O Outro Lado do Livro
22 Quando eu sonhei - Parte 3 - Final
Notas iniciais
– Aaai, para Dimitri. – senti algo acariciar o meu rosto – Eu te amo.
Abri os olhos com um sorriso no rosto e vi duas anteninhas diante deles. Demorou mais ou menos 5 segundos para eu perceber que tinha uma barata na minha testa.
Me levantei e comecei a me sacudir, vendo a barata correr para um buraco da parede. Não quero nem imaginar quantas baratas deve ter ali dentro.
Mesmo que eu me neguei varias vezes, tive que tomar banho. Aquele banheiro tinha cor de coco, sem brincadeira.
Me troquei no quarto, tive medo do banheiro. Usei uma roupa mais simples. Era uma saia longa azul escura, e uma camiseta branca solta.
Aprendi a fazer um penteado da antiguidade, comprei uma revista. Depois de varias tentativas o penteado ficou bom. O fiz como um pequeno coque deixando minha franja um pouco escondendo a testa.
Depois de arrumar tudo, sai do hotel. Tomei o máximo de cuidado para não ser vista por ninguém que eu conheça.
Andei por horas pela aquela cidade. Andei mais devagar pois carregava os brinquedos, roupas e sapatos.
Cheguei em casa quando já era tarde. Já havia acordado tarde naquele dia.
– Onde você estava menina? – gritou comigo Rebeca.
– Fui à cidade. – falei indo colocar as coisas na minha cama.
Enquanto eu ia, podia ouvir Rebeca reclamando atrás de mim, duvido que ela ficou preocupada comigo.
Já estava na porta do meu quarto quando me virei para ela e disse:
– Ok Rebeca. Me desculpe se eu te fiz esperar, me desculpe se você morreu por mim, me desculpe se eu achei que estava incomodando e quis te dar paz!
Quando me virei para entrar no quarto paralisei ao ver quem estava lá.
– Esqueci de falar que você tem visita. – disse Rebeca.
Cara, ela esqueceu de falar que eu TENHO VISITA! Faça-me o favor, ela sabia que eu não queria receber o Dimitri e ela diz que eu to morando na casa dela!
Senti Rebeca nos deixando sozinhos, o que foi horrível.
Dimitri estava me encarando do lado da cama.
– Por que está aqui? – perguntei calmamente.
– Você foi a minha casa, tive que vir a sua.
– Como descobriu que eu estava aqui?
– Uma certa menininha – cada vez que ele falava ele ficava mais perto de mim – te adora, e me disse que não quer que nós briguemos.
– Não foi uma briga.
– Eu sei, mas Emma acha que foi.
Meu corpo queria abraçá-lo, queria ficar perto dele, queria sentir seu calor.
Mas não posso, não posso.
Queria só agora que ele fosse do século 21, para que começasse a me beijar, e não ficar tão distante como ele está.
– Eu só quero que você seja feliz.
Minhas pernas começaram a correr. Foi bom pois queria sair de lá. Aquele clima tenso eu não queria mais.
– Emily. – ouvi ele gritando atrás de mim.
Corri para fora daquela casa, corri para o rio. Eu não sabia para onde ir, então corri para o rio, eu só queria ficar longe de todos, tive muito esse sentimento nos últimos dias.
Eu já estava no meio do mato e já nem sabia mais onde eu estava.
– Emily, Emily! – ouvi Dimitri me chamar atrás de mim.
No momento de desespero de eu não querer mais ver ele, corri o mais rápido possível, e nem consegui parar quando percebi que havia um penhasco na minha frente.
Nunca vou me esquecer daquele momento único. Do momento que descobri que gravidade existe, mesmo que a nossa vontade de viver seja muito maior que qualquer coisa, a gravidade nos leva para baixo.
Cai bem encima da minha casa, o que fez ela quebrar, e depois disso não me lembro de mais nada.
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– Levem-na! – ouvi alguém dizer.
Meus olhos estavam cansados, quase não os conseguia abrir.
Me ergui um pouco do chão, e pude ver que estava em um quarto com paredes de cimento não pintadas, o quarto era tão pequeno que me deu tontura.
– Rapido, levem-na, levem-na!! – gritou uma mulher.
– Sim senhora.
Dois homens de branco vieram até mim, um me pegou pelo braço direito e outro pelo esquerdo. Me levando sem consideração para um corredor escuro e cinza.
Vejo varias pessoas gritando e dizendo coisas malucas.
– Onde estou? – pergunto.
Ninguém respondeu?
– Que ano é? – pergunto.
Ninguém respondeu, parecia que eu não era ninguém.
Os homens me levaram par uma sala que só tinha uma luz encima da mesa. A mesa tinha duas cadeiras de ferro.
Eles me colocaram sentada em uma das cadeiras, e a minha frente, atrás da outra cadeira, havia um espelho, e pude me ver.
Minha aparência estava totalmente diferente do que eu me lembrava. Meus cabelos estavam curtos, e mal cortados, e além de estar totalmente despenteada. Tinha varias olheiras de baixo dos olhos, minha pele estava totalmente pálida, e eu tinha uns arranhões de unhas no rosto.
De repente uma menina apareceu na minha frente, o seu rosto era triste.
– Como você está? – perguntou ela.
– Quem é você? – pergunto.
Ela vira os olhos, parecia que eu já havia perguntado aquilo muitas vezes.
– Sou eu, sua irmã.
– Minha irmã? – olho para o local onde estamos – Onde estou?
– Minha querida, você está em um... em um hospital, para tratar do seu problema da cabeça.
– Como assim problema da cabeça? Eu não to louca!
– Não vamos discutir isso de novo.
– Que dia é hoje? Que ano é? Que mês?
– Hoje é dia 08, do ano 2013, do mês dezembro.
– O que? Mas, como eu voltei?
– Voltou de onde, minha irmã?
– Do século 20. Onde está Dimitri?! – pergunto.
Me levanto alterada, e procuro Dimitri na pequena sala.
– De novo esse Dimitri. Minha querida, esse Dimitri nunca existiu, você nunca conheceu esse Dimitri. E por favor, não comece a falar da Jenna, e nem do Matt, Agnes, Agata, Emma, e Rebeca. Eles não existem, você nunca os conheceu!
Minha cabeça girava, rodava. Como assim? Eu to mesmo louca?
Me sentei no chão no canto da sala. A mulher que diz ser minha irmã se levantou e foi até mim. Se sentando a minha frente.
– Eu prometo, juro, se a senhorita quiser, nunca mais falar neles, se a senhorita me contar como eu vim parar aqui.
Ela ficou me encarando por alguns estantes e logo disse:
– Nossa mãe e nosso pai morreram em um acidente de carro, desde então você nunca foi a mesma. Até que começou a se cortar. Comecei a ficar com medo de acontecer algo pior a você, então procurei vários hospícios, e esse é o melhor da cidade que encontrei. Você vive aqui dês dos seus 12 anos, hoje você tem 16, e eu tenho 14. Fui adotada por uma família de médicos no exterior, eles concordaram em te levar comigo para pelo menos para achar um hospício. Os médicos dizem que você inventa esses nomes e histórias que você foi adotada por uma médica pois queria estar no meu lugar, e que eu fosse mais feliz. – explicou a menina.
– Qual é seu nome?
– Leticia.
Seus olhos se encheram de lagrimas, e aos poucos elas começaram a cair.
– Me tira daqui. Se você é mesmo a minha irmã, me tira!
– Não posso fazer isso Emily, meus pais acham que você não tem cura.
Um homem abriu a porta, e disse:
– Fim da visita.
O homem me pegou pelo braço, e já foi me levando para fora.
– Eu prometo vim te ver no Natal! – gritou ela antes da portar fechar.
O homem me levou para o mesmo lugar que eu estava antes, e antes de fechar a enorme porta marrom, disse:
– Sua terapia começa em 15 minutos.
Agora era eu e aquele quarto horrível. Comecei a olhar para os meus braços, vendo como estavam machucados. No meu braço esquerdo tinha uma horrenda mancha roxa, minha perna não parava de doer.
Será que eu estou louca mesmo? Será que eu inventei tudo aquilo?
Não, Dimitri não pode ter sido um sonho.
O Matt não pode ser mentira, não pode! Nenhuma pessoa que passou pela minha vida pode ser mentira!
Me sentei no canto do quarto.
Novamente uma mulher abriu a porta do quarto, ela tinha um pedaço de pau na mão.
– Eu disse que iríamos nos acertar! – falou ela.
Logo a mulher levantou o pau para mim e começou a me bater.
– Sua nojenta, desgraçada, nunca mais você vai pegar o meu homem! Nunca!!
Ela me batia muito na perna, até que ela quebrou.
Comecei a me sentir fraca, muito fraca. Não conseguia mais gritar, nem dizer para. Só sentia a dor.
Um homem chegou de repente e segurou a mão da mulher , dizendo varias vezes para ela parar, e que saísse dali.
O homem me era muito familiar, e ficou ainda mais familiar quando ele se sentou ao meu lado, colocando minha cabeça em seu braço.
– Agora respire, que vai ficar tudo bem. – disse ele.
Mas, meus olhos começaram a fechar, e o que eu só comecei a ver era a escuridão.
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