O Outro Mundo
4 4º Capítulo: O homem chamado Seth
Notas iniciais
Os três oficiais observavam a fera que, até aquele momento, não havia notado a presença deles. O tenente Bride já não tinha voz para sequer dizer alguma coisa, tamanho era o seu pavor. A sargento Takada também estava assustada, porém, havia alguém ali que não estava tão apavorado. O capitão estava com uma expressão de desafio no rosto, como se estivesse pronto para uma feroz batalha.
-O que nós vamos fazer, capitão? – Questionou-lhe em voz baixa a sargento Takada que nem mesmo para falar com o capitão, se atrevia a desviar os olhos da fera.
-Se encostem à parede e andem bem devagar, sem fazer barulho. –Disse o capitão em voz igualmente baixa, também não desviando os olhos.
O Tiranossauro Rex estava quase que totalmente de costas para eles, aparentando estar a procura de alguma presa. Nem mesmo os gritos que Tony dera quando a porta fechou, tiraram a atenção da criatura até aquele momento. Enquanto isso, os três oficiais andavam sorrateiramente nas proximidades da parede, em direção à fera, pois logo chegariam à esquina e estavam esperançosos para encontrar a saída quando conseguissem virar.
Em dois lentos e grandes passos, a criatura ficou de frente na direção dos oficiais e, depois de analisar todo aquele local, conseguiu descobrir a presença dos mesmos. Abriu sua boca repleta de dentes grandes e afiados, depois soltou um rugido terrivelmente ameaçador.
-Disparem contra o inimigo agora mesmo! –Ordenou-lhes o capitão que também começou a atirar sem nenhum pudor, mas nenhuma das balas parecia fazer efeito na criatura.
Os três correram e viraram a esquina, mas a fera não se manteve parada e rugia ferozmente, dando passos cada vez mais rápidos na direção deles. Os oficiais, então, encontraram um caminhão do exército estacionado e correram até ficarem atrás deste, usando-o como escudo.
-Tenente, entre no caminhão e verifique se ele funciona. Rápido! –Ordenou-lhe o capitão e o tenente, de imediato, cumpriu a ordem.
Ao entrar no caminhão, o tenente encontrou uma chave jogada no banco do passageiro e, sem vacilar, pegou e colocou na ignição. Do lado de fora, o Tiranossauro empurrava a lateral do caminhão com sua enorme cabeça, rugindo a todo o momento. O capitão e a sargento aguardavam pela resposta do tenente, que havia deixado a porta aberta para facilitar as coisas.
-Capitão, não quer ligar! Não quer ligar! Droga! –Exaltou-se o tenente, batendo com as mãos no volante e involuntariamente tocando a buzina.
-Ah, por favor! Quem é que consegue dormir com uma barulheira dessas?! –Reclamou uma voz que vinha do interior da carga do caminhão.
Um homem, trajando roupas de safári, desceu pela parte detrás do caminhão. Tinha a pele muito clara, cabelos curiosamente prateados, olhos entreabertos que mais lembravam fendas, magricela e não muito alto, sem falar no sorriso zombeteiro.
-T-rex, você é muito irritante. –Disse o homem, tirando do bolso uma espécie de aparelho que possuía somente um botão, o qual ele apertou e um som terrivelmente alto ecoou.
Todos, exceto o homem misterioso, ficaram atormentados com o som forte que vinha daquele aparelho. Os oficiais taparam os ouvidos, mas o Tiranossauro não tinha o mesmo privilégio e aos poucos começou a se afastar, até que correu aos rugidos para fora do local, através de uma saída nos fundos. Então o homem soltou o botão do aparelho e aquele som terrível teve fim. Foi quando o capitão e os outros seguiram em direção a ele que continuava atrás do caminhão.
-Hum. Então eram vocês que o T-rex queria tanto? –Perguntou-lhes o homem, sempre com aquele sorriso zombeteiro estampado.
-Sim. Você nos salvou, obrigado! –Disse o tenente Bride que já ia para dar um aperto de mão gentil no homem, quando o capitão estendeu o braço sobre o seu peito e impediu.
-Quem é você? –Perguntou-lhe o capitão, olhando duramente para o homem.
-Eu? –Questionou o homem que ampliava mais o sorriso cínico. –Sou apenas um viajante. Seth.
-Só isso? Seth?
-Ora, de quantos nomes eu preciso? –Zombou o homem, fitando o capitão.
-Com licença, capitão! Peço autorização para ensinar boas maneiras a esse sujeito. –Disse a sargento Takada, com um olhar perigoso para o homem que olhou para ela com aquela mesma expressão.
-Está tudo bem, sargento. –Disse o capitão, sem desviar os olhos do homem. –Você pode nos falar desse lugar, Seth?
O homem voltou a olhar para o capitão, dando uma gargalhada abafada e tirando o chapéu de safári que, pela cordinha, ficou pendurado em seu pescoço.
-Aqui é o Outro Mundo. É assim que chamamos esse lugar, desde... –Explicava-lhes Seth, quando o tenente Bride interrompeu.
-Chamamos? Então há mais gente por aqui?
-Mas é claro. Quem vocês acham que construiu essa base?! Dinossauros?! –Sorriu com gosto, fechando ainda mais seus olhos tão misteriosos. –Como eu dizia. Desde que chegamos aqui, o lugar é intitulado como Outro Mundo pelas pessoas que sobreviveram e também as que ainda sobrevivem aqui, inclusive alguns do meu grupo.
-Mas, por acaso esse seu grupo e você tem participação na construção dessa base? –Perguntou o capitão.
-Não. Essas bases são construções militares, mas nós não somos militares. Estávamos caminhando por uma floresta no Brasil, afinal, somos turistas. Daí, encontramos uma cachoeira e uma luz partiu dela. A água começou a ser engolida por essa luz, como se fosse um redemoinho e, estando todos dentro da água, acabamos por sermos engolidos também. –Disse-lhes o homem que nem assim deixava seu sorriso.
O capitão olhou ao redor, procurando qualquer detalhe que não tivesse percebido naquele local. O tenente, vendo a atitude do capitão, fez o mesmo e a sargento continuou olhando severamente para Seth.
-Bom, acho que podemos nos apresentar também. –Disse o capitão, olhando para o tenente e para a sargento, com um olhar mais tranquilo. –Sou o capitão Tony Hyeras. Esse aqui é o tenente Max Bride e essa, a sargento Louise Takada.
Seth levantou a mão para acenar, como que um cumprimento à distância. Depois, Tony explicou toda a situação para Seth, desde o acidente até aquele momento.
-A propósito, Seth. Por acaso você encontrou mais oficiais além da gente?
-Sim, capitão. Juntaram-se ao nosso grupo, também estavam perdidos. Mas eles viraram comida de dinossauro e mais alguns dos nossos.
-Sabe os nomes deles? –Perguntou Louise.
-Me deixa ver... –Indagou, com a mão no queixo. –Verônica, Yugo e tinha outro que chegou depois, bem corajoso por sinal. Nicolas... Hum... Philips.
Os três oficiais arregalaram os olhos. Nicolas Philips era um dos recentes mortos da operação anterior de averiguação ordenada pelo coronel.
-O que aconteceu com ele? –Perguntou o tenente Bride, tão interessado quanto os outros dois.
-Morreu. –Seth sorriu cinicamente. –Depois que nós encontramos um mapa que dizia onde ficava a fortaleza principal do Outro Mundo, ele decidiu que precisávamos ir até lá. E nós fomos mesmo. Mas no meio do caminho, um tiranossauro pouco maior do que aquele que acabamos de ver, nos atacou e matou Nicolas e dois do meu grupo.
Tony cerrou o olhar, refletindo intensamente. A sargento Takada olhou para ele, tentando imaginar o que ele estava pensando, enquanto o tenente Bride continuava entretido com os detalhes das mortes que Seth contava.
-Seth! –Chamou, repentinamente, o capitão. –Você viu uma mulher de cabelos negros, olhos azuis, pele branca e também oficial?
Seth olhou para o capitão, percebendo o grande interesse que ele tinha em saber essa informação, a julgar pelo olhar preocupado e isso fez o homem abafar uma pequena e fria gargalhada.
-Não, capitão. Mas, se quiser e tiver coragem, talvez possamos procurar. –Disse Seth, abrindo seus olhos um pouco mais e revelando as íris em azul claro, com um tom de interesse misterioso.
Tony olhou para Seth tanto quanto desconfiado, depois desviou seu olhar. O tenente Bride estava meio confuso, mas a sargento Takada continha um olhar de preocupação para com o capitão, já que ela havia suspeitado, e bem, dos motivos de Tony que, então, bateu palma e disse:
-Vamos! Temos que começar a agir. –Seus olhos já não aparentavam preocupação e a determinação de sempre estava, mais do que nunca, exposta.
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