O Outro Lado do Livro
15 Dimitri
Notas iniciais
Coloquei a palma da mão na testa. Ja sei o que é.
– Câncer...
Preciso me levantar, preciso...
Com um pouco de esforço me levanto, colocando a mão no chão para me apoiar melhor.
Quando ja estou de pé, vou para cima, onde tem um banheiro e os quartos.
Ando pelo corredor como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez.
Passo a mão na parede, sentindo a leve textura da tintura amarela. Passo pela porta do meu quarto, onde nem quero olhar, para sinceramente não chorar.
Vou para o quarto de Matt, onde não o encontro la.
Olho aquele quarto, aquele que vimos filmes juntos, animes, lemos livros, brincamos, rimos.
Toco em sua cama, ainda com seu cheiro. Abraço um edredom preto, o sentindo.
– Queria te ver. — digo.
Uma vozinha na minha cabeça diz:
"Que tal pegar roupas?"
Encaro aquilo como um aviso da minha consciência que eu não vou ficar aqui muito tempo.
Sigo para o meu quarto.
Paro na porta, admito, tenho medo de abrir e encontrar tudo ensacado, e eles se esqueceram de mim.
Fecho os olhos, respiro fundo, e com muita coragem abro a porta com a mesma rapidez que abri os olhos.
Sigo para o centro do quarto, parece que eu nunca fui embora, tudo comum, tudo no lugar. Roupas no guarda roupa, cama feita, quarto limpo.
Sem pensar, pego uma de minhas bolsas, e jogo praticamente todas as minhas roupas nela. Também pego uma câmera e baterias extras, meu ipod, creme do banheiro, e algumas coisas mais.
Sei que é muito, mas não sei se vou precisar, e é melhor ter do que faltar.
Vou para o quarto de Matt, quero pegar uma coisa que eu amo, uma coisa que esta em sua escrivaninha.
Abro a porta, jogo a bolsa na cama e vasculho entre os papeis para achar a foto.
Até que a acho.
Uma foto que nós tiramos no Park de Diversão, estávamos tão felizes, tão de bem com a vida, sem preocupações.
Me perco em meus pensamentos.
– Emily? — a voz de Matt ainda era a mesma, sem nenhuma mudança.
Virei-me vendo Matt na porta do quarto, com a bolsa da escola no ombro. Estava usando sua camiseta do anime Bleach preta, e com sua calça branca.
– Meu Deus. — não segurei minha emoção.
Matt jogou sua bolsa no chão, e correu para me abraçar.
Quando ele chegou em mim, me deu um grande abraço, e me levantou do chão.
– Que saudade, que saudade! — dizia eu.
Afastei meu rosto do seu, olhando para seus olhos pretos.
– Como você ta? — digo no meio de cair uma lagrima
– Nada bem.
– Mãe?
Ele me olhava seriamente, claro que me escondendo algo.
– Ela...esta num lugar de reabilitação, a nossa tia esta cuidado de mim.
O abraço novamente mais forte.
– Te amo te amo te amo te amo. — digo em seguida.
– Também, também.
Ele me abraça, enquanto me leva para sentar na cama.
– Mas, aonde você estava?
– Bom, não sei o que dizer sobre isto. Mas, eu estou bem, juro.
– Mas aonde esta? Que roupas são essas?
– Matt, aquele livro... Aquele livro me levou para um ano ano antigo.
– Que? Como assim? Isso é possível?
– Foi possível para mim. — digo subindo os ombros e os descendo.
– Como voltou?
– Não sei, não sei. E também não sei se vou voltar para la.
Abraço ele novamente.
– Te amo meu irmão.
– Te amo minha princesa.
Começo a sentir água em minhas mãos, como se eu as enfiasse em uma banheira de água gelada. Sinto a mesma sensação em todo o meu corpo.
A sensação de ter ele por perto foi ficando cada vez menos presente.
Até eu abrir meus olhos, e ver-me na banheira do banheiro do meu quarto, e que estou toda molhada.
– Meu Deus. Eu vi ele, eu vi...
Vi que ao lado da banheira estava a bolça, a bolça que eu juntei as minhas coisas.
– Não pode ser um sonho.
Não dei tempo e corri para a sala, toda encharcada.
Antes disso, peguei a bolsa, para ter uma prova que eu realmente atravessei o tempo e o espaço.
– Vocês nem sabem o que aconteceu!
Nem sei como descrever o rosto de Agnes ao me ver daquele estado. Os olhos arregalados, e o queixo caído. Ester também não era muito diferente. Ja a pequena Emma, era a unica que sorria.
Olhei ao redor dos sofás. Emma brincava no chão com suas bonecas. Ester estava ao lado de Agnes, no sofá do lado direito. Mas no sofá do lado esquerdo, tinha um garoto de cabelos castanhos claros, usava uma blusa branca com um colete bege por cima, sua calça era da mesma cor que o colete. Ele me encarava assustado.
– Isso tem alguma coisa em comum com você estar toda molhada? — pergunta Agnes.
– Desculpe tia Agnes, não sabia que tínhamos visita. — me curvei para o rapaz no sofá — Desculpe senhor, pela minha indelicadeza. Meu noivo acaba de morrer, então estou um pouco desnorteada.
Ouço risadas abafadas pelas mãos.
Subo minha cabeça, e vejo todos a minha frente rindo, inclusive Emma.
– O que foi? — pergunto.
– Dimitri não é um convidado, é o meu irmão. — fala Ester, ainda rindo com a mão nos lábios.
– Ataaa, saquei.
Percebo que todos olham para as minhas roupas. Sei que estão molhadas, mas da mesma forma as olhos, vejo que além de super coladas que ficaram, também estão transparente.
Tento ver o lado bom daquilo.
– Ta gente! E dai que eu to com um vestido colado e ainda por cima transparente? Pelo menos eu não sou estranha! — vi a minha situação, e logo me toquei — Ta gente, eu sei que pareço estranha.
Eles não paravam de dar risadas.
Uma das empregada veio e me trouxe uma toalha, que cobriu minha cintura pra cima.
Dimitri se levantou e veio até mim, ainda com o sorriso no rosto.
– Prazer Emily, meu nome é Dimitri.
– Filho da minha tia.
– E ex-noiva de um dos grandes ex-sócios da empresa da família.
Meus pensamentos se viraram para isto, tinha me esquecido desta dor.
– Desculpe. — pediu ele.
– Não, tudo bem, apenas não quero pensar nisto, esta bem?
– Ta.
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