Notas iniciais
Boa leitura *O*

Capítulo 3 — Mentiras Sinceras

DEATH NOTE

MODO DE USAR

O humano que utilizar o Death Note não poderá ir para o Céu nem para o Inferno

Ryuuki sobrevoa o céu indo em direção às nuvens brancas. Enquanto nos afastamos do hospital, penso em tudo o que aconteceu desde a minha morte, eu nem ao menos sei como eu morri... Tudo o que ele já me disse sobre o trabalho de um shinigami, não me lembrar de nada mais além de quem eu sou, o garoto que me atrai tanto e eu acabei de conhecer... tudo isso passa pela minha cabeça com um filme.

– Onde estamos indo Ryuuki?

– Para o mundo shinigami, para onde mais voltaríamos? — o tom irônico em sua voz é quase palpável, mas não volto para aquele lugar nem que me matassem denovo.

– Não quero voltar pra lá Ryuuki, me leve pra qualquer outro lugar, por favor.

– Haha, Raito usando de educação? Isso é novo... — ele parece espantado. Céus, que tipo de pessoa eu fui?

– Me desculpe se algum dia te destratei, mas eu imploro, por favor Ryuuki.

Ele pousa no alto de um prédio e eu desço de suas costas, num primeiro momento penso que ele vai me deixar ali mesmo, mas não.

– Raito, você já tem ciência de que não ė mais um humano? — ele me olha sem nenhuma emoção, as palavras não expressam nenhum tipo de preocupação.

– Sim...

– Mesmo assim você quer permanecer no mundo humano e continuar encontrando aquele garoto?

– Eu não lhe disse isso...

– Você disse pra ele. Olha, assim como quando você estava vivo, eu não sou seu aliado nem seu inimigo, mas vou lhe esclarecer uma coisa: nós somos algo próximo a um deus porque podemos tirar vidas, e de certa forma, brincar com os humanos, mas para nós não existe bem ou mal, ódio ou amor, verdade, mentira, tristeza e principalmente, pra nós não existe final feliz. Nåo existe final. Nåo ė proibido se apaixonar por um humano, já vi muitos shinigamis apaixonados, mas é impossível que o humano corresponda, além de perigoso para nós...

– Porque?

– É perigoso porque...

– Não, porque é impossivel que o humano corresponda?

– Não é óbvio? Você ainda não se transformou completamente, mas logo terá uma aparência bizarra, assim como eu.

Não havia me lembrado desse detalhe. Não me importo de qualquer forma, qualquer segundo com Lawliet me faz profundamente feliz. A voz dele, o sorriso doce, seus olhos... o mínimo choque dos meus lábios nos dele valem a minha existência.

– Eu entendi tudo Ryuuki, e quero ficar aqui. — ele me olha surpreso e solta um riso torto seguido da frase "humanos são tão interessantes" dita mais para si mesmo do que pra mim.

– Se quer tanto assim se matar, então acho que não haverá problema em te levar no último lugar em que você esteve antes de morrer. Suba. — obedeço sem discutir.

– O último lugar que eu...- disse confuso.

Ryuuki não diz mais nada enquanto me leva ao tal lugar, apenas bate suas asas negras e longas mais rápido e olha pra frente encarando o caminho. Eu acabo por me perder em meus pensamentos enquanto não chegamos. Novamente penso nele, o beijo, o abraço, tudo o que tinha acontecido me deixou com uma sensação estranha, não parece um sentimento que não conheço, parece mais que havia algo adormecido em mim e esse encontro me fez lembrar... meus lábios ainda queimam, sinto todo meu corpo quente, especialmente meu rosto. Eu realmente fui inimigo de uma pessoa tão pura e gentil? Eu fui alguém tão ruim em vida? Por que eu me importo? Por que eu o beijei? Perguntas e mais perguntas em minha mente, ciente de que as respostas estão com ele.

– Raito, chegamos...- Ryuuki põe seus pés no chão e recolhe suas asas.

Olho ao redor e vejo um lugar espaçoso e sujo. Parece um grande depósito que não é utilizado há muito tempo.

– Esse é o lugar onde você deu seus últimos suspiros.- Ryuuki fala num tom sarcástico e eu sinto meu estômago revirar.

– Eu morri nesse lugar...?.- Toco em uma das caixas de madeira que está mais a frente e me sento em uma delas olhando novamente o lugar imaginando como aconteceu.

– Sim, aqui descobriram quem...- Ryuuki faz uma careta e coça sua nuca, como se tivesse feito algo errado.

– Quem eu era? Kira.... era assim que me chamavam não era?

– Não posso revelar nada sobre seu passado, nem confirmar se as suas lembranças são reais.

– Certo.

– Você vai vê-lo novamente?.- Ryuuki inclina sua cabeça para o lado.

– Sim, quero saber sobre meu passado e ele pode me ajudar. Acho que ele é a única coisa certa em minha "vida" — posso chamar isso de vida?

– Havia me esquecido de como você mente bem, já disse que para nós não há certo ou errado... Mas sabe, você está mais estranho do que de costume... — Ryuuki se aproxima e inclina sua cabeça para frente, me encarando.

– Seus olhos estão brilhando...- Ryuuki disse com seu dedo indicador em minha direção

– O que...?

– Sua transformação está começando... primeiro os olhos...- Ryuuki se afastou de mim, mas continuou com seu dedo em minha direção.

– Minha transforrmação...? — coloco minha mão esquerda em meu rosto.

– Sim, e logo serão as asas... você tem pouco tempo, Raito — Ryuuki sorriu.

Minha transformação já teve inicio, mas se eu for vê-lo a noite talvez ele não perceba. Preciso ser rápido, tenho certeza de que ele sabe sobre mim, quero saber sobre tudo o que eu fiz em vida, sei que matei pessoas mas, que tipo de pessoas eram? Eu fui algum psicopata viciado em matar? Ou eu fiz tudo aquilo com um propósito? Preciso conversar mais com ele.

– Muito bem, a partir de agora essa será sua nova "casa" até você se resolver com aquele... L.- Ryuuki se virou e começou a andar. Nossa conversa tinha se prolongado por apenas duas horas.

– Ryuuki... me leve até lá... eu dou um jeito de voltar... — já está escuro, ele não vai perceber a cor dos meus olhos.

– Não se preocupe, ninguém além dele vai te ver.

– Como ele pode me ver Ryuuki? — uma das dúvidas que tenho desde o nosso encontro.

– O humano que tocar o Death Note poderá ver o shinigami dono dele. Suba...- Ryuki esticou suas asas. Sua resposta não é conclusiva, mas me leva a crer que ele já tocou o meu caderno... Tenho plena certeza de que isso não aconteceu naquele encontro.

Eu subo em suas costas, novamente e Ryuuki pega impulso para voar, durante a viagem novamente o silêncio prevalece e nenhum dos dois deseja quebrá-lo. Chegamos ao hospital e Ryuuki para embaixo da janela do quarto de Lawliet.

– Parece que seus exames estão normais Lawliet, está respondendo bem ao tratamento.- o médico diz para Lawliet, que está sentado em sua cama com os braços apoiados em seus joelhos.

– Obrigado... — Lawliet agradece com um sorriso.

– Bom, devemos ir e você descanse está bem? — o médico apoia seu braço no ombro dele.

– Sim...- Lawliet se deita na cama, cobrindo-se.

O médico e alguns infermeiros que o ajudavam sairam do quarto, me deixando livre para entrar. As luzes do quarto estão apagadas mas Lawliet não parece ter sono. Ryuuki não entrou mas não tenho certeza se ele foi embora.

– Lawliet...- Eu disse sorrindo.

– Raito... você veio. — ele sorri pra mim, aquele sorriso que gosto tanto. Me aproximo de sua cama e para minha surpresa ele rapidamente me abraça e me beija calmamente.

– Eu disse que ia voltar, eu sempre vou voltar, Lawliet.- Selei nossos lábios novamente sentindo sua lingua adocicada pedir pasagem, eu sem pensar duas vezes concedi. Sentindo seu gosto e temperatura de seu corpo, começo a desejar nunca ir embora, nunca terminar esse beijo. As mãos frias dele tocam minha nuca me fazendo arrepiar, meu corpo está tão quente, seus dedos longos sobem até meus cabelos puxando levemente, um carinho que logo reconheço.

Ah, que tipo de história tivemos? Que tipo de pessoas nós somos? Estar nos braços dele me faz querer muito mais de seus carinhos, seu gosto e toque frio. Estou disposto a correr qualquer risco para estar com ele, meu coração e alma impuros já pertencem à ele e eu não farei nada para mudar isso.

De repente, tenho uma visão de algo que parece uma lembrança.

"Tenho Lawliet em meus braços com olhos arregalados em minha direção, me sinto perdendo algo extremamente precioso para mim e ao mesmo tempo, vitorioso. Os olhos dele perdem o brilho aos poucos e lentamente se fecham. Sem respiração. Sem batimentos cardíacos."

– O que foi Raito, não está gostando? — ele percebe minha hesitação. A verdade é que me lembrar dói... fisicamente.

– Não é isso... minha cabeça começou a doer, mas não se preocupe, passa logo.

– Tudo bem. Então, conseguiu escapar de seu quarto hoje denovo? — ele volta àsua posição costumeira, pernas dobradas e mãos no joelho. Olhar os movimentos dele quase me fazem lembrar da mentira que contei.

– Oh, sim. Queria te ver, afinal. Ouvi que você está progredindo no seu tratamento. — mudo de assunto.

– Sim, já consigo me lembrar de muitas coisas, algumas lembranças estão misturadas, eu fico confuso às vezes, mas os médicos dizem que logo tudo vai se encaixar.

– Que bom, e você se lembra do que?

– Bem, eu sei que nunca tive uma família comum e me lembro de ter crescido num orfanato. Muitas crianças, doces e charadas para resolver... foi um lugar especial pra mim. — nada disso parece relevante, mas continuo tentando.

– Nenhuma lembrança mais recente?

– Na verdade, me lembro de alguém... de sentir um toque e temperatura, ouvir uma voz... mas não sei quem é. — ele desvia os olhos dos meus e esfrega os dedos de um jeito nada harmonioso. Está mentindo.

– Alguma namorada, talvez?

– É, talvez... mas agora eu tenho você, não é, Raito-kun?

– Claro, L. — desde que nos encontramos nesse hospital, nunca o chamei assim, mas não parece a primeira vez que faço isso. No entanto, L parece espantado. — Me desculpe, eu não lhe chamo assim se você não quiser.

– Não, eu gosto, é só algo tão íntimo... quer dizer, sinto como se fosse, sabe... tenho a sensação de me lembrar mas não tenho certeza... — ele quebra o contato visual e esfrega os dedos denovo. O que está me escondendo?

– E do que se lembra?

– Ah, nada de mais... mas e você, também não se lembra do seu passado não é? — está se esquivando...

– É, mas eu realmnte não lembro nada além de quem sou. — também menti, talvez ele se espante em saber que sou um shinigami e que sei que tivemos algum relacionamento e que eu o vi morrer. Espera, eu o vi morrer...

– Certo, espero que se lembre logo, sua família pode estar procurando por você.

– É... tenho que ir, tem alguns remédios que eu tomo de madrugada e daqui a pouco alguém vai levar até meu quarto. — beijo L em despedida e me direciono à janela.

– Você vai pela janela?

– É, tenho medo de ser pego no corredor. Meu quarto é ao lado do seu.

– Tome cuidado e volte logo.

O que ele está escondendo de mim? Quem é ele e porque me lembro da morte dele? O que ele não quer me dizer, será que está brincando comigo de alguma forma? Pode ser que suas lembranças sejam embaraçosas e por isso não me contou. Não vou tirar conclusões precipitadas.

Olho para baixo e Ryuuki está lá me esperando.

– Obrigado por ter me esperado.

– Não tinha nada para fazer, achei que seria interessante ver esse Raito tão bom e educado descobrir sobre o antigo Raito.

– Porque éramos rivais Ryuuki?

– Não posso te revelar nada, já disse. Mas digamos que vocês eram como um anjo e um demônio. São semelhantes, compartilham do mesmo desejo, mas estão em lados opostos.

Ryuuki me deixou naquele lugar onde estivemos mais cedo. Minha cabeça ferve de tal maneira, parece que meu passado e meu encontro com L são bombas prontas para explodir. Só consigo pensar nele, seu beijo e suas mentiras. Meu amante e meu rival. Mal posso esperar para descobrir mais sobre nós.

Notas finais
Chegou até aqui? Obrigada! ^O^