O Pacto do Sigilo

8 A Canção da Ruina


– Ansioso, Murilo?

– O que você acha, Guilherme? – Murilo andava de um lado para o outro da sala. – Charlie chega amanhã com o tal livro e talvez possamos nos libertar do Ceifador.

– E os objetos?

– Que objetos?

– Os objetos de cada participante.

– Ah. Bom, dona Joana falou que queria a presença de todos, mas como Alexandra morreu e não consigo contato com Thiago, peguei esses. – Murilo mostrou a aliança de namoro de Alexandra e uma camiseta velha. – Essa camiseta ele esqueceu aqui.

– E como vai funcionar? Tipo, vão queimar os objetos?

– Não sei. – Murilo guardou a camiseta e a aliança. – Acho que não, porque Dona Joana não irá queimar três pessoas.

– Vai saber. Mas tudo vai dar certo.

– Assim espero, Guilherme, assim espero.

– Relaxa, Murilo. – Guilherme se divertia com o nervosismo do amigo. – Quando que Thais e essa tal de Yasmin chegam?

– Thais só poderá vir em finais de semana, Yasmin só na outra semana.

A mãe de Murilo chegou em casa.

– Oi, Guilherme. O que você está fazendo aqui, Murilo? Por que não foi trabalhar? – Colocou sua bolsa em cima do sofá.

– Entrarei mais tarde hoje na biblioteca e não irei ao cursinho.

A expressão no rosto da mãe de Murilo se fechou.

– Por que vai faltar?

– Porque sairei quando a biblioteca fechar e vou perder a hora do cursinho.

– Murilo...- Disse a mãe levantando o tom da voz.

– Mãe, vou faltar um dia para ajudar a dona Joana, então me deixa! – Murilo também levantou o tom da voz ainda mais alto que sua mãe.

Guilherme ficou todo sem graça com a discussão entre mãe e filho, e fingiu que estava mexendo no celular.

– Tá bom, mãe. Primeira vez que eu vou faltar e você vai começar a jogar tudo na minha cara. Guilherme desculpa por isso, vamos sair.

– Ér... ok. – Guilherme guardou o celular no bolsa e saiu logo atrás do amigo. – Não tinha necessidade de você ter gritado daquele jeito.

– Eu sei que não, mas minha mãe me irrita demais. Dá vontade de gritar para todo mundo sobre o Pacto e o motivo disso, só pro Ceifador vir me matar. Ninguém se importaria mesmo com isso. – Murilo falava tudo que vinha na cabeça quando ficava nervoso, não conseguia controlar.

– Mano, cala essa boca, nunca mais repita isso!

– Desculpa, você sabe como eu sou...

– Sou seu amigo, acha mesmo que eu não me importaria se você morresse? Por favor né, Murilo, você é importante pra mim, como tem coragem de dizer essas coisas?

Murilo sentou na calçada envergonhado consigo.

– Seus pais te amam, eles só se preocupam com você.

– Eu sei, não devia ter falado aquelas coisas, desculpa.

– É claro. – Guilherme estendeu a mão e levantou o amigo. – Mas da próxima vez que disser isso, eu vou te bater até você entrar em coma.

– Ui, que violento. – Os dois riram.

Foram para a biblioteca um pouco antes, Guilherme queria falar com Dona Joana.

– Chegou mais cedo que o previsto, Murilo.

– Achei melhor vir antes e adiantar o trabalho, se me permitir.

– Hoje não tem o que arrumar nas prateleiras, mas pode ficar aqui na recepção enquanto vou ajudar os leitores. – Dona Joana saiu de trás do balcão e foi até uma mesa onde estavam algumas meninas.

– Vai lá falar com ela, Guilherme.

Guilherme foi atrás de Dona Joana.

– Dona Joana, poderia lhe pedir um favor?

– É claro, qual seria? – O silêncio da biblioteca foi quebrado pelo celular de Guilherme. Todos que estavam lendo pararam para brigar.

– Desculpa. – Disse. Atendeu o celular. – Oi anjo. – Era Mariana. – Estou na biblioteca, depois vou pra sua casa, ok? Beijo. – Colocou o celular no modo silencioso.

Dona Joana estava com uma cara nervosa, odiava que o silêncio de sua biblioteca fosse interrompido.

– Qual o favor, Guilherme?

– Poderia me emprestar aquele seu livro que está no quartinho?

– Para quê?

– Gostaria de lê-lo. Curiosidade.

– Não posso emprestar, mas se você quiser, pode ir lá no quartinho.

– Sério? Obrigado. Então, onde está a chave? – Guilherme estava excitado.

– A minha eu esqueci com o Charlie, mas fiz uma cópia para Murilo, agora que ele já sabe do que se trata o quartinho. Vá lá pedir a ele. – Dona Joana voltou a ajudar os leitores da biblioteca e Guilherme foi atrás da chave com Murilo.

Conseguindo a chave, Guilherme foi até a porta do quartinho e abriu. O quartinho havia sofrido diversas mudanças, mas os dois livros e os símbolos se mantinham.

Guilherme sem demorar pegou o grande livro de capa marrom surrada, percebeu pequenas runas na contracapa, começou a ler o conteúdo do livro. Não entendia nada daquelas palavras em latim, mas compreendia um pouco pelos desenhos. Achou aquilo muito complicado. “Nem sei o porquê do meu interesse nisso”, pensou. Perdendo a paciência, começou a folhear, apenas com interesse nos símbolos.

Passou quase meia hora folheando, dava algumas paradas em algumas páginas, mas logo folheava de novo. Fechou o livro e o colocou de volta na prateleira, começou a andar pelo quartinho olhando os símbolos, garrafas, algumas plantas novas.

Saiu do quartinho.

– Já terminou de ler? Que rápido.

– Não, eu comecei, mas não entendi nada.

Dona Joana riu.

– Se você soubesse alguma coisa de latim, até que entenderia. – Um homem a chamou em uma das mesas. – Deixa eu ir lá ajudá-lo.

Guilherme se despediu de Murilo e foi para sua casa pegar a bicicleta e se encontrar com Mariana.

Tocou a campainha da casa da Mariana.

– Doutor, boa tarde, chama a Mari, por favor.

– Não estamos no consultório Guilherme, não precisa me chamar de ‘doutor’. – O doutor Crove entrou e logo saiu da casa. – Ela já está vindo.

– Obrigado. – Guilherme agradeceu e Mariana logo apareceu na porta.

– Gui, — deu um abraço no namorado – vamos ali pegar a minha bicicleta.

Doutor Crove entrou na casa. Os namorados pegaram a bicicleta e saíram nas ruas, foram andar na pista de ciclismo do parque municipal.

O parque era enorme, com grande diversidade de animais e árvores, possuía um vasto bosque onde era utilizado para os piqueniques, um grande lago com patos e peixes, uma pequena cascata e em alguns pontos com brejos. A pista de ciclismo e a trilha cortavam o bosque, dando para ver alguns animais, como macacos, veados, pica-paus, sabiás.

Mariana era fascinada pelos animais, gostava de parar no meio do percurso só para observar as diversas espécies existentes no local.

– Depois vamos aos brejos ver os sapos.

– Mari, prefiro ir ver os répteis.

– Ok, depois vamos ver os répteis, mas antes vamos continuar na pista.

Continuaram atravessando a pista de ciclismo.

– Então você vai ajudar mesmo o Murilo com o Ceifador?

– Sim, é necessário uma pessoa para usar um dos objetos.

– Esse tal de Thiago, por que ele não vem?

– Murilo não consegue localizá-lo.

– Às vezes eu acho que tem muito coisa envolvida. – Disse Mariana.

Pararam para descansar um pouco e sentaram na grama.

– Primeiro, por que eles tiveram que fazer esse pacto?

– Eu não sei, Mari.

– Esse tal de Ceifador é perigoso, estou com medo...medo por você.

– Não precisa se preocupar. – Guilherme deitou no colo da namorada e ela passou a mão em seus cabelos. – Adoro quando recebo seu carinho. – Mariana sorriu.

– Temos companhia.

Alguns veados apareceram entre as árvores que continha famílias de macacos, os tímidos quadrúpedes se aproximavam lentamente do casal.

– Eles estão hipnotizados pela sua beleza. – Disse Guilherme.

**

O celular de Guilherme tocou.

– E aí, Murilo.

– Cara, Charlie chegou com o livro, nem fui lá ver ainda, mas dona Joana me avisou, ela está preparando tudo, estamos só esperando Thais e Yasmin chegarem semana que vem para quebrarmos de vez o pacto.

– Ainda bem que você estará livre. Aí quem sabe poderá me contar o motivo desse pacto.

Murilo demorou um pouco para responder.

– Claro que contarei.

Após conversarem, desligaram o celular.

Guilherme ficou no computador, mesmo que suas provas tinham acabado, ele entrava pouco devido seus estudos para o vestibular.

– Gui, vem almoçar.

Guilherme foi ajudar sua mãe colocar a mesa e seu pai chegou do mercado.

A comida da mãe de Guilherme, para ele, era a melhor que ele já havia comido. Terminando de comer, ele foi para a casa de Mariana passar o dia com ela, enquanto sua mãe voltou para o seu restaurante.

**

No dia seguinte, na segunda-feira de noite, Guilherme e Mariana foram para a biblioteca. Murilo faltou novamente no cursinho, dessa vez sem a mãe saber.

– Não sabia que você ia trazer a Mariana, Guilherme. – Disse Murilo espantado ao ver a garota.

– Está tudo bem, hoje Dona Joana só mostrará o livro, no dia que formos quebrar o pacto eu não a trarei.

– Chega, chega. Mariana pode ficar sim. Entrem aqui. – Dona Joana levou os adolescentes ao quartinho, Charlie já estava lá e os cumprimentou com a cabeça.

Dona Joana abriu um pacote que estava em uma das mesinhas e de lá retirou um livro de capa amarronzada com um olho dentro de um triângulo.

– Este livro é muito antigo, temos que tomar muito cuidado, porque Charlie conseguiu convencer uns amigos nossos a emprestar.

– E não foi nada fácil. – Charlie, o rabugento.

– Bom, esse livro é dividido em cinco partes, a primeira se trata de demônios que podem trabalhar a nossa favor; a segunda, de espíritos que descobrem segredos de outras pessoas; a terceira fala de espíritos dos homens, sobre os signos zodiacais; a quarta, que nos interessa, é sobre os diferentes tipos anjos, sendo que o Ceifador se encaixa nessa categoria. É isso, agora vocês esperem a presença das duas meninas para eu explicar o que devemos fazer.

– E a quinta parte? – Perguntou Mariana.

– Ela foi perdida há muito tempo, há rumores de uma invocação de demônio que se virou contra o feiticeiro e queimou grande parte do livro. – Dona Joana mostrou a última capa, onde havia vestígios de queimaduras.

– Essa quarta parte, como que funciona? – Perguntou Murilo.

– Ela invoca um anjo e faz com que ele fica sob comando da pessoa que o invocou.

– E como saberemos qual Ceifador que chamar. Tipo, há diversos por aí, como saberemos que aquele que invocarmos é o do pacto do Murilo?

– É aí que entra os participantes do pacto e os objetos. Chega de falar sobre isso, porque depois a Joana vai ter que repetir tudo de novo. – Charlie estava sem paciência alguma com aquela conversa. – Vão embora que já era para eu estar em casa.

– Charlie! – Repreendeu Dona Joana.

– Tudo bem, nós também já deveríamos ter ido embora. – Disse Murilo.

– Vamos então, Gui? – Mariana pegou na mão do namorado, e os três adolescentes se despediram do casal de bibliotecários. – É muita loucura isso, Ceifadores que matam por revelar segredos, eles são criaturas terríveis.

– Sim, mas eles podem dar vida às pessoas.

– Como assim? – Perguntou Guilherme interessado.

– Se uma pessoa estiver à beira da morte, eles são capazes de trocar a vida de uma pessoa de boa saúde por essa que está quase morrendo. – Explicou Murilo.

– Mesmo assim, tirar e dar vida, eles são criaturas das trevas. Não sei como podem ser considerados anjos.

– Na verdade são anjos da Morte, Mariana. – Respondeu Murilo. – Você vai com a Mari pra casa né, Guilherme? Vou pra minha então, tchau. – Os três adolescentes se despediram.

Chegando na casa de Mariana, Guilherme deu um beijo em sua boca.

– Cuidado ao voltar pra casa. – Mariana passou a mão no rosto do namorado.

– Não precisa se preocupar, nos vemos amanhã.

Guilherme voltou para sua casa e tomou seu banho, na hora de ir para quarto sua mãe levantou e foi falar com ele:

– Você demorou hoje.

– Estava com a Mariana e o Murilo.

– Está tudo bem?

– Sim.

– Então vai lá deitar, boa noite.

Guilherme deitou e ficou assistindo televisão, colocou para ela desligar sozinha e dormiu. Mas antes, fechou os olhos e ficou com a imagem de Mariana na cabeça, dormiu sorrindo pensando na namorada.

No outro dia após a escola, Guilherme e Mariana estavam voltando para casa de mãos dadas, os dois não perceberam um motociclista descontrolado que invadiu a calçada e atropelou Mariana, o impacto foi tão forte que Guilherme também foi jogado longe, o motorista caiu sobre a moto que bateu em um poste.

Dois homens vieram ajudar Guilherme a se levantar, o garoto estava meio tonto e só gritava por Mariana. Viu que mais a frente várias pessoas rodeavam um local, conseguindo se equilibrar com a ajuda dos homens, ele foi até lá e viu Mariana desacordada no chão envolta de uma poça de sangue, havia uma fratura exposta em sua perna. Desesperado, Guilherme tentou se aproximar, mas as pessoas ao redor não deixaram, lágrimas rolavam em seu rosto, desesperado pensando que tinha perdido sua namorada.

O resgate chegou e fez todo o procedimento para levar Mariana na maca.

– Deixa eu ir junto. – Gritava Guilherme.

– Quem é você? – Perguntou um enfermeiro.

– Sou o namorado dela.

– Você também sofreu o acidente?

– Sim, mas estou bem. Por favor, ela é minha namorada, deixa eu ir junto. – Guilherme chorava. Seu rosto branco foi ficando rubro.

– Vamos logo, temos que interná-la. Ligue para seus pais e os pais dela.

O homem que estava na rua na hora do acidente subiu na ambulância junto com Guilherme, o garoto segurou a mão de Mariana e falou:

– Vai ficar bem meu anjo, vai dar tudo certo.

– Qual o nome do senhor? – Perguntou o enfermeiro.

– Leandro.

– Ok, Leandro, poderia me dizer o que aconteceu?

– O motociclista estava vindo a milhão e perdeu o controle, subiu na calçada e ocasionou o acidente, depois a moto bateu no poste e o cara fugiu. Parecia embriagado.

– E a história se repete novamente.

Chegaram no hospital, seguidos de Doutor Crove e os pais de Guilherme. Após explicarem sobre o acidente para os pais, Leandro foi embora.

Guilherme estava muito abalado, havia sofrido alguns arranhões e tinha alguns roxos nas costas, mas nada de muito grave. Já Mariana estava com uma fratura exposta em sua perna e tinha sofrido Traumatismo Craniano.

A garota estava internada e em coma. Guilherme ouviu os médicos falando ao doutor Crove que talvez Mariana não sobreviveria, mas que era para esperar.

Em um ato de desespero, Guilherme saiu correndo do hospital e foi para a Biblioteca.

– O que aconteceu? – Perguntou Murilo preocupado.

– Mariana, ela sofreu um acidente. Uma moto a atropelou. – Murilo ficou estupefato – Ela não vai aguentar, Murilo.

– É muito grave? – Perguntou Murilo trazendo um copo de água para o garoto.

– Muito, os médicos disseram que talvez ela não sobreviva. Dona Joana está?

– É horário de almoço agora, não tem ninguém aqui.

– Preciso entrar no quartinho!

– Por quê?

– Não me pergunte, só me dê essa chave. – Guilherme estendeu a mão para receber a chave.

– O que você pretende Guilherme?

– Não quer me dar a chave, tudo bem, mas então vá comigo. Não quero que minha namorada morra e sei muito bem que você também não quer. É, eu sei que você gosta dela.

– Desde quando? – Murilo abaixou cabeça.

– Desde sempre. Eu sou seu melhor amigo, te conheço muito bem. Murilo, — Mais lágrimas rolavam no rosto de Guilherme – por favor.

– Ok, Guilherme vamos. Mas o que você pretende?

– Vamos usar aquele livro para criar alguma substância de cura. – Respondeu com um tom trêmulo na voz.

Foram para o quartinho, Guilherme enganou Murilo e colocou uma cadeira na porta antes que o amigo entrasse, assim Murilo ficou do lado de fora gritando.

Guilherme pegou o livro que Charlie havia trazido, procurou a parte quatro e abriu na página onde havia um desenho de duas pessoas com seus espíritos sendo trocados, com um giz em um dos potes começou a desenhar no chão um círculo dentro de outro com um pentagrama, pegou duas velas e colocou dentro do círculo, abriu sua carteira e retirou uma foto de Mariana e colocou no centro da estrela, como estava representado na página anterior.

– Guilherme, abra essa porta! – Murilo dava fortes socos na porta.

– Desculpa, Murilo, você foi um ótimo amigo. Cuida da Mariana pra mim. – Guilherme, não conseguia segurar suas lágrimas.

Sem saber o que estava fazendo começou a repetir o que estava nas páginas e acendeu as velas com os fósforos.

Após algum tempo uma mulher apareceu em sua frente, era muito bonita, seus cabelos eram curtos e pretos assim como o longo vestido que usava com algumas partes rasgadas, sua expressão era séria e se aproximou de Guilherme que caiu de joelhos no chão, a mulher se abaixou até ficar na mesma altura que o garoto e lhe deu um beijo. Os olhos azuis de Guilherme ficaram brancos, seu pescoço virou molemente e um sorriso débil apareceu em sua face.

Murilo com força conseguiu abrir a porta, fazendo a cadeira se afastar e cair. Entrou em desespero após ver o amigo caído no chão, chegou próximo ao corpo, repousou a cabeça de Guilherme em seu colo e fechou os olhos com íris brancas do amigo, começou a chorar.

– Seu idiota! – Lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Guilherme observava tudo.

– Para onde eu vou? – Perguntou um Guilherme de boa aparência.

– Não posso dizer, mas saiba que sua atitude foi admirável. Você realmente amou a garota. – Respondeu a mulher de vestido.

– E ainda a amo. Então você é mesmo um Ceifador? Pensei que eles eram feios e que só eram homens.

A Ceifadora sorriu.

– Obrigado pelo elogio. Nós Ceifadores podemos alterar nossa aparência, não existe Ceifador homem ou mulher. Guilherme, devemos ir e depois ainda tenho que salvar a garota o mais rápido.

Guilherme assentiu e os dois desapareceram, não antes do garoto dar uma olhada triste no amigo.

No hospital os batimentos de Mariana estavam caindo. A mulher de vestido se materializou ao lado da garota e repousou suas frias mãos sobre sua cabeça, as cicatrizes da cirurgia em sua perna desapareceram, os batimentos voltaram ao normal. Com um suspiro Mariana acordou assustando os médicos.

– Onde estou? – Perguntou assustada.

Uma médica desmaiou.

– Isso é um milagre!! – Disse um médico espantado.

Após todos os exames, foi comprovado que o Traumatismo Craniano de Mariana havia se curado, era como se ela não tivesse sofrido o acidente.

Guilherme, entretanto, foi levado para autópsia, sendo revelado que sua morte tinha sido causa de um Traumatismo. Dona Joana e Charlie tinha chegado um pouco antes da polícia e do resgate, Murilo contou tudo o que aconteceu e limparam a bagunça do quartinho, deixando Guilherme do jeito que havia morrido.

Dona Joana era muito apegada a Guilherme e desabou a chorar.

– É tudo minha culpa, não era para eu ter deixado ele entrar aqui antes. — Charlie tentou consolar a bibliotecária falando que ela não tinha culpa.

No hospital ninguém entendia a repentina cura de Mariana, fizeram mais alguns exames e a liberaram. Murilo, ainda aos soluços, ligou para o doutor Crove explicando o que aconteceu.

– Mariana, senta aí, precisamos conversar.

– O que foi pai? O que Murilo contou que te deixou tão abalado? – Mariana sentou no sofá de frente para o pai.

– Você sabe que ninguém entendeu sua súbita recuperação, mas acho que já sabemos o que aconteceu. Guilherme...

– O que aconteceu com Guilherme, pai?

– O Murilo disse que ele se sacrificou para te salvar.

Mariana balançava a cabeça de um lado para o outro.

– Impossível isso. – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Como?

Doutor Crove explicou para filha o que Murilo havia lhe falado, Mariana não parava de chorar.

– É minha culpa. Ele fez isso para me salvar, é tudo minha culpa. – Se trancou em seu quarto e o Doutor ficou parado sem ação na sala, o choro de sua filha era tão alto que ele quase chorou, porém agüentou firme.

O doutor então saiu para dar força à família de Guilherme, já que o garoto era seu paciente há muito tempo e gostava muito dele. Teve dificuldade em sair, porque os repórteres e fiéis estavam em frente a sua casa para saber mais sobre o suposto milagre de Mariana. Agora o doutor finalmente acreditava na história do Ceifador dos adolescentes.

Guilherme foi cremado, e mais um mistério rondava a cidade, como um garoto saudável tinha sofrido Traumatismo Craniano, sem ao menos ter um hematoma na cabeça? A polícia investigava os bibliotecários e Murilo, e acabaram interditando a biblioteca, mas sem muitas provas acabaram liberando.

**

Sábado de noite, Yasmin chegou no aeroporto da cidade. A garota estava muito mais bonita, parecia mais madura e logo avistou Murilo.

– Que saudades. – Os dois amigos se abraçaram.

– E como está lá nos EUA? – Perguntou Murilo.

– Está muito bem. Olha. – Yasmin levantou a mão mostrando o anel em seu dedo. – Estou namorando com um brasileiro que está fazendo intercâmbio e tenho uma outra novidade. Mas e aí, como que andam as coisas por aqui?

– Estou tentando me acostumar com a perda do meu amigo.

– Ah, Mu, o que aconteceu? – Murilo explicou para Yasmin. – Então de novo magia está envolvida nisso? Vamos logo acabar com isso hoje!

– Sim e depois ficaremos livres. Vamos, Thais já deve estar chegando. – Murilo carregou as bagagens de Yasmin até o Taxi, e juntos foram para a Biblioteca.

Durante o percurso, Yasmin ficou maravilhada com as mudanças que a cidade sofrera, fazia um monte de perguntas a Murilo. Chegando na biblioteca a garota entrou.

– Que saudades desse lugar. Charlie, Dona Joana, há quanto tempo. – A garota sorria ao ver os bibliotecários.

– Olha, então ela veio. – Era Thais, saiu de trás de uma das grandes prateleiras. As duas sorriram. – Que saudade, YaYa. – Thais estava muito diferente, usava uma saia curta seus cabelos estavam vermelhos.

– Bla bla, ok, Joana, explique logo para eles o que acontecerá. – Charlie estava de braços cruzados.

– O velho Charlie e seu bom humor de sempre. – Brincou Yasmin e Charlie a olhou zangado.

– Só há um problema, Guilherme não está mais aqui para nos ajudar, então terei que fazer sua parte também. – Disse Dona Joana.

– Não precisa, eu faço! – Mariana apareceu na porta da Biblioteca. – Era meu namorado, então eu farei a parte dele.

– Mariana, não quero você envolvida nisso. – Disse Murilo.

– Eu já estou envolvida desde quando ganhei minha vida de volta.

– Tem certeza? – Perguntou Dona Joana e Mariana assentiu. – Tudo bem, então. Vamos.

– Mariana...

– Eu já fiz minha escola, Murilo.

Os dois bibliotecários e os quatro adolescentes foram para o quartinho. Dona Joana e Charlie já haviam preparado tudo, no chão havia um circulo inscrito em um grande triângulo com velas amarelas já acesas em suas pontas e um outro círculo com runas próximo ao triângulo.

Murilo, Thais, Yasmin, Mariana com o anel de Alexandra e Charlie com a camiseta de Thiago amarrada no braço foram posicionados dentro do círculo. Dona Joana puxou um suporte para dentro do circulo de runas e colocou o livro aberto em cima dele e depois entrou no circulo.

– Os objetos serão como Alexandra e o menino. A única coisa que peço é que vocês sejam fortes, poderão sentir arrepios e fraqueza, mas só peço que não saiam do círculo e que permaneçam em pé. – Dona Joana enquanto dizia o que tinham que fazer, colocou suas duas mãos sobre o livro. – Então vamos começar.

– Espera! Estou com medo. – Disse Mariana.

– Garota, então pra que inventou de vir? – Perguntou Thais impaciente.

– Não é apenas você. – Yasmin ignorando o comentário da Thais, segurou na mão de Mariana e sorriu confiante para a garota.

Então Thais pegou na outra mão de Yasmin, Murilo segurou a da Thais, e Charlie a de Murilo e Mariana, formando uma corrente humana em circulo.

Charlie olhou para sua esposa e pediu para começar. Dona Joana respirou fundo e começou a ler o livro com calma, e sempre olhando por toda sala.

Não demorou muito para as chamas das três velas diminuírem e mudarem de cor, o azulado se tornou alaranjado. O ar da sala mudou, ficou denso e frio, Thais já não estava suportando, mas Yasmin apertou forte a mão dela e cochichou em seu ouvido.

– Aguenta firme! Estamos quase terminando.

Se estavam terminando ou não, Yasmin não sabia, mas ela queria acreditar nisso, pois também estava com uma certa dificuldade em respirar. Mariana fechou e apertou seus olhos, “Termina logo isso” não parava de repetir em sua mente. Murilo e Charlie se mantinham fortes em seus lugares.

Eis que o Ceifador surge, um homem pálido usando um sobretudo e cabelos branco prateados, com seus braços presos a duas correntes, sem sua Foice-Bengala. Dessa vez a invocadora, Dona Joana, não conseguia vê-lo, mas podia sentir sua presença.

O Ceifador começou a andar, seus passos eram tão suaves quanto sua levitação, logo atrás, acorrentadas, estavam Alexandra e Dona Conceição de cabeças baixas, seus rostos continham um sorriso.

As chamas das velas de laranja ficaram amarelas e um som bonito e sobrenatural invadiu a sala quando o homem abriu os braços e as correntes se desintegraram libertando as almas da adolescente e da empregada.

Alexandra e Dona Conceição passaram do Ceifador, a adolescente parou na frente de Yasmin e Thais olhando suas antigas amigas, olhou para o chão, viu o circulo e não pôde ultrapassá-lo.

– Minhas amigas, veja só como vocês mudaram nesse tempo. – E sorriu. Deu uma passo para o lado e ficou de frente para o Murilo. – Estou livre, Mu. Obrigada por ter conseguido me libertar. Vá e fale dos seus sentimentos para Mariana.

Dona Conceição andou até sua irmã não podendo atravessar o circulo de runas, Dona Joana sentiu sua presença e lágrimas rolaram pelo seu rosto.

– Adeus, Jo.

O Ceifador fez um sinal de que já estavam na hora de ir. Alexandra e Dona Joana se reagruparam com ele e sumiram assim como o belo som.

– Glória! – Gritou o primeiro nome da irmã e em um ato de impulso, Dona Joana saiu de dentro do circulo e caiu de joelhos no chão, lágrimas pingavam no carpete.

Charlie saiu de dentro do outro circulo e foi abraçar sua mulher. Os quatro adolescentes se abraçaram.

– Não consigo nem acreditar nisso. – Disse Murilo soltando Mariana.

– Finalmente terminou. – Disse Yasmin.

– E pensar que eu não acreditava nisso. Acho que te devo desculpas, Murilo. – Thais abraçou o amigo.

– O que era aquele som que ouvimos? – Perguntou Mariana.

– Era a Canção da Ruína. – Respondeu Charlie. – Dizem que essa música é cantada por um pássaro quando almas, após um longo sofrimento, podem finalmente descansar em paz.

– Que pássaro que é? – Perguntou Thais.

– Não se sabe.

Murilo foi até Dona Joana e lhe deu um abraço.

– Obrigado. Não sei nem como posso agradecer por isso. – Olhou para Charlie. – Aos dois.

– Pode começar a limpar essa bagunça. – Respondeu Charlie fechando a cara para o adolescente. – Estou brincando, não precisa agradecer.

– Olha só, quem diria que o bibliotecário mais marrento podia fazer brincadeiras. – Disse Thais demonstrando surpresa e todos riram.

– Vamos ao Le Dioy? – Ofereceu Yasmin.

– Vamos. – Respondeu os outros adolescentes.

– Eu e Charlie não vamos, estamos cansados. E acho que aquele barzinho é para jovens e não para idosos como nós.

– Vocês nem são idosos, Dona Joana. É uma pena que não possam ir com nós. – Disse Yasmin dando um abraço na bibliotecária.

– Com licença. – Disse Mariana, seu celular estava vibrando em seu bolso. – Oi pai. Estou na biblioteca. Desculpa por ter saído sem avisar para onde ia. Não pai, ia no Le Dioy com meus amigos, por favor. Ok, senhor Renato, tchau. – Mariana desligou o celular. – Me desculpem, meu pai quer que eu vá para casa, vou tomar a maior bronca.

– Mari, obrigado por ter vindo nos ajudar. – Disse Murilo pegando na mão de Mariana. “É agora, devo falar”, pensou.

– De nada, Mu, fiz minha obrigação como namorada do Guilherme. Ele faz tanta falta. – Mariana passou a manga da blusa no olho para enxugar as lágrimas.

Murilo então desistiu de falar.

– Foi um prazer te conhecer Yasmin. – Mariana se despediu e voltou para casa.

Os bibliotecários deram carona aos três adolescentes até o barzinho. Thais e Murilo pediram refrigerante e Yasmin pediu um suco, juntos brindaram o fim do Pacto.

– Tenho uma novidade para vocês. – Disse Yasmin ansiosa. – Acho que devemos brindar mais uma coisa.

– O quê? – Perguntou Thais.

– Estou grávida.

A novidade pegou Thais e Murilo de surpresa.

– A santinha então foi a primeira à engravidar. – Disse Thais rindo e levantou o copo. – Um brinde então.

Yasmin e Murilo se entreolharam e deram risada, então levantaram os copos e os tocaram.

Notas finais
Fim da história e morte do meu personagem favorito. O que acharam do final e da história em si? O que devo melhorar? Obrigado a todos que leram.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!