O PESO DE UMA PROMESSA

5 CAPÍTULO - 5 Heranças


— Dois milhões e quatrocentos.

Jacob Black sequer piscou.

Paul Lahote, sentado à sua direita, virou lentamente o rosto.

— Você perdeu a cabeça.

— Provavelmente — Salomon Grey murmurou do outro lado.

Jacob continuou olhando para a tela.

A fotografia ocupava quase todo o monitor.

Vermelha.

Baixa.

Elegante.

Uma Ferrari 250 GTO.

Paul inclinou-se para a frente.

— É um carro.

Jacob finalmente olhou para ele.

— Retire-se.

— Da reunião?

— Da minha vida.

Salomon começou a rir.

Paul apontou para a tela.

— Continua sendo um carro.

— Ferrari 250 GTO.

— Ferrari 250 GTO — Paul repetiu. — Continua tendo quatro rodas.

Jacob fechou os olhos por um instante.

— Por que ele está nesta reunião?

Salomon deu de ombros.

— Porque você o contratou.

— Foi um erro.

— Tecnicamente — Paul corrigiu — você me contratou porque sou muito bom.

— Tecnicamente, contratei porque éramos amigos e tive um momento de fraqueza.

— Melhores amigos.

— Não exagere.

Paul sorriu.

Salomon puxou a pasta que estava diante dele.

— Podemos voltar ao assunto?

Jacob imediatamente ficou sério.

— Lote vinte e sete.

— Exato.

Salomon abriu os documentos.

— Ferrari 250 GTO. Produção entre 1962 e 1964. O veículo passou por restauração parcial, mas conserva componentes originais importantes. Toda a documentação de procedência foi verificada.

Jacob assentiu.

— Quero esse carro.

Paul olhou para Salomon.

— Ele disse isso como uma criança de cinco anos.

— Seth tem mais autocontrole — Salomon respondeu.

Jacob ignorou os dois.

— Qual é o teto?

Salomon informou o valor.

Paul assobiou.

— Por isso nunca serei rico.

Jacob olhou para ele.

— Você ganha muito dinheiro.

— E não gasto milhões em carros velhos.

— Clássicos.

— Velhos.

— Clássicos.

— Se precisa empurrar para pegar, é velho.

— Esse carro não precisa ser empurrado.

— Ainda.

Salomon começou a rir.

Jacob fechou a pasta.

— Vamos arrematar.

— Existe outro interessado forte — Salomon avisou.

— Quem?

— Não sabemos.

— Descubra.

— Jacob, é um leilão. Pessoas podem ter dinheiro sem mandar currículo para você antes.

Paul sorriu.

— Isso deve ser muito difícil para ele.

Jacob levantou-se.

— Terminamos.

Paul olhou para Salomon.

— Isso significa que ele percebeu que estamos certos.

— Significa que ele vai nos expulsar.

— Os dois.

Paul levantou as mãos.

— Viu?

O evento aconteceu dois dias depois.

O salão estava cheio.

Colecionadores.

Empresários.

Representantes de museus.

Investidores.

Pessoas capazes de reconhecer um carro apenas pelo desenho de um farol.

Jacob pertencia àquele mundo.

Desde criança.

A Black Automotivos fazia parte de sua história muito antes de ele entender o significado de uma ação empresarial.

Salomon caminhava ao lado dele.

Paul vinha atrás.

— Tem comida? — Paul perguntou.

Jacob não respondeu.

— Pergunta séria.

— Você veio para comer? — Salomon perguntou.

— Passei três horas ouvindo vocês falarem sobre chassis.

— Vá embora.

— Rachel me pediu para impedir que o irmão dela compre metade do leilão.

Jacob parou.

— Ela fez o quê?

Paul sorriu.

— Nada.

— Paul.

— Olha, o carro.

Funcionou.

Jacob imediatamente voltou sua atenção para o salão.

A Ferrari estava exposta alguns metros adiante.

Vermelha.

Impecável.

Por alguns segundos, até Paul ficou em silêncio.

— Certo — admitiu. — É bonita.

Jacob aproximou-se.

Observou cada linha do veículo.

— Bonita?

Salomon sorriu.

— Para Paul isso é praticamente uma declaração de amor.

Jacob continuou analisando o carro.

Então uma voz surgiu atrás deles.

— Sempre quis tudo que estava fora do seu alcance.

Jacob ficou imóvel.

Salomon perdeu imediatamente o sorriso.

Paul virou-se.

Edward Cullen estava alguns passos atrás.

Terno cinza.

Cabelos acobreados cuidadosamente arrumados.

Um sorriso discreto que não chegava aos olhos.

Ao seu lado estava Irina.

Loira.

Elegante.

Fria.

Salomon endureceu.

— Irina.

Ela olhou para o irmão.

— Salomon.

Nenhum abraço.

Nenhum sorriso.

Nada.

Edward voltou a atenção para Jacob.

— Belo carro.

Jacob respondeu:

— É.

— Pretende disputar?

— Não é da sua conta.

Edward sorriu.

— Então sim.

Paul aproximou-se discretamente de Jacob.

Salomon olhou para a irmã.

— Não sabia que vocês colecionavam carros.

— Há muitas coisas sobre minha vida que você não sabe.

— Por escolha sua.

Irina riu sem humor.

— Minha?

Salomon respirou fundo.

— Não vamos fazer isso aqui.

— Claro. — Ela olhou ao redor. — Temos uma imagem a preservar.

Jacob finalmente encarou Irina.

— Você não tem nenhuma imagem ligada à Black para preservar.

Os olhos dela se estreitaram.

Edward tocou delicadamente sua cintura.

— Vamos, querida.

Irina permaneceu olhando para Jacob.

— Ainda acredita que tudo pertence a você.

— Não.

Jacob apontou discretamente para Salomon.

— Parte pertence a ele.

Salomon quase sorriu.

Irina percebeu.

— Muito engraçado.

Jacob virou-se novamente para o carro.

— Não era piada.

Edward permaneceu alguns segundos observando-o.

— Boa sorte no leilão.

Jacob não respondeu.

O casal se afastou.

Paul esperou até estarem longe.

— Eles vão disputar o carro.

— Eu sei — Jacob respondeu.

Salomon olhava para a irmã se afastando.

— Ela não quer o carro.

Jacob virou-se.

— Edward quer.

— Também não.

— Então o que querem?

Salomon olhou para ele.

— Que você não tenha.

O leilão começou quarenta minutos depois.

Quando o lote vinte e sete apareceu, Jacob endireitou-se na cadeira.

Paul percebeu.

— Lá vamos nós.

O primeiro lance surgiu.

Depois outro.

Jacob ergueu discretamente a placa.

O valor subiu.

Outro comprador entrou.

Jacob aumentou.

Mais um lance.

Então, do outro lado do salão, Edward Cullen ergueu a placa.

Jacob viu.

Edward sorriu.

— Filho da...

— Jacob — Salomon advertiu.

O valor aumentou novamente.

Jacob cobriu.

Edward também.

Paul olhava de um para o outro como se acompanhasse uma partida de tênis.

— Isso deixou de ser sobre o carro há uns cinco minutos.

Salomon respondeu baixo:

— Nunca foi.

Edward aumentou.

Jacob levantou a placa.

O leiloeiro anunciou o novo valor.

Alguns participantes desistiram.

Agora eram praticamente os dois.

Edward.

Jacob.

Edward.

Jacob.

Paul inclinou-se.

— Qual era o teto?

Jacob ergueu a placa novamente.

— Passou.

— Imaginei.

— Jacob — Salomon murmurou.

Edward fez novo lance.

Jacob ficou imóvel.

Paul olhou para ele.

— Finalmente recuperou o juízo?

Jacob analisou Edward.

Depois o carro.

Depois Edward novamente.

Sorriu.

Baixou a placa.

— O quê? — Paul perguntou.

O leiloeiro anunciou o lance de Edward.

Uma vez.

Duas.

Três.

Martelo.

Vendido.

Edward Cullen havia comprado a Ferrari 250 GTO.

Paul ficou boquiaberto.

— Você desistiu?

Jacob levantou-se.

— Sim.

— Por quê?

— Porque ele acabou de pagar muito mais do que o carro vale apenas para impedir que eu o comprasse.

Salomon começou a sorrir.

Paul olhou para Edward.

Depois para Jacob.

— Você fez ele subir de propósito?

Jacob ajeitou o paletó.

— Nos últimos quatro lances.

Paul começou a rir.

— Às vezes lembro por que gosto de você.

— Controle-se.

O encontro na saída foi inevitável.

Edward e Irina estavam próximos ao carro quando Jacob, Paul e Salomon passaram.

— Black.

Jacob parou.

Edward segurava os documentos da aquisição.

— Mudou de ideia?

— Sobre?

— O carro.

Jacob olhou para a Ferrari.

— Não.

— Achei que estivesse interessado.

— Estava.

— Então por que desistiu?

Jacob sorriu discretamente.

— Porque percebi o quanto você queria me vencer.

O sorriso de Edward desapareceu.

— Aproveite o carro.

Paul precisou olhar para o lado.

Irina deu um passo à frente.

— Você continua arrogante como seu pai.

Jacob voltou o rosto para ela.

— Cuidado.

Salomon interferiu.

— Irina, chega.

Ela olhou para o irmão.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Escolhe os Black.

Salomon ficou imóvel.

— Não existe “escolher os Black”. Eles são minha família.

— E eu?

— Você também era.

A frase atingiu.

Irina ficou pálida.

Edward colocou a mão nas costas dela.

— Não fale assim com minha esposa.

Salomon olhou para ele.

— Você é a última pessoa que deveria falar sobre família.

Jacob deu um passo à frente.

— Vamos embora.

Edward riu.

— Sempre protegendo todo mundo, Black?

Jacob virou-se.

— Sempre que precisam ser protegidos de você.

O ar mudou.

Paul deixou de sorrir.

Edward se aproximou.

— Cuidado com as acusações.

— Não foi acusação.

Jacob sustentou seu olhar.

— Foi lembrança.

Irina interveio:

— Isso aconteceu há anos.

— Roubo não deixa de ser roubo porque envelheceu — Jacob respondeu.

Edward endureceu.

— Nunca provaram nada.

— Provamos o suficiente para demiti-lo.

— Vocês precisavam de um culpado.

Salomon soltou uma risada amarga.

— Edward, eu estava lá.

Silêncio.

— Eu vi os relatórios.

Irina virou-se para o irmão.

— E mesmo assim você ficou do lado deles.

— Eu fiquei do lado da verdade.

— Nosso pai me deserdou!

Algumas pessoas próximas começaram a olhar.

Salomon baixou a voz.

— Nosso pai tomou aquela decisão.

— Por causa dele.

Ela apontou para Jacob.

— Não coloque isso nas minhas costas — Jacob respondeu.

— Você convenceu seu pai.

— Seu pai decidiu junto com o meu.

Irina riu.

— Claro.

Paul observava em silêncio.

Jacob continuou:

— A Black Automotivos não nasceu apenas da família Black. Seu pai e o meu construíram aquela empresa juntos. Salomon respeitou isso.

Olhou para Edward.

— Você não.

Edward aproximou-se mais.

— Eu trabalhei naquela empresa antes de você saber dirigir.

— E roubou dela antes de eu assumir a presidência.

— Jacob — Salomon advertiu.

Mas Edward já havia perdido parte da máscara.

— Tome cuidado.

— Com você?

Jacob quase sorriu.

— Sempre.

Irina segurou o braço do marido.

— Vamos.

Edward continuou olhando para Jacob.

— Um dia você vai descobrir que não controla tudo.

— Talvez.

Jacob olhou para os documentos em sua mão.

— Mas hoje controlei quanto você pagou naquele carro.

Paul não conseguiu segurar a gargalhada.

Edward ficou vermelho.

Irina puxou o marido.

— Edward.

Eles se afastaram.

Paul esperou alguns segundos.

— Isso foi cruel.

Jacob continuou andando.

— Obrigado.

Salomon permaneceu parado.

Jacob percebeu.

— Salomon.

Ele olhava para a irmã.

— Ela ainda me culpa.

Jacob aproximou-se.

— Você não a deserdou.

— Eu poderia ter tentado impedir.

— Seu pai descobriu que o homem com quem ela escolheu se casar desviava dinheiro da empresa que ele levou a vida inteira para construir.

Salomon passou a mão pelo rosto.

— Ela é minha irmã.

— Eu sei.

— Às vezes não parece.

Jacob ficou em silêncio.

Porque entendia.

Rebecca.

Rachel.

Ele podia brigar com as duas durante horas.

Mas se alguém as ameaçasse...

Paul colocou a mão no ombro de Salomon.

— Vamos.

Salomon assentiu.

— Rebecca está me esperando.

Paul sorriu.

— E se você se atrasar, sua esposa é mais assustadora que Jacob.

— Isso é verdade.

Jacob olhou para ele.

— Eu continuo aqui.

— Sei.

O celular de Jacob vibrou pouco depois.

REBECCA

Ele atendeu.

— O quê?

— É assim que você atende sua irmã?

— Sim.

— Que adorável.

— Estou saindo do leilão.

— Comprou o carro?

Jacob olhou para Paul.

Paul começou a rir.

— Não.

Silêncio.

— Você está doente?

— Edward comprou.

Outro silêncio.

— Edward Cullen?

— Sim.

— Ah.

Rebecca entendeu imediatamente.

— Quanto você fez ele pagar?

Jacob sorriu.

— Muito.

— Estou orgulhosa.

Salomon balançou a cabeça.

— Vocês são péssimas pessoas.

Rebecca ouviu.

— Meu marido está aí?

Jacob entregou o telefone.

Salomon colocou no ouvido.

— Oi, amor.

— Você está atrasado.

Ele olhou para o relógio.

— Nosso jantar é às oito.

— E você precisa voltar para se arrumar.

— Tenho roupa em casa.

— Não aquela gravata.

— O que tem minha gravata?

— Tudo.

Paul começou a rir.

— Eu estou ouvindo você, Lahote! — Rebecca gritou pelo telefone.

— Eu não disse nada!

— Mas riu!

Jacob pegou o telefone de volta.

— Por que ligou?

— Seth quer dormir na sua casa.

Jacob olhou para o teto.

— Hoje?

— Hoje.

— Rebecca...

— Ele está insistindo desde que conheceu sua cozinheira.

Jacob franziu a testa.

— Elena?

— Então você sabe o nome dela.

— Ela trabalha para mim.

— Isso nunca significou que você soubesse o nome de alguém.

Paul soltou um som.

Jacob ignorou.

— Por que ele quer ir?

— Porque quer ver Elena.

— Ela vai embora antes das três.

— Então ele quer ir antes das três.

— Rebecca...

— Jake.

Ele conhecia aquele tom.

— Você já decidiu.

— Sim.

— Então por que está perguntando?

— Educação.

Jacob fechou os olhos.

A família inteira tinha desenvolvido aquela resposta irritante.

— Certo.

— Obrigada!

— Mas ele não pode ficar sozinho.

— Embry leva.

— E depois?

— Você chega cedo.

— Tenho trabalho.

— Você é dono da empresa.

— Exatamente por isso tenho trabalho.

— Jake.

— Rebecca.

— Eu e Salomon vamos jantar.

Jacob olhou para o cunhado.

Salomon sorriu inocentemente.

— Romântico — Rebecca acrescentou.

— Não precisava dessa informação.

— E talvez depois...

— Pare.

Paul estava quase chorando de rir.

— Seth pode dormir aí?

Jacob suspirou.

— Pode.

— Sabia que você diria sim.

— Então não precisava ligar.

— Precisava avisar.

Jacob ficou em silêncio.

Rebecca riu.

— Você sempre diz sim para ele.

— Não sempre.

— Sempre.

— Isso não é verdade.

— Semana passada você comprou uma pista de carrinhos que ocupa metade do quarto dele.

— Ele queria.

— Exatamente.

Jacob desligou.

Paul estava sorrindo.

— Nem uma regra.

— O quê?

— Com todo mundo você tem regras.

Paul apontou para o telefone.

— Com aquele menino, nenhuma.

Jacob guardou o celular.

— Cuide da sua vida.

Seth chegou à casa do tio pouco depois das duas.

Elena estava terminando a limpeza quando ouviu a porta.

Dessa vez não gritou.

— Elena!

Ela sorriu antes mesmo de vê-lo.

Seth surgiu correndo.

— Ei!

Ele abraçou suas pernas.

— Você voltou!

Elena olhou para Embry.

— Eu trabalho aqui.

Seth ergueu o rosto.

— Eu sei.

— Então naturalmente voltei.

— Fiz um desenho para você.

Tirou um papel amassado da mochila.

Elena recebeu.

Havia quatro figuras.

Uma pequena.

Uma muito alta.

Uma de cabelos compridos.

E algo que parecia um cachorro.

— Quem é quem?

Seth apontou.

— Eu.

A pequena.

— Tio Jake.

A muito alta.

— Você.

Elena sorriu.

— E isso?

— Um dinossauro.

Ela olhou para Embry.

— Naturalmente.

Embry deu de ombros.

— Eu vi imediatamente.

— Mentiroso.

Seth segurou a mão dela.

— Vamos brincar.

— Eu estou trabalhando.

O sorriso dele desapareceu.

— Ah.

Elena olhou para o relógio.

14h12.

Depois para a cozinha já organizada.

— Tenho alguns minutos.

Seth abriu um sorriso enorme.

— Jardim!

— Jardim?

Ele já a puxava.

— Seth!

O que deveria durar dez minutos virou vinte.

Depois trinta.

Elena descobriu que Seth havia inventado um jogo cujas regras mudavam conforme ele começava a perder.

— Isso é trapaça!

— Não é!

— Você acabou de dizer que eu não posso pisar na grama.

— Porque agora tem lava!

— Há cinco segundos não tinha!

— Vulcão!

Elena colocou as mãos na cintura.

— Muito conveniente.

Seth gargalhou.

— Você perdeu!

— Eu não perdi.

— Perdeu!

— Quero revisão do juiz.

— Eu sou o juiz!

— Então esse jogo é completamente corrupto.

Seth ria.

Elena correu atrás dele.

— Venha aqui!

— Não!

Ele desviou.

Elena quase o pegou.

Seth gritou de alegria.

— Socorro!

— Ninguém vai salvar você!

— TIO JAKE!

Elena riu.

— Seu tio nem está aqui!

— Está sim.

Ela não ouviu.

Jacob estava parado próximo à porta de vidro.

Chegara às três e sete.

Encontrara o carro de Embry.

Esperava encontrar Seth assistindo televisão.

Talvez destruindo sua sala.

Não aquilo.

Elena estava no jardim.

Os cabelos que normalmente mantinha presos enquanto trabalhava haviam se soltado parcialmente.

Ela estava descalça.

Os sapatos abandonados perto da porta.

Seth corria ao redor dela.

— Você trapaceou! — Elena gritou.

— Não!

— Trapaceou!

— Prova!

— Eu sou adulta. Não preciso provar!

— Isso não vale!

Elena conseguiu alcançá-lo.

Segurou o menino pela cintura.

Seth gritou.

— NÃO!

Ela o ergueu.

— Peguei!

— Me solta!

— Nunca!

Seth gargalhava.

Uma gargalhada alta.

Livre.

Elena começou a fazer cócegas nele.

— Elena!

— Pede desculpa!

— Não!

— Então vai sofrer as consequências!

— TIO JAKE!

Jacob permaneceu onde estava.

Não anunciou sua presença.

Não sabia exatamente por quê.

Apenas observou.

Elena colocou Seth no chão.

O menino imediatamente se agarrou às pernas dela.

Ela quase caiu.

— Isso é golpe baixo!

— Ganhei!

— Você tem cinco anos!

— Cinco e meio!

— Ah, desculpe. Isso muda tudo.

Seth gargalhou novamente.

Jacob conhecia aquela gargalhada.

Era a mesma que ouvia quando deixava o sobrinho sentar em seus ombros.

Quando o levava para ver os carros.

Quando fazia exatamente aquilo que Rebecca dizia para não fazer.

Mas havia algo diferente.

Seth conhecia Elena havia poucos dias.

E confiava nela.

Completamente.

Jacob cruzou os braços.

Observou a mulher que ameaçara chamar a polícia para prendê-lo dentro da própria casa.

A mulher que colocava bilhetes insolentes na geladeira.

A mulher que aparentemente discutia com o retrato de seu pai.

A mulher que insistia em colocar passas onde passas não pertenciam.

Ela estava rindo.

Jacob percebeu que nunca a tinha visto rir daquele jeito.

Na verdade, mal a conhecia.

Sabia que tinha vinte e quatro anos.

Formada em Gastronomia.

Sabia que precisava daquele emprego.

Sabia que trabalhava rápido.

Sabia que sua comida era extraordinária, embora jamais fosse dizer isso a ela.

E sabia que Seth gostava dela.

Muito.

Elena caiu na grama.

— Desisto!

Seth pulou sobre ela.

— Ganhei!

— Trapaceando!

— Ganhei!

— Ditador!

— O que é ditador?

Elena pensou.

— Pergunta para seu tio.

Jacob arqueou uma sobrancelha.

Embry, que estava sentado em uma cadeira do jardim, finalmente percebeu a presença dele.

Sorriu.

Jacob colocou um dedo diante dos lábios.

Embry entendeu.

Não disse nada.

Elena continuou:

— Aposto que ele sabe.

Seth sentou-se ao lado dela.

— Meu tio sabe tudo.

Elena olhou para o menino.

— Tudo?

— Tudo.

— Duvido.

— Sabe sim.

— Ele não sabe que passas combinam com arroz.

Jacob fechou os olhos.

Embry começou a rir silenciosamente.

Seth fez uma careta.

— Eu também não gosto.

Elena ficou chocada.

— Você também?

— É ruim.

— Meu Deus. É genético.

Seth riu.

Jacob balançou a cabeça.

Então Elena deitou-se na grama.

— Estou cansada.

Seth deitou ao lado dela.

— Você corre devagar.

— Eu estava deixando você ganhar.

— Mentira.

— Não fale assim com os mais velhos.

— Você é velha?

Elena virou o rosto.

— Tenho vinte e quatro anos.

Seth arregalou os olhos.

— Minha mãe tem trinta.

— Obrigada pela informação.

— Ela é mais velha que você.

— Matemática impecável.

Seth ficou alguns segundos olhando para o céu.

— Você tem filhos?

Elena virou o rosto.

— Não.

— Por quê?

Ela riu.

— Porque não.

— Você é casada?

— Não.

— Namorado?

Elena franziu a testa.

— Você tem cinco anos ou trabalha para uma revista de fofoca?

Seth não entendeu.

— Não.

— Então pare de investigar minha vida amorosa.

— O tio Jake também não tem namorada.

Embry cobriu a boca.

Jacob ficou imóvel.

Elena riu.

— Que informação absolutamente desnecessária.

— Minha mãe diz que ele precisa de uma.

Jacob deu um passo à frente.

Chega.

— Sua mãe fala demais.

Seth sentou-se imediatamente.

— TIO JAKE!

Elena congelou.

Devagar, virou a cabeça.

Jacob estava a poucos metros.

Terno escuro.

Gravata ligeiramente afrouxada.

Mãos nos bolsos.

Observando os dois.

Elena levantou-se tão depressa que quase tropeçou.

— Senhor Black!

Jacob olhou para os pés dela.

Descalços.

Depois para os sapatos abandonados.

Depois para o relógio.

— São três e dezessete.

Elena empalideceu.

— Meu Deus.

Correu para os sapatos.

— Eu perdi a hora de novo.

Jacob quase sorriu.

— Percebi.

— Seth queria brincar e eu...

— Eu obriguei! — Seth anunciou.

Jacob olhou para o sobrinho.

— Imagino.

Elena calçou rapidamente os sapatos.

— Desculpe. Eu vou embora agora.

Seth correu até Jacob.

— Ela pode ficar?

— Seth...

— Só um pouco.

Jacob olhou para Elena.

Ela ajeitava os cabelos, claramente constrangida.

— Ela tem horário.

— Mas você manda nela.

Elena arregalou os olhos.

Embry começou a rir.

Jacob olhou para o menino.

— Não funciona exatamente assim.

— Funciona sim.

— Não.

— Você é o chefe.

— Seth.

— Então manda ela ficar.

Elena ficou vermelha.

Jacob olhou para ela.

Por um segundo, seus olhos se encontraram.

Então Jacob desviou.

— Sua mãe vai trazer suas coisas mais tarde.

Seth esqueceu imediatamente o assunto.

— Vou dormir aqui!

— Eu sei.

— Podemos ver o carro?

— Depois.

— Agora?

— Depois.

— Cinco minutos?

— Seth.

— Dois?

Jacob suspirou.

— Depois do jantar.

Seth abriu um sorriso.

— Tá bom!

Elena observou.

Algo lhe pareceu estranho.

O homem que controlava até o horário em que ela podia permanecer dentro da casa acabara de perder uma negociação para uma criança de cinco anos em aproximadamente vinte segundos.

Jacob percebeu que ela o observava.

— O quê?

— Nada.

— Está olhando.

— Só estou tentando entender.

— O quê?

Elena apontou discretamente para Seth.

— Você sabe dizer não para ele?

Jacob ficou sério.

— Claro.

Seth apareceu entre os dois.

— Tio Jake, posso dormir na sua cama?

— Pode.

Elena apertou os lábios.

Jacob percebeu.

— Não diga nada.

Ela tentou.

Realmente tentou.

— Impressionante.

Embry gargalhou.

Jacob lançou-lhe um olhar.

— Você pode ir embora.

— Com prazer.

Elena pegou a bolsa.

Seth correu até ela.

— Você volta amanhã?

Ela sorriu.

— Volto.

— Promete?

Elena se abaixou.

— Prometo.

Ele abraçou seu pescoço.

Jacob observou.

Outra vez aquela facilidade.

A confiança.

Elena fechou os olhos por um segundo enquanto abraçava o menino.

Depois se levantou.

— Tchau, Seth.

— Tchau!

Ela olhou para Jacob.

— Senhor Black.

— Elena.

Começou a caminhar.

Jacob chamou:

— Elena.

Ela virou-se.

— Sim?

— Amanhã.

— O quê?

— Sem passas.

Ela cruzou os braços.

— Eu já tirei as passas do cardápio.

— Ótimo.

— Mas continuo achando que você está errado.

— Não está sendo paga para estar certa.

Elena abriu a boca.

Fechou.

Sorriu.

— Boa noite, senhor Black.

— Boa noite.

Ela saiu.

Jacob permaneceu olhando alguns segundos para a porta.

— Ela é bonita.

Jacob virou-se.

Seth estava ao lado dele.

— O quê?

— Elena.

— Vá lavar as mãos.

— Você acha ela bonita?

— Seth.

— Minha mãe disse que...

— Lavar. As. Mãos.

Seth saiu correndo.

Embry passou por Jacob.

— Sua mãe fala demais.

— Nem comece.

Embry sorriu.

— Não falei nada.

— Está pensando.

— Isso agora é proibido?

— Na minha casa, pode ser.

Embry riu e seguiu para a porta.

Jacob ficou sozinho.

Olhou através do vidro.

No gramado ainda havia pequenas marcas onde Seth e Elena haviam corrido.

Durante anos, Jacob acreditara que gostava daquela casa exatamente como era.

Silenciosa.

Organizada.

Previsível.

Naquela tarde, pela primeira vez, percebeu como ela parecia diferente quando havia risadas dentro dela.

E não soube dizer se gostava daquela descoberta.