Eu to ótimo. Mas e aí, o namoro de vocês está dando certo?

– Mas é claro. – Mariana estranhou. – Por que a pergunta?

– É que eu não vejo a hora de vocês terminarem para ficar com você. Sabe como é, os namoros de hoje em dia não passam de status, as pessoas namoram apenas por namorar, não rola sentimento. Então pensei...

– Então pensou errado, Victor. Que horror! O Gui e eu nos gostamos muito, levamos o namoro muito a sério. E nunca que eu ficaria com você.

– Nossa, Mariana, assim você quebra meu coração.

– Que peninha.

– Está tudo bem aqui? – Era Guilherme.

– Sim, seu... enfim. – Victor saiu.

– O que ele queria?

– Queria ficar comigo. – Disse Mariana calma.

– O quê? Como ele tem a cara de pau? – Guilherme ficou com suas orelhas vermelhas de tanta raiva.

– Calma, Gui, eu despistei ele. Agora é assim, só porque começamos a namorar todos correm atrás de nós.

– Ainda não acredito nisso, idiota. – Mariana deu um beijo para ver se o namorado se acalmava. – Você é um anjo, sabia?

– Sabia não. – Mariana deu outro beijo em Guilherme. – E você é o meu anjo dos cabelos de fogo. – Ela sorriu.

Notas finais
Será que a amizade entre Guilherme e Murilo ficará abalada, por causa do namoro do ruivo com a Mariana? Eu meio que gosto desse capítulo, não é o meu preferido, mas eu gosto. E o que vocês estão achando?