O PESO DE UMA PROMESSA

27 CAPÍTULO 27 - ANTES QUE A CASA FICASSE SILENCIOSA



Naquela manhã, o maior problema de Jacob Black era um dinossauro dentro da geladeira.

Ele ficou parado diante da porta aberta durante alguns segundos, ainda descalço, vestindo uma calça de moletom escura e uma camiseta cinza, tentando compreender por que havia um tiranossauro de plástico espremido entre a manteiga e a jarra de suco de laranja.

Jacob retirou o brinquedo com dois dedos.

Olhou para ele.

Depois para o corredor.

— Seth.

Nenhuma resposta.

— Seth!

Do andar de cima veio uma voz sonolenta:

— O quê?

— Por que tem um dinossauro na geladeira?

Houve silêncio.

Jacob esperou.

Alguns segundos depois, passos pequenos desceram a escada. Seth apareceu no corredor usando um pijama azul, os cabelos completamente bagunçados e apenas uma meia. Parou na entrada da cozinha, olhou para Jacob, depois para o dinossauro em sua mão e novamente para Jacob.

— Ele estava com calor.

Jacob fechou os olhos por um instante.

— Ele é de plástico.

Seth franziu a testa.

— E daí?

— E daí que ele não sente calor.

— Dinossauros sentiam.

— Os de verdade.

— Esse é de verdade.

Jacob olhou para o brinquedo.

— Seth, eu consigo ver a marca da fábrica na barriga dele.

O menino cruzou os braços.

— Isso não prova nada.

Uma risada surgiu atrás de Jacob.

Ele virou o rosto.

Elena estava encostada no batente da cozinha, usando apenas uma camiseta dele que terminava quase no meio das coxas. Os longos cabelos negros estavam soltos, ainda ligeiramente desarrumados pelo sono, e havia um sorriso enorme em seu rosto.

Jacob apontou para ela.

— Não começa.

— Eu não disse nada.

— Está pensando.

— Você agora lê pensamentos?

— Os seus, sim.

Elena caminhou até a cafeteira.

— Impressionante. O que estou pensando?

Jacob apontou para Seth.

— Que ele tem razão.

Ela tentou permanecer séria.

Não conseguiu.

— Talvez o dinossauro estivesse com calor.

Jacob olhou de um para o outro.

— Eu moro com duas pessoas completamente desequilibradas.

Seth pegou o brinquedo da mão dele.

— Três.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

— Você mora aqui também.

Elena dobrou-se sobre a bancada de tanto rir.

Jacob permaneceu olhando para o menino.

— Eu vou devolver você para sua tia.

Seth abraçou o dinossauro.

— Não pode.

— Por quê?

— A juíza falou que eu moro aqui.

Elena perdeu completamente a compostura.

Jacob apontou para Seth.

— Não use decisões judiciais contra mim antes das sete da manhã.

Seth olhou para o relógio digital do forno.

— São sete e doze.

Jacob acompanhou o olhar.

Depois voltou a encará-lo.

— Isso está ficando pior.

Elena aproximou-se e passou os braços pela cintura dele.

— Admita. Você adora esta casa.

— Neste momento?

— Neste momento.

Jacob olhou para ela.

A irritação desapareceu.

— Um pouco.

Elena ficou na ponta dos pés e beijou sua boca.

Seth imediatamente fez uma careta.

— De novo?

Os dois olharam para ele.

— O quê? — Elena perguntou.

— Vocês fazem isso toda hora.

Jacob franziu a testa.

— Não fazemos.

Seth começou a contar nos dedos.

— Ontem fizeram na cozinha.

Elena arregalou os olhos.

— Você não estava dormindo?

— Eu fui beber água.

Jacob começou a sorrir.

— E anteontem fizeram perto da escada.

— Seth — Elena advertiu.

— E no sofá.

— Seth!

— E perto da piscina.

Elena cobriu o rosto.

Jacob já estava rindo.

— Tem mais, campeão?

Seth pensou seriamente.

— Acho que acabou.

— JACOB!

Ele ergueu as mãos.

— Eu só perguntei.

Elena afastou-se.

— Ótimo. Faça seu próprio café.

Jacob segurou sua cintura antes que ela escapasse.

— Onde vai?

— Preparar café para mim.

— E para mim?

— Peça ao dinossauro.

Seth levantou o brinquedo.

— Ele não sabe fazer café.

Jacob suspirou.

— Finalmente alguém racional nesta casa.

Elena empurrou o ombro dele.

— Solta.

— Não.

— Jacob.

— Gosto daqui.

A mão dele permaneceu em sua cintura.

Elena tentou conter o sorriso.

— Seth está olhando.

Jacob beijou rapidamente sua testa.

— Assim pode?

Do outro lado da cozinha, Seth respondeu:

— Pode.

Elena arregalou os olhos.

— Ninguém perguntou para você!

— Mas vocês estavam falando de mim.

Jacob riu.

E foi assim que começou mais um dia perfeitamente comum na casa dos Black.


Era aquilo que Jacob ainda estava aprendendo a reconhecer como felicidade.

Não grandes acontecimentos.

Não viagens.

Não festas.

Não vitórias judiciais.

A felicidade parecia muito mais com uma caixa de cereal vazia deixada dentro do armário porque Seth alegava que “ainda tinha farelo”.

Parecia com Elena procurando o próprio celular enquanto falava nele.

Parecia com Jacob encontrando três copos diferentes no quarto porque a esposa tinha o hábito de pegar água e esquecer que já havia pegado.

Parecia com Seth entrando no escritório exatamente durante a reunião mais importante da semana para perguntar:

— Tio Jacob, se um tubarão lutar com um crocodilo, quem ganha?

Jacob estava diante do computador com seis executivos conectados por videoconferência.

Fechou os olhos.

— Seth.

— É importante.

Uma das pessoas na tela começou a rir.

Jacob tentou ignorar.

— Estou trabalhando.

— Eu sei.

— Então?

— Por isso vim perguntar rápido.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Depende.

Seth arregalou os olhos.

— Do quê?

— De onde eles estão lutando.

— Na água.

— Tubarão.

— E na terra?

— Crocodilo.

Seth pensou.

— E numa piscina?

Jacob ficou em silêncio.

Do computador, Emmett falou:

— Eu voto no crocodilo.

Jacob virou lentamente para a tela.

— Emmett.

— O quê? É uma pergunta legítima.

Outro executivo abafou uma risada.

Seth aproximou-se.

— Obrigado, Emmett.

— Sempre às ordens.

Jacob apontou para a porta.

— Fora.

Seth saiu.

Antes de fechar, colocou apenas a cabeça novamente para dentro.

— Tio Jacob?

— O quê?

— Amo você.

A expressão dele mudou.

— Também amo você, campeão.

Seth sorriu.

— E acho que o crocodilo ganha.

A porta fechou.

Jacob ficou olhando.

Emmett apareceu sorrindo na tela.

— Você perdeu completamente o controle da sua vida.

Jacob ajeitou os papéis.

— Podemos continuar?

— Isso foi um sim.

— Emmett.

— Continuando.


Naquela noite, Elena encontrou Jacob sentado no chão do quarto diante de três camisas sociais manchadas de tinta.

Ela parou na porta.

— O que está fazendo?

— Tentando entender.

— Entender o quê?

Jacob levantou uma camisa branca com uma enorme mancha azul no centro.

— Isso.

Elena mordeu o lábio.

— Ah.

Jacob ergueu os olhos.

— “Ah”?

— Eu ia contar.

— Quando?

— Eventualmente.

Ele levantou outra.

Verde.

Depois outra.

Vermelha.

— Três.

— Eu sei.

— Por quê?

Elena entrou no quarto.

— Trabalho da escola.

— Minha camisa estava fazendo o quê num trabalho da escola?

Ela sentou-se ao lado dele.

— Seth precisava representar um empresário.

Jacob permaneceu imóvel.

— E?

— Segundo ele, empresários usam camisa social.

— Ele conhece apenas um empresário?

— Aparentemente.

Jacob olhou para a camisa.

— O que ele fez?

— Pintura com as mãos.

Jacob encarou Elena.

— Usando minha roupa?

Ela tentou não rir.

— Era arte.

— Elena.

— Expressão criativa.

— Elena.

— Desenvolvimento pedagógico.

Jacob começou a rir.

Ela também.

— Eu passei quarenta minutos tentando tirar a tinta — ela reclamou.

Jacob examinou a camisa azul.

— Então agora tenho uma peça exclusiva.

— Não começa.

— Feita por um artista.

— Jacob.

— Talvez aumente de valor.

— Jacob Black.

Ele olhou para ela.

Elena tentou manter a expressão séria.

Falhou.

— Você é impossível.

— Você casou comigo.

— Circunstâncias atenuantes.

— Depois continuou comigo.

Ela aproximou-se.

— Erro de avaliação.

Jacob sorriu.

— Grave?

— Gravíssimo.

— Tem tratamento?

Elena segurou o rosto dele.

— Ainda estou estudando.

Jacob a beijou.

O beijo começou leve.

Depois demorou.

As mãos dele foram para a cintura dela.

Elena aproximou o corpo.

Então:

— TIO JACOB!

Os dois pararam.

Jacob manteve a testa encostada na dela.

— Não.

Elena começou a rir.

— Vai.

— Não ouvi.

— TIO JACOB!

Ele fechou os olhos.

— Impressionante.

— O quê?

— A precisão.

Elena riu.

— Vai ver o que ele quer.

— Por que eu?

— Hoje ele é seu.

Jacob levantou a cabeça.

— Como assim?

— Hoje é seu.

— Quando decidimos isso?

— Quando ele destruiu suas camisas.

— Amanhã volta a ser nosso?

— Dependendo do comportamento.

Do corredor:

— EU ESTOU COM SEDE!

Jacob levantou.

— Ele sabe onde fica a cozinha.

— Tem cinco anos.

— Cinco e meio.

Elena empurrou suas costas.

— Vai.

Jacob chegou à porta.

Ela gritou:

— E NÃO DÊ CHOCOLATE!

Ele virou.

— Eu jamais faria isso.

Elena cruzou os braços.

— Conheço seu esconderijo.

Jacob congelou.

— Que esconderijo?

Ela sorriu.

— Boa noite, marido.

Ele estreitou os olhos.

— Precisamos conversar sobre limites.

— Depois que trocar o chocolate de lugar?

Jacob saiu do quarto murmurando:

— Eu não tenho mais privacidade nesta casa.

Elena respondeu:

— CASOU!

Ele ouviu a risada dela.

E sorriu sozinho no corredor.


Enquanto Jacob Black descobria que casamento significava perder o direito a esconder chocolate dentro da própria casa, Irina Cullen descobria que dormir ao lado do próprio marido podia exigir mais coragem do que qualquer tribunal.

Ela não conseguira esquecer a conversa que ouvira.

Edward.

Marcus.

Os carros.

Não ouvira tudo.

Mas ouvira o suficiente para compreender que havia alguma coisa monstruosa por trás das mortes de Salomon e Rebecca e do acidente de Elena.

Só que ouvir escondida não era prova.

Edward negaria.

Marcus desapareceria.

E, se Irina o confrontasse sem nada concreto, perderia sua única vantagem.

Ele não sabia que ela sabia.

Precisava continuar assim.

Durante três dias, fingiu normalidade.

Tomou café diante dele.

Perguntou sobre trabalho.

Comentou sobre assuntos insignificantes.

Dormiu ao lado dele.

Na primeira noite, Edward virou-se durante o sono e colocou o braço sobre sua cintura.

Irina ficou completamente imóvel.

Aquele homem estivera no funeral de Salomon.

Aquele homem abraçara Seth.

Aquele homem dissera ao menino que sentia muito.

E agora ela suspeitava que fora responsável por tudo.

Precisava saber.

Precisava provar.

Foi quando comprou a câmera.

Pequena.

Discreta.

Com áudio.

Instalou no escritório numa tarde em que Edward estava fora.

Testou.

Funcionava.

Mas havia um problema evidente.

Ela não captaria ligações telefônicas de outra pessoa.

Precisava que Edward falasse dentro daquele escritório.

Ou, melhor ainda, que Marcus aparecesse.

Irina esperou.

Um dia.

Dois.

Três.

No quarto, quase começou a acreditar que não conseguiria nada.

Até a quarta noite.

Pouco depois das nove, a campainha tocou.

Edward desceu.

Irina permaneceu no andar superior.

Minutos depois, recebeu o alerta de movimento.

Abriu o aplicativo.

E sentiu o sangue desaparecer do rosto.

Marcus Doyle estava dentro do escritório.


— Você ficou maluco vindo aqui?

Marcus fechou a porta.

— Você parou de atender.

— Porque não temos mais nada para conversar.

— Temos bastante.

Edward aproximou-se.

— A polícia está procurando você.

— Eu sei.

— Então aparecer na minha casa é a coisa mais estúpida que poderia fazer.

— Eu quero dinheiro.

Edward riu.

— Você já recebeu.

— Não o suficiente.

— Esse não era o acordo.

Marcus apontou para ele.

— O acordo também não dizia que eu ficaria sozinho quando começassem a ligar os dois carros.

Irina aumentou o volume.

Edward ficou imóvel.

— Baixa a voz.

— Por quê? Sua mulher está em casa?

— Está.

Marcus soltou uma risada.

— Isso é engraçado.

— O quê?

— Ela sabe que você mandou matar o próprio irmão?

Irina parou de respirar.

Edward avançou.

— Cala a boca.

— Salomon Grey. Rebecca Black Grey.

Marcus contou nos dedos.

— Depois Elena Swan.

Edward segurou a camisa dele.

— Eu mandei você ficar longe daqui.

Marcus afastou a mão.

— E eu fiz exatamente o que você mandou desde o começo.

Silêncio.

— Inclusive nos carros.

Edward olhou para ele.

Marcus continuou:

— O primeiro saiu exatamente como você queria.

Irina apertou o telefone.

— Seth não estava no carro — Edward respondeu.

— Porque você verificou.

— Claro que verifiquei.

— E mesmo assim mandou sabotar.

Edward soltou uma risada sem humor.

— Rebecca e Salomon precisavam sair do caminho.

Irina levou a mão à boca.

As lágrimas começaram imediatamente.

Agora estava gravado.

Não era uma lembrança.

Não era interpretação.

Era Edward.

Sua voz.

Seu rosto.

Marcus diante dele.

— Seth ficaria com Irina — Edward continuou. — Uma criança com quarenta por cento da empresa sob o nosso teto. Jacob perderia a irmã, o cunhado e, se tudo funcionasse, influência sobre Seth.

Marcus o encarou.

— Então foi dinheiro.

— Dinheiro. Poder.

Edward deu de ombros.

— E Jacob.

— Sempre Jacob.

O rosto de Edward endureceu.

— Eu queria ver ele perder alguma coisa.

Irina sentiu o estômago embrulhar.

Marcus respirou fundo.

— E Elena?

Edward ficou em silêncio.

— Elena era diferente.

— Por quê?

— Porque eu sabia que ele ia perdoar.

Marcus franziu a testa.

— Eles tinham terminado.

— Não importa.

Edward virou-se.

— Eu conheço Jacob. Ele estava furioso. Ferido. Se sentindo traído. Mas ainda amava aquela mulher.

Irina fechou os olhos.

— Ele acabaria cedendo — Edward continuou. — Podia levar semanas. Meses. Mas voltaria para ela.

— Então você mandou matar Elena porque Jacob Black estava apaixonado?

Edward virou.

— Você não entende.

— Então explica.

Silêncio.

Edward finalmente falou:

— Ele já tinha tudo.

A voz saiu baixa.

— Tudo.

— Isso não é explicação.

— Dinheiro. Empresa. Família. Pessoas que fariam qualquer coisa por ele.

Edward apertou a mandíbula.

— E então apareceu Elena.

Marcus observou.

— Ela olhava para ele como...

Edward parou.

Marcus percebeu.

— Como Irina olha para ele?

Edward avançou.

— Cuidado.

Marcus sorriu.

— Então era isso.

— Não.

— Ciúme.

— Ódio.

Edward corrigiu imediatamente.

— Eu queria que ele soubesse como era perder aquilo que mais amava.

Irina chorava em silêncio.

Marcus permaneceu olhando.

— Bella não estava prevista.

Edward desviou os olhos.

— Não.

— Morreu mesmo assim.

— Eu sei.

— Ela tinha dezoito anos.

Edward fechou os olhos.

Por apenas um instante.

— Elena era o alvo.

Irina interrompeu a gravação.

Já tinha tudo.


Na manhã seguinte, Jacob recebeu uma mensagem.

Precisamos conversar. Sozinhos.

Irina.

Mostrou a Elena.

Ela leu.

— Vai.

— Tem certeza?

— Tenho.

Jacob continuou olhando para ela.

Elena tocou sua mão.

— Eu confio em você.

A simplicidade atingiu alguma coisa nele.

Jacob beijou sua testa.

— Eu volto logo.

— Eu sei.


Irina escolheu um lugar discreto e público.

Quando Jacob chegou, percebeu imediatamente que havia algo errado.

— Irina?

— Senta.

— O que aconteceu?

— Senta, Jacob.

Ele obedeceu.

Irina colocou o dispositivo diante dele.

— Antes de qualquer coisa, promete que vai ouvir até o fim.

Jacob olhou para o objeto.

— O que é isso?

— Prova.

— De quê?

Os olhos dela se encheram.

— De tudo.

Jacob ficou imóvel.

Irina respirou fundo.

— Edward mandou sabotar o carro de Rebecca e Salomon.

O mundo pareceu parar.

— O quê?

— Eu ouvi uma conversa primeiro. Depois coloquei uma câmera no escritório.

Jacob não piscava.

— Marcus apareceu ontem.

Irina empurrou o dispositivo.

— Eu gravei.

Jacob ouviu.

Rebecca.

Salomon.

Seth.

Quarenta por cento.

Elena.

Bella.

Quando terminou, estava completamente pálido.

— Rebecca...

Irina assentiu.

— Salomon também.

Jacob levantou tão depressa que a cadeira quase caiu.

— Onde Edward está?

Irina levantou-se.

— Não.

— Onde ele está?

— Jacob.

— ELE TENTOU MATAR MINHA ESPOSA!

— E matou meu irmão!

O silêncio caiu.

Os dois respiravam com dificuldade.

Irina aproximou-se.

— Por isso você não vai até ele.

— Eu vou matar esse homem.

— E então Seth perde você também.

Jacob parou.

Irina apontou para a gravação.

— É isso que Edward quer. Destruir você. Não entrega para ele a última coisa que ainda pode tirar.

Jacob fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, havia lágrimas.

— Tem cópias?

— Três.

Ele assentiu.

— Vamos à polícia.

— Vamos.

Irina respirou fundo.

— Mas antes eu preciso dizer uma coisa.

Jacob esperou.

— Eu passei anos tentando esquecer você.

— Irina...

— Não fala nada. Só deixa eu terminar.

Ele ficou quieto.

— Eu amei Edward.

Jacob não esperava.

— Muito.

As lágrimas caíram.

— Quando casei com ele, eu queria aquele casamento. Queria aquela vida. Queria aquele homem.

Jacob acreditou.

— Eu não usei Edward para chegar até você. Não casei para provocar você. Eu realmente amei meu marido.

Ela engoliu em seco.

— Só que nunca consegui arrancar completamente você de dentro de mim.

Jacob abaixou os olhos.

— Eu tentei.

Irina sorriu tristemente.

— Deus sabe que tentei.

Silêncio.

— E daria tudo para estar no lugar da Elena.

Jacob ergueu os olhos.

— Irina...

— Eu sei.

Ela levantou uma mão.

— Não estou pedindo nada.

As lágrimas continuavam.

— Porque eu sei que você ama ela.

Jacob respondeu sem hesitar:

— Amo.

A palavra doeu.

Irina permitiu.

— Eu sei.

Ela sorriu.

— E ela ama você.

Jacob respirou fundo.

— Sim.

— Então cuida dela.

Ele quase sorriu.

— Elena odeia quando alguém diz que precisa cuidar dela.

Irina riu entre lágrimas.

— Claro que odeia.

— Mas vou estar com ela.

Irina assentiu.

— Isso é diferente.

— É.

Ela permaneceu olhando para ele por alguns segundos.

— Adeus, Jacob.

— Não precisa ser adeus.

Irina sorriu.

— Talvez precise.

Então foi embora.


Irina sabia que deveria procurar a polícia.

Sabia que deveria telefonar para Leah.

Sabia que não deveria voltar para casa.

Mesmo assim, voltou.

Talvez porque precisasse olhar para Edward uma última vez.

Talvez porque ainda existisse dentro dela a mulher que um dia o amara e que precisava compreender como aquele homem havia se transformado em alguém capaz de matar seu próprio irmão.

Edward estava no escritório.

Ergueu os olhos quando ela entrou.

— Onde você estava?

Irina fechou a porta.

— Com Jacob.

Edward levantou lentamente.

— O quê?

— Fui encontrar Jacob.

O rosto dele endureceu.

— Por quê?

— Porque ele precisava saber.

Edward ficou imóvel.

— Saber o quê?

Irina quase riu.

— Para.

— Irina...

— Eu sei.

Silêncio.

— Sabe o quê?

— Tudo.

Edward perdeu a cor.

— Salomon.

Ele não respondeu.

— Rebecca.

Silêncio.

— Elena.

O maxilar dele se contraiu.

— Bella.

— Irina...

— Não fala meu nome.

— Me escuta.

— Eu ouvi você.

Edward ficou imóvel.

— Ouvi você e Marcus.

Ela deu mais um passo.

— E gravei.

Os olhos dele se arregalaram.

— Você fez o quê?

— Coloquei uma câmera aqui.

Edward olhou ao redor.

— Você me gravou dentro da minha própria casa?

Irina soltou uma risada incrédula.

— Essa é a parte que incomoda você?

— Onde está a gravação?

— Longe.

— Onde?

— Com Jacob.

Edward ficou completamente imóvel.

— Você deu para ele.

— Dei.

— Você deu para Jacob.

— Eu entreguei a ele a prova de que você assassinou meu irmão!

Edward avançou.

— Eu não—

— NÃO!

Ele parou.

— Não se atreve.

Irina chorava.

— Não se atreve a dizer que não matou Salomon porque não estava com as próprias mãos naquele carro.

— Eu fiz aquilo por—

— Por nós?

Edward ficou em silêncio.

Irina olhou para ele horrorizada.

— Vai dizer isso?

— Seth ficaria conosco.

Ela recuou.

— Você matou os pais de Seth para que ele viesse morar conosco.

— Irina...

— Meu Deus.

Levou a mão à boca.

— Eu dormi ao lado de você.

— Me escuta.

— Eu chorei meu irmão nos seus braços!

Aquilo o atingiu.

Edward desviou os olhos.

— Você me abraçou.

A voz dela quebrou.

— Você me consolou.

— Eu...

— Você viu Seth chorando pelos pais e sabia exatamente por que eles nunca voltariam!

Edward apertou os olhos.

— Para.

— Não.

— Irina.

— NÃO!

Ela apontou para ele.

— Você vai me ouvir.

Edward ficou imóvel.

Irina respirou fundo.

— Eu amei você.

A raiva dele vacilou.

— O quê?

— Eu amei você, Edward.

Ela chorou.

— Muito.

Ele não respondeu.

— Talvez mais do que você jamais tenha acreditado.

Edward piscou.

— Quando casei com você, eu queria aquela vida. Queria você. Queria acordar ao seu lado. Queria envelhecer com você.

A expressão dele mudou.

— Irina...

— Eu amei o homem que pensei que você fosse.

Edward deu um passo.

Ela recuou.

— Não.

Ele parou.

— E hoje eu me arrependo.

A frase o atingiu.

— Não diz isso.

— Me arrependo de ter confiado em você.

— Irina.

— Me arrependo de ter defendido você.

— Para.

— Me arrependo de ter construído minha vida ao lado de um homem que era capaz de olhar para uma criança órfã sabendo que tinha matado os pais dela.

Edward balançou a cabeça.

— Para.

Irina chorava.

— Porque você é um monstro.

Silêncio.

Edward empalideceu.

— Não.

— É.

— Não fala isso.

— Você matou meu irmão.

— Eu amo você.

A frase escapou.

Irina ficou imóvel.

Edward também.

Por alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu falar.

— Eu amo você — ele repetiu.

Irina chorou.

— Talvez.

— Não talvez.

Edward aproximou-se.

— Eu amo você.

— Então deveria ter pensado nisso antes de destruir tudo.

— Eu fiz tudo porque...

Ele parou.

— Porque Jacob tinha tudo.

Irina soltou uma risada triste.

— Não.

Edward franziu a testa.

— Você nunca entendeu.

— O quê?

— Jacob não tinha tudo.

Ela enxugou as lágrimas.

— Ele perdeu pessoas. Sofreu. Errou. Machucou Elena. Quase perdeu Seth. Quase perdeu a própria família.

Edward ficou em silêncio.

— A diferença é que Jacob não transformou a dor dele numa desculpa para destruir o mundo.

— Sempre ele.

— Porque é você que transforma tudo numa competição com Jacob!

Edward bateu a mão na mesa.

— VOCÊ AINDA AMA ELE!

Irina não recuou.

— Sim.

O silêncio explodiu.

Edward parecia ter levado um golpe.

Irina chorava.

— Sim. Eu ainda amo Jacob.

Ele apertou os punhos.

— Mas eu também amei você.

Edward ergueu os olhos.

— Isso é o que você nunca entendeu.

A voz dela ficou baixa.

— Eu escolhi você.

Ele não se mexeu.

— Eu casei com você.

As lágrimas continuavam.

— Construí minha vida com você.

Ela tocou o próprio peito.

— Eu podia carregar uma parte da minha história com Jacob e ainda amar meu marido.

Edward fechou os olhos.

— Mas você transformou uma lembrança numa guerra.

— Não.

— Transformou.

Ela respirou fundo.

— E sabe qual é a pior parte?

Edward abriu os olhos.

— Você venceu.

Ele franziu a testa.

— Eu estava com você.

Irina chorou.

— Você tinha meu amor.

A respiração dele falhou.

— Eu escolhi você, Edward.

Ele parecia incapaz de responder.

— E você passou anos me punindo porque decidiu que isso nunca seria suficiente.

— Irina...

— Hoje eu olho para você e não reconheço o homem que amei.

Ela virou-se.

Edward segurou seu braço.

— Não vai embora.

Irina olhou para a mão dele.

— Solta.

— Não.

— Edward.

— Você entregou a gravação para Jacob.

— Sim.

— Onde estão as outras cópias?

— Não interessa.

Ele apertou.

— Onde?

— Está me machucando.

Edward soltou imediatamente.

Os dois olharam para a mão dele.

— Desculpa.

Irina permaneceu imóvel.

— Eu não queria...

Ela riu sem humor.

— É isso que você vai dizer sobre todos eles?

Edward ergueu os olhos.

— Rebecca?

Ele empalideceu.

— Salomon?

— Para.

— Bella?

— Para.

— Elena?

— IRINA!

— Quantas vezes você vai dizer que não queria?

Edward avançou.

Ela recuou.

— Eu preciso saber onde estão as cópias.

— Não.

— Você não entende o que vai acontecer comigo.

Irina o encarou.

— Entendo.

— Eu vou perder tudo.

Ela ficou em silêncio por um segundo.

— Você já perdeu.

Edward parou.

— Eu.

Irina tocou o próprio peito.

— Você me perdeu.

A expressão dele se desfez.

— Não.

— Sim.

— Não.

— Eu vou embora.

Ela virou-se.

Edward a alcançou.

— Não vai.

— Solta.

— Não pode sair daqui.

— Edward.

Ela tentou se libertar.

Ele segurou com mais força.

— Me solta!

— Onde estão as cópias?

— LONGE DE VOCÊ!

Irina conseguiu empurrá-lo.

Edward cambaleou.

Ela correu para a porta.

Ele a alcançou novamente.

Agarrou-a.

Irina lutou.

— ME SOLTA!

— IRINA!

— VOCÊ É UM MONSTRO!

Alguma coisa nele rompeu.

Foi um segundo.

Talvez menos.

Um movimento impensado.

Raiva.

Medo.

Desespero.

Edward a puxou quando Irina tentava escapar.

Ela perdeu o equilíbrio.

Houve um impacto.

Depois silêncio.

Edward permaneceu imóvel.

Respirando pesadamente.

A raiva continuou por um segundo.

Dois.

Então desapareceu.

— Irina?

Nenhuma resposta.

Ele deu um passo.

— Irina.

Aproximou-se.

— Ei.

Ajoelhou-se.

Tocou seu rosto.

— Irina.

Nada.

O medo chegou de uma vez.

— Não.

Edward tocou seu pescoço.

— Não.

A voz falhou.

— Não, não, não...

Puxou-a para os braços.

— Irina.

Nenhuma resposta.

— Amor.

A palavra escapou.

— Amor, olha para mim.

Nada.

Edward começou a tremer.

— Eu não quis.

Apertou-a contra o peito.

— Eu não quis fazer isso.

As lágrimas vieram.

— Irina...

Beijou sua testa.

— Por favor.

Nada.

— Eu amo você.

Silêncio.

— Eu amo você.

Repetiu como se pudesse desfazer os últimos minutos.

Como se pudesse voltar anos.

Ao primeiro beijo.

Ao casamento.

À primeira manhã em que acordara ao lado dela e acreditara que finalmente tinha alguma coisa que pertencia somente aos dois.

— Eu amo você.

Irina continuava imóvel.

Edward chorou.

De verdade.

Porque, naquele momento, Jacob não importava.

A Black Automotivos não importava.

Os quarenta por cento não importavam.

A gravação não importava.

Marcus não importava.

A prisão nem sequer importava.

Só Irina.

A mulher em seus braços.

A mulher que acabara de dizer que o amara.

Muito.

A mulher que escolhera construir uma vida com ele.

A mulher que ele passara anos acreditando que nunca tinha sido realmente sua.

E que acabara de revelar a verdade mais cruel de todas.

Ela tinha sido.

Irina o escolhera.

Irina o amara.

Edward tivera exatamente aquilo que passara anos invejando em Jacob.

E fora ele mesmo quem destruíra.

— Me desculpa.

Nenhuma resposta.

— Por favor.

Edward encostou a testa na dela.

— Eu sinto muito.

Tarde.

Tarde demais para Salomon.

Tarde demais para Rebecca.

Tarde demais para Bella.

Quase fora tarde demais para Elena.

E agora era tarde demais para Irina.

Edward apertou o corpo dela contra o peito.

Pela primeira vez desde que iniciara sua vingança contra Jacob Black, não existia satisfação.

Não existia vitória.

Não existia plano.

Existia apenas remorso.

E talvez esse fosse seu castigo mais cruel.

Finalmente compreender o que tinha.

Somente depois de destruí-lo.


Na casa dos Black, ninguém sabia.

Jacob estava sentado à mesa da cozinha com Elena ao lado e Leah diante deles.

O computador permanecia aberto.

A gravação havia terminado alguns minutos antes, mas ninguém parecia capaz de romper o silêncio.

Jacob ainda ouvia a voz de Edward.

Rebecca e Salomon precisavam sair do caminho.

Sua irmã.

Uma criança com quarenta por cento da empresa sob o nosso teto.

Seth.

Eu sabia que ele ia perdoar.

Elena.

Eu queria que ele soubesse como era perder aquilo que mais amava.

Jacob fechou os olhos.

A mão de Elena encontrou a dele.

Ele apertou.

Forte demais.

Percebeu.

Afrouxou imediatamente.

— Desculpa.

Elena entrelaçou os dedos nos dele outra vez.

— Não solta.

Jacob olhou para ela.

— Ele mandou matar você.

Elena respirou fundo.

— Eu sei.

— Porque eu...

A voz falhou.

Ela compreendeu.

— Não.

— Elena...

— Não faz isso.

Jacob ficou em silêncio.

— Não começa a transformar isso em culpa sua.

— Ele disse que fez porque sabia que eu ia perdoar você.

— E daí?

Jacob a encarou.

— Bella morreu naquele carro.

Elena fechou os olhos por um instante.

A dor passou pelo rosto dela.

Quando tornou a abri-los, havia lágrimas, mas também firmeza.

— Eu passei dezoito anos acreditando que meus pais morreram porque eu pedi para ir a um parque.

Jacob não respondeu.

— Depois achei que tinha falhado com Bella porque prometi cuidar dela.

A voz tremeu.

— Eu sei exatamente o que acontece quando a gente pega a escolha de outra pessoa e transforma em culpa nossa.

Ela apertou a mão dele.

— Não vou deixar você fazer isso.

— Elena...

— Edward mandou sabotar aquele carro.

Uma lágrima escorreu.

— Edward matou Bella.

Jacob respirou fundo.

— Não você.

Ela aproximou-se.

— O fato de ele odiar que você me amasse não transforma seu amor na causa do que aconteceu.

Jacob abaixou a cabeça.

Elena tocou seu rosto.

— Olha para mim.

Ele olhou.

— Amar alguém não mata ninguém, Jacob.

Silêncio.

— O que Edward fez matou.

Jacob segurou a mão dela contra o rosto.

Fechou os olhos.

Leah permaneceu quieta durante alguns segundos antes de fechar o computador.

— Nós precisamos entregar isso imediatamente.

Jacob abriu os olhos.

— À polícia.

— Sim.

— Hoje.

— Agora.

Ele assentiu.

Então olhou para o dispositivo deixado por Irina.

— Ela fez cópias.

— Melhor ainda — Leah respondeu. — Precisamos preservar tudo exatamente como está. A gravação original, os arquivos, qualquer dado que demonstre quando foi feita. E Irina precisa prestar depoimento o quanto antes.

Jacob olhou para o dispositivo.

Pensou na mulher que encontrara poucas horas antes.

No rosto cansado.

Nas lágrimas.

Na coragem necessária para sentar diante dele e entregar a prova contra o próprio marido.

— Ela foi muito corajosa — Elena disse.

Jacob olhou para ela.

— Foi.

Elena percebeu alguma coisa em seu rosto.

— Ela falou alguma coisa para você além da gravação?

Jacob hesitou.

Não queria esconder.

Não dela.

Nunca mais.

— Falou.

Elena esperou.

— Disse que tentou me esquecer durante anos.

Leah levantou discretamente.

— Vou fazer algumas ligações.

Pegou o telefone e afastou-se.

Elena continuou olhando para Jacob.

— E?

— Disse que não conseguiu completamente.

Elena ficou em silêncio.

— Disse que amou Edward.

— Você acredita?

— Sim.

Jacob não hesitou.

— Ela disse que amou muito.

Elena abaixou os olhos por um momento.

— E sobre você?

Jacob tocou delicadamente o queixo dela.

— Elena.

— Estou perguntando.

— Disse que ainda me amava.

Ela respirou.

Jacob continuou:

— E disse que daria tudo para estar no seu lugar.

Elena ergueu os olhos.

— Entendi.

— Não.

Jacob puxou a cadeira dela para mais perto.

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Essa cara.

— Que cara?

— A cara que você faz quando está tentando parecer completamente racional enquanto pensa em cinquenta coisas ao mesmo tempo.

Elena quase sorriu.

— Eu não tenho essa cara.

— Tem.

— Não tenho.

— Elena.

Ela suspirou.

— Está bem. Talvez tenha.

Jacob segurou as duas mãos dela.

— Eu disse que amo você.

Elena ficou quieta.

— Sem hesitar.

Ele aproximou-se.

— Porque amo.

Os olhos dela suavizaram.

— Eu sei.

— Tem certeza?

— Tenho.

Jacob beijou seus dedos.

— Irina faz parte da minha história.

Elena assentiu.

— Eu sei.

— Você é minha vida.

Silêncio.

Elena sorriu.

Pequeno.

Emocionado.

— Essa foi boa.

— Não estava tentando ser boa.

— Foi mesmo assim.

Jacob tocou seu rosto.

— E antes que você pergunte, eu não quero estar em nenhum outro lugar.

Ela inclinou-se e beijou sua boca.

Um beijo curto.

Calmo.

Sem medo.

Quando se afastou, Elena olhou para o dispositivo sobre a mesa.

— Espero que ela esteja bem.

Jacob acompanhou seu olhar.

Por algum motivo, sentiu um desconforto.

Pequeno.

Instintivo.

Mas não havia razão concreta para aquilo.

Irina tinha feito cópias.

Tinha entregado uma a ele.

Sabia o que estava fazendo.

— Eu também.


No andar de cima, Seth dormia.

O dinossauro que passara a manhã dentro da geladeira estava ao lado do travesseiro.

Uma das camisas manchadas de Jacob continuava jogada sobre uma cadeira.

Na cozinha havia uma caneca que Elena esquecera de colocar na pia.

Uma toalha molhada permanecia onde não deveria.

O chocolate continuava escondido em um lugar que Elena já conhecia.

Coisas pequenas.

Comuns.

Quase ridículas.

A vida acontecendo.

Jacob olhou ao redor.

Horas antes, discutira com Seth sobre dinossauros que sentiam calor.

Beijara Elena na cozinha.

Reclamara das próprias camisas destruídas.

Pensara que seus maiores problemas naquele dia seriam tinta, chocolate escondido e a capacidade sobrenatural de Seth de sentir sede exatamente quando ele e Elena finalmente ficavam sozinhos.

Agora sabia quem matara Rebecca.

Quem matara Salomon.

Quem mandara matar sua esposa.

Quem, ao tentar matar Elena, tirara a vida de Bella.

Jacob olhou para ela.

Elena continuava segurando sua mão.

Ainda estava ali.

Viva.

Seth estava no andar de cima.

Seguro.

Irina entregara a prova.

Marcus estava vivo.

E Edward finalmente cometera o erro que Jacob esperara sem saber que esperava.

Falara.

— Nós vamos acabar com isso — Jacob disse.

Elena olhou para ele.

— Pela Justiça.

Ele entendeu imediatamente.

Não vingança.

Não violência.

Não transformar a dor em algo parecido com aquilo que Edward fizera.

Jacob assentiu.

— Pela Justiça.

Elena apertou sua mão.

Na casa dos Black, ainda havia esperança de que Irina estivesse segura.

Ninguém sabia que ela não chegaria à polícia.

Que não prestaria depoimento.

Que não voltaria para buscar Seth no fim de semana.

Que não teria a oportunidade de explicar ao sobrinho por que fizera aquilo.

Ninguém sabia que, a poucos quilômetros dali, Edward permanecia no chão do escritório com Irina nos braços, repetindo para uma mulher que já não podia ouvi-lo as palavras que deveria ter aprendido a demonstrar quando ainda havia tempo.

Eu amo você.

Jacob ainda acreditava que Irina atenderia ao telefone no dia seguinte.

Elena ainda acreditava que poderia agradecer pessoalmente por ela ter salvado sua vida ao entregar aquela gravação.

Seth dormia acreditando que veria a tia novamente.

E talvez fosse isso que tornasse aquela noite especialmente cruel.

Em uma casa, uma família dormia sem saber que, quando o sol nascesse, seu mundo mudaria mais uma vez.

Na outra, Edward Cullen finalmente compreendia que sua vingança contra Jacob nunca lhe devolvera nada.

Só lhe tirara.

Primeiro a dignidade.

Depois a consciência.

E, por fim, a única mulher que um dia realmente o escolhera.

Irina Cullen fizera sua última escolha.

Edward ainda segurava seu corpo nos braços.

Mas Jacob Black ainda não sabia que ela estava morta.